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A crise da filosofia messiânica

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A crise da filosofia messiânica

Capítulo 1 · A crise da filosofia messiânica

A Crise da Filosofia Messiânica - bloco 01

A Crise da Filosofia Messiânica

Tese para concurso da Cadeira de Filosofia da Faculdade de Filosofia. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 1950.

A ANTROPOFAGIA ritual é assinalada por Homero entre os gregos e segundo a documentação do escritor argentino Blanco Vilíalta, foi encontrada na América entre os povos que haviam atingido uma elevada cuhura — Asteca, Maias, Incas. Na ex- pressão de Colombo, comiam tos hombres. Não o faziam po- rém, por gula ou por fome. Tratavá-se de um rito que, encon- trado também nas outras partes do globo, dá a iaéia de. ex- primir um modo de pensar, uma visão do mundo, que carac- terizou certa fase primitiva de toda a humanidade. Considerada assim, como weüanschauung, mal se presta à interpretação materialista e imoral que dela fizeram os je- suítas e colonizadores. Antes pertence como ato religioso ao rico mundo espiritual do homem primitivo. Contrapõe-se em seu sentido harmônico e comunial, ao canibalismo que vem a ser a antropofagia por gula e também a antropofagia por fo- me, conhecida através da crônica das cidades sitiadas e dos viajantes perdidos. A operação metafísica que se liga ao rito antropofágico é a da transformação do tabu em totem. Do valor oposto, ao valor favorável. A vida é devoração pura. Nesse devorar que

ameaça a cada minuto a existência humana, cabe ao homem totemizar o tabu. Que é o tabu senão o intocável, o limite? En- quanto na sua escala axiológica fundamental, o homem do Ocidente elevou as categorias do seu conhecimento até Deus, supremo bem, o primitivo instituiu a sua escala de valores até Deus, supremo mal. Há nisso uma radical oposição de con- ceitos que dá uma radical oposição de conduta. E tudo se prende à existência de dois hemisférios cultu- rais que dividiram a história em Matriarcado e Patriarcado. Aquele é o mundo do homem primitivo. .Este o do civilizado. Aquele produziu uma cultura antropofágica, este uma cultura messiânica.

Chegamos ao momento das grandes interrogações. Se este século, em sua primeira metade, foi um campo de experimen- tação da História, foi também um laboratório de hipóteses e de pesquisas. Devassou no espaço e no tempo, os segredos do universo atômico e do universo astral, percorreu as idades da crosta terrestre, classificou a evolução dos seres e das cul- turas, restaurou desde as origens o pensamento humano na sua autenticidade, libertando-o das deformações interessadas que o desviavam para lutas confessionais. Fez mais. Humani- zou a Filosofia. Soren Kierkegaard já havia conduzido para o subjetivo e para o cotidiano a emoção de sua dúvida. Karl Marx reduzira à contabilidade os vôos da metafísica alemã. E Friedrich Nietzsche afirmou que o habitai dos grandes pro- blemas é a rua. Na rua, na contabilidade e no dia útil, nestà metade de século, o homem trabalhou sobre o homem. E hoje, pode-se restaurar um velho brocardo da Idade Média: — Philo- sophia ancila theologiae. Apenas o último termo mudou, intro- duzindo-se no vocabulário clássico, um barbarismo de boa hora — Philosophia ancila sotiologiae*.

* £ uma triste impostura essa que procura Isentar a filo- sofia crente de seus compromissos messiânicos. São Tomás que tanto trabalhou para Isso, admitia, no entanto, o conhecimento

A Filosofia nunca foi uma disciplina autônoma. Ou a fa- vor da vida ou contra ela, iludindo os homens ou neles acredi- tando, a Filosofia dependeu sempre das condições históricas e sociais em que se processou. Eis a primeira afirmação da presente tese que coincide não somente com Karl Marx, mas com Kiekegaard e Friedrich Nietzsche. Outro pensador, o amargo Schopenhauer, trouxe para o debate intelectual de há cem anos, um elemento que fora lon- gamente dissimulado sob as roupagens da Religião e da £tica. Ele soube fixar o papel da vontade como elemento primordial da vida e, sem dúvida, foi dai que derivou o universo abscon- so de Sigmund Freud. Ê um elemento que está hoje profunda e definitivamente ligado à filosofia. Há uma cronologia das idéias que se sobrepõe à crono- logia das datas. O decálogo daria Kant, Maquiavel, Loiola e Lênin. Essa linhagem é, na filosofia dos cimos, a linhagem que afirma que os fins justificam os meios, a que exige de seus adeptos, forçados ou não, a obediência inerte, a que, na exis- tência dialética do espirito, estagna no segundo termo a que constitui a negação do próprio ser humano. Forque enfim, é a seguinte a formulação essencial do homem como problema e como realidade:

1.° termo: tese — o homem natural 2.° termo: antítese — o homem civilizado 3.° termo: síntese — o homem natural tecnizado.

Vivemos em estado de negatividade, eis o real. Vivemos no segundo termo dialético da nossa equação fundamental.

através dos sentidos e não é pelos sentidos que se revela. "As coisas sensíveis não podem conduzir nossa inteligência a ver ne- las o que é a substância divina." Só a revelação de fato decidida.

O exegeta de Hegel, Kojeve, afirma que o homem é ini- cialmente "natureza inata, ser natural de caracteres fixos, ani- mal especificamente determinado que vive no seio da natureza, tendo aí seu lugar natural." Eis o primeiro termo. Comentando Kojeve, um pensador católioo, R. Vancourt, elucida o segundo termo: "O homem não é homem senão pela sua negatividade, isto é, no quanto ele nega esse dado, no quan- to ele se nega a si mesmo como dado, enquanto, como nature- za e liberdade, ele constitui precisamente essa negação do da- do e assim se manifesta pelo trabalha e no trabalho". Eis a an- títese. Kojeve, vindo ao segundo termo, também afirma: "O ho- mem não existe por si, senão na medida onde implica em seu ser, na sua existência e na sua aparição, o elemento constitutivo da negatividade". Hans Keken, que não é só um mestre do Direito, mas um dos atuais representantes da Filosofia da Cultura, já esgotou o fenômeno do jusnaturalismo. Com ele, vemos imediatamente que a idéia de justiça, em todas as sociedades humanas, apa- rece como "natural". Ê coisa natural o direito justo. E sendo justo passa a ser legal. No mundo do homem primitivo que foi o Matriarcado, a sociedade não se dividia ainda em classes. O Matriarcado as- sentava sobre uma tríplice base: o filho de direito materno, a propriedade comum ao solo, o Estado sem classes, ou seja, a ausência de Estado. Quando se instaurou o Estado de clas- ses, como conseqüência da revolução patriarcal, uma classe se apoderara do poder e dirigia as outras. Passava então a ser legal o direito que defendia os interesses dessa classe, crian- do-se uma oposição entre esse Direito, o Direito Positivo e o Direito Natural. Sendo aquele um direito legislado, exigia obe- diência. Estabeleceu-se então a organização coercitiva que é o Estado, personificação do legal. Da validade do legal como legal, foi possível a transfe- rência para o domínio do arbítrio de toda emanação de Di- reito. Passou a ser o Direito aquilo que negava pela coação, a própria natureza do homem. No longo desenvolvimento desse

Direito que deu as leis do Patriarcado, o jusnaturalismo sempre reivindicou o seu papel de fonte natural e direta de justiça. Hoje, mais do que nunca, ele surge revigorado pela derroga- ção, lenta ou revolucionária das formas jurídicas patriarcais que são; o filho de direito paterno, a propriedade privada do solo e o Estado de classes.

A ruptura histórica com o mundo matriarca] produziu-se quando o homem deixou de devorar o homem para fazè-lo seu escravo. Friedrich Engels assinala o fecundo progresso dialéti- co que isso constituiu para a humanidade. De fato, da servidão derivou a divisão do trabalho e a organização da sociedade em classes. Criou-se a técnica e a hierarquia social. E a história do homem, passou a ser, como disse Marx, a história da luta de classes. Uma classe se sobrepôs a todas as outras. Foi a classe sacerdotal. A um mundo sem compromissos com Deus, suce- deu um mundo dependente de um Ser Supremo, distribui- dor de recompensas e punições. Sem a idéia de uma vida fu- tura, seria difícil ao homem suportar a sua condição de es- cravo. Daí a importância do messianismo na história do pa- triarcado. Fora dele, anterior a ele, ficou a reminiscência do sa- cerdote que defendia a própria função e com ela a vida, dia e noite, rodando em torno ae uma árvore, solitário e soturno, à espera do golpe fatal de seu sucessor que o espreitava. Esse símbolo do sacerdote ligado ao culto como à sua própria existência, que abre o folclore de Frazer no Ramo de Ouro, dá bem a imagem do condutor religioso da tribo, de cuja vigilância depende como a sua, a própria vida do grupo. Estamos longe desse padre insone do lago de Nemi, quan- do vemos se desenvolver na história de todas as religiões, o Sacerdócio como sinecura sagrada, muitas vezes confundido com a própria função da realeza. Os reis-padres sucedem-se na organização das primeiras sociedades e quando as duas funções se separam, a do mago que comanda o sobrenatural envolve a outra que de sua sanção passa a depender.

A história do sacerdócio caracteriza-se como fonte do que Friedrich Nietzsche havia de chamar a Moral de Escra- vos. Nos velhos livros religiosos, verifica-se uma coincidência de ordenações, princípios e máximas que poderiam constituir a Cartilha do Escravo Perfeito. O sacerdote foi muitas vezes o legislador, outras vezes, através de augúrios e oráculos, presidiu a paz como ordenou a guerra. Vitorioso e intocável no Egito, no Oriente, na Grécia e em Roma, testemunho e apanágio das civilizações mais cultas, o Sacerdócio teve um retorno ao seu sentido nativo em Roma, nos primeiros tempos do Cristianismo. Aí ressurge na figura esgazeada e contundente do náufrago Paulo, em Pedro cru- cificado de cabeça para baixo, nos Padres Mártires da cata- cumba e do circo, a figura dramática do sacerdote de Nemi. Mas desde que Constantino pacifica a questão social roma- na, sancionando a servidão que se impunha com a falta de mão-de-obra do latifúndio, o Papado se instala no berço de púrpura do Catolicismo e penetra na alta Idade Média en- frentando Atila e Genserico. A renascença carolíngia daria a confirmação histórica do papel tutelar do sacerdócio. Nela se alicerça o Santo Império Romano e só mais tarde, ante a decadência e a desmoraliza- ção da Roma papal, é que o sacerdócio vê alinharem-se dian- te dele, humildes umas, outras violentas e reformadoras, al- gumas figuras que o fazem estremecer. Francisco em Assis, Savonarola em Florença e finalmente o monge Martinho Lu- tero em Wittemberg, no coração da Alemanha. Antes de chegarmos à crise do Sacerdócio ocidental cul- minada na Reforma luterana, vejamos a etimologia dessa pa- lavra que acompanha e centraliza a história de todas as igre- jas. Sacerdócio quer dizer ócio consagrado aos deuses. O ócio não é esse pecado que farisaicamente se aponta como a mãe de todos os vícios. Ao contrário, Aristóteles atribui o progres- so das ciências no Egito ao ócio concedido aos pesquisadores e aos homens de pensamento e de estudo. A palavra ócio em grego é sxolé, donde se deriva escola. De modo que podemos

A crise da filosofia messiânica

Sinopse

A crise da filosofia messiânica é a tese apresentada por Oswald de Andrade em 1950 para concurso da cadeira de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. A edição Literúnico preserva o texto autoral em domínio público a partir do exemplar digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

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