Universo da obra
Universo da obra
Inês Avelar voltou à Ilha de Santa Dália no último barco da tarde.
Durante os quarenta minutos de travessia, permaneceu perto da janela, embora o vidro estivesse manchado por sal e oferecesse apenas recortes turvos do mar. Mantinha uma das mãos sobre a mala pequena, encaixada entre os joelhos, e a outra dentro do bolso do casaco. O tecido era fino demais para aquela umidade. Comprara a peça pensando no vento, sem levar em conta o frio que subia da água e se infiltrava pelas costuras.
Dentro do bolso havia um envelope pardo entregue pelo tabelião três dias antes. A chave de bronze guardada ali tinha dentes longos e uma cabeça oval sem número. A cada balanço do barco, o metal batia contra a lateral de seu quadril.
O cheiro de sal chegou antes do cais.
Inês o reconheceu com o corpo inteiro. Veio acompanhado de madeira molhada, corda de barco e óleo de motor. A combinação abriu uma parte da infância que ela mantinha sem imagens, reduzida a sensações que surgiam em sonhos e desapareciam ao acordar. O rangido de uma janela. Um vestido amarelo pendurado atrás de uma porta. As mãos da mãe fechando uma mala com pressa.
Celeste costumava dizer que ilha servia de armadilha com vista bonita.
Inês achava a frase dramática. Aos oito anos, tudo que a mãe dizia sobre Santa Dália parecia exagerado. Aos vinte e oito, vendo as casas baixas junto ao cais, as janelas fechadas apesar da hora e o farol apagado no alto da pedra, ela começou a suspeitar que Celeste talvez tivesse economizado palavras.
O barco atracou com um golpe contra os pneus presos à lateral do píer. Dois funcionários lançaram as cordas. Os poucos passageiros recolheram bolsas e caixas. Um homem carregava galinhas dentro de uma grade. Uma mulher segurava um buquê embrulhado em jornal. Ninguém demonstrou surpresa com a chegada de Inês, embora alguns olhos permanecessem nela tempo suficiente para revelar reconhecimento ou curiosidade.
Ela desembarcou sem ajuda, puxando a mala por uma alça que rangia.
Não havia táxi, placa com seu nome ou representante do tabelião. Isso correspondia ao combinado. Inês pedira que ninguém a esperasse. Pretendia resolver a herança com rapidez, cumprir as sete noites exigidas pelo testamento e voltar ao continente antes que a ilha conseguisse se instalar outra vez em sua memória.
Um homem estava parado perto do armazém.
A camisa escura se colava aos ombros molhados. As botas tinham lama até os tornozelos. Ele não acenou. Manteve o rosto voltado para Inês e acompanhou a mala com os olhos durante alguns segundos, avaliando o volume ou tentando decidir quanto da vida dela cabia ali.
Quando disse seu nome, Inês apertou o envelope dentro do bolso.
A chave marcou sua palma através do papel.
— Inês Avelar?
Ela parou a dois metros dele.
— Quem quer saber?
— Davi Ferraz.
O sobrenome fez o cais encolher ao redor dela.
Celeste mencionara os Ferraz uma única vez. Inês tinha onze anos e acordara de madrugada com febre. A mãe sentara ao lado da cama, dera água e esperara o remédio agir. Em algum ponto daquela noite, enquanto esfregava um pano úmido na testa da filha, Celeste dissera que Inês jamais deveria aceitar carona de homem da família Ferraz.
Na manhã seguinte, negou ter falado qualquer coisa.
Davi percebeu a alteração em seu rosto. Os olhos dele desceram até a mão que ela mantinha no bolso, depois voltaram ao rosto.
Ele não sorriu.
— Sou o zelador da Casa das Sete Chaves. Cuido da propriedade desde antes de Celeste morrer.
Inês puxou a mala para mais perto.
— O tabelião disse que ninguém viria.
— Ele também disse que seu barco chegaria às cinco e quarenta.
Davi olhou para o fim da rua.
— O táxi da ilha quebrou ontem. A estrada para a casa ficou ruim depois da chuva.
— Posso caminhar.
O céu escurecia atrás do farol. Davi examinou o sapato dela, a mala e o casaco fino. Não houve deboche no gesto. Isso a incomodou mais do que uma risada teria incomodado.
— A subida leva quase uma hora.
— Ainda tenho pernas.
— Tem.
Ele pegou uma lanterna presa ao cinto, deu meia-volta e começou a andar.
Não insistiu para que ela o acompanhasse. Também não ofereceu qualquer garantia. Apenas reduziu o ritmo depois dos primeiros passos e deixou entre eles uma distância que permitia a Inês escolher.
Ela odiou aquela educação calculada.
Pessoas perigosas também sabiam parecer pacientes.
Seguiu Davi.
A rua principal da vila terminava atrás de uma igreja de paredes azuis. Duas senhoras conversavam sob a marquise de uma mercearia. Pararam quando Inês passou. Uma delas fez o sinal da cruz. A outra apertou os lábios e desviou o rosto.
Davi tomou a alça da mala quando chegaram à escadaria lateral da igreja.
— Eu consigo carregar.
— Acredito.
— Então devolva.
— A lama piora depois do cemitério.
Ele continuou subindo.
Inês pensou em arrancar a mala da mão dele. A escolha exigiria que se aproximasse, disputasse a alça e transformasse a cena numa briga infantil diante das janelas da vila. Guardou a irritação. Precisaria dela mais tarde.
A estrada passava pelo cemitério.
O muro baixo estava coberto por musgo. Algumas lápides haviam sido inclinadas pelo terreno úmido. Havia flores novas diante de um túmulo perto do portão, um arranjo vermelho protegido por plástico transparente. Inês procurou o nome de Celeste sem querer procurar. Não encontrou.
— Minha mãe foi enterrada aqui?
Davi demorou um pouco para responder.
— Foi cremada no continente.
— Você estava lá?
— Não.
A estrada estreitou depois do cemitério e entrou numa área de árvores deformadas pelo vento. Os troncos cresciam inclinados em direção ao interior da ilha. Galhos raspavam uns nos outros acima do caminho.
Inês conferiu o telefone. Nenhum sinal.
Guardou o aparelho e voltou a fechar a mão em torno do envelope.
— Você conheceu Celeste?
— Conheci a casa melhor que ela.
— Isso não responde.
— E conheci Celeste melhor que a casa permitia.
Inês pisou numa faixa de lama e sentiu o sapato afundar.
— Você ensaia essas respostas?
Davi afastou um galho do caminho para ela passar.
— Algumas perguntas ficam mais difíceis depois que a pessoa morre.
— Minha mãe conseguiu torná-las difíceis enquanto estava viva.
Ele a observou por um instante.
— Ela falou alguma coisa sobre a ilha?
— Quase nada.
— Sobre a casa?
— Nada.
— Sobre mim?
Inês pensou na noite de febre.
— O suficiente.
Davi não pediu esclarecimento.
O caminho ficou mais íngreme. Ele carregava a mala sem demonstrar esforço. Inês se concentrou na respiração e na marca que a chave deixava em sua mão.
Celeste fugira de Santa Dália quando Inês tinha oito anos. Levara duas mudas de roupa para cada uma, documentos e uma caixa de remédios. Durante vinte anos, a ilha se tornara assunto proibido. A mãe não falava da pensão, dos hóspedes ou da festa de inverno. Também evitava qualquer pergunta sobre o pai de Inês.
Quando a filha insistia, Celeste dizia que alguns homens deixavam apenas o sobrenome errado e problemas certos.
A morte chegara antes de uma explicação.
Agora, tudo retornava na forma de cláusula testamentária, estrada molhada e um zelador bonito demais para um lugar onde até o fim da tarde parecia escuro.
Davi tinha o rosto estreito, barba curta e cabelos castanhos presos pela água da chuva. Havia cansaço nos olhos e uma cautela que Inês conhecia bem. Era o olhar de quem media cada frase para não oferecer um ponto de entrada.
Ela conhecia aquele método. Usava algo parecido em interrogatórios.
— Há quanto tempo trabalha para minha mãe?
— Quinze anos.
— Ela morava na casa?
— Ficava alguns meses no continente e voltava.
— Sozinha?
— Quase sempre.
— Por que fechou a pensão?
Davi mudou a mala de mão.
— Depois da festa de inverno, ninguém quis dormir lá.
— Isso aconteceu há vinte anos.
— O medo dura mais que muito negócio.
Antes que Inês pudesse perguntar, a estrada fez uma curva.
A Casa das Sete Chaves surgiu acima da falésia.
A construção era ampla, com dois andares e uma varanda de madeira que percorria toda a frente. A pintura branca fora tomada por manchas de mofo. O telhado escuro se projetava sobre janelas altas voltadas para o mar. Algumas vidraças refletiam o pouco de luz restante. Outras formavam retângulos opacos.
A casa não exibia o abandono que Inês esperava. Havia algo vigilante na geometria das janelas, na porta central e na forma pela qual a varanda envolvia a fachada. Parecia ter acordado depois de um sono longo e ainda decidir se aceitava quem subia pela estrada.
Acima da porta principal, sete placas de metal estavam fixadas lado a lado.
Cada uma trazia um número gravado.
A placa número um estava limpa. As demais tinham oxidação verde, quase preta, acumulada nas bordas e dentro dos algarismos.
Davi subiu os degraus da varanda e deixou a mala perto da porta.
Inês apontou para as placas.
— Por que esse nome?
— Cada quarto antigo tinha uma chave própria. A dona original obrigava os hóspedes a entregá-las ao sino do jantar.
— Todos os dias?
— Todos.
— Para quê?
Davi retirou um molho de chaves do bolso.
— Úrsula dizia que ninguém devia permanecer dentro dos quartos durante a refeição.
— Uma regra ridícula.
Ele olhou para uma janela no segundo andar.
— Regras ridículas costumam surgir depois de acontecimentos pouco ridículos.
Uma luz piscou atrás do vidro.
Inês acompanhou o reflexo.
— Há alguém lá?
— Não.
— Você deixou alguma lâmpada acesa?
— Ainda não liguei a energia da casa.
A luz desapareceu.
Davi aproximou a mão da fechadura.
A porta se abriu antes que ele a tocasse.
Os dois pararam.
O vento avançou pela varanda e empurrou a barra do casaco contra as pernas de Inês. A porta continuou abrindo devagar, cedendo sobre as dobradiças sem rangido, até revelar o interior escuro.
Davi guardou o molho de chaves.
— A madeira incha com chuva. O trinco solta às vezes.
— E escolhe o horário?
Ele não respondeu.
Inês passou por ele.
O saguão cheirava a cera antiga, maresia e tecido guardado. Havia um balcão de recepção à esquerda, uma escada larga no centro e um relógio alto encostado na parede. Os ponteiros estavam parados em duas e dezessete.
Fotografias de hóspedes cobriam as paredes. Homens de chapéu, mulheres com vestidos de verão, crianças sentadas nos degraus da varanda. A maioria das imagens parecia anterior ao nascimento de Inês.
Sobre o balcão havia um sino de mesa coberto por um pano escuro.
Davi entrou depois dela e fechou a porta.
— O quadro de energia fica atrás da cozinha. Vou acender as luminárias.
Inês aproximou-se do balcão.
A camada de poeira era fina, mas uniforme. Ela passou a ponta dos dedos sobre a madeira, observando a linha limpa que deixava.
Então viu as letras.
Alguém escrevera seu nome na poeira.
INÊS.
O traço fora feito com um dedo firme. Letras grandes, regulares, abertas no centro do balcão.
Davi voltou com a lanterna acesa. A luz alcançou a palavra.
Ele perdeu a cor.
Inês percebeu antes que ele falasse. Um homem habituado a telhas soltas, portas inchadas e instalações antigas devia possuir explicações para ruídos e falhas de eletricidade. O rosto de Davi diante daquele nome não oferecia nada além de medo.
— Quem entrou aqui hoje?
— Eu.
— Mais alguém?
— Não.
— O tabelião?
— Deixou a pasta há quatro dias.
— Algum funcionário?
— Não há funcionários.
Ela apontou para o balcão.
— Então foi você.
— Vim de manhã. Abri duas janelas, conferi a água e fui ao cais. Isso não estava aí.
— Você espera que eu acredite?
— Espero que você saia de perto do balcão.
A resposta alterou o tom entre eles.
Inês inclinou-se para examinar a escrita. Ao apoiar a mão na madeira, a manga roçou uma linha menor abaixo de seu nome.
Davi segurou seu pulso.
O contato foi rápido. Os dedos dele estavam quentes.
Inês puxou a mão de volta.
— Não encoste em mim.
Davi soltou no mesmo instante.
— Desculpe. Você estava apagando.
Ele direcionou a lanterna para a inscrição menor.
Parte da frase já estava borrada pela manga. Ainda era possível ler duas palavras.
PRIMEIRA NOITE.
Inês ficou diante do balcão durante alguns segundos. Procurou marcas de pegadas, poeira deslocada, fios, qualquer indício de brincadeira preparada. O chão estava limpo apenas no caminho percorrido por eles.
— Você tem câmeras?
— Celeste não permitia.
— Alarme?
— Também não.
— Quem possui chave da porta?
— Eu, o tabelião e agora você.
Inês retirou o envelope do bolso.
O papel estava amassado. Abriu a aba e deixou a chave de bronze cair na palma. O metal era antigo, embora polido. Nenhuma das chaves no molho de Davi tinha formato semelhante.
— Esta abre o quê?
— A porta principal.
— Ela abriu sozinha.
— Ainda abre com chave.
— Uma vantagem admirável.
Davi acendeu as luminárias do saguão. A luz amarela revelou rachaduras no teto, manchas de umidade e a superfície escura do relógio. O lugar ficou menos ameaçador, embora não parecesse mais seguro.
O testamento estava sobre a mesa da antiga sala de jantar, dentro de uma pasta azul deixada pelo tabelião. Inês já conhecia cada cláusula. Lera o documento no continente, sentada sob ar-condicionado forte, diante de uma xícara de café ruim e de um homem que evitava responder por que Celeste escolhera condições tão específicas.
Ainda assim, abriu a pasta.
A sala de jantar tinha uma mesa comprida, doze cadeiras e um lustre coberto por pequenas teias. Um aparador sustentava pratos de porcelana e copos colocados de boca para baixo.
Inês leu a cláusula em voz alta.
— “Para vender, alugar ou demolir a propriedade denominada Casa das Sete Chaves, a herdeira deverá permanecer no imóvel durante sete noites consecutivas, dormir no antigo quarto de Celeste Avelar e manter fechadas todas as portas numeradas, salvo autorização expressa.”
Ela virou a folha.
— “Em caso de abandono da propriedade antes do prazo, o imóvel será transferido à Fundação de Amparo de Santa Dália.”
Davi permaneceu junto à entrada.
— Você sabia disso?
— Celeste me contou que haveria uma condição.
— Qual é essa fundação?
— Administra uma escola, uma clínica e parte do cais.
— Quem dirige?
— Úrsula dirigia. Depois da morte dela, formaram um conselho.
— Minha mãe preferia entregar a casa a esse conselho em vez de me permitir vendê-la?
— Celeste queria que você ficasse sete noites.
Inês fechou a pasta.
— Eu percebi.
No escritório do tabelião, a cláusula parecera uma excentricidade cruel. Dentro da casa, ouvindo o mar bater contra a base da falésia, ela adquiria uma intimidade hostil. Celeste conhecia os medos que aquele lugar podia despertar. Ainda assim, preparara o retorno da filha.
Davi mostrou a cozinha, a despensa e o banheiro reformado. Abriu torneiras, conferiu registros e explicou que um gerador sustentava parte da instalação quando a rede da ilha falhava.
A cozinha ainda guardava panelas de cobre penduradas sobre a bancada. Havia mantimentos recentes nos armários, pão embrulhado, frutas e duas garrafas de água.
— Você comprou isso?
— Celeste deixou instruções.
— Antes de morrer?
— Dois meses antes.
— Ela sabia que morreria?
Davi fechou a porta do armário.
— Ela estava doente.
— Eu sei. Eu estava no hospital.
Ele abaixou os olhos.
Inês sentiu uma satisfação amarga por tê-lo ferido. A sensação desapareceu logo depois. Davi não tinha causado os meses em que Celeste perdera força sem oferecer respostas. Também não tinha obrigado Inês a assinar formulários, escolher a urna e ouvir condolências de pessoas que conheciam uma versão da mãe diferente da sua.
Subiram para o primeiro andar.
O quarto de Celeste ficava distante da escada que levava aos aposentos numerados. A porta era azul e não trazia placa.
Davi abriu e permaneceu no corredor.
A cama estreita estava coberta por uma colcha amarela. A janela dava para um jardim tomado por plantas altas e galhos secos. Havia uma cadeira, um armário, uma penteadeira e um criado-mudo.
Sobre ele, alguém deixara um copo limpo, uma caixa de fósforos, uma vela nova e uma fotografia virada para baixo.
A mala de Inês foi colocada ao pé da cama.
Davi não cruzou a soleira.
— Moro na antiga casa de ferramentas, atrás do poço. Há uma campainha perto da cozinha. O fio chega até lá.
Inês olhou para os pés dele, alinhados do lado de fora.
— Você sempre respeita limites de quarto com essa disciplina?
— Nesta casa, entrar onde não foi chamado custa caro.
— Quanto?
— Depende do quarto.
— E do convidado?
— Também.
Davi entregou a lanterna.
— Tranque a porta.
— Você pretende voltar?
— Só se me chamar.
Ele saiu.
Inês fechou e girou a chave por dentro. Testou a maçaneta duas vezes, depois verificou a janela. O trinco estava firme. Não havia varanda do lado de fora, apenas a queda até o jardim.
Abriu a mala e colocou algumas roupas sobre a cadeira. Não usou o armário. A madeira tinha um cheiro adocicado que lembrava o quarto de Celeste no continente.
A casa parecia atenta aos movimentos dela. Inês reagiu simulando normalidade. Organizou objetos de higiene, conectou o celular numa tomada e separou o moletom que usaria para dormir.
Tomou banho.
A água começou morna e esfriou no último minuto. Inês fechou o registro antes que o choque lhe arrancasse um grito. Vestiu-se, prendeu o cabelo e voltou ao quarto esfregando os braços.
A fotografia continuava virada para baixo.
Sentou-se na cama e permaneceu olhando para o papel durante algum tempo. Tinha medo de encontrar uma Celeste jovem e feliz, livre da tensão que marcara seus últimos anos. Temia ainda mais ver a mãe ao lado de alguém que explicasse a ausência do pai.
Virou a imagem.
Celeste tinha pouco mais de vinte anos. Estava na varanda da pensão, rindo para alguém fora do enquadramento. Usava uma saia clara e uma blusa de mangas curtas. O cabelo caía solto até os ombros.
Ao lado dela havia uma mulher alta de vestido vermelho. A mulher não sorria. Mantinha uma das mãos apoiada na cintura de Celeste.
Um rapaz de camisa branca estava junto à porta.
Perto do corrimão havia um homem de costas. A mão direita dele repousava sobre a madeira. O rosto permanecia fora do quadro.
No canto inferior da foto, uma data fora escrita a caneta.
Junho de 2004.
Inês fez a conta.
Nasceria oito meses depois.
A respiração ficou curta. Virou a fotografia.
A letra de Celeste ocupava o centro do verso.
NÃO ACEITE A SÉTIMA CHAVE.
Inês leu duas vezes.
Levantou-se e aproximou a foto da luminária. A tinta era azul, semelhante à usada pela mãe em listas de compras e bilhetes deixados na geladeira. Não havia indicação de quando a mensagem fora escrita.
Inês procurou o telefone. Continuava sem sinal.
Pensou em descer e confrontar Davi. Também pensou no modo pelo qual ele olhara para a janela do segundo andar, na marca deixada na poeira e no testamento preparado para prendê-la ali durante sete noites.
Guardou a fotografia no bolso do moletom.
Às onze e quarenta, ouviu as primeiras batidas.
Estava sentada na cama com o celular erguido perto da janela, procurando uma faixa de sinal. Três golpes vieram do corredor.
Pausa.
Mais três.
Inês baixou o braço.
Esperou por passos, por uma voz ou pela abertura de alguma porta. Nada veio.
As batidas recomeçaram, agora mais próximas.
Ela colocou o celular sobre o colchão e pegou a vela do criado-mudo. Percebeu a inutilidade do objeto antes de se levantar. Largou-a e abriu a mala.
O spray de pimenta estava no bolso lateral. Inês o usava quando saía tarde dos plantões no escritório e precisava atravessar duas quadras até o estacionamento.
Segurou o frasco e caminhou até a porta.
Algo pesado era arrastado pelo corredor.
O ruído avançou pela madeira, parou diante do quarto e deu lugar a uma respiração irregular.
A maçaneta girou uma vez.
Inês verificou a chave. Continuava encaixada por dentro.
Uma sombra cruzou a fresta sob a porta. Era fina e comprida. Parou diante dos pés dela.
Inês ergueu o spray.
O corredor recebeu três batidas rápidas.
— Inês?
A voz era de Davi.
Ela abriu a porta de uma vez e apontou o frasco para o peito dele.
Davi levantou as mãos. Não riu.
— Sou eu.
— Eu sei.
— Então pode baixar isso.
— Por que estava tentando abrir?
— Não tentei.
Inês olhou para a maçaneta.
— Alguém tentou.
Davi examinou o corredor, depois o chão.
— Vi uma luz no segundo andar. Pensei que você tivesse subido.
— Eu estava aqui.
— Tem certeza?
— Posso reconhecer o quarto onde passei a última hora.
A sombra havia desaparecido. Também não havia objeto arrastado ou marcas no piso.
Davi apontou a lanterna para a escada no fim do corredor.
Inês viu a palidez voltar ao rosto dele.
— O que há lá em cima?
— Os quartos numerados.
— Quantos?
— Sete.
— Todos fechados?
— Desde que a pensão encerrou as atividades.
— Quando foi isso?
Davi manteve os olhos na escada.
— Na noite da festa de inverno.
— O que aconteceu?
— Seis pessoas dormiram na casa.
Ele demorou a continuar.
— Cinco foram embora no registro da polícia.
Inês repetiu a conta em pensamento.
Seis hóspedes.
Cinco saídas.
Uma ausência mantida por vinte anos.
— Quem ficou?
O sino da recepção tocou.
O som veio do andar térreo. Seco, limpo, metálico.
Davi fechou os olhos durante meio segundo.
Quando os abriu, retirou a lanterna do cinto.
— Fique no quarto.
Inês saiu atrás dele.
— Você ainda não entendeu com quem está falando.
Desceram a escada. Davi mantinha a luz apontada para os degraus. Inês segurava o spray e a lanterna que ele lhe dera.
O saguão estava iluminado. Mesmo assim, as paredes pareciam mais distantes.
O pano que cobria o sino tinha caído no chão.
Sobre o metal repousava uma chave de ferro antiga, cercada por um círculo de água salgada.
Não era a chave de bronze do envelope. Era escura, espessa e maior. O número um estava gravado na cabeça.
Inês olhou para as placas acima da porta principal.
A primeira, limpa quando chegaram, agora gotejava. A água descia pelo metal e caía sobre a madeira.
— Celeste.
Davi pronunciou o nome sem perceber.
Inês aproximou-se do balcão.
— O que minha mãe tem a ver com isso?
— Não toque.
Ela pegou a chave.
O ferro estava tão frio que doeu.
No instante em que seus dedos se fecharam, o relógio parado no saguão voltou a funcionar.
O ponteiro avançou de duas e dezessete para duas e dezoito.
O movimento durou um segundo.
Uma porta bateu no andar de cima.
Davi agarrou o corrimão.
— Você não devia ter tocado.
— A casa é minha.
A frase pareceu frágil dentro do saguão.
Uma mulher riu no segundo andar.
O som era baixo e rouco. Não tinha leveza ou graça. Era o riso cansado de alguém que esperara por tanto tempo que a espera se transformara em costume.
Inês subiu três degraus.
Davi a alcançou e segurou seu braço.
— Não vá.
Ela se soltou.
— Você sabe quem está lá?
— Sei que quer que você suba.
— Isso não responde.
— É a única resposta segura.
Inês continuou.
A escada até o segundo andar estreitava perto do topo. O corredor era comprido, com uma janela em cada extremidade. Sete portas ocupavam a parede esquerda. Cada uma tinha uma placa oval e um número.
A porta número um estava aberta.
Ficava no fim do corredor.
De dentro vinha cheiro de vela apagada e maré baixa.
Davi parou alguns passos atrás.
— Inês.
Ela ergueu a chave.
— Foi a casa que entregou.
— A casa entrega coisas para cobrar outras.
Inês entrou.
O quarto número um estava preparado para um hóspede recente.
A cama tinha lençóis limpos e uma colcha cinza dobrada aos pés. Sobre a cômoda havia uma bacia com água escura. Um vestido branco pendia atrás da porta.
No chão, uma mala masculina permanecia aberta.
A madeira rangia sob os passos de Inês. Davi ficou na entrada.
Sobre o travesseiro havia um cartão de hospedagem.
Inês pegou o papel.
As bordas estavam comidas pela umidade. A tinta, desbotada, continuava legível.
Nome do hóspede: Raul Avelar.
Data de entrada: 27 de junho de 2004.
Data de saída: em branco.
O sobrenome fez o quarto inclinar ao redor dela.
Celeste jamais revelara o nome de seu pai.
Nunca.
Inês olhou para Davi.
Ele permanecia atrás dela, imóvel. A culpa em seu rosto era tão evidente que quase se tornava uma confissão.
— Você conhecia esse nome.
— Já ouvi.
— Onde?
— Inês, precisamos sair.
— Onde ouviu?
A água da bacia se mexeu.
Uma bolha subiu até a superfície e estourou.
A voz rouca falou perto do ouvido de Inês.
— A filha de Raul veio buscar o que ele deixou enterrado?
Inês Avelar deixou a Ilha de Santa Dália ainda criança, depois que sua mãe fugiu da Casa das Sete Chaves sem explicar por que nunca mais olhava para o mar. Vinte anos depois, a morte de Celeste obriga Inês a voltar para assinar a venda da antiga pensão, agora vazia, úmida e cercada por histórias sobre hóspedes que desapareceram numa festa de inverno. O testamento impõe uma condição simples e cruel. Inês precisa dormir sete noites na casa antes de vender qualquer parede. Davi Ferraz, o zelador que permaneceu quando todos foram embora, conhece cada fechadura e cada mentira da ilha, porem evita a única porta que não tem número. Entre desejo, medo e objetos que mudam de lugar durante a madrugada, Inês descobre que a herança da mãe é uma chance tardia de impedir que a próxima chave abra uma cova.
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