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Memórias de Martha

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Memórias de Martha

Capítulo 2 · Memórias de Martha

Capítulo II

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Capítulo II

Dias depois entrei para a escola publica da minha freguezia. Na vespera da entrada, participei a Carolina e às irmãs que ia para o collegio, e no dia seguinte, logo de manhã, foram para a porta ver-me com o meu vestido encarnado, a caminho da aula. Meu vestido encarnado! então não me pesava elle nem me queimava o corpo, como dias antes! ao contrario, fazia-me orgulhosa, superior! Olhei altivamente para minhas companheiras de miseria, sorrindo-me, como sorrira a Lucinda quando a meu lado, em frente ao espelho... As primeiras horas foram amargas, na classe. Cheguei a chorar ; sentia-me triste; no

meio de tanta gente experimentava uma sensação dolorosa de isolamento e saudade. Acostumei-me por fim, e, depois de um mez, aquilio até me divertia. Dediquei-me principalmente a uma menina mulata, que, mais adiantada do que eu, tinha a paciencia de ensinar-me as lições. Ficava a meu lado; era feia, escura, marcada de bexigas, com olhos pequeninos e amortecidos, o cabello muito encaracolado e curto. Chamava-se Mathilde, teria doze annos e estava havia tres na escola; era pouco intelligente, e não passava do Segundo livro de leitura, por mais esforços que a professora fizesse. Eu estimava-a muito. Ella fazia-me repetir as lettras, e eram devidos à sua condescendencia os meus pequenos triumphos. Um dia, uma condiscipula nossa fez d'ella uma denuncia horrorosa, affirmando tel-a visto roubar, por varias vezes, ora o lapis de uma, ora uma fructa ou doce do Inch de outras, ora dedaes, dinheiro, linhas, etc. O tacto é que se sumiam ha muito

os objectos, sem que se pudesse descobrir nem mesmo suspeitar como. Interrogada pela professora, Mathilde negou. Nós outras ouviamos em silencio, commovidas e curiosas. Nesse dia desapparecêra um par de sapatinhos de lã escarlates, feitos pela adjuncta. Revistada a caixa de Mathilde; de entre os livros ennodoados e já velhos, sairam elles, com seus lacinhos de cordão e suas borlas a bailar de um lado para outro. Uma exclamação de espanto encheua aula: todas as meninas, a um tempo, murmuraram: - Ah! Mathilde não se ajoelhou, nem vacillou siquer; de pé, com a cabeça baixa, esperou a condemnação. À mestra fez-lhe um grande discurso, flechou-a de conselhos e de humilhações: pintou-lhe o quadro da desestima de suas companheiras, que só lke apertariam a mão se a vissem rehabilitada. Mathilde ouviu tudo sem pestanejar, depois foi de castigo para o canto da sala, em pé, exposta a todas as vistas.

Pela primeira vez, eu não soube a lição; faltara-me a pobre pequena, cuja persistencia em ensinar-me não diminuira nunca. No entanto. no entanto, eu, como todasas outras, seguindo-lhes o exemplo, voltei as costas à desgraçada mulatinha e nunca mais lhe dirigi uma unica palavra ! Isolada, Mathilde tornouse aggressiva, inaturavel, e foi de tal excesso em sua raiva e mão modo que a expulsaram do collegio. Vi-a sair, sem -que me viessem as lagrimas aos olhos, a mim, que lhe devia tanto; e agora, no fim de trinta e tantos annos sinto na minha consciencia como uma grande nodoa inperecivel! Substitui a Mathilde, na grande convivencia collegial, por Clara Sylvestre. À minha “nova amiga não me ensinava as lições, mas era alegre, bonita e forte; repartia commigo o seu lunch e eu nãv a deixava um só instante. Era ella quem aparava o meu lapis, que me dava os mais lindos chromos e santinhos para os livros, quem me ageitava O cabello na hora do recreio, uma solicitude maternal. Era uma das meninas mais aleiadas.

do collegio, a mais instinctivamente coquette. Na bolsa dos livros levava sempre um espelho pequeno e uma boceta de pó de arroz quasi do tamanho de uma noz. Eu invejava aquillo e punha-me então a descreveras meias de seda, os bibes bordados, e a pompa de Mile. Rosa, inventando intimidades entre mim e a Lucinda. Uma sombra terrivel ennegrecia o olhar docemente azul de Clara Sylvestre, fitando rapidamente o seu vestidinho de chita e as meias de algodão. Ter muito luxo era o seu sonho. Mas aquillo passava depressa, e na sua bondade natural ella vasavá no lenço das outras um pouco de agua-florida trazida num vidrinho, do lavatorio da mãe. De Carolina e dos irmãos ranhosos não fallei nunca no collegio. Referir-me às filhas da vizinha fôra. macular a minha reputação. No fundo de minha consciencia, porém, não se apagara a scena humilhante em que a bondosa e serena Carolina soffrera castigos por me ter dado com que matar a fome.

Minha mãe vigiava anciosa os meus progressos; fazia-me repetir muitas vezes a licção e beijava-me com alegria quando a mestra lhe dizia que eu era intelligente. Ao fim de dois annos fiz exame com desembaraço e firmeza: ficaram attonitas as professoras, que me sabiaan timida e nervosa. Foi um dia de triumpho para mim, que nunca me vira tão bonita, com o cabello crespo a papelotes, o vestido branco transparente e a fita azul do uniforme a tiracollo. Aquelle vestido, aquella fita, quantas horas de trabalho custaram à minha pobre mãe! Hoje vejoos atravez das lagrimas de saudade e reconhecimento ; então via-os entre os risos da vaidade e da ignorancia a ignorancia natural na despreoccupação da meninice! As ferias! todas as minhas condiscipulas fallavam com enthusiasmo nellas ! uma ia para tóra, passal-as com uma tia, no campo ; outras, com umas amigas alegres e ruidosas; outra, com uma irmã casada que passeava muito. E faziam projectos, rindo com prazer antecipado.

Eu. eu sentia-me triste, como se qualquer d'ellas tivesse a esperal-a uns braços mais carinhosos do que os que me esperavam a mim! Temia as longas horas soturnas na alcova humida e escura, onde desde madrugada até a noite, minha mãe trabalhava sem interrupção. Que distracções, que alegria podia prometter-me aquelle quadro constante: uma mulher magra, pallida, curvada sobre a tabua, engommando cuidadosamente as roupas dos freguezes exigentes e severos? Às aves não iam cantar alli, como cantavam no jardim do collegio; o sol não entrava arrojado e luminoso pela janella do ensombrado quarto do cortiço, como pelas de moldura envernisada da aula; e, sobretudo, não teria companheiras risonhas e turbulentas: havia de supportar as brutalidades dos visinhos immundos, e para entreter-me, brincaria de vez em quando com a desgraçada bruxa que fôra outr ora adorada por mim, mas que votei ao desprezo desde que vi Mile. Rosa.

Emmagreci durante o tempo das férias; faltava-me o passeio obrigado, a convivencia alegre de outras crianças, as correrias do recreio, o barulho, a vida, a luz! Tornei-me lymphatica, tinha o pescoço cheio de caroços e os beiços esbranquiçados, veiu o fastio, o somno e a doença. Passava as tardes em casa da visinha, brincando com a Rita e o Maneco, emquanto a Carolina trabalhava. A pobre sotfria calada as rebentinas da mãe, estava sempre magra, espigada, e no seu rosto oval e sardento, os olhos claros derramavam uma tristeza impressionadora. Era a doença, era o cançaço, porque ella estupidificada pelo meio, nem tinha consciencia do soffrimento. O Maneco cheirava sempre a alcool, tinha a mania de dar beliscões finissimos que arrancavam bocadinhos de pelle à gente. Eu raramente via O pae, que sahia de madrugada para o trabalho e só voltava à noite. Aquella ausencia ajudava a mergulhar o pequeno no vicio. Era o vendeiro da esquina, o Seu Joaquim, quem, para rir, fôra ensinando o rapaz a beber. Só a Rita sabia rir

alli como criança, mas isso não me bastava, era muito mais nova do que eu, divertia-se com coisas que me enfastiavam, e não sabia acompanhar-me nas que me divertiam. Eu às vezes sahia enxotada pela ilhoa, que rogava pragas a todos, confundindo-me com os filhos. Com medo de que minha mãe não me deixasse tornar áquella casa terrivel, calava-me e no dia seguinte lá voltava, attrahida pela convivencia das outras crianças, farta, intumescida dy silencio e da tristeza do meu quarto. Uma vez, a ilhoa chamon-me, tinha um bom ar alegre no sen comprido rosto ennegrecido pelo sol. --Oh, senhora Martha! griton elia de fóra a minha mãe, deixe cá vir a sua pequena um nadinha, sim ? Fui: tinham-lhe dado uns doces em casa de uma fregueza e ella repartia-os com a criançada. A sua voz forte, de pronuncia cantarolada pospontada de w w francezes, nunca me pareceu menos rude. lIilla estava em pé no meio do quarto, perto da mesa; a

Rita segurava-se-lhe as saias e a Carolina sentada no chão, com a costura cahida nos joelhos, levantava para a mãe o seu rosto comprido de queixo fino. O Lucas, perto da porta, empurrava com o dedo a mãe benta que já não lhe cabia na bocca, e de bochechas inchadas olhava ainda cobiçosamente para as mãos da ilhoa. Recebi o meu quinhão e sentei-me a comel-o perto da Carolina. -E o Manéco? indagou-a mãe. -Inda não veiu... - Mandaste- o fóra ? - Não senhora... -O demo do rapaz! Deixa-se-lhe aqui o seu bocadinho... O quarto da ilhoa era dos menos sujos do cortiço. Apezar da criançada, conseguiam ter as coisas mais ou menos em ordem, À Carolina não tinha as mãos paradas nem um instante, era a responsavel pela travessura e o desmazelo dos outros. A parede era toda coberta com gravuras de jornaes e chromos comprados aos turcos.

Havia uma divisão de tabique separando o quarto de dormir, e ao tundo, em frente à porta da rua tres prateleiras de pinho, cobertas com uma cortina de chita vermelha, guardavam a loiça. -O Rita, vae vêr se teu irmão está na venda. (Querem vêr que o diabo do Joaquim está a dar cachaça ao pequeno ! -A Rita sahiu, mas voltou depressa. -Maneco já vem ahi... disse ella a mãe, olhando para traz com modo curioso. Momentos depois a figura magra do Manuel balançava-se na soleira da porta. Vinha livido, com os braços pendentes, as orelhas despregadas do craneo. Carolina teve um sobresalto, poz-se de joelhos, a mãe ficou aterrada, à espera, elle entrou aos avanços e recúos, engrolando palavras, curvando muito os joelhos, com o corpo bambo. Toda a serenidade da physionomia da ilhoa fugiu rapida, subitamente. Olhava para o filho attonita, esfarelando entre os grossos e raivosos dedos os ultimos doces.

Elle ria, ria baiso fincando o queixo no peito da camisa de chita. A mãe puxou-o num repellão, elle vergou pela cintura mas não cahiu, amparado pelos pulsos e os joelhos della. - Burro ! gritava a ilhoa com o pescoço congestionado, burro! és a minha vergonha! preferia que me tivesses entrado morto, pela porta a dentro! E dava-lhe soccos. O Manéco rolou por fim para o chão, a mãe possessa, batia-lhe sempre, sem attender à Carolina que supplicava, já de pé, com a brancura pallida do linho nas faces magras - Mamãe... mamãe! O corpo molle do Manéco cahiu estendido de bruços no assoalho, a mãe vociferando nomes bateu-lhe com o pé, como se tivesse dado numa coisa morta; depois, voltando-se agachou-se num canto, e dalli contemplava o. filho, silenciosa, com as faces apertadas entre as mãos grosseiras e as lagrimas rolando-lhe pela cara.

A Carolina estava tremula, e a Rita espantada, olhava com medo para tudo aquillo. O Manéco bebia sempre, mas não chegára nunca áquelle estedo. O que atormentava a mãe era a lembrança de que esse vicio fôra inoculado no filho pelo vendeiro bruto, que se divertia embriagando as crianças... - Não sei o que tenho que não dou cabo daquelle maldicto Joaquim! Foi aquelle diabo que perdeu o Manéco... Oh, heide vingar-me... Isto dizia entre dentes, raivosamente. - Mamãe... murmuron a Carolina procurando acalmal-a. - Cala-te! E depois de uma pausa e ainda voltada para a filha mais velha: - Teu avô.. o pae de teu pae, que lá o meu era um santinho, morreu cozido das monas que tomava. Sempre tive nojo do velho! Graças a Deus teu pas não tem o vicio; e vae o rapaz sahe-me assim! Credo! que inferno ! O Manéco roncou, surda e arrastadamente ; no rosto bronzeado da mãe o desprezo e a

dôr juntaram-se numa expressão terrivel. Então a Carolina levantou-se, pegou com difficuldade no irmão, quasi do tamanho della, e levou-o ao collo para dentro. Através do tabique ouvia-se o rosnar delle e o choro baixinho da irmã. A Rita já tinha sustido por muito tempo a sua alegria vendo desapparecer atraz da porta as pernas finissimas do Maneco, começou a rir alto: a mãe, furiosa, fez-lhe um gesto de arremesso, ella calou-se atemorisada, e eu fugi. Uma hora depois rebentava o barulho na casa da visinha, o marido voltava do trabalho, a discussão começava, como todos os dias, mas desta vez peior, mais prolongada. Minha mãe fechou a janella e a porta, e mandou-me dormir.

Memórias de Martha

Sinopse

Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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