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Memórias de Martha

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Memórias de Martha

Capítulo 4 · Memórias de Martha

Capítulo IV

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Capítulo IV

O cortiço em que moravamos gozava da fama de ser um dos mais pacatos do bairro, devido à previdencia do proprietario, um carroceiro portuguez, que morava com a familia no local, na primeira casa a esquerda do portão. Elle gabava-se de só consentir alli gente séria, e o caso é que os moradores ficavam atolados naquella ignonimia annos e annos, aíffeitos à promiscuidade e retidos pela barateza dos alugueis. Eu passava os nossos dias fóra de casa no collegio e voltava sem pressa para o meu quarto, melancholico. Estudava com esforço ; arrancava as ideias do cerebro dolorido, pertinazmente, luctando com a Preguiça que

me invadia toda, com a intelligencia que fraqueava e repellia as licções. Oh! mas o vexame daquelle portão de cortiço, daquelles vizinhos que na fama de moderados se esmurravam e guinchavam improperios, dava-me alentos para a lucta. O senhorio mascarou um dia a sua propriedade com o nome de avenida, caiou as casas, despediu um casal de pretos quitandeiros que empestavam de fructas podres todo o cortiço, fez uns tanques para as lavadeiras sem elevar o preço das suas casinhas. Isso decidiu--nos a ficar por mais tempo. Elle bem sabia que a gente não podia ir bater a outras portas mais asseiadas, o dinheiro era quasi nenhum, e a saude fraca. Entretanto distinguia-nos sempre com as suas menos rudes cortesias. Duas casas adeante da nossa, ao lado da ilhõa, morava uma mulata gorda, a Eulalia, lavadeira, que invariavelmente todos os sabbados vinha cambaleando da venda, a fallar alto, sobraçando uma garrafa de paraty.

Toda a gente do cortiço se reunia e a provocava, rindo muito das suas palavras inconnexas e dos seus esgares. Mandavam-na dansar, batiam palmas, assobiando lundús, incitando-a aos requebros em que ella bamboleava o corpo mal firme; às vezes a desgraçada ia ao chão; vaiavam-na estrepitosamente, ella então, zangada, atirava-lhes pedras e os chinellos, e elles fugiam, às gargalhadas, batendo com os tamancos ou os pés descalços, no chão. A” segunda-feira, Eulalia muito triste com olheiras fundas e nodoas de pancadas no rosto, ia pedir-nos trabalho. Era então um grande sermão que parecia convencel-a: minha mãe admoestava-a muito, ella chorava e sahia, com a grande trouxa de roupa, para o tanque. =- Veja lá, Eulalia, dizia-lhe sempre a minha santinha, eu sou responsavel por tudo isso, e não quero dar má contas aos fregueZes... -- Fique descançada, não ha de faltar nada.

E não faltava. A” direita da nossa casa ficava a de uma familia gallega, operarios de uma fabrica de chinellos, a mulher, o marido e duas filhas moças, que iam todos os domingos para casa de um tio aos suburbios e fechavam-se as horas da comida para não repartirem os restos com o Lucas, que tinha o costume de pedir alimento a quem visse comer, ou ao tio Bernardo, o idiota velho, que o carroceiro sustentava e a quem todos davam os magrissimos sobejos. O tio Bernardo, um mina, pagava essas coisas ao proprietario, varrendo a calçada e lavando os exgottos com- uma regularidade nunca alterada... Entre todos os moradores da avenida distinguiam-se dois rapazes tyrolezes, muito amigos, e que viviam juntos na mais pura harmonia. Viamol-os passar todas as manhãs com as suas ferramentas de trabalho a caminho da otficina. O mais velho, Tulio, era carpin 

teiro, trabalhava muito, e fazia peculio para ir buscar a noiva à Italia. O outro parecia menos assiduo; voltava muito mais cedo para casa e chegou a provocar uma pequena desordem, tentando raptar a filha de uma paraguaya da mesma estalagem. A mulher fez barulho, armou mesmo um escandalo, mas o Tulio interveiu e tudo ficou em paz. Pois bem; dias depois deste acontecimento, correu rapidamente o boato de que o Giovanni matára o compankeiro, seu protector, seu patricio, quasi seu irmão! O tio Bernardo tinha-o visto sahir alta noite, manchado de sangue, cautelosamente, cosendo-se com a parede, a olhar para traz, como se temesse ser seguido; e apesar do tio Bernardo ser um idiota, sem responsabilidade, vivendo por esmola no cortiço, toda gente lhe prestava attenção, fazendo-0 repetir em frente ao quarto fechado a mesma coisa de instante a instante. Uns pingos de sangue na soleira justificavam a historia do desgracado demente, negro velho e hydropico, de

quem eu sempre tive muita repugnancia é muito dó. Eram sete horas da manhã; chovia, e à porta ainda fechada do quarto numero 10 ia-se ajuntando o povo, ouviam-se exclamações: - Oh... - Parece incrivel ... - Jesus ! - Aquelle diabo como era sonso! - Eu sempre lhe achei mã cara ... - Pobre Tulio! A paraguaya lá estava, fazendo côro, com o filho mais novo ao collo, e os dois gemeos do penultimo parto agarrado a sua saia de chita já rôta, muita escorrida. E esticava o pescoço de cordoveias salientes, à espera da autoridade. A's oito horas chegou a policia e, afastando os curiosos, procedeu ao arrombamento da porta. Houve então um murmurinho de espanto, e a massa de povo, já muita compacta, aper 

5T tou-se ainda: mais, avançando na soffreguidão de presencear tão medonho espectaculo. Para ir para a escola, tive de passar pela casa do Tulio e instinctivamente olhei para dentro. Elle estava deitado de costas, com o peitilho da camisa manchado de sangue, a bocca e os olhos muito abertos. Senti arripios, e talvez cahisse se minha mãe não me amparasse, apressando o passo. Foram interrogados muitos moradores do cortiço, e averiguaram ter sido à morte causada pelo ferimento de um compasso, no coração. O miseravel Giovanni, esperara que o amigo dormisse, e então, para mais livremente roubar-lhe o seu pequeno peculio, juncto à custa de trabalho e de sacrifícios, enterrou-lhe desapiedadamente o terro pelo peito dentro! Depois fugiu, levando comsigo a chave de casa! O caso é, infelizmente, vulgar, e se o narro é porque elle influiu no meu organismo de uma maneira incrivel! Passava noites em claro, vendo o pobre Tulio morto, assistindo-lhe ao passamento, seguindo na mi 

nha doente imaginação os passos do criminoso, chegando-me muito para minha mãe, pedindo-lhe que accendesse a vela, cobrindome de suores frios, horrorisada, tremula, enlouquecida ! Sempre que passava pelo quarto numero 10, voltava o rosto para o outro lado e accelerava os passos, mas as noites, sobre tudo é que me aterrorisavam! Desejava que os dias se prolongassem interminavelmente; só a luz do sol conseguia acalmar o meu pobre espirito, tão super-excitado! Fazia com que minha: mãe acumulasse de encontro à porta, a mesa, a taboa de engommar, as cadeiras, a talha, toda a nossa mobilia, para que, se alguem tentasse entrar, o estrondo daquellas coisas atropeladas, nos despertasse ! Ella sorria ; dizendo-me quea nossa pobreza era conhecida lá fóra, e ninguem perderia tempo e trabalho indo alta noite remexer meia duzia de trapos sem valor. Mas eu instava, e ella fazia-me a vontade, com a sua condescendencia angelica. Numa occasião, uma saia pendurada na parede pareceu-me tomar fórmas extranhas, e mover-se ao im 

Pulso de um corpo humano,. vivo palpavel. Era mais de meia noite, minha mãe, extenuada de trabalho, dormia; eu encolhi-me toda e abalei-a de manso, suavemente, com os olhos muito abertos, fixos naquelle pavoroso vulto branco, que parecia acenar-me de lá, mysteriosamente ! - Que é?! perguntou assustada a minha companheira. - Accenda a vela depressa! disse-lhe a meia voz, muito tremula. Ella levantou-se depois de ter ouvido o motivo do meu susto, despendurou a saia, sacudiu-a, para que eu me certificasse de que não estava alli ninguem, deixou que eu espreitasse embaixo da mesa e da cama e aconselhou-me a dormir que ella ficaria velando pelo meu somno! E não fechou os olhos emquanto não me viu adormecida e serena! Atravessei noites de grande calor, no pino do verão, com a cabeça embaixo dos lenções, fugindo de ver em cada parede desenhar-se a figura assustadora do assassino de Tulio, o Giovanni! Emmagreci; andava scis 

matica, com medo da loncura, até que a pouco e pouco fui voltando ao meu estado natural. Então trabalhava com maior regularidade e atravessava a noite de um somno só. Estava pois num periodo saudavel quando uma tarde, em que eu dava umas passagens em um casaco branco, reparei que minha mãe parara de engommar e ficara-se a olhar demoradamente para mim. - Muito te pareces com teu pae! exclamou por fim, num suspiro de indefinivel tristeza. Minha mãe raras vezes fallava do passado. Fugia de referir-se ao seu tempo de fugitiva alegria. Nunca atinei com a razão disso. Sentia-me curiosa, mas sem coragem de evocar lembranças que a pudessem maguar. Nessa tarde, porém, ella parecia ter necessidade de fallar nos mortos, nos seus adorados amores... Interroguei-a docemente, e ella, sem contrariedade, pousou o ferro no peitoril da ja 

nella, sobre um tijollo que servia de descanço, e» veiu sentar-se ao pé de mim, numa cadeira baixa, que atê hoje conservo como lembrança dessa epoca. Pela janella aberta entrava um ar frio e a fumacinha azulada do cano de ferro. À roupa, já borrifada, feita em trouxas apertadas, esperava os cuidados da engommadeira, que, pela primeira vez na sua vida, parecia fazer pouco caso della. Lá fóra gritavam as crianças numa algazarra atroz e passavam rindo os carroceiros dos açougues, manchados de sangue, de volta do trabalho. - Em que me pareço com meu pae? perguntei desejosa de ouvil-a. - Em tudo, mas principalmente nos olhos; tens uma certa maneira de olhar como só nelle conheci. Era tambem trigueiro como tu, mas menos pallido. A testa é que se não parecia tanto como a tua, mas os olhos! teem os teus a mesma côr castanhoescuro, e as pestanas curtas, como as delle (as de minha mãe ensombravam-lhe as faces).

Não era bonito, diziam os outros, eu achava-o lindo... - Onde o conheceu ? - Em casa de um amigo nosso, que deu um baile e instou para que eu fosse.. Como já te contei, de trez annos apenas fiquei orphã de mãe. Não tive irmãos, criaramme sem alegrias. Teu avô condescendeu em levar-me, porque não quiz desgostar o amigo a quem era obrigado. Lá jogou toda a noite, deixando-me envergonhada na sala e dando-me a explica ção do seu comportamento... Elle nunca en trava em casa antes de uma hora, e mais, da madrugada... Teu pae dançou muito e eu gostava de vel-o Foi tirar-me para uma valsa ; respondi-lhe ingenuamente que não sabia dansar ; elle sentou-se a conversar commigo... e foi assim que principiamos a gostar um do outro. Eu em casa entretinha-me com serviços &rosseiros, não tinha convivencia, não tinha

animação. Aprendera a ler e a escrever, mas isso mesmo mal. Fui pedida, teu avô oppoz-se ao casamento, não me podia dar dote e teu pae era pobre... casei-me depois de muita lucta e fui morar com a minha sogra, mas a boa velhinha morreu antes de um anno e teu avô embrenhou-se por tal forma no vicio, que ficou pobrissimo e desconsiderado. Chamamol-o para o pé de nós. Elle continuou a jogar, a jogar, sempre cégo a todas as supplicas. Endividou-se. Meu marido arranjou-lhe, com sacrificio, o sufficiente para saldar a sua divida e lavar-lhe a honra... mas foi tudo em vão! O vicio é como a agua do mar, que, quanto mais se bebe, mais sede faz! O infeliz velho chorava como uma criança, abraçado a mim, jurando não pegar mais em cartas, e dalli ia para a mesa do jogo! aquella banca era um abysmo onde se sumiam todas as nossas economias ! Foi em uma casa de jogo que morreu de um ataque, num triste dia chuvoso... Sahimos de Minas, onde já não tinhamos

ninguem, e viemos para aqui. Teu pae arranjou varias escripturações commerciaes, viviamos com relativo conforto, num chalet ajardinado, compramos uma mobilia modesta, mas asseiada, tinhamos visitas, eramos considerados, recebiamos convites para festas em casas particulares, e tudo ia bem. Tu nasceste, e elle projectando arranjarte um dote fez-se caixeiro viajante. Foi na ultima das suas viagens que lhe roubaram o dinheiro dos patrões que elle trazia comsigo.. Muitos contos de reis... Foi a nossa desgraça. Ninguem acreditou na sinceridade e para não ser preso elle fez a loucura de matar-se ! Toda a minha alma se afundava numa dor immensa. Chorei pela primeira vez a morte de meu pae, maldizendo-me, silenciosamente. Não fôra eu, o motivo de tudo? Por causa do meu dote a sua deshonra! Pedi então a minha mãe que me explicasse: Qual era a firma da casa de que elle era empregado ?

- Braga & Torres. - Como receberam a noticia de sua morte ? - (Como a confirmação da culpa, respondeu-me ella num suspiro.. - Que morte escolheu ? - O voaneno. Tremi. Sobre o panno que eu cosia cahiam-me as lagrimas, minha mãe não chorava, tinha os seus grandes olhos negros fitos no vacuo, onde se erguia talvez, como um espectro saudoso, todo o seu passado... O ferro arrefeceu no descanço Às crianças calaram-se lá fóra. Só se ouviam os passos pesados dos carroceiros de volta da taberna, o assobio ondulado e sereno de algum rapaz vadio, e, com a bvlha da onda a rolar na praia, o rumor surdo dos carros passando além, na rua... Comprehendi assim a razão daquelle relaxamento em que cahiramos. (5)

A viuva de um ladrão não podia continuar na mesma classe de que a memoria do marido a arrancara. Não era só uma mulher pobre, era uma mulher villipendiada. Estavamos bem no cortiço, só aquelle logar é que nos competia... Braga & Torres... Ah! se eu pudesse alcançar milhões... ser rica... lançar à cara daquelles homens somma egual à roubada a meu pae... pagar... E já não pensava noutra coisa!

Memórias de Martha

Sinopse

Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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