Leia agora
Memórias de Martha

Universo da obra

Memórias de Martha

Capítulo 11 · Memórias de Martha

Capítulo XI

11 de 12 ≈ 9 min de leitura

Capítulo XI

O meu noivo era um homem singular na sua simplicidade. Eu nunca havia reparado nelle: posso muito bem affirmar que só o vi depois de lhe ter dado o sim, na tarde em que, com satisfação comedida foi agradecer a minha resolução. Recebi-o com toda a calma, sem amabilidade, friamente ; sorria com esforço, e procurava em vão sacudir de mim a antypathia que o casamento naquellas condições me inspirava ! Minha mãe remediava a minha concentração, fallando muito, rindo mesmo, lembrando ao bom Miranda phrases de uma ou de outra carta minha que o tinham feito dizer: “ A sua filha é uma joia rara; feliz do homem com quem ella se casar! ,, Eu não

intervinha; ouvia os elogios quasi sem protestos, abatida, vazia de idéas, semi-morta. Chegou um instante em que minha mãe, num esforço de suprema agonia, teve a coragem de relatar a morte de meu pae e a amarga herança que d'elle receberamos.... Julgava aquilo um dever de lealdade, não lhe fossem dizer depois que elle tinha desposado a filha de um ladrão... Miranda fêl-a calar-se, um pouco vexado ; e eu levantei para elle meus olhos tristes, espreitando-lhe os movimentos, com susto e com vergonha. Elle sorriu-me. Era um homem de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos a luzirem-lhe na barba preta; de feições miudas, dentes pequeninos; e peito robusto. Havia alguma coisa de paternal nos seus olhos, uma expressão de lealdade, de doçura que me inspirava confiança e tranquillidade. Fallava sem preocenpações de linguagem incorrendo mesmo frequentemente em peque 

nos erros de pronuncia on de grammatica, muito vulgares. Eu notava aquillo sem desgosto: immersa numa atonia estupida! Só depois de elle se ir embora é que eu, ironicamente, os enumerei a minha mãe; ella ouviu-me calada e depois affirmou-me que nem sempre os maridos mais illustrados eram os melhores. Quando um homem de espirito superior não encontra na esposa um entendimento claro, uma percepção nitida das coisas, uma intelligencia preparada para a perfeita comprehensão da sua, um como reflector das suas idéas, esse homem deixa de lhe communicar os seus projectos de futuro, ambições, estudos, trabalho, triumphos e desgostos, por julgal-a incapaz de uma consolação ou de um applauso! E assim, sem troca de emoções nem conversas intimas, procura cada um para seu lado satisfazer as necessidades absolutas dos seus gostos e temperamentos. A mulher, então, ou se resigna a viver encolhida em casa, na humilhante posição de mera governante, ou revolta-se contra a superioridade do marido e provoca-o

de todas as maneiras, desde a mais seria até a mais futil! Agora, quando, ao contrario, é à mulher a mais intelligente e a mais illustrada, sendo ao mesmo tempo ponderosa, sensata, boa, o marido venera-a, respeita-a, e faz-lhe sem temer as suas confidencias de venturas e pezares! Cabe-lhe a ella então disfarçar a differença intellectual que entre os dois existe e procurar nivelar-se com elle. Está ahi toda a sciencia. Minha mãe citava exemplos de antigas amigas, e eu pensava entristecida, em que 8 suprema ventura seria encontrarem-se e unirem-se para toda a vida duas pessoas de espirito afinado pelo mesmo diapasão; com as mesmas predileções e eguaes tendencias! Mas essa era uma aspiração absurda, e fiz por convencer-me de que só havia um homem capaz de me fazer feliz - o Miranda. Principiei sem enthusiasmo a fazer o meu pequeno enxoval e a tratar dos preparativos para a nossa mudança. A minha cadeira era no Engenho Novo.

Em verdade quem tratava de tudo era minha mãe; eu quasi que me limitava a dizer como queria as coisas; ella cortava, acertava, punha tudo em ordem; eu interrompia a costura e ia deitar-me, chorando, ou sentar-me silenciosa, indolente, abstracta, em um canto: do meu quarto. Uma tarde, sahimos do trem dos suburbios quando senti agarrarem-me num braço; voltei-me : era a nossa antiga vizinha do cortiço, a ilhõa, que se plantava agora deante de nós com um sorriso nos labios grossos. Na estação havia o rumor dos passos apressados. Corriam os homens procurando entrar no trem que partia; as machinas silvavam e os trabalhadores impelliam com força os carros de mão, pejados de malas e de caixões. Foi logo um tumultuar de perguntas. A ilhõa nem as deixava concluir; as suas desgraças enchiam-na até aos olhos; carecia de desabafo. A Carolina tinha-se casado, apezar do trambolho das pernas; mas o marido explo 

rava-lhe o trabalho de uma maneira feroz e ainda por cima a moia de pancada... Tinha já dois filhos e habitava agora um cortiço da Gambôa. Raramente via a mãe. Uma dôr d'alma.... - E a Rita? - Essa está para casar com um moço estabelecido de barbeiro... mas, senhoras, elle sempre tem um genio!... Aquillo eu já sei!.... p'ra mim, filha casada é filha morta... - - E seu marido, ganha mais agora? - Pois não leram nas Gazetas ? ! -. O que? = (O meu homem foi pisado por uma car. roça, lá p'ra o Matadouro... oh ! senhoras que a mim sempre têm acontecido coisas! Está aleijadinho, cortaram-lhe as duas pernas... Se não fosse eu ter saude... olhe que não sei como haveria de levar um bocado de pão à bocca... Sahimos junctas até ao bond; nós entrámos, ella seguia a pé, pela calçada em frente do quartel. Eu via com verdadeira admiração aquella trabalhadora persistente e brutal, a quem a vida

retalhava a alma sem que o corpo cahisse. Estava muito mais velha, por certo. O seu cabello encaracollado e negro agora branco, o rosto denegrido descahido em quatro rugas fundas: das narinas ao queixo, dos lacrymaes às faces. Mas lá ia direita, rebolando os quadris fortes, em passadas firmes, à busca do seu fardo de besta de carga. Nessa tarde comprâmos a ultima peça de morim e as primeiras fitas do meu enxoval. Dias depois tomei posse da minha cadeira de professora. No entretanto riinha mãe e o Miranda instavam para que se marcasse definitivamente a data do casamento; marquei-a, mas pouco depois transferi-a; tornei a marcal-a, tornei a transferil-a, até que por fim, num grande esforço de vontade, decidi positivamente o dia e a hora para a realisação do acto. Decorreu um mez. Minha mãe tratava de tudo, desde madrugada até à noite, nu:na lida insana. Ora lavava os vidros das janellas, ora rématava a minha pouca roupa, muito perfumada e bem arranjadinha, ora cosia, ora en 

gommava, economisando muito para fazer-me um vestido de nupcias de seda branca ! E fez o vestido de seda! e comprou flores caras, e um véo longo e farto! Na vespera do meu casamento, à noite, sentei-me verto da mesa do jantar e puz-me a folhear caderno por caderno dos meus antigos estudos, disposta a fazer desapparecer nas chammas todos os vestigios do meu tris” tonho passado. Comecei a separar, examinando com enfado aquelles papeis, quando de entre uns apontamentos de pedagogia, cahiu-me no collo uma folha de carteira, ássetinada, dobrada ao meio; abri-a; reconheci a lettra de Luiz ; commovida, tremula, nervosa, li e torneia ler; primeiro só para mim, depois a meia voz, depois alto. Eram versos. Minha mãe, sentada do lado opposto, em frente, olhava-me com attenção, com os braços e a costura cahida sobre a mesa. Fazia calor e ao redor do lampeão volteavam, fascinadas, muitas mariposas brancas, pequeninas.

- De quem são esses versinhos ? perguntou-me a minha santa amiga. - De um primo da professora... - Ah! Lê outra vez; mas devagar, eu não os entendi bem. E eu li-os ainda mais titubante e nervosa. Realmente faltava-me o ar; sentia-me oppressa, doente; interrompia leitura, erguime, fui à janella; olhei para o céo, estava todo estrellado, azul e limpido, cortado pela esteira esbranquecida da Via lactea. Nem a mais leve viração, tudo morno, parado. De um jardim da vizinhança vinha um aroma forte de jasmins e magmolias; voavam pyrilampos. Inolvidavel noite ! Estive muito tempo debruçada no peitoril, olhando para o escuro, depois voltei, e, sem examinar nem ler mais papeis, queimei-os todos. Minha mãe advertiu-me: - Olha que os versinhos lá se vão tambem! - Não faz mal: elles não prestavam pará nada....

- Tambem me quiz parecer isso, mas como não entendo... E foi assim passada a minha ultima noite de solteira !

Memórias de Martha

Sinopse

Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978656590596623218935059
Memórias de Martha

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Memórias de Martha

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Memórias de Martha

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Memórias de Martha Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 11 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir