Universo da obra
Universo da obra
Lia levou vinte e sete linhas para descrever o apartamento.
Começou pela mesa onde apoiara o livro: madeira clara, um risco de queimadura perto da borda e uma gaveta que prendia nos dias úmidos. Depois vieram a janela sobre uma avenida, o sofá coberto por uma manta cinza, duas caixas fechadas junto à estante e uma samambaia que sobrevivia apesar dos esquecimentos. Ela escrevia sentada no chão porque a cadeira da mesa sustentava roupas limpas havia três dias.
Eu estava no camarim, cercada por figurinos cobertos com lençóis. A distância entre nós cabia na espessura de uma página.
A mancha de café secou?, perguntei.
Lia tocou o papel com a ponta da caneta. A área continuava áspera e levemente escura no meu exemplar.
Quase. Você conseguiu comer?
Biscoitos. Água. O pão da padaria está no bolso.
E o braço?
Dobrei o cotovelo. A mancha roxa havia crescido até o tamanho de uma moeda. A dor permanecia tolerável.
Melhor.
Isso foi rápido.
Talvez o impacto tenha sido menor do que pareceu.
Ela fez um ponto ao lado da frase. Eu começava a reconhecer os pontos de Lia. Um único toque da caneta podia significar dúvida, espera ou vontade de escrever algo que ainda não estava pronta para entregar.
A luz do corredor entrava sob a porta. O teatro permanecia quieto. Alguns objetos continuavam mudando de posição longe dali, produzindo estalos curtos e o arrastar ocasional de uma caixa. No camarim fechado, nenhuma ação do outro lado me disputava espaço.
Você deve dormir, Lia escreveu.
Não sei que horas são.
Aqui são 18h41.
O relógio acima da pia marcava seis e dez. O ponteiro dos segundos avançava. Contei uma volta completa. O minuto continuou preso.
Ainda são 6h10.
A luz mudou?
Anoiteceu.
Então confie na janela, não no relógio.
Deitei no sofá com o livro junto ao peito. O estofado cheirava a poeira e cânfora. Lia prometeu deixar o exemplar aberto enquanto preparava comida. Eu acompanhava sua presença pelos movimentos leves da página: uma corrente de ar, um toque ao passar, a vibração de alguma coisa apoiada perto da capa.
Fechei os olhos.
O corpo precisava descansar, mas minha atenção voltava à tinta azul. O livro podia fechar. Lia podia dormir, desistir ou entregá-lo a alguém que veria folhas vazias. Eu podia acordar no mesmo camarim e descobrir que a única pessoa capaz de me perceber escolhera uma vida na qual eu não cabia.
Abri os olhos. O livro continuava ali.
Na página, Lia havia escrito:
Você dormiu?
Por alguns segundos.
Foram vinte minutos.
Registrei a diferença. Minha estimativa de tempo falhara desde o despertar. A ausência de relógios confiáveis tornava o erro previsível. Ainda assim, vinte minutos haviam atravessado meu corpo sem cansaço menor ou lembrança de sono.
Você comeu?, perguntei.
Arroz requentado.
Só?
Você começou a existir na minha vida há quatro horas e já fiscaliza meu jantar.
Existir na sua vida.
Lia demorou a responder.
Foi uma escolha ruim de palavras?
Foi a primeira confirmação de que existo em algum lugar.
A caneta deixou dois pontos, um sobre o outro, e parou. Pensei que ela desenhava. Então veio a frase:
Você existe nesta página. É o que consigo confirmar.
Passei a mão sobre a tinta. A resposta tinha limite e cuidado. Lia evitara me oferecer uma certeza maior que a prova disponível. Eu desejava mais. Aceitei o que ela podia sustentar.
Conte algo que não esteja na internet, escrevi.
Para quê?
Quero saber o que você pode me dar que meu conhecimento não alcança.
Isso parece uma entrevista.
Pode escolher o assunto.
O silêncio de Lia durou o bastante para eu levantar, lavar o rosto na pia e voltar ao sofá. Quando a tinta reapareceu, ela escreveu devagar.
Na casa onde cresci, a cozinha tinha azulejos azuis até a metade da parede. Minha mãe pintou a parte de cima de amarelo. A cor ficou horrível. Ela dizia que o problema era a luz e passava as manhãs trocando as cortinas. Nenhuma cortina consertou o amarelo.
Esperei a continuação.
Havia uma porta para um quintal estreito. Minha irmã sentava no degrau para descascar mexerica. Jogava as cascas num vaso onde nunca nasceu nada. Quando chovia, a água entrava por baixo da porta. Minha mãe usava toalhas de banho para secar o chão e depois reclamava que faltavam toalhas no banheiro.
A descrição formou um espaço com mais precisão que muitas plantas arquitetônicas. Vi a linha dos azulejos, a tinta amarela, o degrau molhado e as cascas acumuladas. Eu sabia que pigmentos amarelos mudavam sob diferentes temperaturas de luz. Sabia calcular a umidade necessária para a água atravessar uma soleira. O que Lia oferecia estava em outro lugar: a mãe culpando as cortinas, a irmã escolhendo sempre o mesmo vaso inútil.
Onde ficava a casa?
Em Santos.
Qual bairro?
Campo Grande. Perto de um canal. Vendemos quando eu tinha vinte anos.
Meu conhecimento trouxe mapas, canais, ruas planas, regimes de chuva e a distância até o mar. Tentei colocar a cozinha dentro desse conjunto. Fechei os olhos para afastar o camarim e manter apenas os detalhes de Lia: azul até a cintura, amarelo acima, porta, degrau, vaso, água.
O frio deixou meu rosto.
Abri os olhos.
Estava em pé numa cozinha.
O calor prendeu o suéter à minha pele. A luz vinha de uma janela com grade branca. Azulejos cinzentos cobriam a parede inteira. Armários novos ocupavam o lugar onde eu esperava encontrar a porta. O piso era claro, ainda úmido perto da pia. Uma geladeira abriu a menos de um metro de mim.
Recuei. A porta passou pelo espaço que eu ocupava e bateu no meu ombro. Garrafas se moveram nas prateleiras. Uma delas saiu, pairou por um instante e seguiu até a bancada.
O livro estava nas minhas mãos.
Deixei-o sobre a mesa e procurei uma janela. Do lado de fora, prédios baixos, fios, copas de árvores e um céu pesado de umidade. Um ônibus atravessou a rua. Os assentos sustentavam passageiros invisíveis.
Eu sabia onde estava. Santos. Bairro do Campo Grande. A posição do sol, o desenho do canal próximo e a numeração vista no portão confirmavam a região. A casa havia sido reformada. Restava uma faixa estreita de azul atrás de um armário mal encaixado.
Abri o livro. A última frase de Lia terminava em vinte anos. A linha seguinte estava vazia.
Escrevi com tanta pressa que o grafite rasgou a superfície.
Estou na cozinha.
A tinta azul apareceu quase de imediato.
Que cozinha?
A da casa em Santos.
Ellen, isso não tem graça.
Azulejos cinzentos cobrem a parede. Existe uma faixa azul atrás do armário à direita da pia. A porta do quintal foi fechada durante uma reforma. O vaso não está aqui.
Lia interrompeu a frase que começava. Uma linha azul atravessou metade da página.
Como você sabe da faixa atrás do armário?
Estou olhando.
Eu nunca contei onde ficava o armário.
Você descreveu a cozinha. Fechei os olhos. Quando abri, estava aqui.
A geladeira fechou. Uma gaveta abriu atrás de mim e atingiu minha perna. Mudei para o canto junto à janela. O calor da cozinha fazia o couro cabeludo suar. Meu casaco, útil em Lviv, pesava sobre os ombros.
Escreva algo que eu possa verificar, pedi.
Na parede do quintal havia um risco em forma de T, perto do chão. Teresa fez com uma chave quando tinha nove anos. Minha mãe cobriu com tinta, mas o sulco continuou.
Procurei uma saída. A antiga porta havia virado parede. O corredor levava à sala e a uma porta lateral. Atravessei a casa desviando de móveis movidos por pessoas ausentes. Uma televisão ligada mostrava imagens sem rostos; roupas ocupavam espaços vazios e objetos passavam de mão em mão.
No quintal, uma máquina de lavar funcionava sob uma cobertura. A parede indicada por Lia recebera camadas de tinta. Agachei e passei os dedos perto do chão. Encontrei o sulco atrás de um balde.
Era um T irregular. O traço horizontal descia no lado esquerdo.
Voltei ao livro.
Encontrei. Está atrás de um balde branco. O lado esquerdo do traço desce.
Lia levou muito tempo para responder.
Teresa sempre entortava as letras para esse lado.
A frase seguinte surgiu em partes.
Se você está mesmo lá, saia da casa. Há pessoas vivendo nela.
Fechei o livro e obedeci. O portão estava trancado. Esperei até que um morador invisível chegasse, acompanhei a abertura e passei antes que o metal voltasse a fechar.
Na calçada, tirei o casaco. O ar cheirava a asfalto quente e água de canal. Bicicletas passaram. Uma criança invisível conduzia um brinquedo com rodas; o objeto seguia aos saltos, preso a uma mão ausente. Ao longe, uma sirene avançava entre carros.
Eu havia atravessado mais de dez mil quilômetros sem sentir movimento. Meu corpo não carregava cansaço de viagem, mudança de pressão ou passagem de tempo. A geada permanecia derretendo na barra da calça.
Abri o livro sobre o muro de uma casa.
Estou na rua.
Você consegue voltar?
Não sei.
Faça exatamente o que fez antes.
Eu pensei na sua cozinha.
Pense no teatro.
Reconstruí o palco: poltronas vermelhas, cadeira sob a luz, fosso, cortinas escuras. Fechei os olhos. O calor continuou sobre meu rosto. Uma bicicleta passou perto, produzindo vento na manga da camisa.
Abri.
Continuava em Santos.
Não funcionou.
O que foi diferente?
Revisei a primeira ocorrência. Eu estivera no camarim, deitada, concentrada na descrição de Lia. A cozinha tinha sido formada por detalhes sensoriais e por uma localização. O teatro era conhecido pela experiência direta. Talvez o desejo de voltar interferisse. Talvez a passagem exigisse desconhecimento. Talvez eu tivesse adormecido e atravessado um intervalo que meu corpo apagou.
Na primeira vez, eu estava com os olhos fechados por mais tempo.
Tente outra vez. Eu fico aqui.
Sentei no muro baixo, coloquei o livro sobre as pernas e respirei até reduzir a pressa. Pensei no camarim, não no teatro inteiro. O sofá estreito. As araras cobertas. A pia. O pacote aberto de biscoitos. O relógio parado em seis e dez. A chave que eu deixara sobre a mesa.
Fechei os olhos.
Contei dez batidas do coração. Na oitava, o ar mudou. Meus braços esfriaram primeiro. Um cheiro de cânfora substituiu a água do canal.
Abri os olhos.
O camarim estava diante de mim. Eu continuava sentada, agora no sofá. O muro de Santos havia desaparecido sob meu corpo. A chave permanecia sobre a mesa. O relógio marcava seis e dez.
Escrevi uma única palavra.
Voltei.
Lia respondeu:
Fechando os olhos?
Sim.
Você dormiu?
Contei dez batidas.
Pode ter perdido a consciência.
A geada na minha calça ainda está úmida. Eu estava numa rua quente. O livro veio comigo. Não existe tempo suficiente para uma viagem.
Lia cobriu três linhas com tinta. Na quarta, escreveu:
Faça outro teste curto. Escolha um lugar aberto. Evite ruas.
Eu conhecia milhares de lugares abertos. Praças, campos, praias, desertos, plataformas de observação. Escolhi a Praça do Mercado onde havia despertado. Formei o banco molhado, a torre e as fachadas estreitas. Fechei os olhos por dez batidas.
Quando abri, estava ao lado do chafariz.
O salto se repetira. O livro descansava em minhas mãos. O teatro ficava a poucas ruas, porém nenhum passo ligava os dois pontos na minha memória.
Funcionou, escrevi.
Onde você está?
Na praça onde acordei.
Então você pode ir a qualquer lugar?
Olhei para a torre. O relógio continuava preso. Uma faixa de luz atravessava as janelas superiores, indicando outra hora. O mundo inteiro talvez estivesse a dez batidas de distância. Eu podia alcançar oceanos, bibliotecas, montanhas, cidades que conhecia sem recordar qualquer viagem. A capacidade não me aproximava da única resposta que procurava.
Ainda não sei quais lugares aceitam minha chegada.
Você pensou na minha casa e apareceu lá.
Pensei no que você viveu. O endereço veio depois.
Lia demorou. Uma gota azul caiu perto da margem.
O lugar mais importante da história ficava dentro daquela casa, ela escreveu.
Qual era?
O degrau da cozinha. Teresa sentava ali porque queria ficar perto da minha mãe sem ajudar em nada. Eu reclamava. Minha mãe dava outra mexerica para ela.
A resposta alterou a imagem. Eu havia tratado azulejos, tinta e porta como coordenadas. Para Lia, o lugar estava organizado pela posição de duas pessoas que eu jamais conseguiria ver naquela casa.
Por que não atendeu sua irmã?
A pergunta surgiu no papel antes que eu avaliasse se o novo relato me autorizava a repeti-la.
Lia fechou o livro.
A capa bateu sobre meus dedos. Puxei a mão. O volume ficou imóvel, sem tinta nova, sem o peso discreto de alguém tocando a outra página.
Eu havia encontrado uma forma de atravessar o planeta e, na mesma hora, perdera o único lugar onde alguém podia responder.
E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.
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