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Memórias de Martha

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Memórias de Martha

Capítulo 7 · Memórias de Martha

Capítulo VII

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Capítulo VII

Decorreram muitos mezes sem a mais leve mudança. Aquella soirte foi um acontecimento extraordinario na minha vida e não me deixara, comtudo, uma impressão grata... deslumbrara-me ao principio, mortificara-me depois. Eu, apezar da edade, do raciocinio e das grandes provações, tinha no fundo da alma sepultado um resto de vaidade, que só no meio obscuro em que vivia ordinariamente, dormia o somno profundo dos sentimentos sopitados. Chegaram por fim as férias e foi exactamente então que se apoderou de mim uma tosse cruel e uma febrinha inpertinente, que me pintou nas faces duas rosetas de um vermelho violaceo.

Ao mesmo tempo vieram-me vertigens e horas de humor execravel, em que eu me fechava em um silencio agressivo e doentio. O medico aconselhou que me casasse, Aquillo era hysterismo. Taes palavras foram como que chicotadas que me batessem nas faces. Minha mãe ficou-se a olhar para elle, com os seus olhos tristes... O medico sorriu e remediou: - Qu então uma viagensinha, distracções... ar puro... Desdenhei-lhe o conselho por achal-o irrealisavel. Minha mãe, porém, não descançou, e foi ter com a mestra, a quem disse tudo entre lagrimas. À occasião era boa: Ella fazia as malas para ir passar um mez no campo, em Palmeiras, onde alugara casa. Combinou-se tudo: minha mãe pediu dinheiro adeanteado a um fregnez antigo, O Miranda, homem generoso e bom, comproume sapatos, alguma roupa branca, que perfumou com petalas de rosa e folhas de malvamaçã, concertou-me um vestido a mais, pas 

97. sando para isso a noite em claro, comprou-me a passagem, e entregou-me com um sorriso animador e confiante à mestra, pedindo-me que lhe escrevesse sempre, sempre... Ao despedir-me d'ella, desatei a chorar convulsivamente... e arrancaram-a a custo de meus braços. A viagem correu bem. A estrada era lindissima... eu colava o rosto à janella, olhando para a matta esmaltada de flores exquisitas, illuminada pela brilhante luz do dia. Quando chegámos a Palmeiras, descahia a tarde. O sol. muito vermelho, descia lentamente para as esparsas e innumeras montanhas. Na gare cimentada, pouca gente: O chefe da estação; dous rapazos magros e pallidos, convalescentes a ares; umas inglezas falladoras, mostrando os seus grandes dentes muito brancos nuns sorrisos abertos, e um velho escocez esguio, alto, muito sympathico, o doutor Gunning, a quem o marido da mestra nos apresentou como nosso senhorio. (6)

“Findos os primeiros cumprimentos, o bondoso escocez rompeu a marcha, guiandonos para casa. Subimos a pé ladeando um valle ao lado da estrada, cercado de framboezas. À brisa trazia-nos o aroma sadio das plantas agrestes, subtil e bom. Continúamos a subir, por um caminho flexuoso, parte da encosta sobre o tunnel, que leva acima, ao hotel; em mais de meio da estrada parâmos em frente a uma casa branca com varanda de madeira preta... ao pé d'uns grammados alegres. Era a habitação que nos destinara o bom velho. Entrâmos. O senhorio mostrou-nos obsequiosamente todos os commodos, salas, corredores, quartos, a mobilia, pouca e simples, e a esplendida vista das janellas. Que ar fino, que aroma saudavel, que tranquillidade e que belleza! Na vasta solidão azulada do céo brilhavam, no poente, os rubores quentes do grande astro a esconder-se; no alto, a luminosa e doce estrella Venus...

Deram-me um quarto pequeno, mas claro e alegre. Tinhamos ido só tres pessõas, além de uma criada. O chefe da familia gostava de caçar, a mulher de ler, eu de escrever a minha mãe. Logo de manhã cedo, dizia o dono da casa à esposa: | -- Olha, Annita, não esperes por mim, que talvez não volte antes da noite... E punha a espingarda ao hombro, a bolsa a tiracolo, o chapeu baixo, as botas até ao joelho e lá se ia pela estrada fóra, assobiando alegremente. - Vamos nós passear 2 dizia-me então a mestra. E, segurando ella um livro e eua minha cestinha de trabalho, punhamo-nos a caminho tambem. O nosso senhorio, muito amavel, convidava-nos a ir ler na varanda do seu chalet; aproveitâmos muitas vezes o offerecimento, Entravamos por um longo e estreito terreiro que havia ao lado da casa, onde uma arara já velha e cega catava com o bico muito curvo o grosso as suas pennas azues, encarnadas e verdes. Eu parava sempre a cumpri 

mental-a, e tomei-me de sympathia por aquella ave, que sem me ver, nem acceitar as migalhinhas de biscoitos e de pão que eu lhe levava, volteava-se vesmiungando, ora no poleiro, ora no chão. E assim, sem vermos ninguem da habitação, aberta sempre ao extrangeiro, chegavamos ao jardim, cheio de flores do matto; havia, entre outras, umas esponjas douradas, grandes como laranjas, num arbusto alto, elegante e fino. Entretinha-me a passear alli; depois subiamos os poucos degraus da varanda de pau, onde se enleava uma trepadeira cheia de campanulas côr violeta. Sentavamo-nos; d. Anninha começava a ler, eu a fazer crochet. Cercava-nos um silencio doce, cortado pelo zumbido de uma ou outra abelha na perseguição das flores. Um perfume bom nos envolvia; e aaragem agitava as campainhas vi dradas, côr de violeta, graciosamente. Estavamos alli, as duas sósinhas, horas inteiras, sem animo de sakir d'aquelle recanto socegado e bonito, até que, tomando uma resolução, d. Anninha levantava-se, fechava o

livro, e descia commigo os degrausda varanda isolada, aberta na solidão do campo à contemplação da natureza. Desciamos, em alguns dias, à grota, escorregando no terreno declivoso, rindo, agarrando-nos às ramas baixas das arvores para não cahirmos. Chegadas lá abaixo, ao fundo, ouviamos o marulhar da agua, colhiamos lirios amarellos e roxos, e, provendo-nos de coragem, ascendiamos à montanha, esfolando as mãos nos galhos, parando de vez em quando, sentandonos a ouvir um canto melodioso de ave desconhecida ou a ver umas flores novas. garridas de cores e de aroma. E assim chegavamos à casa cançadas, mas satisfeitas. Uma occasião, em vez de descermos, subimos a montanha, colhendo framboezas e parando a miudo para descançar. Passámos o hotel « caminhámos para deante, internandonos no bosque, onde a luz do sol penetrava numa rendilhação luminosa. Cantavam os passarinhos; onvia-se quasi a germinação das plantas. Sentâmo-nos em umas pedras ; ella, d.

Anninha, a ler, eua colleccionar folhas e flores campestres. De repente sentimos estalar uns galhos e ouvimos rumor de vozes; voltâmos a cabeça e esperâmos attentas. Appareceu, rindo ruidosamente, um grupo de rapazes; vendo-nos, um d'elles soltou uria exclamação, um oh! prolongado e admirativo que encheu a floresta. Era um conhecido da cidade, um parente da minha companheira. Os outros rapazes conservaram-se a distancia, tirando respeitosamente o chapéu, o primeiro destacou-se do grupo e veiu cumprimentar a prima, muito mais velha do que elle,mas com quem tinha certa confiança. Acenou aos outros que seguissem, e sentou-se num tronco partido ao pé de nos. - Então, Annita, aproveita as ferias ? Faz bem. Isto é realmente encantador, adoravel, esplendido ! Venho muito para aqui no verão.. e às vezes, mesmo, no inverno, não resisto, Ver desfazer-se o nevoeiro lá do alto do terraço do hotel é divinamente ideal. Demorase por ca? - Um mez.

- Bravo! Eu tambem pretendo demorarme uns quinze dias pelo menos... CGoso tambem as minhas ferias! depois de formado, de Sr. Dr., adeus dias d'estes! Já me lembrei de montar em Palmeiras uma casa de saude em ponto grande... que tal? Ora! mas isso acabaria por enfadar-me. Para apreciar estes bellos quadros do mais extranho e delicado matiz, esta esplendida natureza rica de pompas, farta e bonissima, tão variada e tão simples, tão encantadora e soberba; para dar valor condigno a todas estas maravilhas que se impõem ao mais rude, ao mais ingrato espirito, é precisa a mesquinhez da cidade, as ruas estreitas rumorejantes, o zamzum do povo, o calor, os mosquitos, os beneficios das actrizes más, as reuniões dansantes a. que não podemos faltar, e a saturação de outras calamidades... Annita ria-se e respondia ao primo, que fallava sempre, olhando de vez em quando para mim, a quem do mesmo modo dirigia a palavra. Continuei a enramalhetar as minhas flores, mas muito machinalmente. Toda a minha

attenção estava presa a esse rapaz, de rosto oval, grande bigode castanho, olhos maliciosos e ternos a um tempo, cabello ondeado e sedoso, mãos finas, esguias e brancas. Experimentava um prazer indefinivel em ouvil-o tagarelar voluvelmente. A sua voz era para mim uma musica. Prolongou-se a conversa, transformandose insensivelmente o assumpto. Seguimos depois juntos até a casa. O primo da minha amiga prometteu voltar no dia immediato, para levar-nos a ver um chalet muito lindo, além, cercado de flores sylvestres, armadas no mais delicioso dos jardins. - Venha almoçar comnosco amanhã, Luiz, disse-lhe d. Annita. Elle acceitou o convite e partin. Ao vel-o voltar costas puzemo-nos a fallar a seu respeito; eu ouvia interessada a historia, um tanto romanesca, que a mestra lhe attrbuia. Aventuras amorosas, rasgos de generosidade, cavalheirismo levado ao mais requintado apuro, alguma intelligencia e muita pretenção...

Cousa singular : nessa noite, no meio de sonhos attribulados e febris, confundia com o rapaz que havia tres annos demorara tanto em mim os seus olhos, o que me apparecera pela primeira vez naquella manhã ! Levantei-me mais cedo, impaciente sem saber porque; tive mais apuro na toilette, fiz um penteado novo, e prendi no meu corpete, abotoado à militar, um ramalhete de flores! E nesse dia esqueci a minha fealdade. O Sr. Jeronymo desistiu da caça e prometteu fazer-nos companhia. Luiz tardava; decidiamo-nos a almoçar sem elle, quando o vimos entrar com uma apurada toilette e um sorriso amavel. Aos ralhos da prima oppoz uma humildade desarmadora de todas as indignações. - Que querem? exclamava elle, passei uma noite agitadissima ! - Não dormiu, primo ? - Dormir !? Eu nunca pratico semelhante vilania! Dormir! Oh! Anninha, pelo amor de tudo que lhe é caro, não me julgue tão banal! Eu compuz, eu li, eu contemplei no

meio das sombras que me cercavam o inquieto tremelulizir das estrellas, eu... - Basta ! Eu sei que o primo fez tudo isso, mas que se esqueceu do principal. - Do principal? Olhe; é provavel... o que julga principal, prima? - A sua these, os seus estudos! - Os meus estudos! Eu vir estudar medicina em Palmeiras! que horror, que monstrnosidade ! que inacreditavel prosaismo, e que mão gosto! Não me repita taes palavras, prima, se não me quer ver cahir a seus pés num deliquio mortal! Chamaram-nos para a mesa, onde reinou sempre muito bom humor, graças à alegria, à infatigavel alacridade d'aquelle sympathico rapaz. Acabado o almoço, sahimos. Iamos quatro, sendo eu sempre a mais silenciosa. Percebi que o Luiz perguntava atraz, ao primo, quem eu era. A resposta foi num tom tão baixo que não me foi possivel ouvir nada. Chegâmos ao decantado chalet ; estavamos fatigados, sentâmo-nos no jardim gosando à

esplendida paizagem fronteira. Depois de uma grande pausa contemplativa, exclamou o nosso cicerone: - Se eu fosse rico, fabulosamente rico, construiria além, sobre o pico d” aquella montanha, na eminencia a mais alta, um grande castello, memoravel pelo mais assombroso luxo. Havia de ser visitado pelas notabilidades das cinco partes do mundo, por todos os artistas celebres... um delirio! Dava-me na vontade fazer resoar por ahi fóra umas musicas da Bohemia? Mandava vir uma orchestra de bohemios... Queria Robinstein ? Pois bem, ouviria o grande pianista executar para imim as suas mais estupendas difficuldades. Teria jardins suspensos, como a bella rainha da Babylonia, e grutas subterraneas, 1lluminadas por grandes fócos de luz electrica. Espalharia por essas florestas faisões asiaticos, gazellas européas, abstruzes africanos, lebres da Oceania e os mais raros exemplares de animaes da America. Andaria em palanquins de ovro crivados de pedras finas, aos hombros de indios fortes com vestes de sedas riscadas a côres brilhan 

tes: ou no dorso de elephantes brancos ajaezados a pedrarias; não obstante, teria cadeirinhas chinezas de marfins embutidas a tartaruga e prata; phaetons inglezes puchados por parelhas custosas: landeau francezes forrados de toukim branco, flacidos e commodos ; trenós russos, que eu faria deslisar em caminhos nevados, artificial mas deslumbradoramente ; cavallos de todas as raças, ajaezados à moda de todos os paizes; grande escolta phantasiosamente trajada; salas de crystal, salas de filagrana em ouro, salas pintadas pelos melhores mestres da arte de Rembrandt e de Murillo. Escorjaria os meus inimigos de inveja, e teria depois o prazer de os vêr, arrependidos e cubiçosos, irem juntar-se como animaes' gregarios, comendo nos meus pratos de Sevres e da India a carne fina dos meus pavões. Criaria uma cidade, numa d'aquellas montanhas, deixando entre ella e o meu castello a floresta escura, silenciosa e bella de onde não me viessem murmurios de vozes nem echos das paixões humanas.

Os moradores da minha cidade seriam escolhidos entre os pauperrimos das grandes capitaes, teriam casa ajardinada, banhada de luz por todos os lados, com agua farta e pura e um panorama esplendido em frente, a perder-se na irnmensidade. Construiria nella um edificio espantoso de belleza e grandiosidade, onde hospedasse os mais celebres pintores, esculptores e poetas; mandados vir de além-mar nos meus hiates de ouro, com a unica e determinada condição de ficarem gosando alli seis mezes de luxo, mas deixarem uma obra original no meu rico museu ! Um paraiso, meus amigos, pleno de enlevos, transbordante de maravilhas, onde não seria permittido politicar (sob pena de expulsão) onde todas as mulheres teriam, como primeiro dever, serem bellas; os homens fortes e intelligentes; os velhos bons; as crianças meigas e todos muito leaes, muito gratos, e muito meus amigos! “ Emfim, o rei Luiz da Baviera ficaria enfoncé ! ,,

O marido de Annita sorria desdenhoso. No seu largo rosto vermelho, salpicado de grossas camarinhas de suor, estampava-se: o contentamento de quem nada mais ambiciona. Aquelle socego doce, aquella distancia da cidade, do trabalho quotidiano e monotono, bastavam-lhe como ideal de ventura. Embora percebesse no primo um sentido romanesco e falso, desagradavam-lhe as suas theorias e impacientava-se com o prolongamento da exposição. Por isso, aproveitando a primeira pausa, exclamou: - Pois eu, se fosse rico, iria viajar, vindo depois viver para aqni, assim sem luxo, sem vaidades tolas, nem lisonjas importunas Roupa leve, simples, mesa farta, boa espingarda, um perdigueiro adestrado.... somno de boa saude e nada de musicas, nada de dansas nem de recepções. Para o homem este repouso tranquillo, esta amenidade, é a maior alegria, o goso mais salntar e edificante. E discutiram ambos a melhor maneira de disfructar a riqueza.

Entrei por fim na conversa, instada por d. Annita, que me perguntava repetidamente: - Que faria se fosse rica assim, Martha? As minhas aspirações eram modestas, em poucas palavras disse tudo. Quando acabei vi fitos attentamente em mim os olhos de Luiz. Desde esse momento não pude conservar por muito tempo os meus longe dos delle. Ao voltarmos para casa offereceu-me o braço e, inclinando-se para mim conversava risonho, olhando-me de perto... Disse-me ser estudante de medicina, que o seu ideal não era a riqueza nem a ostentação, nem os falsos e ephemeros prazeres, mas sim um lar illuminado pelo olhar doce de uma esposa honesta... um coração sincero, bondoso e terno, onde sepultasse toda a sua vida... Eu ouvia-o commovida e feliz. E desde esse istante idealisei o meu futuro risonho e ameno:

Seria eu essa esposa, que lhe desse ventura. À nossa casa havia de ser um ninho dentro de um jardimsinho muito fresco! Eu plantaria trepadeiras a emmoldurar a janella: umas rosinhas delicadas que se desfolhassem sobre as nossas cabeças, quando enlaçados e amantes nos debruçassemos no peitoril, segredando mil terhuras de amor! Minha mãe presenciaria aquelle quadro num embevecimento e assim realizariamos o mais formoso e o mais querido dos sonhos. Luiz olhava-me com persistencia, sorria-me, distinguia-me com os pequeninos nadas de um pretendente apaixonado. Entreguei-me feliz ao meu amor nascente, cheia de confiança e de illnsões. Que dias aquelles para a minha alma triste! Que diluvio de promessas, que doçura de esperanças ! Outra expressão amenisava à minha physionomia rebarbativa. Tornara-me expansiva, risonha, quebrara a minha mudez doentia; so não tivesse a quem, eu fallaria aos passarinhos !

Memórias de Martha

Sinopse

Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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