Universo da obra
Universo da obra
Voava o tempo alegremente. Lniz frequentava a casa com assiduidade e levava-me de todas as vezes flores colhidas nas suas excursões, de que tinha sempre a contar um caso pittoresco. Desappareceu-me a tosse e a febre; tornei-me mais gorda e corada, risonha e feliz! Logo de manhã cedo sahia, encontrava quasi sempre o Luiz, que caminhava a meu lado, fallando e fazendo-me fallar, rindo-se descuidosamente e affirmando que eu tinha espirito por dez homens... Eu acreditava naquillo e sentia em verdade o que não experimentara nunca: muita facilidade em expressar-me e uma alegria saudavel, nova, que me invadia toda. A” tarde tornavamos a sahir; iamos à (8)
gare, ou ao alto da montanha ver a grande pluma branca do fumo da locomotiva apparecendo além nos tunneis... D. Annita assestava .o binoculo e ficava-se em contemplação. Luiz lia-me então uns versos feitos nesse dia; cousas banaes mas lisongeiras, que eu achava muito bonitas... Dava-me depois o original, com um modo significativo; eu lia e relia aquillo, cada vez mais encantada. Hoje, quando qualquer desses papeis me cae nas mãos, sorrió da minha ingenuidade de então! N'uma d'essas tardes, em que elle acabara de ler-me um madrigal amoroso e terno como um arrulo, formou-se subitamente uma tempestade medonha. Os trovões rebentaram furiosos. As nuvens baixavam, negras, ennoveladas, grossas, lambendo os cimos dos montes, colorindo-os com um véu esfarrapado e fumarento, deixando apparecer nos seus pedaços rotos as manchas verde-negras da vegetação, Voavam em bando as aves grandes, assustadas,
LG . a baterem com as azas sobre as nossas cabeças, num frá-frá medonho ! Principiâmos a descer rapidamente a ingreme collina. Faiscavam no ar, zig-zagueando, fitas luminosas. Corriamos os tres; d. Annita corajosa, Luiz risonho, eu espavorida. Desde criança, que as tempestades tinham sobre mim uma influencia enorme. O meu temperamento melindrosó parecia electrico. Eu maldizia a minha natureza timida e nervosa e não sei como pude correr, estando assustada e cega de medo, um medo indescriptivel ! Parecia-me sem fim o caminho. A chuva principiava, cahindo em gottas grossas. Deparâmos com a cabana de um negro lenheiro, um velhinho engilhado, bondoso, e recolhemo-nos alli. Luiz rindo sempre, d. Annita séria, eu de mãos postas. Ia escurecendo cada vez mais. Em frente à porta aberta olhavamos para a estrada erma, à espera de uma estiada para continuarmos a caminhar. Estariamos talvez a um quarto de bora
naquella espectativa quando uma figura de mulher atravessa a estrada. Era uma hospede do hotel, rapariga nova, alta, bonita, rosto côr de leite e rosas, d'uma frescura encantadora, emmoldurado pelos anneis sedosos do cabello loiro-cinzento; filha de um paralytico norte-americano, que não sahia nunca e estava a ares no campo. Ella andava sempre acompanhada por um grande cão da Terra Nova que lã ia a seu lado, a passo. O Jlenheiro, chamou-a, offerecendo-lhe agasalho; ella agradeceu com vm gesto, dizendo que assistira lá do alto à formação da tempestade - que adorava aquillo ! Apezar de toda a minha afflicção, percebi que aquella rapariga singular e romantica produzira em Luiz uma profunda impressão. Elle curvara-se para fóra e sahin a acompanhal-a com a vista, não obstante os ralhos da prima... Esperâmos ainda uma hora, mas a chuva augmentava e dicidimos partir. Sahimos ; a uns cem passos, se tanto, da nossa habitação, um enorme estampido que
LET foi repercutindo de echo em echo, abalou a montanha. Senti fogo nos olhos, dei um grito inconscientemente, e cahiria se me não amparasse Luiz, que tentou levar-me nos braços; tive forças para resistir e guiada por elle, cheguei à casa. Passei a noite num somno, e accordei. restaurada das grandes sensações nervosas que me haviam agitado. Da vespera só me restava uma impressão, e essa amavel: a dos braços de Luiz amparando-me carinhosamente... estremecia de ineffavel jubilo, de innenarravel contentamento ! Voltavam-me à memoria todos os incidentes do passeio e demorava-me a meditar no madrigal, dirigido a mim, ao meu coração bondoso e meigo... Sem receios, desvanecida completamente a lembrança da americana, preparei-me e entrei na sala. Nesse dia esperámos em vão por Luiz. Eu ia à janella, voltada para o interior e descia ao jardim, sem que em nenhuma das vezes lhe tivesse lobrigado a sombra.
D. Annita parecia não estranhar a talta do primo; e fingia talvez não perceber a minha impaciencia. Em que inquietação passei! A quantas probabilidades attribui aquella demora! A mais atormentadora era a ideia de que estivesse doente... sim, bem podia ser que lhe tivesse causado grande mal a chuva e o vento da ultima tarde... Estavamos ao jantar quando sentimos passos no corredor. E” elle! pensei, e o coração bateu-me com força. Olhei alegremente para a porta e vi, desilludida, entrar um empregado da estação, que entregou ao dono da casa um telegramma da Côrte; era da familia, chamando-o à pressa, para ver a mãe, atacada nesse mesmo dia de uma congestão cerebral. D. Annita resolveu logo seguir tambem e principiamos a arranjar as malas. Deviamos partir no dia seguinte ao meiodia, e consegui deixar nessa noite promptos todos os meus preparativos de viagem. Pouco dormi; de manhã cedo abotoei o meu vestido escuro de gola alta, puz o meu
grande chapeu de abas largas e sahi, affirmando que era para despedir-me do logar. Nunca o sol me pareceu tão claro, tão luminoso e bello. Dizia-me não sei que voz intima que encontraria Luiz pela ultima vez, nessa solidão perfumada e tão digna do nosso amor! O adeus, imaginava eu, quebrará o encanto, e ouvirei emfim dos seus labios a suprema palavra, o amo-te, que nos ligará por toda a vida! Os passaros cantavam alegremente, saltitando de galho em galho. Num espreguiçamento volnptuoso, as hastes de trepadeiras cobertas de campanulas azues, brancas e roxas iam-se entrelaçando, e no frndo escuro da folhagem erguiam-se como ciborios de marfim, os perfumosos «pos de leite. A cada curva do caminho eu divisava lá embaixo os grandes valles atufados em verdura, arqueando-se avelludadamente de montanha em montanha, até se esfumarem além num tom vaporoso e violaceo. Nesse embevecimento das coisas e do sentimento que me dominava, eu fui-me ap
proximando da casa amarellada, lá em cima, sobre o tunnel, dominando a vastidão cheia de luz. Chegando junto ao portão do hotel, entre-aberto, parei attonita, gelada, como se me tivessem vestido de neve subitamente. Sentada num banco do jardim, muito perto do gradil da estrada, a filha do paralytico, com a cabecinha brilhando ao sol, e os pés mergulhados no pello farto e negro do seu grande Terra Nova, dialogava amorosamente com Luiz! Elle rodeava-lhe a cintura com o braço, numa intimidade que me encheu de espanto, Ouvi-lhes as vozes unidas como um murmurio causado pela mesma quebra d'agua ou a mesma óndulação da brisa. É que as palavras de ambos vinham ao fluxo da mesma onda, rolando em egual sentimento. Segurei-me aos varaes de ferro para não cahir, senti uma vertigem; respirava alto, escutando-lhes sem as entender mas adivinhando-as claramente, de uma nitidez infernal, as suas expressões meigas e apaixonadas.
E verdade que eu apprendera alguma cousa de inglez com d. Annita que, vendo a minha boa vontade para os estudos, me propuzera bondosamente ensinar-me ; mas a minha instrucção limitara-se a mma meia duzia de termos familiares. Comtudo, isso habilitou-me a poder conservar na memoria duas phrases, unicamente duas, de entre tantas que elles trocaram, e essas mesmo por serem compostas com uma ou outra palavra já minha conhecida. - Do you love me? perguntava-lhe elle, a envolvel-a com um olhar humido, unctuoso como um favo de mel. - Oh yes, yes... with all my heart! respondia-lhe ella, languimente, coando por entre as pestanas cerradas a luz azul dos seus bellos olhos rasgados. Eu via-lhes os perfis; elles estavam de costas para mim; mas com os rostos voltaãos, quasi unidos, num embevecimento ! No pescoço roliço e branco da americana, brincavam os anneis do seu cabello preso no alto, e aquelles, fios crespos, curtos, soltos, agitados pela viração, polvilhavam-n'a de oiro
Achei-a linda e enchi-me de raiva por aquella belleza. Tapei os olhos com a mão muito fria e tremula e cambaleante voltei, caminhando por um grande espaço ao acaso, sem cuidados, sem precauções. Era tal o estado de concentração de ambos que não ouviram os meus passos, nem a minha respiração forte e precipite ! Maldita, maldicta hora aquella ! Desci olhando para o grande vacuo a meus pês, com tentações de desperhar-me naquelle abysmo azul. Fallava-me o ar. Agitei os braços invejando as aves que voavam lá em cima, longe d'este mundo traiçoeiro. Passei indifferente pelos chuveiros de flores doiradas, vaporosas, que pendiam dos galhos musgosos das arvores folhudas, e deixei-me cahir quasi desfallecida num combrosito grammado, à beira da estrada. Demorei-me alli não sei quanto tempo; ouvindo vozes de pessoas que se approximavam levantei-me e segui para casa. D. Annita estava impaciente à minha espera.
- São horas de nos irmos embora; eu estava com receio... - De que? - Não lhe tivesse acontecido alguma desgraça ! - Não me aconteceu nada, respondi-lhe, e, ai de mim! tinha-se desmoronado todo o meu futuro! Em caminho da estação perguntei-lhe, procurando uma confirmação para a minha suspeita ? - Que quer dizer: Do you love me? - Amaes-me ? respondeu-me ella, sorrindo maliciosamente, e depois: Por que? algum inglez disse-lhe: isso hoje? - Qual! mas ouvi um inglez dizel-o a uma ingleza ! - Sim? e ella ficou silenciosa, baixou os olhos... corou... não é verdade? E sorria. - Não... eila replicou muito firme: yes... ves... with all my heart. E que significam as ultimas palavras ? - Sim, sim, de todo o meu coração.
Ora a Martha como poz sentido na conversa! Mas que gente era essa? - Eu sei lá... uns inglezes. Chegámos à gare; o comboio ainda não estava. Sentâmo-nos no banco e pela vigesima vez contei, a pedido de d. Annita, os volumes que traziamos; o Sr. Jeronymo, muito triste, não se preoccupava com coisa alguma, consultava o relogio e praguejava contra a demora do trem. Ao meio dia partimos. O respeitavel e bondoso doutor Gunning veiu despedir-se de nós à gare, e umas crianças pobres troúxeramnos flores. O comboio sibillou, oscillou e partiu. Antes e depois dos tnnneis viamos paizagens encantadoras, montes, valles, succedendo-se, arvores frondosas, e logo no fim do primeiro kilometro, à direita, a cascatinha soluçante, graciosa, aonde numa tarde vieramos com Luiz... Minha mãe, avisada por mim desde a
vespera à noite, esperava-me. Confundimos os nossos beijos e as nossas lagrymas. Ella achou-me mais forte; e achei-a, mais magra e muita abatida, muito ! Conversámos a noite inteira. Ella fallou-me com elogios no antigo freguoz, o Miranda, que a protegera e se interessara por mim, perguntando-lhe sempre noticias e lendo as minhas cartas com prazer... E agora nosso vizinho, accrescentava ella; um bom homem, aquelle. De Luiz evitei sempre fallar. No fim de uma semana recomeçaram as aulas.
Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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