Universo da obra
Universo da obra
Quando à tarde voltei, encontrei minha mãe animada e risonha mesmo com um bom ar de ventura que eu não lhe vira nunca. O solicitador Miranda, nosso vizinho, fora assistir ao concurso e antecipara-se em ir dar-lhe a noticia de eu me haver sahido bem. Recebi a nomeação de professora no dia do casamento de Luiz. Minha mãe abraçou-me jubilosa, e attonita de me ver triste. Eu pensava na brancura de Leonor, nos seus cabellos loiros e sedosos, engrinaldados, sob o véo fino; no seu bello corpo alto e esbelto, coberto de seda branca e flores de larangeira.... Eu pensava nas soberbas montanhas de Palmeiras, nas suas casas disseminadas entre alegres verduras, nos seus bosques
perfumados, nas suas cascatinhas solúçantes.... eu pensava na tarde da tempestade; na filha do paralytico e no abraço de Luiz; nos seus. madrigaes, nos seus sorrisos e na sua falsidade; pensava ao mesmo tempo em tudo que me impressionara no campo, em tudo que ms dera alegria, e em tudo que me dera desgosto ! Fechei-me só no quarto, procurando como pretexto arrumar os meus velhos livros e trabalhos de agulha no fundo deum bahú. Quando voltei à sala, minha mãe, alvoraçada e risonha, chamou-me para o seu lado e disse-me que o solicitador Miranda, lhe pedira a minha mão ! Surpreza, não respondi logo; minha mãe, interpretando mal o meu silencio, continuou! - O Miranda é homen de quarenta é tantos annos, muito serio e bondoso... -- Mas, respondi-lhe, eu nunca lhe fallei: via-o à janella de manhã, quando eu atravessava para o collegio, unicamente e... - Elle apaixonou-se por ti na leitura das cartas que me escreveste de Palmeiras.
- E por que lhe mostrou as minhas cartas ? - Porque elle perguntava-me sempre por ti... e.. porque, filha, escrevias-me coisas tão bonitas, tão meigas e delicadas, que o meu orgulho de mãe aconselhava-me aquella indiscrição.... Eu sabia de ha muito que qualidade de homem é o Miranda: trabalho para elle ha dez annos, bem vês... nunca me pagou mal, nunca fez reclamações nem queixas, foi sempre cavalheiro, como se adivinhasse em mim os principios que tive... Além d'isso com quem poderia eu desabafar as saudades tuas? - Via-o muitas vezes ? - Todas as semanas, quando lhe levava a roupa... Depois que vieste, como sabe por mim que tens estado doente, não me quiz fallar nisso, e contentava-se em ver-te todas as manhãs. Agora, porêm, que has de ir morar para fóra, e não podendo calar-se mais tempo, reveloume a sua affeição.
Acabou de sahir d'aqui; não consentiu que eu te chamasse... Prometti levar-lhe a tua resposta... - Não desejo casar-me.... - Mas... balbuciou minha mãe, empallidecendo. - Alcancei uma posição independente ; não precisarei do apoio de ninguem. Estas palavras disse-as eu seccamente. Minha mãe baixara a cabeça; e depois de uma pausa silenciosa tornou-me com a voz baixa e commovida : - Seja! Eu não queria fechar os olhos sem te ver casada... só num mundo tão perverso como este... Depois, o Miranda tem optimo comportamento... é talvez velho para ti, mas havia de ser excellente marido, serio,honesto, e delicado... Emquanto ella dizia isto, eu via, como num sonho, a encantadora figura de Leonor. Estremeci, ouvindo minha mãe referir-se ao meu futuro; meditei num minuto a minha vida inteira!
A reputação da mulher é essencialmente melindrosa. Como o crystal puro, o minimo sopro a enturva... Mas de mim quem se occuparia em fallar? Passaria sempre despercebida, mesmo pela vista dos mais famintos. Viriam os cabellos brancos, viria a velhice e eu ficaria sósinha com os meus sonhos pueris, as minhas raivas surdas, a mesma deseonfiança pela humanidade que me repudiava, julgava eu. Bem cedo neste paiz ardente as mulheres ouvem dizer que as amam, e eu só aos vinte e quatro annos despertava no coração cançado de um velho uma paixão socegada e mansa ! E que amara elle em mim? O meu espirito; a minha pessõa não era nada. Foram as cartas escriptas sob o influxo do meu amor por Luiz, naquelle periodo de oiro da minha vida, que lhe despertaram à ideia de que a Martha valeria alguma coisa em um lar domestico... Olhei com desprezo para o meu corpo, achando-o indigno da minha alma. O odio da (10)
natureza cresceu em mim num fermento em que todos os azedumes se encontravam. Minha mãe percebeu tudo, e disse: - Eu só quero o que tu quizeres, - Oh! o que eu quero não o alcançarei nunca ! Foi o meu primeiro grito de desespero. Minha mãe chorou; eu não. Só mvitas horas depois pude ter calma para reflectir, e reflecti que o meu casamento seria uma vingança para os ultrajes que a minha imaginação de moça recebera sempre.
Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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