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O Mapa dos Desejos

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O Mapa dos Desejos

Capítulo 1 · O Mapa dos Desejos

A Caixa do Afogado

Lia Brandão encontrou a caixa do pai no balcão da oficina náutica, entre uma nota de cobrança, uma chave de vela e um copo de café que já nascera ruim. O entregador não esperou assinatura. Deixou o embrulho, olhou para o cais com pressa e foi embora numa moto sem placa traseira. Lia ficou parada diante da caixa por tempo suficiente para o motor sumir na rua de areia. O nome dela estava escrito no papel pardo com a letra de Augusto Brandão, morto havia quatro anos, ou desaparecido, segundo a Capitania, ou fugido, segundo os credores, ou engolido pelo próprio orgulho, segundo a tia dela quando bebia. Lia tocou a escrita com o dedo molhado de graxa e sentiu uma raiva antiga levantar a cabeça. Pai morto não devia mandar encomenda. Pai desaparecido devia ter a decência de continuar calado.

A oficina ficava no fim do cais de Arraial do Vento, uma construção azul de madeira, telha quente, cheiro de diesel e cordas secando ao sol. Lia herdara o lugar sem dinheiro, sem seguro e com o barco Santa Brasa quase apreendido por dívida. Vivia de mergulhos turísticos, reparos pequenos e promessas que fazia a fornecedores com uma confiança que ela mesma não comprava. Naquela manhã, três franceses esperavam passeio para as piscinas naturais, um motor de popa tossia na bancada e a maré subia limpa demais, mostrando pedras que costumavam ficar escondidas até o fim da tarde. A caixa, porém, ocupava todo o cais. Lia pegou uma faca e cortou o barbante. Dentro havia um estojo de couro, um maço de cartas seladas com fita preta e um mapa dobrado, grosso, marcado por manchas que brilhavam quando recebiam luz.

O mapa não parecia antigo de museu. Parecia coisa usada, aberta muitas vezes, guardada molhada e seca às pressas. Tinha ilhas desenhadas à mão, linhas de profundidade, três cruzes, uma rota interrompida e espaços vazios onde coordenadas deveriam estar. Lia passou o dedo por uma dessas lacunas. A tinta se moveu sob a pele dela, devagar, formando uma linha fina que apontava para o próprio cais antes de apagar. Ela puxou a mão. O papel ficou frio. No canto inferior, Augusto escrevera uma frase curta. Não procure o tesouro que você quer. Procure o desejo que o mapa mostra. Lia fechou os olhos. O pai gostava de frase torta, pista impossível e dívida concreta. Também gostava do Santa Brasa, o barco de casco vermelho, remendo demais e motor que só pegava quando insultado pelo nome certo. Era a única coisa que Caio Villar vinha tentando comprar havia meses.

Caio apareceu no cais antes que ela terminasse de abrir a primeira carta, camisa clara, óculos escuros, cabelo ainda úmido de banho caro e a expressão irritante de quem nunca precisou escolher entre pagar imposto e trocar cabo de aço. O sobrenome Villar ocupava placas em metade dos galpões do porto, guindastes, balsas, contratos de resgate, leilões de naufrágio. Ele parou na entrada da oficina e tirou os óculos ao ver a caixa. Lia guardou o mapa debaixo do braço. Caio perguntou quem entregara aquilo. Ela respondeu que curiosidade dele continuava sem autorização. Ele não sorriu. Disse que dois homens perguntaram por ela no píer norte, armados o bastante para transformar cobrança em notícia. Lia olhou para o cais. Os franceses reclamavam do atraso perto do barco, ignorando que a manhã acabara de perder qualquer possibilidade de turismo.

Caio entrou sem convite e fechou a porta da oficina. Lia pegou a chave de roda mais próxima. Ele ergueu as mãos, porem não recuou. Disse que precisava ver o mapa. Lia respondeu que ele precisava sair antes que ela testasse ferramenta em herdeiro. O olhar dele desceu para o estojo de couro, para os dedos dela ainda marcados pela tinta móvel, para o nome de Augusto na caixa. Algo mudou em seu rosto, rápido, quase culpa. Lia percebeu e isso a irritou mais que arrogância. Perguntou o que ele sabia sobre o pai dela. Caio disse que Augusto procurou a Villar Resgates duas semanas antes de desaparecer, oferecendo coordenadas de um navio chamado Santa Ovidia. Lia soltou uma risada sem humor. O Santa Ovidia era piada de bar, uma lenda de contrabandistas, santos ocos e capitães que levavam segredo para baixo da água. Ninguém sério acreditava nele. Augusto acreditava em qualquer coisa que prometesse saída.

A porta dos fundos rangeu. Lia virou primeiro porque conhecia cada barulho da oficina. Aquele não pertencia à madeira. Dois homens entraram pela passagem do depósito, bonés baixos, camisas de pesca, armas curtas junto ao corpo. Um deles mandou que ela largasse a caixa. O outro olhou para Caio e pareceu surpreso, o que dava alguma vantagem. Lia arremessou a chave de roda no braço do primeiro e puxou o mapa antes que a caixa caísse. Caio derrubou uma prateleira contra o segundo homem, espalhando filtros, cordas e latas de tinta. O tiro acertou a parede, estourando uma fotografia antiga de Augusto segurando Lia criança dentro do Santa Brasa. Os franceses gritaram do lado de fora. Lia correu para o cais com o mapa dentro da blusa e a primeira carta presa entre os dentes, porque as mãos tinham escolhido sobrevivência antes de dignidade.

O Santa Brasa estava amarrado a dez passos, casco vermelho batendo na madeira. Lia saltou para dentro, jogou a chave no contato e xingou o motor pelo apelido que o pai usava em dias de ressaca. Caio caiu no banco ao lado um segundo depois, trazendo a caixa de couro contra o peito e sangrando no supercílio. Ela perguntou quem o convidara. Ele respondeu que os homens atrás dela estavam recarregando. O motor pegou no terceiro insulto. Lia cortou a amarra com faca de mergulho e empurrou o barco para fora do cais. Um segundo tiro bateu na boia de proa. O Santa Brasa saiu torto, cuspindo fumaça, enquanto gente corria pelo cais e alguém chamava a polícia tarde demais. Lia apontou para a saída da enseada. Caio segurou a borda com força e disse que, se ela virasse à esquerda, entrariam no canal raso. Ela respondeu que conhecia aquele canal desde os doze anos. Ele disse que o canal mudara depois da última tempestade. Dessa vez ela obedeceu.

Quando passaram pela primeira curva de pedras, Lia viu a lancha preta deixando o píer norte. Não tinha identificação. Tinha motor demais. Caio pegou o rádio do barco e tentou chamar a Capitania. Só recebeu chiado. Lia olhou para ele. Ele disse que a Villar usava bloqueador em operação de resgate, e aquele som parecia igual. Lia quase o empurrou no mar. Perguntou se era gente dele. Caio respondeu que, se fosse, ele não estaria sangrando dentro do pior barco do porto. O Santa Brasa ouviu a ofensa e falhou por dois segundos. Lia bateu no painel com a palma aberta, pedindo desculpa ao motor e insultando Caio no mesmo fôlego. A lancha preta ganhou distância. À frente, a água mudava de azul para verde escuro perto das pedras da Garça. Lia conhecia uma passagem estreita por ali. Turista nenhum via, seguro nenhum cobria, pai nenhum deveria ter ensinado a filha a usar aquilo fugindo.

A passagem da Garça cortava entre duas paredes de pedra cobertas de mariscos. O Santa Brasa entrou com pouco espaço de cada lado. Caio prendeu a respiração quando o casco raspou leve. Lia manteve a mão firme no leme, olhos na espuma, lembrando a voz do pai dizendo que pedra sempre avisa antes de rasgar. A lancha preta tentou seguir e desistiu ao ver a entrada estreita. Um dos homens gritou algo que o vento levou. O som do motor deles ficou para trás. Lia só reduziu quando o canal abriu numa lagoa escondida, cercada por mangue baixo e água lisa. Desligou o Brasa. O silêncio caiu pesado. Caio soltou o ar. Lia virou para ele e arrancou a caixa de suas mãos. Dentro do estojo havia uma bússola sem ponteiro, uma medalha de Nossa Senhora do Desejo e uma fotografia de Augusto ao lado de um homem que Lia reconheceu com nojo tardio. O pai de Caio.

Caio não fingiu surpresa. Disse que Henrique Villar financiou a última expedição de Augusto. Disse também que a expedição voltou sem Augusto, sem registro oficial e com o pai dele proibindo qualquer menção ao Santa Ovidia. Lia sentiu uma vontade limpa de acertar o rosto dele. Caio não se defendeu. Acrescentou que Henrique morreu seis meses depois, deixando arquivos trancados e uma ordem para comprar o Santa Brasa se Lia algum dia tentasse vendê-lo. Ela perguntou por que ele nunca contou. Ele respondeu que ela teria cuspido nele antes da segunda frase. Lia considerou a hipótese e achou provável. Abriu a primeira carta de Augusto com dedos que tremiam de raiva e água. A letra do pai dizia que Villar não matou sozinho, que o mapa estava dividido em três provas e que a filha deveria confiar no rapaz apenas se ele sangrasse pelo Brasa antes de pedir desculpa.

Caio leu por cima do ombro dela, perto demais. Lia sentiu o calor do corpo dele, o cheiro de sangue fresco e perfume caro já vencido pelo mar. A proximidade a irritou porque o perigo não apagava certas percepções inúteis. Ela afastou a carta do alcance dele. Disse que sangrar por acidente não contava. Caio respondeu que pedir desculpa também exigiria tempo e plateia menor. No verso da carta havia coordenadas incompletas e um desenho de três pedras, iguais às da lagoa onde estavam escondidos. Lia olhou ao redor. A Garça tinha exatamente três pedras altas no centro do mangue, alinhadas apenas quando vistas do barco parado. A bússola sem ponteiro começou a vibrar dentro do estojo. Caio pegou o mapa, dessa vez com cuidado, e aproximou a bússola das manchas brilhantes. O papel aqueceu e revelou uma frase que não estava ali antes. Quem toca primeiro escolhe o desejo. A linha desenhada apontou para baixo da água.

Lia vestiu o equipamento de mergulho sem discutir. Caio quis ir junto. Ela negou porque havia apenas um cilindro cheio e porque ainda preferia arriscar afogamento a depender da família dele debaixo d'água. Ele amarrou uma corda na cintura dela, ignorando o olhar assassino, e disse que aquilo não era pedido de permissão. Era forma de puxar seu corpo se o mapa tivesse sido feito para matar. Lia odiou a frase por ser útil. Caiu na água pela lateral, sentindo o frio fechar sobre os ombros. A lagoa era rasa no começo, depois abria uma fenda entre raízes antigas. No fundo, pedrinhas claras formavam um caminho estreito, visível apenas quando ela segurava o mapa dentro da capa plástica junto ao peito. Lia seguiu a linha até uma pedra marcada com o mesmo desenho da medalha. Atrás dela havia uma cavidade. Dentro, presa por conchas e lama, uma caixa de metal esperava com o nome Brandão gravado na tampa.

Quando Lia tocou a caixa, algo puxou a corda com violência. Por um segundo achou que Caio a chamava de volta. Depois viu a sombra passar acima, grande demais para peixe comum, reta demais para tronco. A lancha preta encontrara outra entrada na lagoa. O som do motor chegou abafado pela água. Lia agarrou a caixa contra o peito e chutou para subir. A corda prendeu em raiz. O ar no cilindro parecia diminuir mais rápido que o possível. Ela puxou a faca da perna, cortou a corda e subiu sem linha. A superfície estava cheia de gritos. Caio lutava com um dos homens dentro do Santa Brasa, sangue no rosto de novo, enquanto outro apontava arma para a água procurando por ela. Lia emergiu pelo lado oposto, bateu a caixa de metal contra o pulso armado e ouviu o osso estalar antes de pensar. Caio aproveitou para derrubar o primeiro homem no banco do motor. O Brasa girou sozinho, ofendido e vivo.

A caixa caiu no convés entre eles. A lancha preta raspou no mangue, tentando se aproximar. Lia correu para o leme, ainda com máscara no rosto e água escorrendo pelo pescoço. Caio jogou o homem ferido para fora do barco e gritou que o canal do norte estava livre. Ela não perguntou como ele sabia. Acelerou. O Santa Brasa saiu da lagoa pela passagem oposta, levando tiros, folhas, lama e uma caixa que provavelmente explicava por que dois pais mentiram até a morte. Quando alcançaram mar aberto, a lancha preta ficou presa no mangue por segundos preciosos. Lia manteve o motor no limite até o cais de Arraial virar apenas uma linha atrás deles. Só então abriu a caixa de metal. Dentro havia uma chave enferrujada, um pedaço de diário de bordo e uma pedra clara, lisa, pesada, cortada em forma de coração. No diário, Augusto escrevera que o Santa Ovidia não afundou por tempestade. Foi enterrado vivo pelo desejo de alguém.

O Mapa dos Desejos

Sinopse

Lia Brandão vive de mergulhos turísticos em Arraial do Vento, até receber uma caixa deixada pelo pai desaparecido no mar. Dentro dela há um mapa sem coordenadas fixas, uma bússola sem ponteiro e o nome de um navio que todos juram nunca ter existido. Caio Villar, herdeiro de uma empresa de resgate marítimo e seu rival mais irritante, quer o mapa porque sabe que a última expedição do pai dele envolveu Augusto Brandão. Quando homens armados invadem o cais atrás da caixa, Lia aceita dividir a busca com Caio, desde que ele entregue barco, combustível e verdade. Entre ilhas fechadas, cavernas submersas, desejo difícil de negar e pistas que mudam conforme quem toca o papel, Lia descobre que o mapa não aponta para ouro. Aponta para aquilo que cada pessoa seria capaz de trair para possuir.

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