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Quem é Ellen?

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Quem é Ellen?

Capítulo 8 · Quem é Ellen?

Livro fechado

8 de 12 ≈ 14 min de leitura

Escrevi uma mensagem para Lia e deixei o livro aberto.

Continuarei aqui quando você quiser voltar.

A página permaneceu imóvel.

Na folha seguinte, comecei a registrar frases que poderia enviar quando Lia reaparecesse. Eu compreendo por que está ferida. Apaguei porque eu conhecia a causa provável, sem acesso à extensão. Eu deveria ter percebido sua dúvida. A frase concentrava o erro na percepção, embora eu tivesse visto a dúvida e decidido reduzir seu valor. Eu quis ajudar. Era verdadeira e inútil; intenção alguma recolocaria os cadernos no apartamento de Teresa.

Deixei a página com as marcas de borracha. A ausência de uma mensagem pronta impedia que eu transformasse a volta de Lia em oportunidade para encerrar meu desconforto.

Saí da biblioteca antes que a manhã chegasse a Praga. Escolhi uma praça em Lisboa, um cais em Istambul e um jardim em Quioto. Em todos eles, a hora local avançava na luz e permanecia presa nos mostradores. Seis e dez. Os segundos completavam a volta e recomeçavam.

Eu podia atravessar o planeta. Usei a capacidade para medir a ausência de Lia em lugares diferentes.

Em Lisboa, sentei diante de uma mesa onde duas xícaras se moviam. Uma recebia açúcar, a outra permanecia intocada. Uma colher batia na borda em intervalos irregulares. Tentei decidir se as pessoas conversavam, discutiam ou apenas esperavam. Os objetos permitiam todas as versões.

Em Istambul, um casaco infantil corria pelo cais atrás de uma bolsa vermelha. A bolsa parou e o casaco se chocou contra ela. Duas mangas vazias se fecharam em torno da criança. Eu reconheci um abraço pelo desenho dos tecidos e não soube se havia medo, alívio ou repreensão dentro dele.

No jardim, o ancinho corrigia as marcas deixadas pelos visitantes. O cascalho voltava a linhas paralelas poucos minutos depois de cada passagem. Pensei nos cadernos devolvidos e nas palavras apagadas. Uma superfície restaurada podia conservar a pressão sob a camada visível.

Na praça, mesas recebiam cafés. No cais, cordas prendiam embarcações conduzidas por tripulações ausentes. No jardim, marcas de passos apareciam sobre o cascalho e eram corrigidas por um ancinho suspenso no ar. O livro seguia fechado ou aberto conforme eu o deixava. Nenhuma tinta azul chegou.

Na segunda noite, voltei ao apartamento de Lia.

Eu sabia que a visita ultrapassava o limite estabelecido. Ela havia me convidado uma vez, para abrir as caixas. Desta vez, usei o endereço sem pedir. Justifiquei a decisão pela possibilidade de acidente, doença ou perda do livro. A justificativa mudou de forma enquanto eu fechava os olhos. Quando os abri diante da mesa de madeira clara, reconheci o motivo mais simples: eu queria encontrar qualquer efeito da presença dela.

Antes do deslocamento, fiz três tentativas de ficar longe. Escolhi uma rua de Buenos Aires, uma estação em Seul e o palco de Lviv. Em cada lugar, abri o livro na página vazia. Em cada lugar, imaginei o apartamento enquanto dizia a mim mesma que apenas verificaria se as luzes estavam acesas. A possibilidade de viajar sem percurso retirava do ato todas as etapas nas quais eu poderia desistir. Bastava sustentar o destino durante dez batidas.

Na terceira tentativa, cheguei.

O apartamento estava escuro. A samambaia pendia sobre a janela. As caixas de Celina permaneciam abertas no chão. Os cadernos de receitas tinham desaparecido. A gaveta da carta estava vazia.

Sobre o sofá, o vestido estampado de Celina levantou-se alguns centímetros e caiu. Uma pressão surgiu no assento. Lia estava ali.

Fiquei junto à parede. O livro de capa azul devia estar perto dela, fechado. Eu não conseguia vê-lo no meu lado porque segurava o meu exemplar. Um copo se ergueu da mesa, atravessou a sala e inclinou. A água desceu por uma garganta ausente. O copo voltou.

Uma das caixas foi puxada para perto do sofá. Fotografias se espalharam sobre o tapete. Lia tocava nelas. Eu via roupas infantis, festas sem rostos, mãos retiradas dos ombros. O vestido de Celina tornou a subir e ficou preso em torno de um corpo invisível. Lia o apertava contra o peito.

O telefone acendeu no chão. A tela mostrava uma conversa sem resposta. O nome de Teresa ocupava o alto, seguido de uma mensagem enviada por Lia e dois sinais que indicavam entrega. Li apenas a primeira linha antes de desviar os olhos. O acesso surgiu por acaso; continuar seria outra escolha.

Lia abriu o caderno de receitas devolvido. Virou até a página das três quantidades de açúcar e apoiou o vestido sobre ela. A manga cobriu a mancha de molho. Depois tirou uma fotografia da caixa, colocou-a ao lado e permaneceu imóvel.

Eu poderia sair naquele instante sem confessar. Lia jamais saberia. Essa possibilidade mostrou que minha presença já continha duas violações: entrar e reservar para mim o direito de esconder a entrada.

Poderia abrir o livro e escrever. Ela o mantinha fechado por escolha. Permaneci no apartamento, observando uma dor que Lia não consentira em dividir comigo.

A consciência da invasão chegou tarde e inteira.

Meu primeiro impulso foi procurar um fato que justificasse ter ficado. Lia bebia água, usava o telefone, respirava, movia objetos. Nenhum sinal indicava perigo. A visita perdera até a explicação frágil com que começou.

Fechei os olhos e voltei à praia.

Apaguei a mensagem que deixara. Escrevi outra:

Fui ao seu apartamento sem permissão. Vi as caixas e o vestido. Saí. Foi errado.

O grafite marcou o papel. Nenhuma resposta veio.

Acrescentei o telefone e o caderno. Parei antes de copiar a linha que alcançara a ler.

Vi a tela acesa e li o nome de Teresa. Desviei os olhos durante a mensagem. Vi você abrir o caderno devolvido.

A precisão ampliava a invasão em vez de reduzi-la. Mesmo assim, Lia precisava saber quais partes de sua noite tinham sido observadas.

Passei a investigar o mundo para impedir que a espera se transformasse em nova visita. Escolhi lugares públicos e abertos. Registrei o intervalo entre ações reais e mudanças no meu lado. Objetos observados continuamente percorriam trajetos completos. Objetos fora do campo de visão podiam aparecer em posições finais sem passagem visível.

Em uma estação de Tóquio, mantive os olhos sobre uma mala vermelha durante doze unidades. Ela avançou, parou, inclinou em curvas e entrou num trem. Uma mala azul ao lado desapareceu durante um piscar. Surgiu dentro do vagão quando tornei a abrir os olhos.

A explicação mais simples envolvia limites de percepção. Meu cérebro podia descartar movimentos rápidos ou preencher intervalos. Ainda assim, a mala azul mudara de lado sem deslocar o ar entre as duas posições.

Registrei o teste no livro.

Um painel de notícias atualizou acima da plataforma. Li uma manchete sobre uma decisão judicial anunciada naquela hora. Antes de terminar a segunda linha, eu já conhecia os nomes, os argumentos e a sequência dos acontecimentos. Formulei um resumo. As frases surgiram na minha mente na mesma ordem usada pelo painel.

Procurei outra fonte. Fechei os olhos e apareci diante de uma banca em Madri. Jornais impressos traziam informações anteriores. Meu conhecimento separou os fatos novos dos antigos com precisão. Eu sabia o que acabara de ocorrer sem recordar leitura, voz ou caminho de transmissão.

Escrevi:

Meu conhecimento recebe coisas que ainda estão acontecendo.

A frase ficou abaixo da confissão sobre o apartamento. Lia continuou ausente.

Testei a descoberta com notícias em idiomas diferentes. Uma informação surgia no painel em japonês; o conteúdo correspondente aparecia em mim com fontes, contexto e traduções possíveis. Quando a manchete era corrigida, meu conhecimento se reorganizava. Eu percebia a versão nova sem sentir a anterior sair.

Escrevi duas sequências contraditórias numa folha. Minutos depois, conseguia indicar qual fora confirmada e qual perdera validade. A resposta vinha acompanhada de confiança, porém nenhuma lembrança mostrava o momento da atualização.

Pensei no conselho sobre a carta. A certeza também aparecera pronta, construída a partir de fatos disponíveis. Lia recebera o resultado, sem acesso ao modo como eu distribuíra importância. Talvez nem eu tivesse acesso completo.

Examinei o corpo. O hematoma do cotovelo desaparecera quase por completo. A marca da estante na coxa sumira. A pele ferida pelo grafite havia fechado sem crosta. A duração continuava incerta. Minha fome e meu cansaço seguiam ciclos irregulares. A recuperação parecia obedecer a outra medida.

Na terceira noite, dormi dentro de uma igreja vazia. Coloquei o livro aberto sobre um banco e apoiei a cabeça no casaco. Quando acordei, cinco traços ocupavam a margem da página. Quatro verticais e um diagonal atravessando os demais.

Antes de tocar a marca, examinei o banco, o chão e o lápis. Havia pó junto aos pés, sem pegadas visíveis. A página anterior mantinha a dobra que eu fizera. A fita presa à lombada continuava intacta. Alguém escrevera sem usar o instrumento disponível no meu lado.

Cheirei o corte no papel. Nenhum odor de tinta. Passei a unha sobre os sulcos e encontrei uma regularidade ausente na escrita manual: os quatro riscos tinham a mesma extensão; a diagonal começava e terminava a distâncias iguais das bordas. Pareciam gesto e medição ao mesmo tempo.

A marca vinha de outra mão. A pressão cortara fibras que a caneta azul costumava apenas dobrar. O lápis continuava preso na lombada, afastando também a minha autoria.

Toquei os traços. A página estava fria.

Escrevi ao lado:

Você fez esta marca?

O livro fechou com força.

Recuei. A capa permaneceu imóvel sobre o banco. Nenhuma ação visível explicava o movimento. Lia podia ter fechado o exemplar no mesmo instante, depois de abrir na página marcada. Esperei.

A capa tornou a abrir.

Tinta azul apareceu sob a pergunta.

Não. Onde você viu isso antes?

Meu corpo respondeu à presença de Lia antes do pensamento. Sentei, aproximei o livro e precisei controlar a pressão do lápis.

Em nenhum lugar. Surgiu enquanto eu dormia.

A marca está na etiqueta da caixa em que o livro chegou.

Quatro linhas cortadas por uma diagonal?

Exatamente.

Quem enviou a caixa?

A etiqueta está danificada. O cadastro da doação tem um nome e um endereço. Vou verificar no trabalho.

Lia parou. Eu aguardava uma resposta à confissão. Ela escreveu em outra linha:

Você foi ao meu apartamento.

Fui.

Viu o vestido.

Vi os objetos se moverem. Você continuava invisível.

Isso melhora para você?

Não.

Por que ficou?

Eu queria saber se você estava segura. Quando vi que estava, quis continuar perto.

E decidiu que querer era suficiente.

Decidi.

Você também leu meu telefone.

O nome e o início de uma linha. Parei.

Depois de entrar, observar e ler.

Sim.

A caneta azul marcou o papel em dois pontos. Lia talvez tivesse retirado a mão e voltado. Evitei interpretar.

Eu fechei o livro para ficar sozinha, escreveu. Você usou tudo que aprendeu comigo para atravessar a única porta que eu tinha fechado.

A frase retirava do teletransporte qualquer neutralidade. O endereço, a descrição da sala e o modo de chegar tinham sido dados durante um convite. Eu os conservara e convertera em acesso permanente.

Não vou pedir que confie na promessa, escrevi. Vou cumpri-la enquanto você não confia.

Preciso de mais tempo.

Entendo.

Duvido.

A palavra permaneceu diante de mim. Eu compreendia a regra violada, a perda de confiança e a necessidade de distância. Lia questionava se esse conhecimento alteraria minha próxima decisão.

Você quer que eu apague o endereço?, perguntei.

Consegue?

Procurei a rua, o número, o andar e o risco perto da fechadura. Todos estavam disponíveis com a mesma nitidez.

Não sei remover uma informação de mim.

Então o limite depende apenas da sua escolha.

Sim.

É isso que me assusta.

Vou ficar longe da sua casa, escrevi.

Fique longe de qualquer lugar privado que eu tenha descrito.

Fico.

Lia fechou o livro. Desta vez, a ausência tinha uma condição clara.

Copiei a marca numa folha avulsa. Quatro linhas verticais, uma diagonal. Abaixo dela, anotei tudo que sabia sobre a caixa: doação sem remetente legível, chegada ao laboratório, livro sem identificação, acesso exclusivo de Lia.

O desenho podia ser contagem, lote, inspeção ou simples marca de transporte. Também podia apontar para quem preparara a pergunta da primeira página.

Copiei os traços em tamanhos diferentes. A quinta linha atravessava as quatro anteriores da esquerda para a direita, inclinada para baixo. O formato lembrava uma contagem encerrada. Também podia indicar uma quinta tentativa, uma quinta etapa ou uma unidade chamada cinco.

Na margem interna da capa, encontrei uma depressão curta que não aparecia antes. Aproximei o papel da luz. Havia dois caracteres quase invisíveis sob o tecido: U e 0. Toquei a área, e a marca sumiu quando mudei o ângulo. Registrei sem tentar abrir a costura. O livro era o canal com Lia; danificá-lo para investigar sua origem podia encerrar a única conversa disponível.

Fechei os olhos e tentei pensar apenas na etiqueta danificada.

Nada aconteceu.

Faltava uma localização. Pela primeira vez, eu desejei chegar a um lugar que talvez tivesse sido criado para permanecer fora de qualquer mapa.

Quem é Ellen?

Sinopse

E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.

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