Universo da obra
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BRAZI L E ESTADOSUNIDOS I 53 Tal progresso e taes grandezas são, além de tudo, as resultantes de ·causas que nos falharam a nós e que, portanto, a simples vontade humana, ou meros actos de governos, são impotentes para crear. ·Profundas e radicaes são as, differenças que aos dous paizes distinguem e separam. Clima, raça, situação geographica, origem historica, elementos de colonisação, instituições fundamentaes, tudo é ali diverso do nosso. A sua posição geographica pol-os mais perto da Europa e portanto facilitou-lhes as estreitas communicações com o fóco do prog resso e da civilisação moderna. O paiz de origem, consideravelmente mais povoado que Portugal, pôde fornecer grandes contingentes de immigrantes a quem eram tambem mais duras as condições da vida na Inglaterra do que aos portuguezes na sua patria, apesar de pobre.
Povoado por povos de ·raça saxonia, attrahia não só os filhos da mãe patria como os da mesma raça. De 18 7 8 a r 88 7, para citar um exemplo que podia facilmente mediante as estatisticas ser repetido, receberam os Estados-Unidos apenas 161. 748 imigrantes da Inglaterra contra 2 14. 759 da Allemanha ( 106.86 S) I 54 A EDUCAÇÃO NACIONAL da Suecia e Noruega, da Dinamarca e da Austria. 1 A abundancia de terras e a maior abundancia de immigração, como o reconhecem os mesmos americanos 2 bastam, até certo ponto, para explicar esse prodigioso exemplo de rapidíssimo progresso. N'elle teve influencia poderosissi~a e s6 inferior á d'aquelles dous factores, a raça. A prova ahi a dão o Canadá e a Australia, que, apesar de se acharem em muito peiores condições de clima, e a Australia de posição geographica tambem, sem estorvo de serem meras colonias, offerecem ao observador uma marcha progressiva perfeitamente comparavel á da gran-: de republica.
Como já n'este livro dissemos, a nação portugueza esgotava-se depois dos ingentes trabalhos da conquista d'Africa, da India e do mar, quando começou a colo~isação do Brazil. Raça minguada, sinão de espíritos, de gente, ella não se poude por assim dizer refazer-s~ em si mesma • The States?7Zan's Year-book for 1888, London, 1888, pag. 691. • V'. Amen"ca.'s Land Question iu The Nortli Amerz"can Review, n.• 35,I, Fevereiro de 1886. BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 55 • e foi o seu ore-anismo fatigado, exhausto, surme-., ' né, que veio n'um meio physico ainda mais debilitante (lembrar que a colonisação se fez principalmente de S. Paulo para o N. e no littoral, sendo da Bahia a Pernambuco o seu centro) crear uma outra _nação. Estas são as causas physicas, materiaes direi, que, como salta aos olhos, poderosamente concorreram para o espantoso desenvolvimento da União americana, que nos maravilha e causa inveja a nós povo fraco, sentimental, idealista, incoherente - mas bom.
Comparemos agora as origens historicas, os elementos de c_olonisação é as instituições fundamentaes dos dous paizes~ e veremos que a differença cava-se ainda mais. Não terá talvez toda razão uin notabilíssimo economista italiano quando affirma que « eram tão alevantadas e nobres as razões que trouxeram á America os anglo-saxões, quanto vis os motivos que para cá dirigiram hespanhoes e portuguezes.» 1 É entretanto fóra de duvida que 1 Attilio Brunialti, Gli Stati Uniti di Colombia in Nuova Antologia, vol. XI, pag. 100. I 56 1 A EDUCAÇÃO NACIONAL • é quasi incommensuravel a distancia entre aquell les que So color de religion Van a buscar plata y oro Dei encubierto tesoro como diz Lope de Vega, e os puritanos que na probidade da sua fé, na austeridade dos seus costumes, na inteireza de suas crenças preferem o exodo a renegar os sentimentos e a pratica de sua religião, e vêm plantar na America, em severas colonias agricolas, a semente fecunda da liberdade e da consciencia do direito.
' Oh, certo, tem razão o citado pensador italiano quando ajunta que « na vida das nações o peccado original não o apaga nem o baptismo de sangue; é preciso que, como nas nações européas, o encubram as nevoas da mythologia prehistorica. » Nós soffremos ainda d'esse peccado aggravado po'r outro acaso maior por mais consciente, a escravidão; mas esse tambem o commetteram aquelles puritanos, quiçá com mais crueldade, e a esses não foi J ahvê tão innexora BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 57 • vel e tão duro... Porém, e perdoem-me e~ta nota de scepticismo, n'um livro que deve ser todo fé, tod~ esperança, « assim é a justiça de Jahvê, o mundo pertence a quem lhe praz... » 1 Sómente a resolução de deixar a patria para não sujeitar-se a nenhuma tyrannia política ou religiosa, revê o valor moral d'aquelles homens.
Além d'essa austera e corajosa virtude, « traziam comsigo, conforme conceitúa um dos mestres contemporaneos do pensamento italiano, Pascual Villari, a igúaldade das condições sociaes e a igualdade da intelligencia, d'onde devia sair a republica democratica. » 2 A Tocqueville, o homem que mais profundamente estudou o problema americano, parecia-lhe ver todo o destino da America no primeiro p1,1ritano que abordou ·ás suas plagas, como toda a raça humana no primeiro homem. 3 E Villari pensa que todas as leis, toda a fortuna não teriam de nada servido, sem aquelle caracter a um tempo democratico e 1 E. Renan. • La Costituzzone degli,$tatt' Uniti d'Amerú:a in Nuova Antologia, vol. XXIII, pag. 4 I 9. • Obra cit., tome II, pag. I 99. I 58 A EDUCAÇÃO NACIONAL conservador, irrequieto, emprehendedor e religioso, amigo do progresso e da ordem.» Si hoje, ainda os escriptores mais admiradores e amigos d'aquella nação, têm de misturar aos seus elogios criticas acerbas e crueis revelações, nada porventura haveria sinão admirar no periodo da sua constituição.
E esse period6 é, talvez, o mais importante e decisivo na historia. das nações. Pensando acaso n'aquelles heroicos e modestos.puritanos, ·escreveu Renan: « Para, um povo, como para o individuo, o essencial é ter um ideal depós• si.» 1 Esse ideal tiveram-no os am~ricanos sempre presente e é com certeza ainda elle quem hoje, no meio de tão desencon- ' trados elementos e tanto relaxamento dos costumes politicos, sustenta e dá vigor ás grandes forças conservadoras e honestas que encerra a· republica. A ' consciencia do direito revoltada, foi ainda quem fez a independencia americana, como fôraella quem fizera aquellas florentissimas treze colonias. Nem uma nação ou governo dos moder1 E. Renan, Histoire du Peuple d'Israe1, Paris, 1887, tom. I, pag. 61. BRAZIL E ESTADOS-UN"IDOS I 59 namente feitos, ass·enta talvez em bases tão completamente sãs, jus,tas e honradas como os Estados-Unidos, como nem uma se póde com tanta justiça desvanecer e gloriar da sua independencia.
Si, contra o asserto de Renan, ha historia pura, essa é a das origens nacionaes da grande republica americana. ·. Não é azado o lugar de repetir essa historia, que não honra sómente áquelle povo, mas a Humanidade. Todavia, não será porventura inutil relembrar de relance alguns factos, que só por si nos desenham qual a inspiração superiormente patriotica que á revolução americana dirigio e rematou. Foi esta conquista do elemento popular na s~a lucta primeiro com a nobreza, depois com a monarchia, atravéz da idaàe-média e dos primeiros seculos dos tempos modernos: - que não deve pagar impostos quem os não vota-principio fecundo que fez da democracia não uma aspiração mas um facto, a origem da insurreição que, mediante a revolução armada e combatente, fundou a independencia dos Estados-Unidos.
Eram então só treze os estados, que no principio àpenas descontentes pela creação de impos- •.. 160 A EDUCAÇÃO NACIONAL tos de importação, depois irritados pelo imposto do sello representaram ao rei, forçando-o pela sua attitude energica e resoluta a mudar de ministerio. Entretanto, abolidos estes impostos, a Inglaterra, por um bzll posterior, reconhecia expressamente ao Parlamento o direito de taxar as colonias, dir-eito de que elle usou lançando imposto ·sobre varias mercadorias por aquellas importadas. Publicados nos jornaes americanos tarjados de luto estes bitis indignaram e levantaram· doze d'aquellas colori.ias que pelos seus deputados reunidos em Philadelphia resolveram não deixar penetrar no paiz nenhum producto de procedencia ingleza, e lavraram com a narrativa dos vexames soffridos e com os seus protestos, a celel?re declaração dos direitos que precedeu de um lustro a famosissima declaração dos direitos do homem feita pela revolução franceza.
· No deputation, no taxation, foi o lemma altivo da revolta e, note-se bem, tão acatado, que luctando com as maximas difficuldades financeiras o congresso não atraveu-se a lançar impostos reconhecendo que s6 ás assembléas provi~- ciaes assistia tal direito, e limitou-se a emittir papel-moeda. Um governo que assim começa, BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 6 I sagrando-se pelo austero respeito da lei e do direito, e não inventa as chapas sempre promptas para a mystificação de todos os principies, qual o safado cliché das epocas anonnaes, dá logo a medida do que será a futura republica. A guerra está finda. A independencia foi declarada pelo mais bello manifes~ que jamais homens redigiram. «Não era a liberdade tempestuosa de Roma e Grecia que reivindicavam, nem tão pouco o privilegio de alguns patrícios; era a prosperidade de todos.
Confiam na liberdade, fonte dos bons conselhos e mãe dos grandes homens. » Os representantes dos Estados-Vnidos da America, reunidos em congresso, «tomando por testemunha o Juiz Supremo do universo da inteireza de suas intenções, em nome e pela autoridade do bom povo d'aquellas colonias, solem-. nemente publicam e declaram que essas colonias unidas são e devem ser de direito estados livres e independentes... E firmemente descançando na protecção da providencia divina, empenham mutuamente, para sustentar a sua declaração, suas vidas, sua fazenda e sua honra.» Firmada a republica decretou o Congresso a dissolução do exercito que conquistara a inde13 • ----,,...----------------___,,,-.....----.--r I 62 A EDUCAÇÃO NACIONAL pendencia da nação, e cujos soldos muito tempo havia não tinham sido pagos por carencia de recursos.
Esta ordem soffreu primeiro uma ligeira opposição, querendo o exercito receber o seu soldo antes de dissolver-se. Vv ashington, porém, reune os officiaes, faz-lhes sentir o crime de não obedecer ás prdens do Congresso, representante da nação soberana. Entrados promptamente no dever, o mesmo Washington reunio o exercito e o licenciou. E aquelles heroicos soldados que, · soffrendo todas as privações e fadigas tinham em sete campanhas consecutivas, com sacrificio das suas vidas e de seu sangue, feito a independencia da patria, não a ~hamaram ingrata, e retiraram-se tranquillamente á gloriosa obscuridade do doce lar anglo-americano. No seio d'aquelle mesmo exercito tinha antes apparecido a idéa de confiar a Washington a. dictadura. A resposta do excelso patriota foi feita em termos que, como diz um historiador, não seria nunca demasiado repe_tir: «Com um mixto de surpreza e de dor li os pensamentos que me communicastes.
Ficae cer-. tos, que no decurso d'esta guerra nenhum acontecimento me affiigio tanto como saber de vós BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 63 que semelhantes idéas correm no exercito. Devo-as encarar com horror e condemnal-as severamente. Por agora ficarão ellas sepultadas no meu coração, contanto que novas manifestações não tornem necessario revelal-as. Em vão rebusco no meu procedimento, o que poude acoroçoar uma proposição que a mim parece-m~ encerrar as maiores desgraças que sobre o paiz poderiam cair. Si me não illudo, não podieis achar ninguem, a quem fossem mais desagradaveis os vossos planos. » Um povo que tem este ideal no seu passado, tem d'onde tirar o orgulho nacional que lhe dará a confiança de si mesmo, ao passo que lhe alentará a energia. Pódem vir os elementos perturbadores da colossal immigração, o mercantilismo póde-se desenvolver, a execravel sêde do ouro póde crear as riquezas sobrehumanas e postergar o velho espirito puritano, honesto, altivo, trabalhador, austero - a nação tem solida base, a,quelle ideal ali está a aconselhar a reacção e ella se fará, salvando a obra de Washington.
Custa muito rebaixar-se, quem possue taes titulos de nobreza. Certo não é menos nobre o motivo que deu A EDUCAÇÃO NACIONAL. lugar á separação e independencia do Brazil de Portugal. A estulta tentativa de recolonisação do Brazil pelas Côrtes de 1820, foi a causa da' nossa independencia, causa nobilissima entre todas. Mas é doloroso ao brazileiro assentir que profundamente aulico foi o pensamento politico que a incitou e o movimento que a fez. Sem embargo do minguado partido da independencia existente n? Rio de Janeiro, o povo brazileiro ficou a ella estranho e indifferente, e provincias houve, como a nossa, onde foi á força imposta, isso quasi um anno depois de proclamada. O mesmo pensa-.mente dynastico que ao principe, ao depois Pedro I, suggerio o solerte D.
João VI, e que principalmente o guiou na conjunctura provocada pelas ordens das Côrtes, desmerece de muito o merecimento do seu principal fautor. D'essa preoccupação originam-se talvez os erros que depois commetteu como imperador, erros que desde a dissolução da Constituinte, levaram-no ao 7 de Abril. A historia se repete, como querem alguns pensadores? Seriam os homochronismos porventura uma lei sociologica ou acaso mero encontro fortuito de acontecimentos? Valera talvez a pena BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 65 estudar o problema na historia do Brazil. Quando estas linhas escrevo sopra um vento de dissolução prévia de uma Constituinte solemnemente promettida, convocada e decretada, substituido o referendum das Camaras Municipaes de Pedro I pelo plebiscito da Republica.
Não se repita a historia até o fim, que a Republica não tenha: o seu 7 de Abril... Aos consules incumbe acautelarem-se, á Republica não, essa tem por si.o mais forte dos sustentaculos, a sua razão de ser historica. A pequena e curta lucta, não tanto pela independencia já feita, mas contra elementos a ella insurrecionalmente contrarios, foi s6mente no Rio e na Bahia; o resto do paiz ficou-pelos motivos indicados -na introducção - alheio a sua mais importante e decisiva evolução. Esse passado nunca chegou a ser uma tradição consagrada e querida da nação, e muito menos poude ser um ideal. O fautor da nossa independencia o expulsamos, por tentar comprimir as nossas liberdades; o da independencia americana, como os lendarios heroes romanos, entregando á nação o poder que d'ella recebera, novo Cihcinato voltou, coberto de glorias e de bençãos, • • I 66 A EDUCAÇÃO NACIONAL á sua familia e á sua lavoura.
O nosso siquer o ' · conhecemos, Washington é, na eloquente fraze de Caste1ar, venerado com amoroso acatamento no seio de todas as familias. • Entre as primitivas instituições de ambos os povos, existe tambem differença profunda. Saidos da ferrenha, si bem que por vezes esclarecida, legislação portugueza, legislação de uma monarchia que mediànte D. João II, chegava com D. João III ao •apogêo do absolutismo e cujo caracter intolerante se singularisava na parte respectiva ao Brazil, nós entramos em um regimem directamente filho do philosophismo francez do seculo xvu1 e da mesma Revolução. Á nossa Constituição, inspirou-a aquelle espirita e, tirante os processos por que os dous poderes legislativo e judiciario eram pelos outros sophismados, podera acaso servir ao mais democratico dos estados hodiernos.
Ao envéz procederam os americanos. O citado escriptor italiano reflecte que entre os varios elementos de que se formou a_ Constituição americana, cumpre antes de.tudo considerar as instituições e as leis que ás colonias dera a Ingla~ terra, « ás quaes os americanos se conformarim BRAZIL E ESTADOS-UNf DOS I 6 7 o mais que poderam. » D'essa Constituição, e n'isto são accordes os pensadores que a tem estudado, as partes mais bem vindas são justamente aquellas que desenvolveram-se das instituições preexistentes, as creadas de raiz pelos fautores da Constituição, repetidas vezes falharam o seu intento. «A natureza, isto é, a lei historica de evolução, escreve o professor de Oxford, James Bryce, cuja obra, The Amerz"can Commonwealth, analysaVillari, n'este caso, como sempre, revelou-se mais sabia que o mais sabio philosopho.
O espirita conservador e tradicional que herdaram os americanos da Inglaterra, levou-os não s6 a respeitar o passado mas a constantemente recorrer, como a um modelo, á Constituição e ás leis inglezas, das quaes eram as suas derivadas.» 1 Das idéas frartcezas não tomaram mais que o espirita moderno, necessario para caracterisar a Constituição, e o conceito de Montesquieu, fundamento e garantia das. liberdades e principio da divisão dos poderes: O poder retem o poder. 2 1 Obra cit., pag. 419. 2 Idem., pag. 420. • 168 A EDUCAÇÃO NACIONAL O mesmo metaphysico dogma da soberania popular que foi a base da nossa Constituição, não obstante a sua origem dynastica, e que é a alma, diga-se assim, da Constituição americana, existia já, conforme o demonstrou Tocqueville, na sociedade americana muito antes da independencia.
1 Assim as communas, assim a policia, assim o poder judiciario, todas as instituições politicas em summa, são nos Estados-Unidos, pelas origens como pelo espirito, pelo caracter e pela organisação, profundamente divergentes das nossas. Estas diversidades essenciaes aos dous paizes, á sua situação geographica como á sua situação historica, ao seu passado como ao seu presente, á sua raça, ás suas instituições, aos seus costumes -precisamos ponderar, para não nos. pormos, levados pela nossa notoria tendencia imitativa, a copiar desageitadamente instituições e habitos que repugnem ao nosso temperamento nacional. Não nos illudamos tarnbem sobre os Estados-Unidos. Nem tudo ali, já o deixamos perceber, é grandioso e admiravel. N'aquelle maravi1 Obra cit., tome I, chap.
IV..., BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 69 • lhoso quadro ha sombras, e no sol da America, · como no sol do nosso mundo, ha manchas. Si no seu tempo poude Tocqueville com verdade dizer _que ali eram os pobres que governa.. vam, bem mudados estão hoje os costumes. Os ricos que qu·ando elle estudava, sabe-se com que perspicuidade, a grande republica, escasseavam, hoje abundam e dominam. Os rings, especie de syndicatos politicos organisados para a exploração systematica da coisa publica, fazem concurrencia ás emprezas monumentaes da sua civilisação sobretudo industrial. A política é despejada de escrupulos, e talvez como nenhuma sem coração e sem fé. É com singular unanimidade que ' o reconhecem quantos hão estudado as cousas americanas. A vida política brazi'leira, por honr'a e felicidade ·nossa, ainda não attingio o gráo de torpeza de que geralmente se accusa a americana, mas de desmazelo em desmazelo, de relaxação em relaxação, ella irá perdendo o pouco senso moral que ainda lhe resta e, si não avisar- ' mos, cairá ainda mais embaixo.
É força reconhecer, com os mais imparciaes e atilados pensadores, que essa degradação politica ~ um dos perigos da democracia. Estas palavras com que Pascual • • r7ó A EDUCAÇÃO NACIONAL " Villari ~ ella se refére, concluindo ~ artigo que temos citado,.,merecem meditadas por nós brazileiros. Para nós tarribem, são um util conselho: ~<Esperemos que a actual corrupção política americana, originada principalmente dos 9-ous parti-;dos, que não _têm mais nenhuma razão de ser, seja um periodo de passagem e de preparação para encontrar o modo de fazer prosperar ó gÓverno livre sem os partidos. Si tal succedesse á. America, ella seria duplamente benemerita, de si mesma e da civilisação. De qualquer modo nos pai;ece que a presente situação não póde prolongar-se.
Ou o senso moral da nação reage: insurge-se e rechassa a <:orrupção politica, ou, corrr-o andar dos tempos, diffundindo-se esta, deverá -çlcabar por abaixar o nivel.moral do paiz. Preferimos acreditar no triumpho certo do bem.»\ Outro aspecto da democracia amE;ricana gue -merece condemnado por todos os espiritos verdadeiramente liberaes, como aliás o tem sido, aspecto que precisamos entre nós combater e repulsar, é a omnipotencia da maioria. N'esse ponto, qualquer dos estados da Europa occidental é 1 Obra cit., pag. 446. BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 7 I • mais livre, mais avançado, mais liberal do que a apregoadissima democracia,dos Estados-Dnidos; A todos os.espíritos livres repugna e revolta essa potencia brutal do numero, que despoticamente fere a liberd~de do espírito, como ·outras liberdades.
Querem-se por extenso trasladadas· as observações do profundo mest,re das· cousas america-: nas, o sempre. citado Tocqueville; sobre semelhante feição da democracia ·amer~çana: «Tinham às monarchias absolutas deshonra:do ~ o despotismo; cuidemos em que as repu-. blícas den:ocraticas 'o não rehabilitem, e que tor-. nando-o mais duro a alguns, não lhe tirem, aos olhos do maior numero, seu aspecto odioso e seu caracter aviltante. «Nas mais altivas nações do mundo antigo, foram publicadas obras destinadas a fielmentepintar -os vícios e,ridículos contemporaneos; L.a Bruyere habit_ava ·o palacio de Luiz XIV quando comp,oz seu capitulo sobre os grandes; e Molier,e criticava a côrte·nas peças que fazja representar _perante os cortezãos. Porém, o poder que domina nos Estados-Unidos; não consente em ser assim motejado.
Fere-o a niais leve censura e a.. I 72 A EDUCAÇÃO NACIONAL mínima verdade picante o exaspera; deve~se louvar desde as formas do seu falar até as suas mais solidas virtudes. Nenhum escriptor, qualquer que seja a sua fama, póde forrar-se a esta obrigação de incensar seus concidadãos. A maioria vive n'uma eterna adoração de si 'mesma; sómente os estrangeiros ou a experiencia pódem fazer passar certas· verdades até aos ouvidos dos americanos. Si a America não -teve ainda grandes escriptores, não ha pttocurarmos as razões alhures: não existe genio litterario sem liberdade espiritual e não ha liberdade espiritual na America. A Inquisição não poude jamais impedir circulassem na Hespan~a copia de livros contrarias á religião do maior numero. Nos Estados-Unidos o imperio dá maioria consegue mais; tirou até a vontade de public,al-os.
Encontram-se incredulos na America, mas a incredulidade, por assim dizer, não acha orgão. Ha governos que esforçam-se por proteger os costumes condemnando os autores dos livros libertinos. Nos EstadosUnidos, não se condemna ninguem por esta especie de obras; mas ninguem é tentado a escre-_ vel-as. Não é entretanto por terem todos os cidadãos costumes puros, mas a maioria é regular BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 7 3 • ·nos seus. N'este caso, o uso do poder é sem duvida bom; tambem não falo sinão do poder em si mesmo. Este poder irresistivel é um facto constante, e o seu bom emprego é apenas accidental.» 1 A mediocridade característica da litteratura e da arte americana, como a demasiada tenden- 'eia pratica da sua scienciamanifestações todas de nenhum ponto comparaveis com as da sua actividade material-são uma resultante d'essa falta de liberdade de espírito, oriunda tambem da omnip0tencia da maioria.
Certamente as cousas hoje não são exactamente as fi!esmas da epoca referida pelo publicista francez; tambem n'este ponto têm os americanos feito progresso, mas não tão grande que fundamentalmente destrua o vicio apontado e ainda agora reconhecido. Não sei si nos EstadosUnidos um Byron, um Strauss, um Rénan, um Taine, um Carlyle, um Ortigão, um Sylvio Roméro ou um Tobias Barreto seriam: possíveis. Em toda a formidavel controversia religiosa d'este seculo, que justamente nos paizes protes1 Obra cit., pag. IS6.- É de ler todo o cap. • • I 74 A EDUCAÇÃO NACIONAL tantes tem ido mais accesa, os Estados-Unidos, apesar das suas inumeraveis seitas e seus muitos seminarios, salva a quantidade, appareceram tanto como nós. Isto só por si é indicativo e singular.
1 Espiritos ha - e não sei si não serão os melhores e os mais uteis - que ao direito de votar preferem o de escrever, e á liberdade de esco- - · lher um, deputado, a de ter uma idéa e a de manifestal-a, fosse embora ella contraria á de todos os seus concidadãos. Sejamos, pois, brazileiros e não yankees. Conservemos a nossa originalidade, o nosso caracter nacional, os nossos costumes, o amor das nossas cousas. Estudemos os Estados-Unidos, estudemol-os não superficialmente como em tudo soimos fazer, mas fundamente. Não nos limitemos á apparencia deslumbradora da sua. grandeza, penetremos nos reconditos de suas instituições e de suas funcções. Só ·assim veremos o que d'elles po.demos criteriosamente adaptar, e utilmente aproveitar. Muito, muitissimo será o que nos poderão elles ensinar, mas, por amor da nossa patria, não aprendamos sinão o bom e, sobretudo, não nos ponhamos a macaBRAZIL E ESTADOS-UNIDOS ' I 75 •..
queal-os sem discernimento, nem vergonha, fazendo-nos, nós que temos o direito de ser um astro soberano, um méro e modesto satellite da republica enorme. A grande autoridade acima citada, que com sympathia só igual á capacidade, estudou-a minuciosa e profundamente, diz com superior razão: «..• não considero as instituições americanas, nem como as unicas, nem como as melhores a adoptar por uma democracia. )) 1 Imitemol-a, porém, desde já, no amor que lhes mereceu sempre, desde o inicio de sua vida nacional, a educação popular. Foi essa a preoccupação maxima dos patriotas d'aquella nação. Acolá não foi sómente o governo, mas a nação toda que tomou a si a causa patriotica entre todas · da instrucção nacional. Associações, congregações, generosissimos particulares, doadores magníficos, puzeram ao serviço d'essa causa seus esforços, seu trabalho, sua propaganda, sua fortuna ou sua boa vontade.
Á competencia de esforços e dedicação, o governo federal, o governo dos estados, os municipios, os cantões e, acaso 1 Obra cit., tom. II, pag. 109. I 76 A EDUCAÇÃO NACIONAL mais que todos os poderes publicos, a iniciativa individual, ergueram ali a instrucção a uÍn ponto ' tal de ser citada e tomada como modelo em todo o mundo civilisado. Em dez annos sómente, de I 866 a 18 76, os donativos particulares á instrucção sobem a mais de 60 mil contos de réis! 1 Peabody, Hopkins, Cornell, Vassar e dezenas de outros, fundam ou dotam largamente universidades, collegios, academias, escolas e institutos de educação e ensino de toda a sorte. Imitemol-os n'isso, mas não vamos at6 querer, como appareceu n'um dos prójectos de cons-: tituição federal, entregar exclusivamente á iniciativa particular a instrucção publica, quando essa iniciativa não existe no paiz, e quando isso é antipathico ao nosso temperamento nacional.
1 Apud. Ruy Barbosa, Obra cit., pag. 32.
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