Universo da obra
Universo da obra
Casei-me uma bella tarde de verão. Poucas pessoas assistiram ao acto, além de minha “mãe, do Sr. Jeronymo e da mulher, que foi minha madrinha. Despedindo-se, d. Annita disse-me num abraço : - Auguro-lhe muita felicidade ; o Sr. Miranda parece ser um optimo homem ! Passámos uma semana feliz; meu marido consagrava-me uma affeição serena; era delicado e bom. Nunca no meu lar soaram as alegres e sonoras phrases dos noivos apaixonados, nem tamponco houve nunca um arrufoMinha mãe tinha uma expressão de ventura, por tal forma manifestada no seu rosto muito magro e pallido, que me commovia.
Quando passava privações, fome e frio, trabalhando sempre para sustentar-me, concentrava na tristeza o seu coração; na alegria, porém abria-o aos olhos de toda a gente! A queixa é uma fraqueza, a pégada impressa no chão lodoso da terra; o silencio soffredor é o vôo, no azul candido do infinito. A minha santa, a minha inegualavel amiga, atravessou todas as miserias sustendo-se sempre nas azas. E” que naquelle corpo estreito, fraquissimo, doente, havia uma alma forte, um coração sublime ! A minha maior felicidade consistiria em remuneral-a com largos juros de todos os sacrifícios feitos por mim, por isso preparavalhe um resto de vida placido e feliz; mas coitadinha! vendo-me amparada, com um auxilio certo e honrado, deixou-se descançar da grande lucta que havia tantos annos travara com a morte ! Singular organisação a sua! Emquanto dependi do seu trabalho, da sua vida, da sua protecção, movia-se sempre activa, desde a madrugada até à noite, uma lida cruel; agora,
que não se julgava precisa, deixou cahir os braços e confessou-se exhausta! E” que toda a sua vida tinha sido só artifício, força de vontade, nada mais. Foi no oitavo dia do meu casamento que ella adoecen; estavamos ao jantar e vimol-a cahir para o lado com uma syncope. Quiz soccorrel-a, não pude: tinha as pernas muito tromulas e sem acção; gritei, gritei muito, com o rosto banhado em lagrimas e o corpo innundado de um suor afflictivo e frio. Meu marido tomou-a nos braços e, commovido, levou-a para a cama, num quarto proximo. Minha mãe voltou depressa a si, chamoume, procurando animar-me e convencer-me de que aquillo não era coisa de cuidado ! mas veiu o medico, e, menos caridoso, affirmou-me que a doente soffria de uma lesão antiga e que se admirava sinceramente de que vivesse ainda ! - Aguelle coração está completamente arruinado ha longos annos; e podemos considerar como um milagre tamanha resistencia
a tão profundo mal. Aquella senhora tem sido de aço, realmente! Eu ouvia-o tremula, encostando-me a parede para não cahir. Meu marido fez-lhe notar a minha perturbação ; elle lamentou-me e explicou que era de seu dever previnir-nos para qualquer emergencia. Voltei cambaleante para o quarto da minha adorada ; ella adormecera, sob a acção da morphina injectada no seus braços nus, muito frios, pendentes por fóra da roupa. Desde então não me arredei do seu lado, assistindo ao medonho desenlace d'aquella vida de martyr. A's vezes, com as faltas de ar, parecia morrer; ficava roxa, depois pallida; inclinava o corpo para a frente e com a respiração cortada, o rosto transtornado pela agonia, a fronte banhada de suor, os braços gelidos, olhava-me e sorria. Às crises succediam-se ; as pernas tinhamlhe inchado muito e não podia andar. Passava dia e noite numa poltrona, curvada para a frente sobre almofadas.
Um dia chamou-me para bem perto, afagou-me com as mãos arredondadas pela inchação, contemplou-me com amor, fixa e demoradamente ; depois, estendeu-me os labios tintos de uma côr violacea, beijou-me e fez-me signal para que eu sahisse; attonita, sahi - e ella expirou. Dei uma volta pela sala, inconsciente, obedecendo à vontade d'aquella santa. Voltei: encontrei-a reclinada para traz, sobre o espaldar da cadeira, serena, adormecida; approximei-me mais, inclinei-me para ella e comprehendi a horrivel verdade -- estava morta ! Meu marido entrara atraz de mim e amparou-me nos braços; tive ataques violentos, toda a tarde, rasgando o vestido, mordendome, batendo com a cabeça na cabeceira da cama e nas paredes, cerrando os dentes a todos os remedios e alimentos, num desespero atrocissimo ! A's Ave-Marias levantei-me e fui postarme ao lado da minha adorada morta; não
me arredei d'alli, de joelhos entre o leito e a janella aberta por onde entrava a viração perfumada da noite semeada de estrellas.
CONTOS
CIR Na BY CASE NO S NE ne 2 CRAÃO Nhá Judinha As guabirobas estão cheias de flores, erguendo entre a verdura os seus candidos pennachos côr de neve; a mangaba está com fructa, a sua fructa ardente e caustica: e aqui e acolá põem manchas roseas e vermelhas sobre a gramma dos campos a flor da jalapa, grande como uma rosa, e a bella Paratudo, da côr do fogo. A madrugada rompe, doirando a vastidão interminavel do céu. Voam passaros, piando alto; as tesouras agitam no ar as pennas das suas longas caudas elegantes, os tucanos buscam os ninhos dos innocentes bem-te-vis numa insaciavel gana, as patativas despretenciosas, da côr triste da terra, cantam deliciosamente, e os gaviões pardos, entre aves de outras
especies que se cruzam, abrem no espaço as suas azas, com serenidade. Pelas tristes paizagens paulistas, longos campos cobertos de arbustos rasteiros, onde os cajús, as maçãs e o araçã dão espontaneamente em pés de meio metro de altura, e os juazeiros sacodem as suas florinhas mimosas por esses grandes terrenos despovoados e extensos, o cupim constroe as suas casas em monticulos de terra, e voejam borboletas grandes, de um azul vivo resplandecente. Raiava a madrugada e erguia-se do seio da terra um cheiro agreste e bom. Por uma trilha estreita, cortando a herva com uma fina lista roixa, caminha um caipira moço, com o cabello escorrido e negro, cahido nos hombros, a calça arregaçada, a camisa aberta no peito, e na cinta a faca de ponta numa bainha de couro. Alto, musculoso, imberbe, elle tem os movimentos decididos, o andar direito e apressado. Deante d'elle estende-se, sempre verde, num declive suave, a longa planicie descoberta, e ao longe, muito longe, em um ponto azulado, nublado pela
distancia, a sua vista de camponio forte descortina a cidade de Pirassununga. Elle tinha dito à nhá Tudinha que esperasse ao alvorecer, perto do rio das Pedras... e já ouvia o soluçar da agua cantando num ritornello a sua monotona e compassada melodia. Chegando ao ponto indicado, viu com pena que ella não estava lá. -Nhá 'Tuda!.. Nhá 'Tudinha! gritou elle. Ninguem lhe respondeu. A agua cahia em cachoeira, de pedra em pedra, rumorejante; e na margem, uma palmeira esguia, testemu. nha solitaria d'aquêélla scena, agitava à viração a sua copa estrellada num movimento negativo, como se dissesse ao rapaz: -. D'aqui do alto eu vejo a estrada toda ; a Tudinha não vem! O caipira assobiou tres vezes, nuns trillos agudissimos. Era um signal convencionado ; poz-se depois à escuta: respondeu-lhe outro trillo, mais grave, mais limpido, comquanto mais fraco.
Elle levantou os hombros, impaciente: era uma ave que lhe respondia entre a folhagem do arvoredo visinho. Esperou muito tempo; como ella não chegasse, elle voltou. Mas, à tarde, não pode resistir e tornou ao rio das Pedras, com um lenço de chita cheio de jaboticabas colhidas por elle mesmo na matta. Languidamente encostada á palmeira da margem, a Tudinha esperava-o. Trigueira, com os cabellos negros cahidos em duas longas tranças desatadas, que lhe emmolduravam o rosto e lhe iam até quasi aos pés, o vestido desbotado, redondo» os pés descalços, as duas mãos encruzadas sobre a cabeça ; ella parecia meditativa e recebeu o namorado com tristeza. - Eu vim dizê adeus p'ra mêcê, começou elle, nóis vamo tudo juncto cum seu João... - W-á! gente! quando?! - Nóis vai simbôra aminhã dê minhãsinha.... - Quando é que mêcê vorta, seu Tonico? - Passando esta semana, é na outra.
Desde já hoje que eu vim cá, mais mêcé não tava ahi não... - Eu fui num báque em casa dê padrinho; mais despois de ponhar lá os trem que mãe mandou, eu esperei mêcê.... - Eu tava maginando que mêcê não queria sabé mais dê mim... - Ché ! que sperança! - Então é veldade que seu pae, nhô Quim, qué casã mêcê? Ella fez um mochocho, abaixando affirmativamente a cabeça. - Como nóis sê ama, nóis não se arreceia di nada, não é ansim? Eu vorto logo, e áhi nóis casemo. Ella sentou-se silenciosa na gramma desatou o lenço de chita da trouxa e começou a tirar jaboticabas que ia comendo de vagar. -. Mecê sabe que eu son um sacudido!... se mecê casá cum tá nhó Berto, eu mato elle! Como o caipira se exaltasse, a Tudinha estremeceu, e dos seus olhos negros rolaram lagrimas grossas.
- Tá vendo só! proquê é que mêcê tá chórando ? - Proque mêcé tá que nem doido; respondeu ella disfarçando a sua commoção. - Não chóre não! Ella levantou-se e ergueu do chão o challe, que poz na cabeça. - Então mêcê já vai já !? - Dé certo! - Antão-se..... adeus... - Adeus. Venha logo, viu? Passou-se uma semana, e o pae da Tudinha convidou varios amigos para assistirem ao casamento da filha com o nhô Berto, homem sério e bem visto no logar. A Tuda, diminutivo caseiro de Gertrudes, apresentou-se muito triste, de vestido branco, bem engommado, brincos de ouro e laços azues. Tinham de ir a cavallo, porque a capella de Santa Cruz das Palmeiras ficava a uma legua do sitio onde moravam. Noivos e
convidados seguiram pela estrada a trote largo, Riam todos. Só a noiva ia pensativa, de rosto pallido e qlhos pisados. A cerimonia correu sem estorvo. Na villa gabaram a belleza da noiva. Voltaram alegremente, só a Tudinha continuava pensativa... Na frente do prestito galopavam dois convidados, que ao chegarem em frente à casa dos noivos deram para o ar os tiros de gare rucha do estylo. Ao jantar houve vinho e comida à farta: o famoso dourado do Mogyguassú, com arroz de forno, leitão assado, gallinhas com palmito e mais gelêa e ovos queimados. A' noitinha os violeiros, meio cá meio lá, romperem a cantar versos no terreiro, mas um maldicto chuvisco deu de cahir, e entraram todos para a sala térrea do nhô Quir-. À mãe da noiva accendeu um lampeão, emprestado pelo fazendeiro, seu Carrinho tocou sanfona e as caipiras começaram a dançar, muito sérias, com o lencinho na mão. Eram já nove horas, quando de fóra, do meio do escuro, alguem chamou o noivo.
Elle sahiu, e os demais continuaram a cantar e à rir. A Tudinha, a um canto, ouvia a prosa e a musica, com um rosto pousado nas mãos é os cotovellos fincados nos joelhos. De repente notaram a falta do Berto.. - Uê, gentes! exclamou um caipira, onde que está nhô Berto ?! - Caréce de vigiá lá fóra, respondeu outro; elle sahiu faiz já um pédaço..... - Nhô Berto !.... nhô Berto !.... nhô Berto! Começaram a gritar da porta; não ouvindo resposta, sahiram e, a pequena distancia de casa, tropeçaram no corpo do noivo, assassinado e estendido no chão. Transportaram-n'o para dentro, cheios de pavor. Quem seria o assassino? Porque não gritára o infeliz, pedindo soccorro ? - Tarveiz que os grito delle fosse abafado pelas nossa vóiz; lembrou um violeiro : e os outros repetiram soturnamente : - Tarveiz..... Juraram depois vingar o morto, dispóstos a trabalhar até descobrirem o infame que o
matára. Rodeavam a viuva num circulo estreito. murmurando com suspiros. - A pobre! A coitada ! não fique patife não, nhá Tudinha! crie córage! E affirmavam-lhe que haviam de vingar o Berto, expondo projectos verdadeiramente barbaros : Um amigo do assassinado picaria o assassino em postas mais pequenas do que as unhas: um outro propunha-se a furar-lhe os olhos, e todos, em um pacto de vingança terrivel, juravam monstruosidades sobre o cadaver esfaqueado de Berto. Tudinha, muito pallida, não vertia uma lagrima; olhava para o marido com os olhos seccos e tinha no rosto uma expressão de quem reflecte com infinita amargura. O -pae então, para a consolar, fallou-lhe em ir elle tambem pelo matto à busca do mal* vado, que arrastaria amarrado até aos seus pés, para que ella o visse morrer crivado de facadas. - Vamos campiá elle, vamos, vamos! gritaram todos.
A Tudinha, estremecendo a tal resolução, disse alto, com voz aspera mas decisiva : - Não é pérciso! Eu sei quem é! - Quem é?! quem é?! perguntavam em côro ; mas a viva calou-se, deixando pender a cabeça sobre o peito. Interrogavam-n'a em vão, ora de uma maneira supplice, ora de uma maneira ameaçadora. A mãe chorava, rogando-lhe que dissesse a verdade; as irmãs agarravam-se-lhe ás saias, fazendo egual pedido; ella olhava como indifferente para aquelle grupo. O pae, cançado de a ver obstinar-se no silencio, puxou-a para junto do morto e prometteu amaldiçoal-a se não a ouvisse pronunciar o nome do assassino. A Tuda olhou para o morto e não respondeu. Exasperado, o pae deu-lhe uma bofetada; houve entre os circumstantes um murmurio, mas a viuva continuou silenciosa. - Mêcê falla ou não falla ?!.... Como a filha não fallasse, o caipira, vendo-se desrespeitado, ferido no seu amor proprio,
tornou a esbofeteal-a à vista de toda a gente e sacudiu-a pelos cabellos, dando-lhe pontapés. Tudinha soffreu tudo muito callada. O velho recrudesceu de furor; dava-lhe com um chicote nas costas, nas mãos, na cara. E voltando-se para os amigos, disse furioso e convincto : - Ella tanto ha de apanhá, que até ha de contá tudo! Endireitando o busto, a Tudinha respondeu com arregancia e desdem : - Ché! que sperança! - Antão-se, diabo, elle ha de ficá sem cástigo ? - Não.... respondeu a Tudinha a meia voz. Temendo a violencia do pae, alguns amigos levaram-n'o d'alli, deixando a Tuda em companhia do morto. Mal tinha raiado a madrugada, quando a viuva, sacudindo-se dos braços da mãe e das
irmãs, sahiu sosinha para Pirassununga. De lá voltou com uns soldados e foi bater à porta da casa do Antonico. O sol já batia com força nas paredes de taipa, e uma cigarra estridulava no sapé do telhado. - Nhô Tunico? abra a porta, Ao som d'aquella voz doce, o Tunico não hesitou - e escancarou a casa. Os soldados prenderam-n'o, e elle, aturdido, não negou o crime. Tudinha assistiu ao interrogatorio, extremamente pallida, mas firme, e fixando no rosto do namorado os seus bellos olhos negros... Depois, assassino e soldados sahiram. Tunico levava as mãos amarradas, para maior segurança. Caminhavam a pé. Tudinha acompanhou-os até longe, chorando muito. Ao separarem-se, elle deitou-lhe um olhar indefinivel, cheio de paixão e de odio. Ella pediu licença aos guardas para dizer uma palavra ao criminoso: desejava contar-lhe o que se passára na vespera, convencel-o de que seria morto pelo amigos do Berto se ficasse alli......
que ella » menunciava para o livrar dos outros que o picariam em postas miudas, que lhe furariam os olhos, e tambem porque era justa e julgava de seu deus punil-o, comquanto softresse muito com isso... muito... muito ! A Tudinha quiz dizer essas cousas, mas não pôde, nem as saberia explicar; ajoelhouse, chorando, aos pés de Tunico, que se affastou d'ella sem a ter ouvido. E o caso é que, quando o criminoso entrava na cadeia da cidade, a Tudinha, rolando num declive por entre os candidos pennachos côr de neve das guabiróôbas floridas, mergulhava pesadamente no ponto mais fundo do rio.
Prologo de um romance À casa de maternidade de Mme. Levy era muito conhecida no Rio de Janeiro. A proprietaria, mulher ganhadora, abundante de carnes que lhe-vestiam o esqueleto em grossos refegos sobrepostos, morava ao fundo, nas dependencias do grande casarão. Tinha um filho só, magro e adunco, em que o typo judaico imprimira traços mais vigorosos. Ella era viuva, esperta e calculista, o que não impedia que tivesse de longe em longe algum rasgo de generosidade, acolhendo qualquer mulher pobre a quem fazia o parto e dava a cama e o caldo. Fallava muito alto, ria com alegria, desprezava as dôres das parturientes, chamando-as de miseravelmente pequeninas. Trabalhava muito, não queria outra
parteira em casa, ia-se contentando com enfermeiras baratas... Uma tarde, acabava ella a sua laranja, ao jantar, confidenciando ao filho o seu projecto dé passar a casa e ir para a França, quando entrou uma enfermeira mulata, na salinha estreita em que os patrões comiam. - Então, como está D. Henriqueta ? perguntou a parteira. - Continúa muito afficta.... - Lá para as dez horas ficará aliviada... - O peior é que a Catharina está tambem com as dores. - Que! a indigente ?! - Sim, senhora. - Diabo de mulher, não podia escolher peior occasião !- Olha... o melhor é reunir as duas no mesmo quarto, o cinco. Eu não pos. so estar ao mesmo tempo em dois logares differentes! D. Henriqueta é rica, mas é sem cerimonia... - Sim, senhora... À enfermeira sahiu, e a parteira descascou pachorrentamente outra laranja.
- - Hoje temos dança... Estou com tanta dôr nos quadris !... O filho não a aconselhou a que chamasse outra parteira; disse com ar ennojado. - Tambem, porque foi acolher uma indigente ?! Meia hora depois, Mme. Levy bamboleava o seu enorme corpo entre as duas camas do quarto numero cinco. O quarto era vasto, com janellas de peitoril. Uma das camas tinha cortinado de filó inglez, grosso e liso; a outra não; era um leito estreito, posto ali às pressas para a indigente. Junto á cama de cortinado, D. Henriqueta chorava, rezando alto, de joelhos. Junto da caminha de ferro, a pobre Catharina aguentava as dores em pé, com as costas achatadas de encontro à parede fria, e as mãos cruzadas sobre o ventre enorme. - Que é isso? Tenha coragem, D. Henriqueta ! disse a parteira, fazendo soar as palavras sonoramente.
- Não tenho nada! saia d'ahi! a senhora não sabe o que eu soffro! - Ora ! não tenho eu um filho ? Enão passam todas as mulheres por isso mesmo ? - Não! isto é castigo! eu vou morrer! eu sei que vou morrer! meréço a morte! -- Qual morrer! veja alli a Catharina como espera com tanta paciencia... castigo o que ! daqui a dias chega o seu marido do Rio Grande e ha de ficar todo babão com o seu bebê! - Qual marido! eu menti! não tenho marido ! eu quero-me confessar, porque vou morrer ! A parteira calou-se, attonita. - Eu tambem já não tenho marido... murmurou a Catharina, queixosamente. Morreu a tres mezes de febre amarella.... - Vê D. Henriqueta? Aquella tambem já não tem marido... - Mas não tem medo! - Tenho medo de não ter leite para criar meu filho!.. - Ouve o que ella diz? e a senhora é
rica, poderá ter uma ama para a sua creança, objectou a parteira. - De que me vale, se o pae me abandonou e eu não tenho coragem de voltar para perto de minha boa mãe ?... - Eu já não tenho mãe, e vi morrer tres filhos! Tenha paciencia... tornou a Catharina, torcendo-se de dores. - Não tenho paciencia! gritou a outra; e calou-se. Eu já não posso ouvil-as! Quero dizer tudo | Peço lhe, Mme. Levy ! se eu morrer, vá a casa dos meys parentes, que me mandaram para aqui... Diga-lhes que escrevam a minha mãe participando a minha morte... mas que não inventem outra causa... tisica, ouviu ? Mme. Levy riu-se e tagarellou, affirmando que ainda haveria de ver a vovô beijar alli mesmo, naquelle quarto, o rosto redondo do netinho. - Minha mãe não me perdoará ! - Todas as mães perdoam, soluçou a Catharina.
- Quando eu sahi de casa, disse que vinha passear e ver o Rio... mas vim para êsconder o meu crime! o meu crime! E os meus parentes, com quem contava, metteramme aqui... para se livrarem de mim.... infames! Todos são falsos! - Quando meu marido morreu, fiquei só no mundo... é preciso não se querer mal a ninguem. Ha sempre quem nos ampare! A parteira zangou-se. D. Heiriqueta cahira em um accesso nervoso, debatendo-se com furia. Só depois de uma hora conseguiram deital-a. Era uma moça formosa, muito delicada e franzina. À enfermeira da casa ajudava a parteira, segurando na doente, que mal podia conter. A Catharina, que tinha, apezar de muito magra e mal tratada, os seus largos quadris de mulher fecunda, mordia em silencio a ponta do lençol, abafando os gritos, já deitada tambem por ordem da parteira. À outra gritava, gritava, segurando-se nervosamente a
enfermeira, maldizendo-se, repetindo a sua historia, desvendando o mysterio de seu amor. A! meia noite, depois de uma lucta tremenda com a natureza brutal, nasceu o filhinho da pobre D. Henriqueta. Mme. Levy levantava-se extenuadissima, com o recem-nascido nos braços; quando a Catharina pediu soccorro, num grito estridulo e doloroso. A enfermeira riu-se. Nunca se vira cousa egual! Antes de acudir à Catharina, Mme Levy enrolou o filho de D. Henriqueta num cobertor, aos pés da cama, e mandou a enfermeira buscar lá fóra um objecto. Depois, gemendo de cansaço, curvcu-se para a indigente. Foi com um movimento de extrema fadiga que a parteira, acabando tambem de fazer o parto da outra, e já extenuada, quasi sem vista, enrolou o filho da indigente no mesmo cobertor vermelho em que já estava a creancinha, e sentou-se um bocado, com as mãos no ar, esperando a enfermeira.
- Ambos rapazes... bem. Ao menos estes não passarão nunca por tão bons bocadinhos. Então, agora está contente? perguntou ella alto, voltando-se para a D. Henriqueta. Deve estar! Eu mesma vou escrever a sua mãe. À senhora é rica, poderá até ir viver com o seu filho no estrangeiro, onde ninguem 'a conheça... e então me dirá se é ou não é feliz, hein ? vamos para Pariz? Verá como aquillo é bom... Olhe, o que não é bom, é o cansaço que eu tenho, eston morta de dôres! Quer que eu escreva a sua mãe? Que me diz? A moça não respondeu. - Dorme? | Mme. Levy curvon-se e escutou. Não lhe ouvindo a respiração, approximou uma vela da cara da moça. Estava morta. - Ora esta! O corpo delgado e branco da infeliz repousava serenamente. Porque e como se tinha escapado aqnella vida ? Mme. Levy chamou logo gente e exigiu medicos. Queria que a esclarecessem. O parto tinha sido difficil, mas natural. Houve um
grande borborinho. A enfermeira, num canto lavava as duas criancinhas na mesma agua, ajudada por uma preta, misturando as camisolas e os cueiros. Mme. Levy estava louca de raiva contra aquelle caso esquisito, que não sabia explicar! Entrava e sahia do quarto, fallava alto, queria passar a casa a outra tola, que se regalasse com aquellas scenas! morrer-lhe uma breatura nas mãos! sem causa... sem nada! No meio daquelle turbilhão de palavras, ouviu-se a voz triste da indigente Catharina rezar pela morta uma Ave Maria e dizer depois : - Mme. Levy ?... mostre-me o meu filho, sim ? - Seu filho? mas... A parteira parou de repente e poz-se a olhar para as crianças. Houve um instante de silencio. - Então, Mme. Levy ? - As crianças estão promptas, disse a enfermeira, approximando-se.
- Mostre-me o meu! supplicou a Catharinal... Qual é o meu, Mme. Levy?! - O seu... espere... - À senhora vacilla ? - Sim .... deixe-me reparar bem... e, depois de uma pausa, disse : qual destes será o della ? À enfermeira encolheu os hombros. - Meu Deus! eu quero o meu filho! o meu filho! Catharina quiz levantar-se e exclamava sempre, com as mãos postas: - O meu filho! o meu filho! eu quero o meu filho! Dêm-me o meu filho! --- Perdoe-me, mulher; mas eu estava tão cançada... espere... - O meu filho! Pelo amor de Deus, madame, lembre-se ! - Espere... já Jhe disse !... Catharina tinha as mãos crispadas, e olhava como doida para as duas creanças redondinhas e inertes. A parteira, por mais esforços que fizesse, não distinguia as creanças. Eram ambas morenas, ambas cabelludi
nhas, ambas rapazes, ambas com as feições inchadas e confundiveis dos recem-nascidos, Por fim, para acabar com aquillo, madame Levy resolveu-se a apontar um dos pequeninos. - O sau... é este. Mas a pobre Catharina adivinhou a resolução da parteira. O eoração saltava-lhe no peito. - A senhora mente... eu bem vejo que não sabe qual é o meu... e eu quero o meu... e eu quero o meu.. o meu... o meu... ! À scena Yprolongou-se horrivelmente ; mostraram por fim as duas creanças á Catharina, dizendo-lhe: “ Veja para qual a impelle o Seu coração! .,, O olhar da infeliz ia desvairado, de uma creança para a outra. O suor humedecia-lhe a testa, correndo em gottas frias; ouvia-se-lhe o coração bater no peito magro. Não conhecia o filho. A enfermeira lembrou então com a bru. talidade de sua ignorancia: - Tire à sorte... todos somos eguaes !
- Não! eu quero o meu filho? - Então decida-se!... para se mandar o outro para a roda... é tarde... vamos! A indigente revolveu-se com desespero ; as fontes latejavam-lhe ; ella pasmou depois o olhar, como perscrutando o séu tristé e desemparado futuro... pobre... fraca e viuva... - Então ? tornou a parteira, já zangada qual das duas creanças toma? Decida-se! - Às duas... murmurou por fim Catharina com um suspiro, abrindo os braços magros.
E, RIIND RILMB GENRE o É iq EH é lr G lc Ê SM pr EN SENSE UTI HUNT Ch VD VOS GAS Ch L'embarras du chois Estou correcta... unhas polidas, cabello frisado... dentes bem claros... deixa-me agora vestir o meu vestido de rendas brancas... O de rendas ou o azul? Alberto gosta de me ver de azul... mas... não; eu hoje prefiro o de rendas; a renda é o que, decididamente, a moda inventou de mais elegante e seductor para as nossas toilettes.. Rendas brancas ou rendas negras, que coisa ha mais distincta ? E, é verdade, por que não me hei de vestir de preto ? Tenho ali aquelle bello ramo de cravos vermelhos para Oo cinto... mas o preto é luctuoso e eu estou contente! Depois... Alberto não gosta de me ver de escuro... Vá lá, visto mesmo o... realmente não sei. qual me irá melhor !... Carolina!
- À senhora: chamou ? - Sim; olha cá, qual é o vestido que na tua opinião me vae melhor ? - Oh! minha senhora, eu não sei... todos lhe vão bem. - Não é isso que eu pergunto, mas qual entre todos é mais elegante ? - O encarnado vae-lhe a matar... - Não, não! o encarnado é muito vistoso... tem uma côr grosseira... - Então o azul! - O azul 2... - Se a senhora quer que lhe falle com franqueza, eu ainda gosto: mais do cinzento. - Esse está muito usado. - Então o cor de rosa. - E” improprio... - O roxo? - Tem as mangas muito estreitas ! - Nesse caso... sô se a senhora vestisse o bordado. - Qual é? - O que tem muitos vidrilhos. - Ah! não! é muito pesado.
- Pois não sei qual ha de ser... E' verdade! o preto! - O preto é triste. O dia estã lindissimo e quente. Quero um vestido leve: Não te lembras de outro ? - Lembrei-me mesmo neste momento do de xadrez ! - Ora! um vestido de viagem ! - Sim... mas é bonito. - Outro! - O havana. - Não me falles em vestidos de lã! - Ah! a senhora quer de seda!.. O riscado? - Não! - O creme? - Não! - Eu... sim; elles são tantos ! - Por que não citaste o branco de renda? - E' exacto. E' verdade que... - Que, o que? - Que é.... que não tem lá muita graça... E depois, não sei, parece-ne improprio.... a senhora é viuva...
- Basta! não lhe perguntei isso; vá-se embora. Espere! veja que horas são. - Quatro e meia. - Tão tarde !.... Chegue depressa à casa de Mme. Clemence, e diga-lhe que venha immediatamente fallar-me. Bem, enquanto a criada vai chamar a modista, deixa-me escrever ao Alberto. “ Meu Alberto - Uma enxaqueca importuna obriga-me a estar hoje só: venha jantar commigo depois d' amanhã. - - Sua, Mathulde. ,, Maldito dia! D'aqui a uma hora eu estaria tão alegre ao lado delle! A que miseria cheguei... não ter um vestido que vestir! Aquella idiota da Carolina acha desgracioso o de rendas... Por que hei de eu dar importancia à opinião de uma criada ?! estupida !o que é certo, é que o vestido é lindo! diz a tola que não é proprio... e é talvez por isso que eu não o visto. Ha singulares approximações, muitas vezes, dos espiritos brutos com
os espiritos finos. Pôde ser que Alberto não goste tambem de me ver com vestido branCo..... todo branco! E' a côr das noivas... das virgens... a côr immaculada, e eu sou viuva ! Sou viuva, mas tenho vinte annos, e não amei nunca o homem com quem me casaram... Esta formula de: “ com quem me casaram, é já muito gasta... terei o cuidado de não dizer assim deante de Alberto. A verdade é que, só agora é que eu sinto uma alvorada no meu coração, é que raiou no meu peito o bemdicto sol do amor! Sou viuva! mas, que importa ? sou moça, amo, sou feliz e gosto de me fazer bonita... Depois, não quero ser hypocrita; acabou-se! (Guardo as cores sombrias para quando tiver setenta annos. Ãos vinte, quando se é rica e venturosa, devemos mostrar na toilette as cores que temos n'alma ! Estou farta de ouvir que: a obrigação da mulker na sociedade é ser bella. Bella sem affectação.... pelo menos apparentemente. Ora eu tenho olhos brilhantes, faces rosadas, ca
bellos côr de ouro, estou na plena juventude, e só porque sou viuva hei de andar de negro como os corvos, eu que amo as florese a volubilidade como os irisados colibris ?! O maçador do meu padrinho dizia sempre na sua abominavel rhetorica : - “ A sociedade ! palavra terrivel e complexa, onda negra feita de preconceitos, odios e invejas, que anda a rolar por este mundo, em toda a parte egual, sem lavar nunca os corações viciosos e ennodoando sempre as reputações innocentes ! , Dizia-me isto aconselhando-me todavia a que a respeitasse. Mas meu padrinho morreu, e hei de eu, que detesto a tal sociedade, pertencer-lhe exclusivamente, dar-lhe satisfação dos minimos actos da minha vida, pol-a ao corrente do que vejo, do que penso, do que faço?! Hei de, para satisfazel-a, enfronhar-mo sempre em preto roixo ou marron, usar chapéos modestos, de cores tristes? E será com isso que lhe hei de grangear atterções e respeito? Uma toilette clara, um chapéo de fórma audaciosa bastarão para quebrar-me o pedestal
em que a honra da minha familia me collocou? E serei eu tão tola, que me curve a essas miudezas e me submetta a tão parvos preconceitos? Por Deus; não! A moda foi inventada para o capricho das mulheres, e eu sou caprichosa! A minha tia Gertrndes dizia que eu era a futilidade ligada à indecisão! Mas a tia Gertrudes era uma solteirona, chegada ao tempo em que o methodo e a commodidade constituem os unicos prazeres da vida! Por isso, vi-a sempre usar as. mesmas cores e os mesmos chales; só para não se dar ao trabalho de escolher outros ! Pobre tia! Censurava-me por eu gostar de alcaparras, espargos e trufas, precisamente porque o seu estomago doente não lhe permittia comel-as tambem ! Oh! não quero chegar a velha. A velhice é uma degradação, desde que não nos fique um pouco de espirito! A tia Gertrudes, coitada, não lhe ficara nem siquer a bondade, que é tambem, depois do espirito, o unico perfume que nos póde attrahir para os velhos! Ella não sabir perdoar !
Neste mundo quem não sabe perdoar não pode ser bem querido; todos peccamos, precisamos todós de indulgencia! Ah! tia Gertrudes! se do outro mundo tu me vês, fica sabendo que a indecisão passou, desde que se não trate de escolher toilette para agradar a Alberto; mas, que o que tu denominavas futilidade.... isso quero eu commigo, enquanto tiver dinheiro e amor aos trapos, como intitulavas os meus mais ricos vestidos! Sinto passos... lá vem a Clemence! - Obrigada por ter vindo tão promptamente: mandei chamal-a para perguntar-lhe se me póde fazer um vestido para amanhã... - Oh! oui, de que côr e que étoffe? - Côr e fazenda novas! - Verde ? - Já tenho. - Violet? - Já tenho: - Torre Eiffel? - Já tenho, - Chaudron ? - Já tenho !
- Cizento ? - Já tenho! Tenho de todas as côres e de todos os feitios; quero que me invente uma coisa nova completamente nova! que seja eu a primeira a usar... coômprehendeu bem ? - Parfaitement ! ah! eu servirei madame! Vestido de tule heliotrope, enfeitado de fitinhas estreitas, verdes..... - Que disparete ! - Non gosta? ah! est trés gentil ! - Deus meu! não me comprehendeu ! Mme. Clemence! Eu tenho o espirito insaciavel em questões de modas ! Tudo que haja ha dois dias já não me serve! Uma toilette original, Mme. Clemence ! uma toilette nova, novissima: Invente! - Em que genero quer ? - Ora, em que genero! - Bien ! je sais! amanhã as quatro horas du sotr eu mando trazer seu vestido Mme. ha de ficar trés contente ! au revoir ! - Mme. Clemence, adeus!
- Carolina! - Minha senhora ? - Que horas são ? - Quatro. - Mme. Clemence ainda não mandou o vestido ? - Acaba de chegar. - Dá-m'o cá... já O viste? - Já... - Que côr tem? - Tem uma côr assim... como a de seus cabellos ! - E' loiro?! - E... eu não sei... veja-o, minha senhora, olhe, aqui o tem! - Decididamente a Clemence esta doida! Que uniformidade horrorosa! Tens razão, Carolina, é quasi da côr dos meus cabellos!
Dá-me o espelho! Perfeitamente! é de um amarello cendré !..... Onde foi o diabo da mulher inventar semelhante côr !? - Pois olhe! hontem, quando a senhcra lhe disse que inventasse ella uma côr, eu julguei isso impossivel! O que as francezas não façam, é certo que ninguem mais tará! - Cala-te ! Devolve-lhe o vestido... está muito carregado ! Da-me agora o meu derendas, o branco, e o adereço de perolas... As rendas e as perolas são, decididamente, o que a moda inventou de mais seductoramente galante para o nosso uso! - Aqui estã tudo, minha senhora ! Mando então o outro vestido à modista ? - Não, não, deixa-o; os vestidos nunca são demais
Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.