Universo da obra
Universo da obra
Tinha gasto toda a força affectiva da minh'alma. Nenhum amor viria arrancar-me áquelle estado doloroso em que por tanto tempo permaneci. Tornei-me excessivamente nervosa; passava outra vez horas em silencio; a minima coisas me impacientava; tinha o genio irregular e frenetico. Minha mãe olhava-me desconfiada e triste, sem coragem de indagar o motivo do meu mal. Uma noite acordou à bulha dos meus gritos e foi encontrar-me num ataque; ajoelhada aos pés do meu leito, chorava acariciando-me, tremula de medo... Os ataques re
petiram-se muitas vezes, deixando-me prostrada, enfraquecida. Uma vez, vencendo o constrangimento, pergunton-me, doce, maternalmente, qual o motivo: do meu pranto... Respondi-lhe desabrida, asperamente. Ella fitou em mim com extranheza os seus grandes olhos maguados, e calou-se. Tive remorsos, e não achei meio de remediar o meu erro! Assim passei, inquieta, febril, quasi doida, muitos e muitos mezes. Minha mãe assustava-se, e foi um dia consultar o medico; elle aconselhou-lhe que me fizesse tomar banhos de mar e .que me desse distracções. A infeliz redobrou de actividade: prolongava os serões ate tarde e levantava-se ao romper da manhã; sempre resignada, sempre a olhar-me com um sorriso, sempre a esforçar-se por tranquillisar-me. Para pagar-me os banhos fazia sacrifícios de saude e de força; no entanto, eu era menos assidna na aula e sofíria descontos no or
denado! E' que passava noites em claro, revolvendo-me,mordendo-me, chorando ; e de manhã, prostrada, adormecia profundamente ; ella então, a minha pobre amiga, cerrava com cuidado a janella e ia trabalhar na sala, silenciosamente. Num domingo fomos dar um passeio a um dos suburbios à busca de ar puro e de distracção, coisa que eu não encontrava nunca. Tinhamos descido no Engenho Novo, e caminhavamos a pé pela estrada quando notei o extremo cançaço de minha mãe. -Sentemo-nos aqui, disse-lhe, mostrando o paredão baixinho que ladeava a estrada. - Estas cançada ? - Eu não! mas a senhora está... - Por mim... podemos continuar... - Não. Sente-se ahi; eu vou só até aquella curva do caminho e já volto... Assim fiz. Minha mãe sentou-se, estava livida, arfante, com as mãos apoiadas ao muro e o busto inclinado para a frente. Tentava sorrir-me, mas Os labios, finos e pallidos abriam-se apenas para beberem o ar (9)
morno e grosso da tarde, com difficuldade, vagarosamente. Deixei-a socegar e subi sósinha até à curva do caminho. Vi d'alli, a uma distancia muito curta, uma praça larga, ladeada à esquerda por um renque de casas pobres, e à direita velo mesmo murinho baixo, que dava sobre a estrada de ferro. Era um recanto melancholico, arido, sem poesia, onde as crianças rolavam na terra, de mistura com os cães, e umas arvores de tronco fino, e copa chata, projectavam sombras extravagantes e irregulares no solo amarellado. O sol ia a sumir-se. De repente ouviu-se perto o silvo do trem de ferro, o comboio passava. Foi um alvoroço entre a criançada, que partiu aos saltos para o muro, numa gritaria, dizendo adeus aos passageiros que não conheciam. Aquelle pôr do sol, aquelle fumo que sahia ondeante, troxeram-me à lembrança as tardes de Palmeiras, e então uma saudade invadiu-me o coração. Saudade de que? Particularmente, de coisa alguma. Ahi eu tivera dores e luctas, preoccupações e tristezas ainda
maiores do que as alegrias e os sonhos que sonhara. Sentia saudades de tudo ! d'esse conjuncto de risos e de agonias, do meu goso e das minhas lagrimas, goso sentido, e lagrimas choradas com a intensidade dos vinte annos! Estava assim absorta quando vi passar, muito perto, uma mulher elegantissima. O seu vestido cinzento exaggeradamente justo na cintura, o cabello, de um loiro singular, quasi escondido por um chapeu de plumas, o grande leque escarlate, de desenhos bisarros, que ella meneava com desembaraço, davam-lhe um ar petulante e gracioso que me trouxe à ideia uma d'essas figurinhas garbosas de Grévin, que tivesse recebido um sopro mysterioso de vida e desandasse a passear ligeira, deante de mim. De repente vi-a sumir-se numa das casas pobres, umas das mais feias e mais sujas, onde um formigueiro de crianças, tagarellava à porta. A elegante mulhersinha reappareceu depressa, distribuindo dinheiro aos pequenitos, acompanhada por uma velhota magra.
Eu continuava all, vendo machinalmente aquella scena, embebida pela doçura da tarde, olhando, olhando àtõa. A moça" desembaraçou-se da -velhota e veiu caminhando para o meu lado. D'esta vez o leque vinha fechado e os seus passos tinham-se tornado pesados, quasi vagorosos. Chegou-se para o muro e percorreu com a vista a estrada inferior, como se procurasse alguem. Contemplando-a de perto, estremeci. Era Clara Sylvestre, a minha antiga cormpanheira de collegio, que tantas vezes repartira commigo o seu lunch, tantas vezes me perfumara com a sua agua-florida, ou me empoara com o seu microscopico pompon de arminho subtrahido à gaveta da mãe. Eu olhava estupefacta para o seu rosto alvissimo, os seus formosos olhos verdes brilhantes e expressivos, os seus cabellos pintados de uma côr de cenoura, os labios cheios de carmim, e comparava-a com a Clara Sylvestre de outro tempo, linda tambem, mas natural, innocente, ccm os seus caracoes cas
tanhos e o seu doce rostinho muito redondo e alegre. Entretanto Clara fixou tambem em mim o seu olhar esmeraldino. Houve um momento de embaraço. Eu não sabia que fazer; se retirar-me, se ficar. A pobre Clara, no meio do seu luxo, do seu pertume de heliotropo, e dos seus enormes rubins dos brincos, inspirava-me grande interesse e magua ; sentia como que uma necessidade de attrahila a mim, evocando a lembrança do passado, e de a consolar! De que? Nem sei. Porque ella não parecia infeliz; tinha uma certa altivez de porte, levantava mesmo a cabeça com orgulho, vaidosamente. Contemplâmo-nos em silencio. Alguns momentos depois, deixando fallar a voz do coração, perguntei-lhe a medo, assustada de mim mesma : - Lembra-se de mim ? - Sim... foi... parece-me que foi minha collega na escola de d. Anninha... sómente, não me occorre o seu nome...
- Martha. - Martha ! é isso! Se me lembro ! Mora por aqui? - Não... Houve uma grande pausa, Estavamos ambas contrafeitas; desejavamos lançar-nos nos braços uma da outra, e nem nos atreviamos às perguntas mais simpes! - Imagine ! disse-me ella por fim, precipitando um pouco as palavras, visivelmente nervosas. Morreu uma criada minha deixando uma filha de nove mezes... eu dei a criança a uma ama, remunerando-a bem. Hoje vim vêla... está magrissima e suja, oh! suja! os vestidinhos bordados que lhe tenho mandado, sabe onde os encontrei? no corpo das outras crianças, filhas da ama! Que gente!... Vou tomal-a para casa! Calâmo-nos. Nisto umas vozes fortes gritaram da estrada, embaixo: - Olá ! Clarinha ?!
Era um grupo de rapazes que lhe mostravam um logar no carro em que iam. Clara recuou um pouco, e disse, apertando a minha entre as suas mãos enluvadas : - Adeus, Martha; não pense mais em mim;eu não mereço a sua amisade. Mas fique certa de que ha muito tempo eu não tinha uma alegria como a que tive agora, vendo que... Não acabou; as lagrimas tremiam-lhe nos olhos, e ella desappareceu correndo pela rampa, a menear o seu leque vermelho de figuras bizarras. D'ahi a nada ouvi as risadas argentinas de Clara Sylvestre, lá embaixo, com os rapazes. Voltei silenciosa e confusa. Que quereria dizer tudo aquillo? Minha mãe vinhaao meu encontro, já” descançada, mas afflicta pela minha demora. Contei-lhe o caso; nem lastimou Clara, nem me censurou. Estava pallida e alheia a tudo. Voltâmos. Por muito tempo 5 meu espirito se fixou com tenacidade na antiga Clara Sylvestre, rosada, forte, com os seus ves
tidinhos de chita e os seus bibes brancos, innocente, alegre, feliz! Pobre criança! ella tem no meu coração um tumulo virginal, engrinaldado de rosas; todo envolto pela saudade, a doce, a tranquilla saudade da infancia ! Esse episodio simples, fugitivo, suggeriume uma multidão de ideias, umas dolorosas, outras... nem sei como definil-as! Talvez que eu mesma, sempre pobre, humilde, modesta, feia, invejasse aquelle brilhantismo de Clara, aquellas joias, aquellas plumas, aquelle aroma, aquella formosura... Mas, tinha ficado no meu ouvido da sua phrase melancholica - “ eu não mereço nada, - e, dava-se por isso em meu espirito uma confusão indescriptivel de conjecturas... Desejaria penetrar o mysterio d'aquella vida; saber como se pode parecer feliz não o sendo... Para mim Clara mentira. Quem não valia nada era eu, sempre ignorada por toda a gente, sempre feia, o que me torturava, sempre envergonhada dos meus vestidos mal
ageitados, do meu calçado barato, do meu modo esquerdo e retrahido ! Era sobre mim que todos os males cahiam. as palavras sahiam-me a custo da bocca, eeu presumia que toda a gente se ria dos meus gestos, da minha cara, da minha pobreza. Entretanto, Clara Sylvestre olhara-me com doçura, com amizade, na meiguice dos vencidos bons, que não odeiam os vencedores da vida! A minha nevrose, a minha dôr de viver, de ser feia, de ser pobre, de ser triste, durou ainda muito tempo; e creio que não se estinguiu absolutamente... Chegou, porem, uma occasião em que me senti mais calma e mais resoluta. Esforcei-tne por estudar e distrahi o espirito com isso: devia em breve decidir-se a minha sorte como professora ; approximavase o tempo dos ultimos exames. Envelheci, emmagreci, trabalhei sobre posse, num grande esforço de memoria; mas se o corpo descahia, a alma triumphava, e era esse todo o meu empenho.
Estava eu a pensar nos meus estudos quando a professora me disse uma vez: - Quer saber uma novidade, Martha? O Luiz vae casar-se. Adivinhe com quem... Rapidamente, num tom vibrante e claro, perguntei: | - Com a filha do paralytico ? - Não! Casa-se com a minha sobrinha, aquella que lhe apresentei no baile, a Leonor... Quando cheguei a casa minha mãe notou que eu estava pallida e com olheiras; affiane cei-lhe não sentir nada, e de facto parecia-me melhor a minha situação. Em vez de Luiz, era a figura de Leonor que nitidamente me apparecia, vestida de branco, como no baile, e engrinaldada de flo- Olha, disse-me a minha pobre conpanheira: lês-te hoje na Gazeta o aviso para concurso, amanhã ? - Não... Qual concurso ? - O concurso das professoras para as escolas publicas... O Miranda trouxe-me o jornal; toma-o.
Li; e, desde aquella hora até à noite, puzme a estudar, vendo de vez em quando a imagem delicada de Leonor, como um sonho vaporoso e tenue; mas não me amargava aquella visão, preferia-a à filha do paralytico ; sentia um prazer maldoso, em saber esquecida aquella tambem ! À respeito dos meus estudos estava segura, tranquilla, de uma tranquillidade rnesmo como nunca tivera em vesperas de exame. Minha mãe, não, disfarçava mal a sua inquietação; sentia-a tremula, ao pé de mim. Não teve coragem de acompanhar-ine; pediu a professora como ultimo favor que me levasse e animasse ; beijou-me quando eu sahi, fingindose forte, mas li no sen olhar humido toda a fraqueza que a invadia nesse instante. Tinha razão para receiar de mim; se me não sahisse bem, ella teria de trabalhar um anno inteiro ainda, com poucas vatagens, exgottando o pouquissimo resto de vida, numa lucta continua | Com que orgulho eu penso na desvelada sollicitude que tem em geral a mulher bra
sileira para o filho amado! Não o repudia nunca, trabalha on morre por elle. Coração cheio de amor, perdoemos-lhe os erros da educação que lhe transmitte e abençoemol-a pelo que ama e pelo que padece!
Memórias de Martha, de Júlia Lopes de Almeida, é um romance clássico brasileiro em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza 12 capítulos com fonte pública validável na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, capítulos publicados, espelhos de conteúdo completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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