Universo da obra
Universo da obra
O livro permaneceu fechado até a luz desaparecer da praça.
Levei-o de volta ao camarim. O caminho exigiu atenção aos carros, portas e objetos conduzidos por pessoas ausentes. Agora eu sabia que dez batidas podiam encurtar qualquer distância, mas usei as ruas. O corpo precisava reaprender a medida comum do espaço depois de acordar em outro continente.
Coloquei o volume sobre a mesa e esperei. Comi os últimos biscoitos. Lavei o ferimento dos dedos onde o grafite rasgara o papel. Conferi o cotovelo. A mancha roxa mantinha a mesma cor desde a viagem a Santos.
O relógio marcava seis e dez. A janela escureceu por completo.
Escrevi numa folha avulsa os fatos do dia: Lviv, cidade vazia, objetos conduzidos por pessoas invisíveis, relógios presos, livro ligado a São Paulo, Lia, teletransporte, Santos, retorno. A lista organizou os acontecimentos e expôs o que faltava. Eu continuava sem saber quando acordara, quem preparara minhas roupas ou por que a pergunta do livro usava o nome Ellen.
Quando terminei, a capa azul se abriu.
Lia escreveu na última página usada.
Eu não deveria ter fechado o livro sobre seus dedos.
Examinei a pele. Uma linha vermelha atravessava a base do indicador.
Você deveria ter avisado que queria interromper a conversa.
Eu queria interromper antes de formular o aviso.
Isso parece ineficiente.
Relações humanas vão decepcionar você.
Eu sabia que a frase tinha humor. Reconheci a estrutura, a quebra de expectativa e o exagero. O conhecimento não produziu a reação esperada. Lia desenhou um pequeno círculo ao fim da linha, esperou e acrescentou:
Foi uma piada.
Eu sei.
Você achou graça?
Sei por que poderia ter graça.
Isso é diferente.
Sim.
A caneta azul ficou parada. Eu imaginei Lia no chão do apartamento, junto à mesa, talvez com a manta cinza nos ombros. A imagem vinha apenas das informações que ela entregara. Qualquer detalhe além delas seria fabricação minha.
Por que fez aquela pergunta de novo?, Lia escreveu.
Você contou uma história sobre sua irmã. Ela ligou. Você não atendeu. A relação entre os fatos parecia importante.
Importância não é autorização.
Agora sei.
Sabe ou armazenou a regra?
Pousei o lápis. A pergunta atingia o ponto que eu evitava desde o apartamento. Eu armazenava informações com uma facilidade que não compreendia. Saber uma regra podia significar repeti-la, reconhecer sua aplicação ou agir de acordo com ela quando a curiosidade puxasse na direção oposta.
Preciso da próxima situação para descobrir.
Lia demorou e escreveu:
Essa resposta me assusta um pouco.
Por quê?
Porque foi honesta.
Eu poderia explicar que honestidade aumenta previsibilidade, reduz custo de verificação e sustenta cooperação. Guardei a explicação. Lia se referia à experiência de receber uma resposta sem garantia, não à utilidade social da verdade.
Do lado de fora do camarim, uma sequência de batidas atravessou o corredor. Abri a porta. Um caixote avançava aos solavancos, levantado por braços ausentes, e entrou numa sala de cenário. O homem ou a mulher que o carregava empurrou a porta com o pé. Vi apenas a madeira ceder, parar e voltar sobre as dobradiças.
Eu conhecia o peso provável do caixote pelo tamanho e pela forma como as mãos invisíveis o ajustavam. Conseguia nomear o mecanismo da dobradiça, calcular a força da mola e reconhecer o verniz usado no corredor. Nenhum desses conhecimentos dizia quem estava cansado do outro lado da carga.
Voltei à mesa.
Posso propor uma regra?, escrevi.
Já?
Informação descreve o que pode ser repetido. Experiência inclui a parte que muda conforme a pessoa.
Lia circulou a segunda frase e acrescentou uma seta.
Isso é uma definição sua?
Procurei a origem. Encontrei formulações semelhantes em filosofia, psicologia, ciência cognitiva e literatura. Nenhuma coincidia por inteiro. A frase surgira da pergunta dela e do caixote no corredor.
Acho que sim.
Você acha?
É uma resposta criada agora. Só não consigo provar que nenhuma parte estava pronta em algum lugar.
Bem-vinda ao problema de escrever.
Reconheci outra tentativa de humor. Desta vez, o ar saiu pelo meu nariz num movimento curto. Lia desenhou o círculo ao fim da linha antes que eu contasse.
Você riu, escreveu.
Meu corpo fez uma coisa compatível.
Não estrague.
Fechei a boca. O movimento retornou, menor. Eu sabia enumerar músculos envolvidos no sorriso. Preferi observar o calor breve que ele deixara no rosto.
Quer fazer um teste?, ela perguntou.
Sim.
Lia começou com perguntas factuais. Qual era a distância entre São Paulo e Lviv? Quais línguas eu compreendia? De que modo as lembranças se formavam? Qual o ponto de congelamento da água sob diferentes pressões? Quem escrevera uma frase de um poema que ela lembrava pela metade?
As respostas chegaram inteiras. Informei distâncias aproximadas por rota, enumerei famílias linguísticas, descrevi consolidação de memória e corrigi duas palavras do verso. Em cada caso, a informação apareceu antes que eu encontrasse um caminho para ela.
Você consultou alguma coisa?
Não.
Quanto tempo levou para responder sobre o poema?
O tempo de escrever.
Você já tinha lido?
Conheço o livro, a edição original, traduções e comentários críticos. Não lembro de ter segurado um exemplar.
Lia pediu que eu descrevesse a capa de uma edição específica. Descrevi três. Ela fotografou uma delas fora do alcance da página, voltou e confirmou os detalhes.
O teste prosseguiu até ocupar seis páginas. Lia escreveu nomes de ruas que eu jamais percorrera, ingredientes de pratos regionais, acidentes geográficos, fórmulas, datas e trechos incompletos de canções. Respondi com uma rapidez que começou a incomodá-la. Percebi pela pressão da caneta, cada vez maior, e pelas pausas que apareciam depois de uma resposta correta.
Qual é a rua mais bonita de São Paulo?, ela perguntou.
Considerei a arborização e o estado dos edifícios. Depois calculei a perspectiva das imagens e o movimento dos pedestres. A memória histórica entrou por último. Lia riscou a pergunta e a repetiu.
Para você.
Eu conhecia milhares de imagens da cidade. A Avenida Paulista surgia em décadas sobrepostas; a Liberdade trazia lanternas, fachadas, multidões e transformações urbanas; ruas do centro acumulavam estilos e demolições. Podia ordenar cada lugar por qualquer critério escolhido. O pedido de Lia exigia que o critério viesse de mim.
Ainda não tenho uma rua, respondi.
Ela tentou com cores. Eu distinguia comprimentos de onda, pigmentos, efeitos de contraste e nomes que variavam entre línguas. Quando perguntou qual cor eu preferia, olhei o camarim. Havia o vermelho gasto de uma cortina, o bege dos figurinos protegidos, o branco duro da pia e o azul escuro do livro.
Azul, escrevi.
Por causa da capa?
Talvez.
Então você tem uma preferência.
Passei a unha pelo tecido. A trama áspera prendia partículas claras nas bordas. Eu queria dizer que escolher uma cor após olhar quatro objetos fornecia uma amostra insuficiente. Também queria manter a escolha.
Pergunte de novo amanhã.
Preferências podem mudar. Isso não invalida a de hoje.
A frase permaneceu ao lado da minha resposta. Escrevi azul outra vez, numa linha separada, e pressionei mais o lápis.
Lia perguntou sobre comida. Eu havia comido pão, maçã, biscoitos e alimentos encontrados em cozinhas vazias. Sabia descrever cozinhas inteiras sem recordar um sabor anterior àquela manhã. Escolhi a maçã pelo estalo da primeira mordida e pelo sumo frio que escorrera entre meus dedos.
Você escolheu uma sensação, Lia observou.
O sabor participa dela.
E a fome?
Também.
Então sua resposta depende de um corpo.
Olhei os dedos feridos, o hematoma e a roupa que vestia desde o despertar. Meu corpo era a única evidência de uma história pessoal, e ele também recusava fornecer origem. Tinha marcas recentes e nenhuma cicatriz que eu soubesse interpretar. As unhas estavam curtas. Os furos das orelhas permaneciam vazios. Uma pequena mancha castanha ocupava o punho direito. Examinei-a pela primeira vez.
Você está aí?, Lia escreveu.
Tenho uma mancha na pele. Não sei se sempre esteve aqui.
Pode fotografar ou desenhar?
Contornei a forma numa margem. Lia pediu medidas, cor e textura. Respondi. Ela evitou diagnóstico e recomendou observação, além de procurar ajuda caso mudasse.
Você fez perguntas antes de concluir, escrevi.
É meu trabalho.
Seu trabalho é conservar papel.
O princípio serve para outras coisas.
Registrei a frase na folha avulsa, abaixo dos fatos do dia.
Talvez sua memória pessoal esteja bloqueada e o resto tenha sobrevivido, escreveu.
A hipótese se ajustava ao que eu percebia. Conhecimento sem episódios podia resultar de uma dissociação rara ou de lesões específicas. Meu vocabulário sobre o assunto era amplo. Meu corpo não apresentava sinais suficientes para escolher uma causa.
Pergunte algo que não possa verificar numa fonte, escrevi.
Qual foi o pior dia da sua vida?
O lápis permaneceu entre meus dedos. Procurei um episódio de dor ou perda que pudesse chamar de meu. Acidentes e vergonhas também vinham de relatos alheios ou descrições clínicas. O pior dia exigia uma sequência de dias que me pertencessem.
Não tenho um.
Qual foi o melhor?
Também não tenho.
De quem você sente falta?
A palavra falta abriu muitas definições. Ausência percebida. Necessidade. Carência. Espaço deixado por uma pessoa ou objeto. Nenhuma definição trouxe um nome.
De ninguém que eu consiga lembrar.
Lia fez um risco curto perto da margem.
Eu sinto falta da minha mãe, escreveu.
Esperei. A frase ocupava pouco espaço e alterava todas as referências anteriores: a cozinha amarela, as toalhas molhadas, as mexericas de Teresa, as caixas fechadas no apartamento.
Ela morreu?
Há oito meses.
Sinto muito.
Você sabe o que essa frase significa?
É uma expressão de solidariedade diante de perda.
Eu perguntei se você sabe.
Toquei a marca de tinta. Eu podia descrever as fases contestadas do luto e suas respostas variáveis. Sabia como ele alterava o sono e a memória. Também conhecia seus efeitos sobre o apetite e a percepção de futuro. Oferecer explicações cedo demais podia afastar uma pessoa enlutada. O que Lia perguntava não cabia numa definição.
Sei que devo parar de fazer perguntas por alguns minutos.
A tinta azul permaneceu imóvel. Fui até a pia, bebi água e voltei. O livro continuava aberto. Sentei sem pegar o lápis.
No corredor, o caixote retornou vazio. As duas pessoas que o conduziam discutiam ou conversavam; eu deduzi pela alternância dos movimentos. Uma parava. A outra avançava. O caixote inclinava para um lado, depois para o outro. Eu não ouvia as vozes. A falta de som transformava qualquer conclusão sobre o tom numa invenção.
Fechei a porta para diminuir os acontecimentos disponíveis. A página branca ainda oferecia dezenas de respostas possíveis. Poderia perguntar o nome da mãe, a causa da morte, a última conversa, o lugar do funeral. Também poderia contar a Lia o que eu sabia sobre luto. Cada alternativa ocupava a mente com a urgência de uma tarefa incompleta.
Mantive as mãos sob as pernas.
Lia escreveu depois de um intervalo longo.
Isso foi melhor que “sinto muito”.
Por quê?
Porque você fez alguma coisa com o que eu disse.
Eu havia feito quase nada. Mantive a página vazia. O gesto ganhou sentido porque minha tendência era preenchê-la.
Teresa acha que eu abandonei minha mãe, Lia escreveu. Eu autorizei que parassem um tratamento que já não ajudava. Minha mãe tinha deixado instruções. Teresa chegou depois.
Peguei o lápis e parei antes de tocar o papel. Havia perguntas óbvias: qual tratamento, qual diagnóstico, quais instruções, qual avaliação médica. Cada uma poderia transformar Lia em caso analisável e afastar a experiência que ela escolhera contar.
Você quer que eu pergunte ou que eu leia?
Leia.
Lia começou pela janela do quarto. Dava para um edifício de consultórios, tão próximo que ela via as persianas e uma planta coberta de pó no parapeito oposto. Celina pediu que abrissem o vidro. A janela estava lacrada. Lia fingiu procurar uma trava por tempo suficiente para a mãe perceber que ela havia tentado.
Ela sempre odiou ar-condicionado, escreveu. Levava um xale até para o supermercado.
A peça estava numa das caixas fechadas do apartamento. Lia a identificara pela etiqueta sem retirar a fita. A mãe usava o xale sobre os ombros durante as sessões de tratamento, apesar do calor do lado de fora. No último dia em que falou por uma frase inteira, pediu que Lia o levasse para casa. Disse que o quarto já continha coisas demais pertencentes ao hospital.
O que havia no quarto?, perguntei, após perceber que ela aceitava perguntas dentro do relato.
Um copo com esponja na ponta, uma televisão desligada, duas cadeiras de plástico e uma sacola com mexericas que ninguém comeu.
As mexericas entraram na mesma sequência da cozinha da infância. Eu imaginei as cascas no vaso, o cheiro liberado pelos dedos e a sacola intacta junto à cama. A ligação talvez existisse apenas para mim. Lia continuou antes que eu perguntasse.
Celina havia preenchido uma declaração meses antes. Desejava alívio da dor e recusava procedimentos invasivos quando a equipe considerasse ausente uma possibilidade razoável de reversão. Lia conhecia o documento. Teresa também recebera uma cópia, mas tratara a conversa como precaução distante.
Durante a piora, a equipe chamou Lia para uma sala pequena. Um médico girava uma aliança enquanto explicava os resultados. Outra profissional empurrou uma caixa de lenços sobre a mesa. Lia devolveu a caixa ao centro porque o gesto lhe pareceu uma decisão tomada em seu lugar.
Isso deixou você com raiva?, escrevi.
Deixou. Depois usei todos os lenços no corredor.
A sequência escapava a qualquer classificação simples. O objeto recusado por causa do significado se tornara necessário minutos depois. Guardei o exemplo.
Lia autorizou a conduta registrada por Celina. Assinou duas folhas e enviou uma mensagem para Teresa. A irmã estava numa viagem de trabalho e já tentava voltar. O primeiro ônibus perdeu a conexão. Quando chegou, a sedação havia começado.
Ela entrou no quarto e perguntou por que mamãe não abria os olhos, Lia escreveu. Eu repeti o que a médica tinha dito. Teresa perguntou por que ninguém esperou por ela. Eu falei que nossa mãe sentia dor. Ela perguntou se eu tinha certeza. Eu disse que tinha documentos.
Lia interrompeu a frase na margem e recomeçou abaixo.
Eu respondi com papéis quando ela perguntou se eu tinha certeza.
Você é conservadora de papel, escrevi.
Naquela hora eu precisava ser irmã.
O corredor do teatro ficou quieto. Encostei os dedos na borda da página. Lia havia tocado a mesma região; a folha cedia sob um peso que eu não via.
Teresa ficou ao lado da cama até o fim. Lia saía para conversar com a equipe, responder ao telefone e organizar documentos. No funeral, uma tia agradeceu a Lia por cuidar de tudo. Teresa ouviu. Naquela noite, disse que Lia havia transformado a morte numa lista de tarefas.
Você fez uma lista?, perguntei.
Três. Uma para o hospital, uma para o enterro e uma para depois.
Funcionaram?
Tudo aconteceu no horário.
Você respondeu sobre as listas. Eu perguntei sobre você.
A caneta permaneceu suspensa. A tinta tocou o papel em dois pontos antes de formar letras.
Eu sobrevivi aos dias que estavam nas listas. Ainda estou tentando sobreviver ao espaço depois delas.
Lia contou que Teresa recebera informações incompletas durante a internação. Lia tomara decisões rápidas. A mãe estava consciente quando expressara seus desejos pela última vez. As irmãs discutiram no corredor do hospital. Depois do funeral, Teresa voltou a Santos e limitou o contato a mensagens sobre documentos e objetos.
Lia omitiu nomes de medicamentos, médicos e datas. Pela primeira vez, percebi uma ausência de informação e deixei de tratá-la como falha.
Hoje ela ligou porque vai mudar de país, escreveu. Precisa buscar algumas caixas. Eu ainda não respondi.
Você quer que ela venha?
Quero que ela pare de me tratar como a pessoa que matou nossa mãe.
Isso é diferente de querer que ela venha.
Uma mancha azul apareceu onde Lia deixou a caneta apoiada.
É, ela escreveu.
Para onde ela vai?
Portugal. Recebeu uma proposta numa clínica perto do Porto.
O mapa apareceu inteiro: litoral, vias, distâncias, clima, cidade, sistema de transporte. Eu poderia ter descrito a viagem de Teresa com detalhes. Lia devia enxergar outra coisa na palavra Portugal: o prazo do afastamento transformado em quilômetros.
Quando?
Em seis semanas.
Então as caixas têm uma data.
Tudo passou a ter.
O livro permaneceu aberto entre nós. No corredor do teatro, alguma porta bateu. Um carrinho percorreu parte do piso e parou. A cidade continuava ocupada por vidas que eu conhecia apenas pelas forças aplicadas aos objetos.
Posso fazer uma pergunta?, Lia escreveu.
Pode.
Se você consegue aparecer em qualquer lugar, por que voltou para aquele camarim?
Olhei para os figurinos cobertos, a pia estreita, o sofá e o relógio preso. Eu podia fechar os olhos e tentar uma praia, um museu, uma montanha, uma rua de São Paulo. Voltei porque o camarim continha água, abrigo e o primeiro lugar onde o livro funcionara. Também voltei porque Lia sabia onde me procurar, embora a geografia do objeto já tivesse mostrado que isso era desnecessário.
Porque foi onde você me encontrou.
Lia respondeu apenas depois que a tinta da minha frase secou.
Isso foi uma preferência ou uma conclusão?
Olhei a palavra azul que eu havia reforçado na página anterior. O camarim oferecia razões práticas. O retorno também continha o desejo de encontrar a próxima frase de Lia. Eu já sabia que razões verificáveis podiam acompanhar uma escolha sem explicá-la por inteiro.
As duas coisas.
Está aprendendo rápido.
Não sei a velocidade normal.
Ninguém sabe. As pessoas inventam uma quando precisam avaliar as outras.
Amanhã vou abrir as caixas da minha mãe.
Quer que eu esteja aqui?
Quero descobrir isso amanhã.
Ela fechou o livro com cuidado. Desta vez, retirou a página sem prender meus dedos.
Fiquei no camarim por mais alguns minutos. Depois vesti o casaco, segurei o volume contra o corpo e pensei num lugar que conhecia sem ter vivido: uma praia ampla, água morna, céu aberto, areia suficiente para receber uma chegada segura.
Fechei os olhos.
Quando tornei a abri-los, o teatro havia desaparecido. O mar avançava diante de mim. Ondas quebravam sem banhistas, aves ou barcos tripulados. Guarda-sóis abriam sozinhos ao longo da faixa de areia. Pegadas surgiam perto da água e eram apagadas pela espuma.
Eu podia alcançar qualquer paisagem conhecida pelo mundo.
Sentei na areia com o livro sobre as pernas. O conhecimento me oferecia o nome do oceano, a composição da água, a origem das correntes e a previsão das marés. A página fechada guardava a única coisa que nenhuma dessas respostas podia fornecer: a escolha de Lia no dia seguinte.
E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.
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