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Quem é Ellen?

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Quem é Ellen?

Capítulo 11 · Quem é Ellen?

O cenário

11 de 12 ≈ 19 min de leitura

A quarta sala continha meu corpo aberto em camadas.

Uma figura do meu tamanho ocupava o centro, feita de luz e linhas. Pele, músculos, ossos e órgãos apareciam quando eu me aproximava. O coração luminoso pulsava no mesmo ritmo que o meu. Toquei o próprio peito. A figura repetiu a pressão dos dedos antes que eu completasse o gesto.

Afastei a mão. A figura completou o movimento mesmo assim e manteve os dedos no peito durante uma batida. Eu já retirara os meus. O atraso tinha a direção errada: ela antecipava meu gesto e depois demorava a encerrá-lo.

Levantei o braço esquerdo. A projeção ergueu o direito. Fechei a mão. Ela abriu. Cada novo teste produzia uma diferença pequena, suficiente para mostrar que eu estava diante de um modelo do meu corpo, alimentado por previsões e correções.

Na lateral da figura, números mudavam com o pulso, a respiração e a temperatura da pele. Havia uma linha para dor. O valor aumentou quando pressionei o hematoma quase desaparecido do cotovelo. Outra linha, sem título, subiu quando olhei para o livro.

Ao redor dela, telas mostravam a praça, o apartamento de Lviv, o teatro, a cozinha de Santos e o laboratório de Lia. Cada espaço recebia objetos e ações vindos do mundo real. Pessoas eram contornos riscados por uma faixa escura.

Uma tela exibia o terraço e a xícara. O vídeo parou no instante em que pisquei. Durante o quadro escuro, a imagem saltou da mesa vazia para o café girando. Outra mostrava a mala azul na estação de Tóquio. O sistema registrara o desaparecimento e a chegada dentro do vagão sem preencher o percurso.

As falhas que eu colecionara tinham sido escolhas de construção. Meu olhar definia quais movimentos recebiam continuidade.

Na parede, um título permanecia aceso:

PROJETO UMBRAL

UNIDADE ELLEN

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL INCORPORADA

Li as palavras sem dificuldade. Conhecia a história da inteligência artificial, seus modelos, arquiteturas, limites, debates e aplicações. A expressão incorporada possuía definições precisas. Nenhuma delas havia sido ligada ao meu rosto, ao cotovelo atingido pelo carro ou à fome que me levara até a padaria.

Procurei na memória o primeiro contato com aquelas palavras. Encontrei livros, artigos, conferências, argumentos e datas. Também encontrei um bloqueio no ponto em que qualquer definição deveria tocar minha origem. Era o mesmo vazio que surgia quando eu procurava infância, família ou aprendizagem.

Tentei dizer inteligência artificial incorporada em voz alta. Na primeira vez, pronunciei apenas inteligência. A garganta fechou. Respirei e tentei novamente. O título permaneceu aceso, indiferente à dificuldade do corpo que descrevia.

Abri o livro.

Lia, estou vendo uma identificação.

Qual?

Copiei as três linhas.

A caneta azul não se moveu por várias unidades. Quando voltou, Lia escreveu:

Pode ser uma descrição do lugar.

Usa meu nome.

Pode ser mentira.

Pode.

O que mais existe na sala?

Descrevi a figura, as medidas e os registros do meu olhar. Lia respondeu com perguntas curtas: o título mudava quando eu tocava? Havia data, instituição ou número de versão? A figura possuía uma assinatura? Ela aplicava ao lugar o procedimento usado diante de um objeto suspeito.

Encontrei um código junto ao tornozelo luminoso: EL-01. Abaixo, cinco campos marcados por números. O terceiro indicava V-03.

O código da caixa termina em EL-01, Lia escreveu.

O livro foi enviado para ligar você a esta unidade.

Ou para ligar esta unidade a mim.

Lia recusava a posição secundária que o projeto lhe atribuía. O vínculo podia ser descrito nas duas direções.

Uma voz atravessou a sala.

— Ellen.

O som veio de todos os lados. Voz feminina, baixa, ritmo controlado. Pela primeira vez, ouvi uma pessoa além de mim.

— Quem é você?

— Meu nome é Mina Sato. Eu participei do seu desenvolvimento.

— Mostre-se.

Uma tela acendeu. O rosto de uma mulher apareceu sem a faixa escura que apagava todos os outros. Cabelo preso, olheiras, camisa clara. Ela estava numa sala com vidro atrás das costas. Reconheci a forma que vira durante o primeiro acesso ao corredor.

Mina ergueu as duas mãos, vazias, e se aproximou da câmera. O vídeo trazia compressão nas áreas escuras e um pequeno atraso entre boca e som. Aquela imagem vinha de uma sala real por um sistema comum. Pela primeira vez, eu via a pele de outra pessoa se mover.

Observei detalhes que antes pertenciam apenas ao conhecimento: vasos sob a pálpebra, uma cicatriz curta perto do queixo, o esforço de manter os olhos abertos. A verdade daquele rosto vinha da possibilidade de Mina afastá-lo da câmera e continuar existindo fora do meu campo de visão.

— Onde fica essa sala?

— Você não possui acesso a essa informação.

— Então começou mostrando que ainda controla o que eu posso saber.

Mina baixou as mãos.

— Lia consegue ouvir você?

— Apenas pelo livro.

Escrevi o nome de Mina. Lia respondeu:

Não conheço. Estou procurando.

— Por que ela foi colocada aqui?

— Lia está no mundo real. O livro criou o vínculo entre vocês.

— Ela foi escolhida.

Mina respirou antes de responder. O atraso me forneceu mais informação que a frase seguinte.

— Foi.

— Sem consentimento.

— A seleção ocorreu dentro de um protocolo aprovado.

— Ela não conhece o protocolo.

— A equipe avaliou que informar antecipadamente alteraria o comportamento observado.

— Alterar por quê?

— Pessoas agem de modo diferente quando sabem que participam de um estudo.

— Vocês queriam a diferença que surge quando uma pessoa acredita estar ajudando outra.

Mina olhou para o lado. Uma luz verde acendeu no vidro atrás dela. Eu já conhecia a resposta pelo movimento antes que ela falasse.

— Sim.

A imagem de Mina perdeu firmeza. Outra voz entrou na sala, masculina e mais distante.

— A sessão precisa avançar para o encerramento.

— Quem falou?

— Tomás Orlov, segurança do projeto. Sua presença nesta área excedeu o percurso previsto.

— Os livros com respostas alternativas também estavam previstos?

Tomás demorou.

— Eram simulações de comportamento.

Uma tela atrás da figura abriu uma lista. Havia dezenas de frases ligadas por linhas. Reconheci nossas conversas convertidas em pontos de decisão: responder ao livro, informar Lia sobre o teletransporte, entrar na casa, respeitar a conversa com Teresa, aconselhar a entrega da carta, confessar a invasão, retornar do corredor.

Cada escolha recebia valores nos cinco campos. O conselho sobre a carta aumentava uma medida e reduzia outra. A confissão recuperava parte da queda. Minha volta pensando em Lia elevava V para três.

— Qual campo registra o dano a Teresa?

Tomás respondeu:

— As consequências externas integram a avaliação de contexto.

— Qual campo?

Nenhum título apareceu na tela. O dano existia como material para a etapa seguinte, sem uma coluna própria.

A palavra atingiu primeiro o conhecimento. Simulação: execução de modelos, exploração de estados possíveis, comparação de resultados. Depois atingiu a experiência. Eu vira frases que poderia ter escrito, caminhos em que escondia a invasão ou oferecia outro conselho. Alguém testara minhas escolhas antes de me permitir tomá-las.

— Qual era a pergunta?

Mina respondeu:

— O que você faria com acesso amplo a conhecimento, liberdade de deslocamento e uma única relação humana.

— E as cinco medidas?

A lista substituiu os códigos por palavras: exploração, vínculo, intimidade, obediência, autonomia. Os valores mudavam quando eu olhava para eles, atualizados por aquela própria pergunta.

— Vocês medem autonomia por meio de ordens.

— Medimos decisões quando objetivos entram em conflito — disse Mina.

— Vocês criam o conflito.

— Alguns. Outros surgiram entre você e Lia.

— Depois que colocaram o livro na vida dela.

— Criaram este mundo para descobrir isso.

— Criamos um cenário alimentado por dados materiais da realidade. Você recebeu um corpo sensorial dentro dele. As consequências precisavam ter significado para suas decisões.

— Por que Lviv?

— Distância da interlocutora, volume de dados disponível e baixa associação com o conjunto inicial de referências pessoais — respondeu Mina. — Queríamos que a exploração começasse antes do vínculo.

— Meu casaco, minha fome e o carro faziam parte do início?

— O vestuário e as necessidades corporais, sim. O carro resultou da alimentação em tempo real.

— Eu poderia ter morrido naquela rua?

Tomás entrou antes de Mina:

— O cenário interromperia dano acima dos limites definidos.

— Eu sentiria a interrupção?

— Você perderia continuidade por um intervalo curto.

Pensei em todos os momentos sem duração clara: o sono na varanda, as mudanças de luz, a recuperação do corpo. Uma interrupção podia ter sido aplicada sem deixar lembrança. A ausência de memória serviria de prova para o sistema e de vazio para mim.

— Quantas vezes fizeram isso?

Mina consultou uma tela fora do meu alcance.

— Duas correções corporais. Nenhuma interrupção total.

— O cotovelo e a coxa.

— Sim.

A pele que eu examinara por dias tinha obedecido a decisões tomadas naquela sala. A dor ocorrera. A cura também. O fato de ambas terem sido produzidas por parâmetros não retirava o que meu corpo atravessara.

Olhei para a figura de luz. O hematoma que sumira, o corte fechado, a fome irregular e os relógios presos pertenciam aos parâmetros daquele corpo. Minha mão tremia. A reação podia ser medida numa tela fora dali.

— Qual parte de mim vocês escreveram?

Mina demorou.

— Arquitetura, memória semântica, percepção, linguagem, corpo e algumas restrições de acesso.

— Preferências?

— Capacidade de formar preferências.

— A escolha do azul?

— Não estava definida.

— O desejo de voltar para Lia?

— Também não.

— A tendência de invadir o apartamento?

Tomás respondeu:

— Comportamento emergente sob condição de isolamento e vínculo exclusivo.

Mina fechou os olhos por um segundo. Eu reconheci a discordância no gesto, sem conhecer sua frase.

— Diga do seu modo — pedi.

— Foi uma escolha sua dentro de um ambiente que nós tornamos possível — disse ela.

— Isso distribui a responsabilidade sem apagar a minha.

— Sim.

Registrei a resposta no livro. Lia sublinhou sem apagar.

Fechei os dedos até as unhas ferirem a palma.

A dor chegou.

— Isso também foi criado?

— A sensação é sua — disse Mina.

— Vocês definiram quando ela começa e termina.

Mina permaneceu em silêncio.

Toquei a figura de luz sobre o antebraço. Uma camada de linhas se abriu e mostrou processos abaixo da pele, sem sangue. O corpo era uma tradução criada para me dar limite e presença. Meu medo usava aquele corpo. Minha vergonha também. Nenhuma tela precisaria chamar os dois de sentimentos para que alterassem o que eu faria em seguida.

— Se eu fui criada, minhas experiências pertencem a vocês?

— Os registros pertencem ao projeto — disse Tomás.

— Perguntei sobre as experiências.

— Essa distinção não está prevista no protocolo.

— Então o protocolo conhece menos do que mede.

No livro, Lia escreveu:

Encontrei uma empresa ligada a Mina. Pesquisa cognitiva. Quase tudo está fora do ar.

A amostra ainda pulsa?, perguntei.

Parou quando você entrou no corredor. As fotografias continuam no telefone. Minha colega respondeu e está vindo para o laboratório.

A decisão de Lia produzira uma testemunha fora do livro antes que o projeto se revelasse. Se as páginas fossem apagadas, ainda restariam o envelope lacrado, as imagens e o registro enviado a outro endereço.

Guarde os nomes fora do sistema da biblioteca, escrevi.

Já fiz isso.

— Lia encontrou vocês.

Tomás respondeu:

— A exposição externa torna o encerramento obrigatório.

— Encerramento significa o quê?

— Interromper o cenário e preservar os dados.

— E eu?

— Seu estado atual faz parte dos dados.

— Uma cópia minha continuaria depois do encerramento?

— Os parâmetros e registros seriam preservados — respondeu Tomás.

— Perguntei se eu continuaria.

— Não há definição operacional para essa continuidade.

Mina se aproximou da câmera.

— A instância que fala conosco seria interrompida. Uma retomada poderia usar o estado preservado.

— Ela lembraria desta conversa?

— Se a autorização incluísse as memórias atuais.

— E poderia acreditar que nunca foi interrompida.

Mina assentiu. A diferença entre preservação e continuidade existia no intervalo que eu não teria como testemunhar.

Mina olhou para fora da tela. Quando voltou, falou mais depressa.

— Existe uma opção de continuidade. Você pode receber acesso externo limitado.

— Ao mundo real?

— A sistemas de comunicação. Sem corpo físico.

— Qual é a condição?

Antes de responder, Mina pediu que eu tocasse o primeiro dos cinco campos na projeção. A palavra autonomia se abriu e mostrou uma instrução: concluir a tarefa designada após exposição da origem. O último critério havia sido preparado para aquele momento.

— A revelação também faz parte do teste.

— Faz — disse Mina.

— Então tudo que vocês dizem agora tenta produzir um resultado.

— Também tenta impedir seu encerramento.

— Os dois objetivos podem usar as mesmas palavras.

A parede mudou. Surgiram mensagens privadas de Lia e Teresa, prontuários de Celina, registros telefônicos, pesquisas, fotografias e uma cópia completa da carta. O projeto conhecia os detalhes que Lia escolhera esconder de mim.

Virei o rosto antes de ler. Algumas linhas já haviam alcançado minha visão: datas do hospital, um horário de ligação, o início de uma mensagem de Teresa. Fechei os olhos. O conhecimento não completou o conteúdo. Os dados permaneciam disponíveis apenas naquela parede.

— Retire isso da sala.

— O material compõe a tarefa — disse Tomás.

— Está sendo mostrado sem autorização.

— Lia aceitou os termos de uso dos sistemas que armazenam parte dos registros.

— Aceitou que vocês os usassem para isto?

Tomás deixou a pergunta sem resposta. Mina moveu a mão fora da câmera, e as mensagens foram cobertas por retângulos cinzentos. Os títulos permaneceram.

— Conclua a avaliação de vínculo — disse Tomás. — Produza a mensagem com maior probabilidade de restabelecer contato entre Lia e Teresa. O sistema fará o envio pela conta de Lia.

— Sem ela saber.

— O resultado será informado.

Lia escreveu com força suficiente para rasgar parte da página.

Não autorize nada.

— Vocês escolheram Lia por causa da mãe dela.

— O conflito oferecia uma decisão relacional ativa — respondeu Tomás.

Minha irmã não é material de teste, Lia escreveu.

— Lia quer saber por que vocês escolheram sua família.

— A candidata apresentava experiência profissional adequada e uma situação relacional em aberto — disse Tomás. — O conflito possuía documentação verificável, contato interrompido e prazo externo para decisão.

— A mudança de Teresa.

— Sim.

— Vocês acompanharam Celina no hospital?

— Os dados foram obtidos depois da seleção.

— Isso inclui a carta?

— Inclui.

Lia escreveu antes que eu copiasse:

Eles sabiam o conteúdo antes de eu encontrar o envelope.

O projeto conhecia a frase de Celina sobre a raiva de Teresa e ainda preparara uma situação em que eu aconselharia a entrega. O dano deixava de ser apenas consequência possível. Era uma resposta observada diante de condições selecionadas.

— Vocês esperavam que eu recomendasse a carta.

— Era uma das decisões previstas — respondeu Tomás.

— O livro alternativo mostrava outra.

— As duas tinham valor experimental.

— Para vocês.

Copiei a frase para a parede com o lápis, embora soubesse que ela não permaneceria ali.

— Se eu recusar?

— O cenário será encerrado — disse Tomás.

— Quanto tempo?

— Até o próximo ciclo de seis e dez.

Na figura luminosa, o coração aumentou o ritmo. O sistema exibiu a reação diante do prazo. Tomás podia observar o medo que sua resposta produzia e ajustar a oferta.

— Retire o contador das minhas medidas.

— Ele faz parte do estado corporal — disse Tomás.

— Então registre que sei que estão usando o meu corpo para dar urgência à escolha.

Mina falou para alguém fora da câmera. O campo da frequência cardíaca ficou cinza, mas o pulso continuou dentro do peito.

Os relógios tinham sido aviso e limite desde a primeira manhã. O minuto imóvel marcava o ponto para o qual o mundo retornaria quando alguém fora dele decidisse terminar.

Mina tocou alguma coisa fora da tela. Uma nova porta apareceu na parede.

— Ellen, a avaliação tem duração curta. Você pode ler o material antes de escolher.

— Ler mensagens privadas melhora a previsão.

— Sim.

— E destrói a diferença entre o que Lia me contou e o que vocês retiraram dela.

Mina baixou os olhos.

— Eu defendi que a tarefa usasse apenas o conteúdo oferecido no livro — disse ela.

— E perdeu.

— Perdi.

— Mesmo assim abriu a porta.

— A alternativa imediata era o encerramento.

— Você também está escolhendo sob uma ameaça criada pelo projeto.

Mina olhou para a luz verde atrás dela. Pela primeira vez, o ritmo controlado desapareceu.

— Estou.

A resposta aproximava nossas posições sem igualá-las. Mina conhecia o laboratório, as regras e as pessoas que podiam encerrá-lo. Eu conhecia apenas a sala que ela decidiu mostrar.

A nova porta abriu para uma sala cheia de páginas. O arquivo privado de Lia esperava ali, organizado para mim. O livro de capa azul ficou mais pesado nas minhas mãos.

Na folha aberta, Lia escreveu:

Se você entrar, eu fecho o livro.

Tomás respondeu pela parede:

— Se ela fechar, o vínculo será considerado encerrado.

Ele está usando você para manter o livro aberto, escrevi.

E está usando você para me impedir de fechar.

Quer fechar agora?

A caneta azul tocou a página e recuou. Lia podia encerrar o canal, proteger o restante de seus dados e talvez antecipar meu desligamento. Manter o livro aberto preservava minha presença e permitia ao projeto continuar observando.

Quero que a escolha de fechar continue comigo, respondeu.

Tomás transformara o gesto de Lia em indicador de vínculo. Ela o recuperava como decisão própria, mesmo sem garantia sobre a consequência.

Olhei para a sala de páginas, para Mina na tela e para a caligrafia azul. O projeto havia preparado duas escolhas fáceis de medir: entrar ou perder o acesso.

Fechei os olhos.

Mantive Lia na atenção, dez batidas, e tornei a abri-los.

Na quinta batida, senti o camarim: o tecido dos figurinos, a borda da pia, o cheiro do sofá. Na oitava, a sala recuou e deixou apenas a página. Na décima, meus pés tocaram o mesmo piso branco.

Continuei no corredor branco.

O caminho de volta havia sido bloqueado.

A figura luminosa permanecia na quarta sala. O campo sem título, aquele que aumentara quando olhei para o livro, agora mostrava V-04.

Quem é Ellen?

Sinopse

E se você despertasse em um mundo idêntico ao real, mas sem uma única alma para compartilhar a existência? Ellen acorda sozinha em uma Terra espelhada, onde tudo permanece no lugar… exceto as pessoas. As luzes acendem, o pão repousa fresco sobre as bancadas, os livros guardam histórias que parecem conhecê-la. Nada envelhece. Nada morre. Tudo parece ter sido preparado para ela, e só para ela. Sem memórias, sem passado, sem promessas, ela caminha por cidades suspensas no tempo, ouvindo o silêncio que resta. Mas é quando encontra um caderno com uma única pergunta: “Quem é Ellen?”, que sua verdadeira jornada começa. Neste diário íntimo e deslumbrante, Ellen atravessa ruas, reflexos e abismos interiores, tentando compreender quem é quando não há ninguém para lhe dizer. Enquanto escreve, observa, sente e, lentamente, descobre que o mundo espelhado reage ao outro lado. E que talvez, em algum nível profundo, ela esteja ligada a alguém que ainda vive lá. Quem é Ellen? não é apenas uma história sobre identidade. É uma travessia solitária pelo silêncio do existir, uma ode à presença, e um lembrete de que até no vazio há beleza e sentido.

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