Universo da obra
Universo da obra
Fizemos a mudança. Agora entrava sem trouxidão a luz do dia na nossa morada alegre, com um bello cheiro a nova, toda envernizada e limpa. A mobilia destacava-se de velha, rara e feia naquelle ninho risonho e fresco; mas... ora! isso a pouco e pouco se iria arranjando tambem. Minha mãe trabalhava sempre ; assim era preciso para sustentar-nos. À nossa vida não decorria num scenario tão lugubre, mas estava longe de poder ser considerada feliz. Que desejava eu até ahi? Um cantinho independente e asseiado. Tinha-o; que ambicionaria mais? A ventura, que anda sempre arredia dos
que nasceram sob uma estrella como a que me illuninou desde os primeiros passos. Ha sempre uma aspiração no fundo da noss'alma. En sentia-a. Ao principio indeterminada, vaga, doce, como a dubia claridade violacea do amanhecer; mas o colorido suave cresceu, cresceu gradualmente até ao afogueado brilho do incendio terrivel e implacavelmente consumidor. | Eu amava! Amava aquelle rapaz elegante que me plantou no coração um sentimento desconhecido e cruel! Passaram dias e mezes e nunca mais o encontrei. Foi porque me viu entrar para o cortiço, explicava-me eu... Esse amor parecerá absurdo a quem não tiver, como eu tive sempre, a preoccupação da fealdade; a quem não se sentir isolada na vida, longe de todos os primores da graça, da distincção ou da intelligencia. Eu, alem de feia, era inhabilidosa Nunca soube fazer um laço, cortar um vestido, pregar uma flor. A pequenez dos meus olhos de um verde sujo, a côr trigueira das minhas faces de maçãs salientes, a longura
dos meus braços finos e o modo desengraçado do meu andar, que eu nunca soube corrigir, asseguravam-me que ninguem pousaria em mim a vista com prazer; que eu cortaria a vida, de ponta a ponta, sem deter os passos de quem quer que fosse num movimento espontaneo de sympathia.... Convenço-me de que, naquelle rapaz eu não amei o homem: amei o Amor, o meu triumpho, a hypothese de ser amada, -que é o melhor sonho de todas as mulheres, mesmo d'aquellas que: brilham, que são tormosas, que fascinam.... Amei o Amor, e vivi embalada nesse idyllio sem que os meus actos regulares e serenos trahissem as minhas commoções. Continuei sempre na mesma escola; era a primeira a entrar e a ultima a sair: trabalhava com animo, com afinco. Estudava muito, porque a minha intelligencia não me permittia o mais pequeno descuido: comprehendi que só com muita applicação alcançaria o meu fito; e lembrava-me, attonita, do que a mestra dissera a minha mãe quando fiz o meu (6)
primeiro exame: Tem muito talento!... Engano; o que eu tive sempre, isso sim, foi muito boa vontade. Insinuei-me. A mestra apontava-me como exemplo ás alumnas e ás adjunctas. Aquilo incommodava-me ; suscitei invejasitas e deram-me maliciosamente a alcunha de - a santinha. - Fingi ignorar tudo isso e prosegui na mesma placidez e assiduidade. Assim cheguei à edade de vinte annos, passando o melhor tempo da vida a estudar para ensinar, ou curvada sobre a costura, ao lado de minha mãe, que enfraquecia muito é trabalhava sempre... Eu não tinha amigas intimas, nem amores; não dançava *nunca, não lia novellas.... só no fundo da minh” alma, se espelhava, como a luz crepuscular num lago, o luar saudoso e brando que ia a pouco é pouco esmorecendo, vestigio deixado pela claridade intensa d'aquelles olhos que tanto mal me fizeram e que tão vagarosamente se me iam apagando da memoria! A minha mãe inquietava-se com o meu estado e comprehendia-o. Porisso pediu à mes
tra que instasse commigo para jantar, uma ou outra vez, com ella e -que nas noites de reunião tivesse a bondade de se lembrar de mim. A mestra prometteu satisfazel-a e cumpriu a promessa, deixando-me ambas ignorante d'essa combinação. Dias depois disse-me a directora: - Venha hoje passar a noite comnosco, Martha: reúno alguns amigos e não quero que falte. Acceitei, embaraçada, o convite. Não transpuzera nunca os humbraes das portas interiores. De toda a casa conhecia o que as alumnas conheciam. À mestra era bondosa mas impunha-se ao respeito e evitava intimidades. Cumpria rigorosamente os seus deveres e não perdoava a quem não fizesse 0 mesmo. Ensinara-me desde o A BC e tinha porisso grande imperio sobre mim. Empenhara-se na minha carreira; fallara aos examinadores a meu respeito; protegiame, levando-me à tarde à Escola, como se acompanhasse uma filha, com a melhor vontade; e apezar de tudo não me convidara
nunca para ficar a seu lado, contendo-me numa certa reserva e distancia. Aquella convite espantou-me,mas prometti ir, como se realmente pudesse ser notada a minha falta! A'noite vesti o meu melhor vestido um de linho azul, comprado com o producto do crochet, feito no recreio das meninas; puz no pescoço uma gravata de cassa branca, no peito uma rosa perfumada e fresca e dirigi-me, acompanhada até á porta pela minha santa mãe, que prometteu voltar à buscar-me às onze horas da noite, dizendo que me esperaria em baixo, na sala da entrada, onde a não vissem senão os criados. Aquillo entristeceu-me, mas como não ser assim, se a coitada não tinha um vestido apresentavel ? Subi sosinha a grande escada da casa da professora. Ia envergonhada e tremula, sem saber porque; no meio da escada tive vontade de voltar para traz, de correr para minha mãe, Nas reuniões é sempre o momento da
entrada o mais custoso para as raparigas timidas e inexperientes, como eu. Depois, lá dentro, confunde-se a gente com a multidão, e sente prazer nisso. Cheguei acima a uma saleta de espera, illuminada por um lampeão pendente, de vidro fosco. Atraz das cortinas, numa janella sobre o jardim, conversavam alto, rindo, alguns rapazes. Parei interdicta; para que lado deveria seguir? Da esquerda e da direita vinham rumores de vozes e de passos... um dos rapazes, percebendo a minha hesitação, veiu offerecerme o braço e levou-me pelo corredor até ao toilette. Entrei, procurei a minha mestra ; não estava alli; sentei-me a um canto e puz-me a olhar para tudo. Muitas senhoras, nóvas quasi todas, vestidas de claro, com braços nús, mangas de renda, grandes bouquets de flores, na cinta,ou no peito. Uma em frente ao espelho, arripiava o cabello fazendo-o mais crespo; outra passava o pompon de pó de arroz nas faces e no
collo; outra pregava alfinetes num bouquet de cravos amarellos posto artisticamente no canto do carrê do corpinho; outras conversavam alto, abrindo e fechando os leques, como grandes borboletas de àzas irrequietas; todas coradas, risonhas, elegantes, e felizes. Vendoas dizia eu commigo : - À mocidade é isto! E a alegria, o goso, a belleza, o conjuncto de todas as primicias ideaes que pôde ter a vida! Juventude! não sou digna de ti! A's minhas reflexões respondeu lá fóra a musica. O quarto de toilette ficou depressa vazio; foram todas dançar. Fiquei eu, sentada no mesmo canto, encolhidamente. Observei o que me rodeava, as paredes forradas de papel côr de rosa assetinado, com filetes doirados; a mobilia austriaca, coberta com rendas, as mesmas que eu ajudara a fazer na aula; o tapete de rosas de lã, em que eu trabalhara tambem e que alli estava perto do sofá; o grande toucador cheio de objectos de phantasia, vidros de essencias e ramos de flores. Levantei-me e dirigi-me para o espelho.
Que differença entre mim e as outras todas! Subitamente lembrei-me de Lucinda e voltei depressa as costas para o crystal puro em que se refletia a minha pobre imagem. Como ha doze annos, via-me humilhada, feia. Tinha o cabello liso, entrançado na nuca, à Santa Catharina; o vestido simples, largo no corpo, as mangas muito compridas; o rosto lustroso sem aquella côr suave, aquelle avelludado doce do pó de arroz. Tornei silenciosa para a mesma cadeira, sentando-me triste e disilludida. Minutos depois correram o reposteiro; ergui a cabeça e vi deante de mim a dona da casa. Levantei-me respeitosamente. Beijoume, e passando-me o braço pela cintura levou-me para a sala. Quiz resistir, balbuciei qualquer coisa que ella não percebeu, e acheime no salão. A mestra ria-se, parecia outra, mostravase jovial, alegre, adoravel. Pegou-me na mão repousando-a sobre a seda côr de ameixa do seu vestido, de uma maneira protectora e meiga.
Contou-me que era dia dos annos do marido, o Sr. Jeronymo de Andrade, e que uns collegas seus, empregados da mesma secretaria, tinham-lhe feito uma sorpreza, indo em commissão levar-lhe um busto em bronze do pae, um velho de fronte serena e altiva. - O meu sogro, dizia ella, tinha um coração de ouro e era o que se pode chamar um homem bellissimo. Coitado, foi infeliz! Morreu na guerra deixando viuva e doze filhos pobres! Os dois mais velhos tinham ido com elle, que já era então coronel. Quando minha sogra os viu voltar sem o pae ficou como uma doida, coitadinha! Olhe: ella lá está; é aquella velhinha de preto com rendas. na cabeça... Chorou muito ao ouvir o discurso do Silva e Souza que foi quem fez a entrega do busto... tenho realmente pena que você não tivesse vindo mais cedo ;assim teria presenciado essa scena, na verdade commovedora. O Silva é aquelle rapaz de barba preta à franceza, que está conversando com a se
nhora ao lado, a de côr de violeta... é minha cunhada, mulher de um advogado, o Dr. Torres... Vê aquellas tres meninas? são de um outro cunhado meu, medico ; tem quatro filhas, cada qual mais bonita.... Vê aquella de côr de rosa, perto da janella ? - Sim... a que está com uma ventarola de pennas.... - Exactamente. É minha afilhada, Clothilde; tem uma esmeradissima educação e é muito boa, um anjo! Apresentou-me depois a outra sobrinha, a Leonor; cedeu-lhe o logar e afastou-se para differente grupo. A minha nova companheira era deliciosamante delicada, muito alva, muito loira, de olhos rasgados, humidos, d'um azul escuro, abysmal; cintura fina, expressão angelica e vaporosa. Trajava de branco, como uma noiva, e engrinaldava-lhe a cabeça luminosa, uma haste flexivel de jasmins alvissimos.
Conversou amavelmente commigo, até que a vieram buscar para a dança. Sentaram-se pessoas indiferentes a meu lado. Uma formosa menina. morena que os rapazes rodeavam conversando lisongeiramente... Organizaram uns lanceiros, e faltava numa roda um par. À dona da casa lembrou-se de mim e veiu buscar-me, apresentando-me um velho conselheiro que fôra roubar à mesa do jogo. Estremeci de medo. Disse-lhe que não. sabia.... que não podia.... que me achava doente.... - Não faz mal ! estamos em familia .... o conselheiro tera a bondade de guial-a. - Mas .... - Não temos mas. Va lá, é preciso que danse, uma vez é a primeira. O conselheiro tinha um sorriso anarello, frio, embirrativo. Não estava disposto, resolvera-se a dansar por obedecer à intimação. Rompeu a musica; fui, como para um sacrificio, para o meio da sala. Experimentava
um mal-estar terrivel, percorriam-me a espinha uns arrepios de frio pronunciadores de febre. Os vis-á-vis, sorriam-se com discrição ; eu empalledecia e corava simultaneamente : o conselheiro dançava evidentemente aborrecido. A minha tortura prolongon-se e cada vez a mais, à proporção que se complicava o desenho intrincado da quadrilha. Querendo ir para a esquerda ia para a direita; voltava-me indecisa e reparava que se riam dos meus enganos, da minha desastrada gaucherie. Logo que vibrou o ultimo acorde levoume o conselheiro quasi apressadamente para a primeira cadeira vazia que viu, e sumiu-se no longo corredor, em direcção à saleta do Jogo. Serviram o chá. Tirei d'uma bandeja de doces umas pastilhas enfeitadas e guardei-as na algibeira, para leval-as a minha mãe. Quando levantei a cabeça notei que uns rapazes me olhavam desdenhosamente, sorrindo do meu movimento. Baixei os olhos, vomprehendendo que
praticara uma grande asneira, já então irremediavel; nisso ouvi uma senhora edosa perguntar distrahidamente ao marido : - Que horas são? - Duas, respondeu elle com todo o descanço e serenidade. Estremeci. Duas horas, e minha mãe esperava-me às onze! Levantei-me, procurei em vão a dona da casa, atravessei o salão e desci rapidamente a escada. Atraz de mim ficava uma multidão alegre, os risos, as flores, as luzes, tudo que, por ephemero, encanta a mocidade. Sentada em um banco do vestibulo, envolta em um chaile preto de franja rala, minha mãe esperava-me, curvada e fria, olhando para o chão. Bati-lho no hombro, beijei-a na face, pedindo-lhe perdão da demora. - Não faz mal, respondeu-me, contanto que te divertisses.... Em casa contei-lhe tudo. Ella ouviu-me, ajudando-me a despir-me, e deitou-se tranquilla ao meu lado.
No outro dia era eu, como sempre, a primeira a entrar na aula. Logo que a professora chegou, pedi-lhe, envergonhada, desculpa de ter sahido, na vespera, da sua festa, sem me despedir; e contei-lhe tudo. Ella sorriu, perguntou se eu me tinha divertido, mostrando não ter notado a minha falta, nem mesmo ter dado pela minha ausencia! Aquillo desapontou-me, voltei para o meu trabalho, dizendo de mim para mim; - Decididamente, foi sô para isto que eu nasci!
Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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