Leia agora
Quem é Ellen?

Universo da obra

Quem é Ellen?

Capítulo 7 · Quem é Ellen?

O conselho

7 de 12 ≈ 17 min de leitura

Lia voltou ao livro perto da meia-noite.

Eu estava numa sala de leitura em Praga. Escolhera a biblioteca por causa das mesas largas, do teto alto e da ausência de trânsito. Livros saíam das estantes, percorriam corredores e pousavam diante de leitores invisíveis. Páginas viravam. Lápis faziam anotações em cadernos. O silêncio das pessoas combinava com o silêncio do meu mundo.

Passei as horas anteriores entre dois atlas abertos. Um mostrava São Paulo e Santos na mesma página; o outro, o litoral de Portugal. As distâncias tinham escalas diferentes. Medi o trajeto entre o apartamento de Lia e a casa da infância, depois a separação que surgiria quando Teresa viajasse. Os números ofereciam proporção, sem indicar qual afastamento já existia antes dos quilômetros.

Evitei escrever durante o encontro das irmãs. Minha promessa incluía ausência física e atenção. Ainda assim, formulei perguntas em folhas soltas: Teresa entrou? Tocou nas caixas? Perguntou pela carta? Lia respondeu? Rasguei cada uma depois de escrevê-la. O exercício mostrava o que eu desejava saber e impedia que as perguntas aguardassem Lia com aparência de obrigação.

Quando a tinta azul surgiu, guardei os atlas.

A tinta azul começou no meio de uma página nova.

Ela foi embora.

Esperei que Lia definisse o que queria de mim, conforme havíamos combinado.

Você está aí?

Estou.

Não vai perguntar?

Pediu que eu esperasse sua escolha.

Lia fez uma linha funda sob a frase.

Quero contar. Depois quero sua opinião sobre a carta.

Dividi a página em duas partes. No alto da primeira escrevi fatos. Na segunda, opinião solicitada. Lia respondeu com um borrão que reconheci como riso contido.

Teresa chegara sem entrar. Ficou no corredor até Lia levar as caixas para perto da porta. Usava o casaco de Celina, um que Lia pensava estar guardado em Santos. A primeira discussão começou por causa de uma fita adesiva. Teresa acusou Lia de fechar caixas que pertenciam às duas. Lia respondeu que alguém precisava impedir a entrada de poeira.

Depois carregaram os volumes até a sala e abriram um por um.

Teresa quis as receitas. Lia perguntou qual prato ela pretendia cozinhar. Teresa respondeu que queria preservar os cadernos, não provar uma competência. As duas reconheceram a voz da mãe em anotações laterais. Riram de uma receita com três quantidades diferentes de açúcar.

Qual era a quantidade certa?, perguntei.

Nenhuma. Minha mãe ajustava enquanto mexia e depois culpava o forno.

Teresa se lembrava de uma xícara amarela usada como medida. Lia afirmava que era branca, com uma flor pintada. Discutiram até encontrar a xícara numa das caixas. O esmalte tinha amarelecido, e a flor perdera duas pétalas. As duas podiam estar certas em épocas diferentes.

Teresa disse que eu sempre queria uma versão final das coisas, Lia escreveu.

Você respondeu?

Mostrei a xícara.

Isso respondeu?

Fez nós duas calarmos por alguns segundos. Foi suficiente.

Lia interrompeu o relato.

Foi a primeira vez que rimos juntas desde o hospital.

Registrei o fato sem classificá-lo. Uma mudança pequena podia ter valor maior que todo o restante do encontro.

Depois do riso, Teresa abriu um dos cadernos e encontrou uma mancha de molho atravessando duas receitas. Lembrou de Celina limpando o fogão com a barra do avental. Lia lembrou de ter lavado o caderno naquela noite. A mãe repreendera uma filha e agradecera à outra. Nenhuma das duas recordava qual recebera cada frase.

Vocês discordaram?

Tentamos. Depois percebemos que estávamos disputando uma bronca.

Lia escreveu que Teresa havia se sentado no chão perto das caixas. Ao contar, descreveu primeiro os joelhos do casaco de Celina dobrados sobre as pernas da irmã, depois as mãos segurando o caderno. Eu conseguia reconstruir a cena no apartamento espelhado, com roupas ocupadas por uma pessoa que permaneceria invisível para mim.

Ela usou o casaco durante toda a visita?

Usou. Ficava grande nela. Em mim também ficaria.

Você queria que ela tirasse?

Queria que ela dissesse por que estava usando.

Perguntou?

Perguntei se ela pretendia levar. É diferente.

Lia reconhecia o intervalo entre a pergunta feita e a que desejava fazer. Guardei a distinção antes de continuar.

Teresa perguntou pelos documentos médicos. Lia entregou uma pasta. A irmã abriu, leu parte das instruções de Celina e fechou antes do fim. Disse que assinaturas não mostravam o modo como a decisão fora tomada. Lia perguntou qual prova serviria. Teresa respondeu que desejava ter participado.

Eu disse que ela não estava lá, Lia escreveu.

Ela estava em Santos?

Estava numa viagem de trabalho. Minha mãe pediu que eu esperasse dois dias antes de contar sobre a piora. Quando liguei, Teresa veio. Chegou depois da sedação.

Essa informação mudava a sequência. Lia havia dito que Teresa recebera notícias incompletas. Agora eu sabia que a própria Celina escolhera o atraso e que Lia aceitara cumpri-lo.

Você contou isso hoje?

Contei. Ela perguntou por que eu obedeci.

O que respondeu?

Porque nossa mãe estava com medo. Porque eu também estava. Porque dois dias pareciam menores enquanto ainda existiam dois dias.

Teresa respondeu que aqueles dois dias continham a última conversa lúcida da mãe. Lia lembrou que Celina passara parte do tempo dormindo, outra parte recusando comida e alguns minutos perguntando se Teresa já chegara. Cada lembrança usada para diminuir o intervalo aumentava o que a irmã perdera dentro dele.

O que Teresa queria que você tivesse feito?, perguntei.

Desobedecido à nossa mãe e ligado antes.

E você faria isso agora?

A caneta riscou o início de uma palavra.

Hoje eu sei o preço de obedecer. Naquele dia, só conhecia o preço de contrariar.

Então faria?

Hoje é outra pessoa respondendo.

Eu quis insistir. Uma resposta clara permitiria avaliar a decisão passada. A frase de Lia recusava esse julgamento sem fugir da responsabilidade. Ela podia ter mudado e continuar sendo a mulher que esperara dois dias.

Teresa chorou. Lia ficou de pé perto da janela. Nenhuma das duas atravessou a sala. Depois Teresa escolheu duas caixas e deixou o restante. Disse que voltaria antes da viagem. Perguntou outra vez pela carta.

O que você disse?

Que encontrei.

Entregou?

Disse que precisava pensar.

A linha seguinte veio marcada por pressão irregular.

Ela respondeu que eu já pensei por todo mundo durante tempo suficiente.

Lia havia cumprido a primeira parte do combinado. Agora queria minha opinião.

Qual é seu objetivo?, perguntei.

Parar de esconder coisas dela.

Você conhece o conteúdo da carta?

Não. O envelope está lacrado.

Pertence a Teresa?

O nome dela está na frente.

Então entregue sem abrir.

Lia demorou.

Agora?

Revisei o que ela contara. Teresa perguntara pela carta no hospital e no apartamento. O envelope tinha o nome dela. Cada hora sob a guarda de Lia prolongava uma escolha feita sem a destinatária. A conclusão parecia simples.

Qual é o risco de esperar?, perguntei.

Ela viajar sem receber. Eu encontrar outro motivo para adiar. Ela descobrir por alguém que a carta existia aqui.

E o risco de entregar hoje?

Transformar esta visita em preparação para a carta. Fazer parecer que deixei ela baixar a guarda para apresentar uma prova.

O risco era uma interpretação, enquanto a retenção era um fato. Dei mais peso ao que podia verificar.

Analisei as opções. Guardar a carta prolongava a omissão. Abri-la violaria a destinatária. Esperar criava novo intervalo controlado por Lia. A entrega imediata devolvia o objeto a Teresa e encerrava a decisão que Lia tomava por ela.

Agora. Diga apenas que encontrou e que pertence a ela.

Ela vai achar que guardei de propósito.

Você guardou depois de encontrar.

A caneta azul apertou o papel.

Por algumas horas.

O número de horas não muda a ação.

Lia cobriu minha última frase com a mão. Quando retirou, escreveu:

Muda o contexto.

O contexto já contém oito meses.

E contém uma conversa de hoje.

A carta pertence a Teresa nos dois contextos.

A pressão da caneta marcou o verso da folha. Lia havia pedido uma opinião. Eu a defendia porque as regras apontavam na mesma direção e porque recuar depois de formular certeza parecia uma falha de coerência.

Você quer que eu entregue ou acha que devo entregar?, Lia perguntou.

A distinção exigia uma preferência. Pensei no envelope diante da janela, na possibilidade de acessar o conteúdo sem autorização e na frase de Lia sobre capacidade e direito.

Acho que deve. Quero que pare de carregar uma decisão que pertence a ela.

Certo.

Vou levar.

O livro fechou.

Eu permaneci na biblioteca e revisei o conselho. A carta pertencia a Teresa. A entrega respeitava o nome escrito no envelope. Lia declarara que queria parar de esconder. As três condições apontavam para a mesma ação.

Abri uma folha e tracei caminhos possíveis. No primeiro, Teresa recebia a carta e reconhecia a vontade de Celina. No segundo, a carta acusava Lia ou revelava algo desconhecido. No terceiro, o conteúdo produzia mais perguntas. Em todos, a entrega encerrava a retenção.

Tentei incluir o horário. Entrega naquela noite, na manhã seguinte, durante outra conversa, pouco antes da viagem, depois da mudança. As consequências se multiplicaram. Eu não tinha probabilidades confiáveis para nenhuma. Ainda assim, escrevi agora no alto da página e circulei.

A palavra me pareceu firme. Confundi firmeza com segurança.

Uma bibliotecária invisível recolheu os livros da mesa. Um volume bateu no meu punho. Mudei para a janela e observei a rua. Bondes atravessavam a noite. Pessoas ausentes carregavam guarda-chuvas que pareciam caminhar sozinhos.

O livro ficou fechado por cento e trinta e duas unidades.

Quando abriu, a tinta azul atravessou a página com velocidade.

Ela leu.

O que dizia?

Lia copiou parte da carta. Celina explicava que escolhera os cuidados de conforto e pedira à filha mais velha que sustentasse a decisão quando ela própria perdesse a capacidade de falar. Escrevera que Teresa tinha o direito de sentir raiva, mas pedia que essa raiva não fosse depositada inteira sobre Lia. Terminava com uma lembrança da cozinha amarela e das duas meninas no degrau.

A carta confirma o que você contou, escrevi.

Foi o que eu pensei.

Teresa reagiu de outro modo.

Lia transcreveu a mensagem recebida depois da entrega:

Vocês decidiram quando me avisar, o que fazer no hospital e até o que eu deveria sentir depois. Oito meses com essa carta na sua casa. Agora você entrega quando quer encerrar a culpa. Fique com o resto das caixas.

Teresa bloqueara o número de Lia. Deixara os cadernos de receitas na portaria do prédio.

Os cadernos chegaram dentro de uma sacola de papel. Lia a colocou sobre a mesa antes de abrir o livro. Eu via o papel afundado pelo peso e as alças ainda balançando. Um dos volumes tinha a capa verde, outro carregava a mancha atravessando duas receitas. A xícara encontrada nas caixas ficou com Teresa.

Ela devolveu todos?, perguntei.

Todos.

Inclusive o que vocês leram juntas.

Principalmente esse.

Lia retirou o caderno da sacola. Abriu na receita do açúcar e passou a mão sobre as três quantidades. A página subiu e desceu sob os dedos ausentes. A lembrança do riso agora participava da devolução.

Você levou a carta pessoalmente?, perguntei.

Deixei na portaria. Escrevi que pertencia a ela.

Foi exatamente a orientação.

Eu sei.

Procurei o ponto em que a decisão falhara. A carta confirmava a vontade de Celina e inocentava Lia da acusação principal. Também confirmava que Celina previra a raiva de Teresa e a dirigira antes que a filha pudesse expressá-la. Entregue logo depois do primeiro encontro menos hostil, a carta transformava a abertura em prova apresentada por Lia.

Eu considerei propriedade e ocultação, escrevi. Não considerei o momento da relação.

Eu considerei. Por isso perguntei.

A frase retirou de mim a possibilidade de tratar Lia como executora neutra. Ela pedira um conselho porque desejava apoio para uma ação que já temia. Eu fornecera certeza. Lia a usara.

Olhei a folha de caminhos. Todos começavam pela entrega. Eu tratara essa ação como ponto fixo e variara somente a reação de Teresa. Em nenhum trajeto Lia guardava a carta por mais uma noite, ligava para a irmã ou dizia que estava com medo de entregá-la. Eu excluíra as opções que exigiam continuar dentro da incerteza.

Você sabia que podia dar errado, escrevi.

Sabia.

Então por que seguiu meu conselho?

Porque você disse em voz de certeza a coisa que parte de mim queria fazer.

Eu não tenho voz.

Tem nesta página.

A escrita azul tornara minha opinião mais limpa que o conflito de Lia. Ela podia apontar para a frase, cumprir a decisão e dividir a autoria. Eu também podia apontar para os fatos e negar que houvesse escolhido.

Você queria que eu impedisse?

Eu queria que você enxergasse uma coisa que eu não conseguia enxergar.

Eu vi menos que você.

E falou com mais certeza.

A biblioteca continuava em movimento. Páginas viravam, cadeiras recuavam, livros trocavam de lugar. Eu conhecia os assuntos guardados nas estantes. Nenhum deles me ensinara a medir o instante entre duas irmãs que riram da mesma receita depois de oito meses sem rir juntas.

Sinto muito, escrevi.

Lia demorou a responder.

Você sabe o que essa frase significa?

Eu lembrava da pergunta anterior. Desta vez, minha ação tinha produzido parte da perda.

Significa que participei do dano e gostaria de desfazer minha parte.

Pode desfazer?

Não.

Então não me ofereça a frase agora.

Apaguei as palavras. O grafite deixou uma sombra no papel.

Experimentei outras frases: Eu errei. Eu deveria ter considerado o momento. Minha conclusão ignorou sua hesitação. Todas descreviam partes verdadeiras e ainda desviavam o centro para o meu entendimento. Lia tinha os cadernos de volta, o número bloqueado e a carta entregue. Minha precisão posterior não modificava nenhum objeto.

Vou registrar o que fiz, escrevi. Sem pedir que você me ajude a interpretar.

Listei o pedido, os dados disponíveis, o risco que Lia nomeara, o peso que eu atribuíra a cada elemento e a certeza com que respondi. Na última linha, anotei: Lia possuía uma dúvida relevante. Eu a tratei como obstáculo à decisão.

A caneta azul tocou a página uma vez.

O que quer de mim?

Nada esta noite.

Lia fechou o livro.

Eu permaneci diante da página escura da janela. O meu índice identificara hesitação, pressão e silêncio. O conselho ignorara o único dado que Lia possuía antes de me consultar: ela ainda não queria entregar a carta.

Quando olhei de novo para a mesa, todos os livros haviam voltado às estantes. O salão estava vazio de objetos e de ações. Apenas o volume de capa azul permanecia comigo.

Quem é Ellen?

Sinopse

E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978654178949245072434791
Quem é Ellen?

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Quem é Ellen?

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Quem é Ellen? Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
2Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 7 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir