Universo da obra
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LEILAH
Três momentos das Antilhas
Cocktail
O negro do "bar", debrugado na mesa vazia, sorve, de olhos semi-cerrados, os frios do mármore humido. Em cada vigia salta uma flecha de fogo, e a luz das três horas da tarde mergulha no mar o corpo molle e oleoso.
Ao meu lado, estendida na cadeira de lona riscada de vermelho e branco, miss Garrett, americana de St. Louis Missouri, comprida e magra, parece uma espada reteza na sua bainha de linho. Miss Garrett fala mal dos judeus, não acredita na South America, tem sardas do trópico, e é amiga intima de miss O'Bryen, campeã de tennis de San Antônio do Texas. Miss Garrett, de St. Louis Missouri, e miss O'Bryen, campeã de tennis de San Antônio do Texas, viajam na mesma cabine, vestem os mesmos vestidos brancos, têm, de manhã, o mesmo cheiro de pasta dentifricia e dizem "darling", uma para a outra, como se estivessem jogando entre si com a mesma bola de que se serviu miss O'Bryen para o "wonderful drive", como
escreveu John Joyce, correspondente do "New York Times", para o "drive" único, que afastou, de uma vez, a concorrência de miss Edith Lathrop, campeã do Country Club, de Dayton. O ar das Antilhas sopra um desejo de aventuras navaes. O ar das Antilhas balança pelo "deck" a sua pluma de aromas salgados O ar das índias Occidentaes! Mas todos os saxões abaixam as conchas vermelhas das palpebras espessas sobre os olhos inúteis. Do meu lado direito, miss Garrett resona. Do meu lado esquerdo, miss O'Bryen resona. Deante de mim, envernizado de suor, o negro do bar resona. Brancos e pretos resonam. Doçura da paz "yankee" O ar das Antilhas belisca o mar. A única aventura de bordo é a minha imaginação!
Sésta
It/TADEMOISELLE Blanche Durand é sobrinha do mais rico perfumista da rua Bonaparte, na Ilha de Nossa Senhora de Guadeloupe. Seu "bungalow" tem uma varanda que dá para o mar. No "bungalow" de mademoiselle Durand ha uma victrola de Broadway, uma mesinha redonda de pés torcidos, onde estão os caramujos mandados por suas primas da ilha de Maria-Galante, uma flauta para as digestões de mr. Durand e uma estante para os romances de Delly. Mademoiselle Durand, da sua rede, entre as mangueiras e os castanheiros, olha, de quando em quando, para o grande portão de madeira do fundo do jardim. Mademoiselle Durand espera o correio de Paris. Calor! Misturam-se, na folhagem morna, azues de araras, amarellos de tucanos. Silencio silencio Dentro da rede clara, mademoiselle Durand é toda a sésta lasciva das Antilhas.
Mademoiselle Durand mostra, no estojo das gengivas roxas, os dentinhos pontudos como pontinhos de luz. Sonha com as modas de Paris. A rede não se mexe E a sua mãosinha chata, pendente de um montão de rendas, parece a cabeça de uma cobra negra, espiando a sombra quieta dos coqueiros sobre o chão
Texto original de Itinerário: Antilhas, Estados Unidos, México, livro de Ronald de Carvalho publicado em 1935. Edição Literunico organizada em blocos a partir do exemplar em domínio público da BBM USP, limitada ao texto autoral e separada de catálogo editorial.
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