Universo da obra
Universo da obra
II 6 A EDUCAÇÃO NACIONAL Nações ha - e notareis, que são as mais adiantadas e progressivas - ciosíssimas do seu passado e tradições e de todos os monumentos que os relembram e perpet~am. Não só desveladamente os conservam e restauram, sinão qu~, carinhosamente vão erguendo novos, ou rebuscando e esquadrinhando antigos, com que engrossem os seus thesouros de recordações patrias, n'um tocante sentimento de amor d'es::;as recordações. São agora innumeros os museus e collecções que, templos do patriotismo, encerram as relíquias do passado nacional. J untae a isto~as ~nscripções lapidares consagrando o nascimento, a morte ou a símples passagem de, um fallecido compatriota 'illustre, as estatuas, monumentos funerarios e memorias diversas, com que esses povos diariamente consagram, para a immortalidade e para a gloria, aquelles que os illustraram ou que os serviram, ou algum feito que os afama e glorifica, e tereis uma constante, eloquente e suggestiva lição de historia nacional.
E, comparando, o que possuímos·nós outros brazileiros, tão ignorantes do nosso passado, ~'\. HI~TORTA PATRIA I I 7 como descaroaveis de nossas glorias - que as temos-que de longe siquer se cotege com isso? O nosso passado historico,·as nossas origens politicas, são-n'os alguma cousa de vago e indefinido, como as epocas prehistoricas que ficam para lá do homem quaternario. A profunda indifferença, feição dominante do. 1 nosso caracter, fez-nos sobretudo desprezar o nosso passado que nunca estudámos e que hão· conhecemos, e este ·lamentavel esquecimento e desamor foi parte grande n'esta nossa falta de sentimento nacional apontada. No estado actual do Brazil a escas?ez de tal sentimento encerra acaso grandes e graves perigos. O verdadeiro pat-riota, que ~em os irreflectidos enthusiasmos partidarios, assiste á reconstituição do paiz sob a forma federativa, aliás tão de molde para elle, estremece, lembrando-se quão.precaria póde-se tornar de momento a unidade nacional da qual depende a sua grandezá, si lhe faltar um momento aquillo, que mais que as coacções da força, une os povos e faz as nações: o sentimento do passado, a possessão em commum de um rico legado de tradições, o desejo de viver juntos, e a incessante vontade de manter e I I 8 A EDUCAÇÃO NACIONAL continuar a fazer,valer indivisa a herança recebida.
1 Para combater esse mal, para despertar em nós o sentimento da solidariedade ~ dar-nos a base moral que verdadeiramente faz e engran-, dece as nações, carecemos sem perda de tempo, com enthusiasmo e com amor, fazer, teimo em repétil-o, a nossa educação nacional. A educação nacional se não póde fazer sinão pelo estudo da patria, e no estudo da patria a sua historia é, quasi poderia dizer, a parte principal. Todos os povos -é obrigação insistir n'estas ' comparações que, especie de razões concretas, valem por ventura mais que os melhores argumentos abstractos -todas as nações comprehenderam que o sentimento nacional e conseguintemente o patriotismo, inspiram-se no conhecimento da patria e da sua historia, isto é, da sua vida. Na anti~uidade, além da.vida ser, em um certo ponto, mais activa e digamos assim, mais 1 E.
Renan, Qu'est ce qu'une lvãtion? in Rev. Polit. et Litt. Tom. III, 1882, pag. 322. r A HISTORIA PATRIA I I 9 vivida, vida toda de forurn, de ágora, de combates, de luctas, o que por si era uma patente e perenne lição, os espectaculos, corno os jogos olympicos e isthrnicos, as grandes manifestações guerreiras ou cívicas, como os triumphos romanos, eram um estimulo para esse sentimento, aliás sempre alerta diante das invasões e ataques a cada momento possíveis dos barbaros e visinhos.. As proprias religiões, de um caracter estreitamente nacional, e suas pompas, concorriam para trazer acordada essa virtude a que o romano chamou civismo. A educação grega, corno a educação romana, foram s·ob_retudo nacionaes, embora cada urna com o seu caracter proprio, n'uma pacifico e intellectual, espiritual diríamos, n'outra, guerreiro e político.
Desde a, queda do Irnperio, invasão dos Barbaros, advento do Christianismo, a idéa de patria desapparece, de um lado pelo baralhamento das línguas, das fronteiras e das raças, de outro sob a influencia da idéa rnessianica do reino de Deus corno unico que ·valia os esforços humanos; propagada pelo Christianismo triumphante. No fraccionamento feudal acabou, por assim dizer, por desmanchar-se a idéa de patria frac- • • I 20 A EDUCAÇÃO NACIONAL cionada por sua vez na idéa do feudo, do burgo ou da região, e o sentimento nacional, que apenas reapparece com a organisação dos Estados modernos ap6s a longa, não diremos noite, mas trabalhosa gestação da idade média. Nas nações contemporaneas, o sentimento nacional, salvo por accidentes, como na rivalidade entre a França e a Allemanha, creada pela conquista da Alsacia e da Lorena, não tem os mesmos estímulos dos perigos impendentes, como soia acontecer aos gregos e romanos os quaes, no ponto de vista da nossa civilisação, resumem para nós o mundo antigo.
Entretanto, como a Humanidade está ainda bem longe de dispensar as fronteiras e de fazer uma s6 nação, esse sentimento não sómente tem ainda razão de ser, como é indispensavel á vida das nações, que sen:i elle viriam a deperecer em uma morte triste, despercebida e ingloria. O conflicto da vida, mesmo, mudou apenas de aspecto. Em geral não é mais a gloria militar e a dilatação das fronteiras o escopo que anima os povos. A conquista, envergonhada, se disfarça sob o nome de reivindicações, desculpadas com a historia ou com a theoria das nacionalidades A HISTORIA PATRIA · I 2 I ou, quando fóra do mundo civilisado, com o de cruzada da civilisação contra a barbaria. A lucta, porém, não cessa; apenas de militar tornouse industrial; não acende acaso o patriotismo ardente dos gregos e romanos, mas aguça talvez mais os appetites de gosar e tirar da vida a maior som~a de utilidade que ella comporta.
Incontestavelmente e tristemente é tal o estado d'este fim de seculo, em que por detraz de • vinte milhões de homens prestes a se dilacerarem, apparecem muitos milhões mais que elevando q,1asi a um principio social a lei biologica da victoria do mais apto na lucta pela vida, se apparelham formidavelmente para ella, irnpavidos e fataes,.como o cavalleiro espectro das lendas medievaes, pedindo a sciencia quasi omnipotente dos nossos dias que, novo Vulcano, lhe forge as armas invulneraveis para o medonho • combate. · Governos e povos sentem que « n'esta arena pacifica da lucta industrial » consoante a rhetorica com que os arautos annunciam os seus torneios, si não corre sangue, morre-se tambem. E a competencia redobrando de esforços, não esquecem excitar e desenvolver os elementos.indis- • I 2 2 A EDUCAÇÃO NACIONAL pensaveis do triumpho.
D'esses elementos, como de outras luctas já o foi em éras idas, é principal o sentimento nacional, agora tambem estimulado, é certo, pela perspectiva e pela apprehensão da lucta. E estimulo é este tão forte que ás vezes s6 por si o produz e alenta, do que são exemplo irrecusavel os EstadosUnidos, aos quaes si, com alguns esclarecidos pensadores, negarmos esse sentimento por lhe não acharmos os mesmos fundamentos historicos e moraes que o produzem algures, não é licito comtudo refusal-os como manifestação, de um lado do legitimo orgulho nacional por espantosos progressos realisados apenas no discorrer de um seculo, de outro p~la necessidade de sustentar e manter o preço d'essas conquistas que o menor desfallecimento, dada a acuidade da lucta, p6de fazer periclitar.
«Este universal movimento, diz Tocqueville, reinante nos Estados-Unidos, estas viravoltas frequentes da fortuna, esta imprevista dislocação das riquezas publicas e privadas, tudo ju,nta-se para entreter a alma em uma especie de agitação febril que admiravelmente a dispõe a todos os esforços e a mantém, por que digamos assim, • A HISTORIA PATRIA I 23 acima do nivel commum da humanidade. Para um americano, a vida inteira se passa como uma partida de jogo, um tempo de revolução, um dia de batalha. Estas mesmas causas, operando ao mesmo tempo sobre todos os individuas, acabam por impor uma feição irresistivel ao caracter nacional.» 1 Não valeram; porém, esses incentivos da pugna industrial~ si as nações, descuradas de si, não procurassem tambem alentos novos e alevantadas inspirações na consciencia do seu passado, da qual derivam a fé no seu futuro.
Dos meios a que pódem recorrer para·trazer o espirita nacional sempre desperto, é dos principaes o estudo da historia patria, porque o conhecimento da patria é a base do patriotismo. No Brazil esse estudo não é sómente descurado, mas não existe, nunca existio, e a consequencia é a profunda ignorancia em que vivemos da nossa historia. Na Allemanha, que é preciso citar sempre que se tratar de educação e, principalmente da educação como rneio de desenvolver o senti1 Obra cit., pag. 429. I 24 A EDUCAÇÃO NACIONAL mento nacional e fortific~r o patriotismo, na Allemanha o estudo da historia patria é feito desde a escola primaria até a universidade., E feito n'um alto espirita patriotico e como um meio pedagogico efficaz de educação nacional. O já citado Sr.
George Durnesnil, membro do alto eásino francez, enviado pelo seu governo em missão pedagogica official a Allemanha, diz: « É conhecido o admiravel partido que soube a Allernanha tirar da historia, no ponto de vista do ensino nacional e patriotico. Jahn, o pae da gy1nnastica na Allemanha, o qual logo ap6s a derrota de lena lhe preparara a desforra, podia dizer depois: a guerra da redempção.»-0 dia 3 I de Março (entrada dos alliados em Paris), o I 8 de Junho (batalha de Waterloo, chamada na Prussia batalha da Bella-Alliança), e o I 8 de Outubro (batalha de Leipzig) tornaram-se grandes dias da gymnastica. Em 184-2, Fernando Stiehl, eminente pedagogo prussiano, publicava em Coblentz, sob o titulo de: O ensino nacional da historia em nossas escolas primari·as, os seg1iüntes pensamentos: « O fim principal da historia é fundar e vivificar o sentimento nacional, o ç1mor da patria, o patriotismo...
É a v6s, mestre-escolas, que incumbe A H ISTORIA PATRIA I 2 5 a missão de dar principias e forma aos sentirnentos e á vida da geração que, depois de nós, vae ser o povo... Entendo por historia nacional, na esc~la primaria, o que é verdadeiramente nacional; assim, para nós outros rhenanos, não sómente a historia do Brandeburgo, mas a do Rheno, da Allemanha e da Prussia-Brandeburgo. ·Demais, não comprehendo o ensino da historia como uma nomenclatura; uma exposição nua e secca de nomes de principes, de guerras, de conquistas, etc.; quero que nos ponham no verdadeiro meio historico do povo, c01mmtnicando-nos os_factos de Únza epoca, os mais importantes documentos e os mais commoventes cantos nacz"onaes. Si quizermos despertar, p elo ensino da historia nacional,, um amor: consci"ente da patria e assegiwar-lhe uma influencia sobre os sentimentos, sobre a vida nacional e a geração.futura, faz-se mister banir da escola primaria o ensino que vae systematicamente para diante, paragrapho.por paragrapho.
» 1 E Stiehl propunha o agrupamento das materias da historia nacional segundo um calenda1 G. Dumesnil, Obra cit., pag. 32. I 26 A EDUCAÇÃO NACIONAL rio patriotico, o que foi adoptado em 1854 pela reforma do ensino primario, na qual tomou parte o illustre pedagogo. Aos dias nacionaes consagrados na epoca da reforma, vieram juntar-se outros como os das mais recentes victorias allemães, Sadowa, Gravelotte, etc. «O anniversario de Sedan, continua o Sr. Dumesnil, tornou-se o dia da verdadeira festa nacional e apagou as outras commemorações. Esse dia é celebrado na Prussia inteira não por lições parti~ulares na classe, mas por ceremo11ias, discursos, exercícios gymnasticos, cantos e ferias em todos os estabelecimentos de iristrucç~o publica. Em summa, o ensino historico é em todas as suas partes animado do mesmo espírito pa-.
triotico. O livro de leitura vem em auxilio do ensino historico propriamente dito e conta á.criança as glorias de seu paiz e de seus príncipes. Sobretudo foi elle quem encarregou-se de realisar a parte mais. bem ideada dos processos preconisados por Stiehl, a que põe ao alcance da criança os mais commovedores cantos nacionaes. » 1 1 Dumesnil, Obra cit., pag. 35. A HISTORIA PATRIA I 2 7 Os cantos patrioticos, em que é tão rica a litteratura allemã,._ uns anonymos e verdadeiramente populares, outros de seus ·poetas, alguns illustres, coopera efficazmente no ensino historico, e tendo como vehiculo a musica, importante ramo da educação esthetica nas escolas allemãs, infiltra-se por assim dizer na alma popular, e n'ella grava indelevelmente o ensino didactico da historia patria.
E um regulamento official citado pelo Sr. Dumesnil, determina: «No ensino do canto far-se-á alternar os canticos e as canções populares. O fim é que cada escolar possa cantar com justeza e segurança não sómente em côro mas só, e que ao sair da escola, possua perfeitamente um numero sufficiente de canticos e cantos populares, e ache-se tanto quanto possível penetrado do texto d'estes ultimos.» No Brazil fôra acaso achado ridículo o po-,der que introduzisse na escola os cantos populares, como parece merecer o menos preço dos graves prudhommes quem se occupa de estudal-os. 1 1 Sobre esta questão veja-se o interessante livrinho do Sr. Adolpho Coelho, Os Elementos tradicionaes da educação, Porto. · I 28 A EDUCAÇÃO NACIONAL Na Allemanha, entretanto, a Assembiéa Geral dos mestre-escolas allemães, reunida em Brunswick em 1879, adoptava as seguintes proposições, aliás ali desde muito no domínio da pratica: « Os cantos nacionaes devem occupar uma grande part~ nos programmas das escolas, e d'ellas passar ás familias e á vida.
O canto faz parte integrante da educação nacional allemã. É preciso c11ltivar sobretudo (no estudo da musica) o canto popular allemão (das deutsch volkslied) a uma ou duas vozes.» 1 E este ensino historico que se faz pelo estudo directo da historia, pela commemoração escolar das grandes datas nacionaes e pelo canto patriotice, faz-se ainda durante o estudo da língua desde o ensino primario elementar. «O livro de leitura, diz o autor citad,o falando do ensino da língua allemã, traz já (na classe inferior) sua contribuição á historia e povôa o espírito da criança de anedoctas que esta porventura ouvio já na familia e que, por assim dizer, fará parte tão integrante de sua memoria que elle não se 1 G. Jost, Les Congrés des Instituteurs allemands, Paris, 1880, pag.
213. A HISTORIA PATRIA I 29 • recordará mais de tel-as aprendido. A seu turno passam ali Carlos.'. Magno, Barbaroxa, Luthero, o velho Fritz, que depois de ter tão bem batido os francezes em Rosbach occupaV'a-se em fazer ir as criancinhas á escola; da rainha Luiza, offendida por Napoleão; Blücher, o marechel Para frente, que a vinga e o imperador Guilherme, que _ torna-se em vida o heroe de um cyclo épico nacional. » 1 E este ensino da historia, cada vez mais desenvolvido, mais p~ofundo, porém com o mesmo caracter patriotico, nacional, passa da escola primaria ao gymnasio e de lá ás universidades, essas grandes geradoras e mantenedoras do espirito nacional aÍlemão. Na de Berlim, no semestre de verão de 1882, o programma do estudo da historia allemã occupou as seguintes materias: Historia da Allenzanha, desde o interregno até a Reforma/.riistorza da arte alle1nã desde o XVI seculo até nossos dias; Historia geographica da Allemanha; Historia da Prussia, de 1786 a 1815.
2 1 Dumesnil, Obra cit., pag. 54. 2 L. P. Didon, Obra cit., pag. 235. II • I 30 A EDUCAÇÃO NACIONAL. ' No Brazil não temos ainda uma cadeira siquer de ensino superior da nossa historia! J untae a este estudo da ~istoria nacional feito n s com1>endios escolares, feito no livro de leitura, feito nos cantos patrioticos, feito nos monu- ' mentos, nos museus, e em outros elementos suggestivos de educação intuitiva, as associações de estudantes e ex-estudantes formando um enorme laço de união entre todos os homens de lettras do paiz, inspirados do mais ardente amor da patria, as sociedades de tiro, as siciedades gymnasticas com os seus 200 mil gymnastas, as sociedades de musica, os celebres choraes, que por toda a patria allemã vão entoando os licds que cantam-lhe a gloria - e tereis a explicação da formação da ·unidade e da grandeza moral e material da Allemanha.
Em Berlim creou-se em 76 uma Galeria nacional de pintura, de caracter patriotico. Occu- ·pam-na principalmente as scena:s dos combates dados pela Prussia desde 1 864. «A arte dos pintores, diz o padre Didon, a quem tomamos estas informações, é ainda jovem; mas o amor da terra, o patriotismo no seu exclusivismo duro e com seus ares_guerreiros parece ter empunhado os A HISTORIA PATRIA I 3 I.. pinceis. Eu mais observava os visitantes que admira.va os artistas. A maior parte eram camponezes e provincianos. Com que ingenuidade pasmavam elles em frente d'essas batalhas de ' duvidosa arte! É assim que o pm;o se instrue: dae-lhe imagens, telas vivas onde se lhe depare a aureola de seus chefes victo,riosos. Um grande pintor nacional, é um sublime mestre-escola.
São os quadros um livro onde aquelles mesmos que não aprenderam p6dem ler; perpetuam, em uma forma tocante e popular, 0s heroes, os valentes que souberam vencer. » 1 Emqüanto a Allemanha preparava assim pela organisação mais sábia e mais completa da educação nacional as suas victorias e con:i ellas a sua hegemonia e unidade, a França dç:> segundo imperio, n'isto, como no mais, desleixada e imprevidente, não sabia siquer o que era a educação cívica. Entretanto, seus publicistas, melhor avisados que o~ seus estadistas, a reclamavam. « O. bom senso, escrevia o eminente Sr. Gréard... um. dos -homens a quem mais deve a França a sua regeneração pcdagogica, reclama que ao res1 Obra cit,, pag. 302. I 32 A EDUCAÇÃO NACIOKAL f) peito das tradições nacionaes, que é a base do patriotismo esclarecido, junte-se no espiri~o das crianças chegadas ao uso da razão o conhecimento das l~is geraes 1a vida publica de seu paiz.
» 1 E, em antes, em 1868, traçava assim o programma do ensino da historia patria na escola primaria: « em historia, limitar-se aos traços essenciaes do desenvolvimento da nacionalidade franceza e procurar-lhe a continuidade menos na successão dos factos de guerra que no encadeiamento logico das instituições e o progresso das idéas sociaes; em uma palavra, fazer da França o que da Humanidade diz Pascal, um grande ser que subsiste perpetuamente, e dar assim á criança uma idéa da patria, dos deveres que ella impõe e dos sacrificios que exige... » 2 Só foi, porém, em 1882 que a educação cívica e o ensino da historia entraram no systema geral da educação nacional franceza, tomando desde então um desenvolvimento extraordinario, desde o ensino primario até o superior, além dos outros elementos que superabundam em França, de educação patriotica.
1 Oct. Gréard, Éducati"on et Instruction, Paris, 1887, I, pag. 341. • Ibid., pag. 88.. A HISTORIA PATRIA I 33 Não descuram tambem os Estados-Unidos a educação nacional, sabendo que a sua maravilhosa e invejada grandeza, em maxima parte lh'a devem. 'A historia patria é ali objecto de especial ' cuidado e amor. Nas escolas, collegios e universidades não se limitam sómente a estudal-a sinão que estudam tambem a historia da sua constituição, além do estudo especial que d'esta fazem. «Como o estudo da historia, diz o Sr. Hippeau, em principio quasi que exclusivamente abrange a dos Estados-Unidos, póde ser tão completo quanto possivel, e as particularidades sobre as quaes insistem os mestres e os livros postos entre_ as mãos dos alumnos, têm por fim fazer conhecer os recursos financeiros, industriaes e commerciaes do paiz, suas producções e a excellencia de suas instituições politicas, tudo o que póde emfim gravar no coração o amor da patria e uma illimitada confiança na grandeza de seus destinos.
Os cantos com que resoam as escolas nos momentos consagrados ao estudo da musica, celebram os graqdes acontecimentos dos Estados-Dnidos e as acções generosas dos seus homens mais illustres. » 1 1 C. Hippeau, Obra cit., pag, 63. I 34 A EDUCAÇÃO NACIONAL Em uma das mais notaveis universidades americanas, a de Ann Arbor (Michigan), foi creado um museu patriotico reunindo «objectos que recordam os principaes acontecimentos historicos do paiz, na guerra ou na paz, e principalmente durante a ultima guerra civil. » E Hippeau informando, conta que um alumno mostrou-lhe «como uma preciosa reliquia um ramo de macieira, em baixo do qual achava-se o gençral Grant, quando o general Lee se lhe veio entregar. » Um notavel educador americano, o Sr. John Swett, em um dos melhores livros de pedagogia pratica que conhecemos, assim recommenda seja,dado o ensino da historia do seu paiz: «Chamae a attenção dos alumnos para o progresso da nação nas artes e nas sciencias; para as grandes invenções e descopertas que tem,sido feitas; para - tudo que tenha melhorado a condição do povo.
Fazei-lhes perceber que, embora não seja a historia em summa sinão um registro de factos e conquistadores, todavia a paz tem suas victorias não menos memoravei$ que as da guerra, e que a mais gloriosa victoria da guerra é a que estabelece uma paz honrosa.» 1 ' lJfethods of teaclting, New-York, 1886, pag. 166. A HISTORIA PATRIA I 35 Referindo-se a esta ordem do ensino na Republica Argentina, assim se expressa o Sr. Hippeau: «No programma do ensino das sciencias mo-. raes, ha tres cursos que com muita _felicidade completam a educação dos jovens collegiaes; a historia da Republica Argentina, o curso de instrucção civica e -0 de economia política, tres ordens de conhecimentos que essencialmente lhes convêm, pois que são chamados a tornarem-se cidadãos de_um paiz livre.
Têm necessidade de saber como e em consequencia de que acontecimentos desenvolveu-se a sociedade ·argentina; çomo tirou ella partido dos recursos que offerece-lhe o seu territorio, como si crearam os seus estabelecimentos agrícolas, suas manufacturas, seus entrepostos como, emfim, formaram-se suas relações commerciaes com os. outros. Estados: Pelo succinto resumo que fiz da historia dos estados do Prata, póde ver-se quanto póde ella interessar á mocidade quando este ensino é confiado a um professor instruido e profundamente penetrado dos sentimentos que inspira a um filho d'este bello paiz o quadro de suas luctas e de seus soffrimentos, seguidos do glorioso. trium-. ' A E: QUCAÇÃO NACIONAL • pho que assegura para sempre sua independenc1a.» No defeituosissimo systema da instrucção publica do Brazil, a historia patria foi não só descurada, mas p6de-se dizer não existe, sinão nos programmas, si programmas se p6de chamar a esses simples r6es de materias que são um artigo das nossas leis de ensino.
A historia nacional entre nós foi tão prodigiosamente despresada que, excepção feita da obra valiosissima do Visconde de ~orto Seguro, cuja primeira edição é de 1854-57 e a segunda - e ultima - de 187 7, é com os estrangeiros que teremos de ir aprender a historia do nosso paiz! A primeira grande historia do Brazil qu'e tivemos desde que fomos uma nação foi a do inglez Roberto Sôuthey, poeta laureado. Quem são os autores da historia do Brazil? São estrangeiros, o citado Southey, e Beauchamp e Constancio e Grant e Henderson e Ferdigand Denis e Warden e,Armitage e outros. Brazileira apenas temos a alludida Historia ' L'Instruction publique dans la Republique Argentine, Paris, pag. 222. A HISTORIA PATRIA I 37 • geral do Brazil. O mais, ou são resumos mais ou menos disfarçados d'ella, ou lições, compendios'.
elementos - a maior parte dos quaes sem grande valor pedagogico. Este facto é só por si característico e dispensaria •quiçá mais longos commentarios. Os raríssimos trabalhos especiaes sobre este ou aquelle ponto da nossa _historia, não chegam ao grande publico. São ainda mais raras as províncias que possuam trabalhos especiaes sobre a sua historia particular, e esses tam~em, quando acaso existam, ficam ignorados. Uma associação especial para estudar a historia patria, o Instituto 1,.istorico e geographico brazileiro, apesar da singular protecção que lhe dispensou sempre o exImperador, apenas tem-se podido manter. E são entretanto, preciosíssimos os 50 e tantos tomos da sua Revista, pelos materiaes que contém - memorias, chronicas e outros documentos e ine,.
ditos antigos. Mas essa Revista mesn;a é desconhecida no Brazil, apezar da excessiva barateza do seu custo. Lembro-me que entrando pela primeira vez n'um estabelecimento que aqlli temos condecorado com o nome de Bibliotheca Publica, e pedindo ao empregado, ajudante do biblioI 38 A EDUCAÇÃO NACIONAL ' thecario, um dos tomos da Revista do Instituto..rlistorico Brazi!eiro elle perguntou-me ingenuamente si era em francez ou portuguez! Em Pernambuco, terceira cidade do paiz, existe tambem um Instituto historico que aliás, como a mulher de Cesar, não dá que falar de si, e o qual tambem publíca intermittentemente uma Revista, ainda menos conhecida q\te aquella. Nas Alagoas, sei tambem, vegeta um instituto analogo que, si faz historia, tem a felicidade de não tel-a.
Ignoro si publíca algum orgão seu. Eis o que é o alto estudo da historia do Brazil no Brazil. O povo tambem indifférente a si mesmo e á patria não dá por isso, e eu certamente não erro assegurando que não ha talvez no Brazil um milheiro de pessoas que saibam das instituições citadas. A nossa litteratura historica é nulla. Como já disse, apenas possuímos, escripta por nacional, uma historia geral do paiz, que mereça citada. Os trabalhos historicos parciaes, contam-se; e os raros feitos, publicados nas obscuras revistas d'aquelles raros e pobres institutos sem onus para os autores, rarissimamente são editados em livros, para assim ganharem mais ampla publicidade. A HISTORIA PATRIA I 39 O ensino dahistoria patria, além de escassissimamente feito, é pessimamente dado.
Os compendios, insisto, são em geral despidos de qualquer merecimento didactico. São pesados, indigestos e mal escriptos. Para o ensino primario os poucos que ha são inspirados na velha pedagogia jesuitica das perguntas e respostas, e limitam-se a: uma enfadonha e estupida nomenclatura de governadores, de reis, de capitães-móres ou de factos aridos de nenhum modo uteis ao ensino primario da historia patria. Na es<;ola primaria afóra a decoração e bruta repetição d'esses pessimos compendios, nada mais auxilia e completa o estudo da historia nacional. O mestre, que as mais das vezes a ignora, e que em geral é pouco zeloso, limita-se a tomar a liçZio, isto é, a fazer ao menino as pergu11tas indicadas no compendio, e a exigir d'elles a resposta. Não ha uma explicação, não ha uma lição oral, um trabalho de composição sobre a historia patria.
Tomada a lição está satisfeita a obrigação official, quando.a não descuram de todo, que é o que mais vezes acontece. O livro de leitura tambem não fala da patria, nem se occupa da sua historia. Um facto que I4'0 A EDUCAÇÃO NACIONAL efficazmente revela a nossa desestima pela historia patria é que no ensino secundaria 11a apenas.algum tempo, tres ou quatro annos, a historia do Brazil entrou a fazer ~eparadamente parte dos programmas. Até então era conjunctamente estudada com a historia universal, e como geralmente ~e começava pela historia antiga, e d'ella passava-se á da idade média e ·d'esta á moderna, quando encetava-se a do Brazil faltava apenas um ou dous mezes quando não sómente alguns dias para os exames. Sendo raro que o preparatoriano quizesse empregar no estudo da historia geral, comprehendida a do Brazil, mais de um anno, póde-se só por esta simples e veridica exposição imaginar o que elle saberia da _historia do seu paiz e de que proveito lhe s~ria esse estudo que realmente não fez.
Não ha falar no,ensino superior da historia do Brazil, porque o não temos. Tal é, em toda a verdade, entre nós o estudo da historia patria. Acrescente-se a isto que não temos neghuma especie de publicação periodica que de quando em quando trate d'ella, que· a nossa imprensa apenas faz política, aluga as columnas para as descomposturas ou dá noticias;_ A HISTORIA PATRIA I 4 I • ~ estrangeiro, que não possuimos museus historicos, nem monumentos, nem estatuas, nem memorias, nem as commemorações patrioticas das ep;cas gloriosas ou felizes da nossa historia - e tereis aéhado uma das caúsas da nossa profunda ·e completa e vergonhosa _ignorancia da historia patria e, assim, uma das causas da falta do sentimento nacional no Brazil. O remedio a este mal, que cumpre,sem adiamento combater e.aniquilar, é trabalharmos desveladamente e seriamente na reforma d'este ponto da nossa instrucção publica.
É indispensavel que a historia patria tenha um lugar de honra no ensino primaria, e que ahi seja feita não broncamente e excepcionálm:ente como até aqui, mas intelligente e systematicamente, consoante os principias, dos quaes nas citações atrás feitas foram notados alguns, que dominam não só nos mais bem surtidos mestres da pedagogia contemporanea, sinão na pratica dos paizes n'este ponto mais adiantados. Todo ensino tem um fim - o da historia patria é darnos pelo conhecimento da origem commum, das diffi.culdades em commum soffridas e em commum vencidas, da marcha e evolução dos mesr 142 A EDUCAÇÃO NACIONAL,, mos costumes, das mesmas leis e da mesma o~ ganisação, dos progressos custosa, lenta, mas seguramente adqueridos, a noção exacta da solidariedade nacional, e com ella o amor da patria que nos legaram os nossos antepassados e o desejo firme de continual-os, para legal-a ás gerações vindouras successivamente melhorada.
Na escola primaria este ensino póde começar desde o segundo livro de leitura pelo menos. É preciso que o livro de leituca entre nós se reforme completamente e que sobre tudo fale do Brazil e de nossas cousas. Os primeiros livros devem conter contos e cantos populares e pequenas historias em que se i-eflicta a nossa vida e os nossos costumes. Só assim interessarão a criança. Entremeiados com estes assumptos virão pequenas scenas da historia patria mesmo legendarias. A historia do Caramurú, por exemplo, sendo falsa ensina entretanto a criança que eram selvagens os primitivos habitantes do Brazil, que devoravam os seus prisioneiros e que não conheciam o uso da polvora. Um resumo bem feito da candidâ narração de Caminha a D. Manuel sobre os_gestos dos selvagens, perante os portuguezes da armada de Cabral, cuido eu que se A HISTORIA PATRIA 143 • ~vará na memoria, fará trapalhar as imaginações ·dos jovens ouvintes e será uma excellente lição da ethnographia patria.
O facto de Armador Bueno, alguns episodios dos bandeirantes, a. vida dos primitivos colonos, a descripção de uma missão, as biographias elos homens notaveiseis outros tantos quadros proprios para, mediante o livro de leitura, ensinar, e bem, a historia patria. A narração d'estes factos ir-se-á paulatinamente desenvolvendo nos successivos livros de leitura, que poderão tambem conter extractos de alguns ~hronistas, adequada a linguagem á intelligencia dos escolares, e versos ele poetas brazileiros sobre feitos ela historia patria. O compendio especial ela historia elo Brazil, virá completar e systematisar,esse ensino, já nas classes superiores ela escola. Lida por cada um ou pela maior parte dos ah1mnos a lição e lida como si se tratasse ele uma lição de leitura expressiva, o professor chamará a attenção para os factos que convém aprender ele cór, escolherá os factos principaes e os porá em evidencia; procurará que os alumnos lhes descubram as causas e flhes deduzam os effeitos; não ligará muita im144 A EDUCAÇÃO NACIONAL • portancia ás datas, sinão ~s dos grandes aco• tecimentos, e apenas como meio de evitar ana-.
chronismos; fará um estudo particular da historia do Estado em que estiverem; dará curta e precisa noticia biographica dos homens ~1otaveis indicando os serviços que prestaram ao paiz, terá em vista que a comprehensão dos grandes factos historicos, suas causas, resultados, relações, é mais importante do que a decoração material de algumas paginas do compendio; exigirá que os alumnos procurem libertar-se da repetição _servil das palavras do livro; supprirá a sec-. cura da narração do compendio com anedõctas, íncidentes, historias assás características para pintar uma epoca ou desenhar um caracter; insistirá sobre os progressos feitos comparando sempre factos do passado, já estudados, com o _presente; sem cair na tagarelice procurará falar sempre da patria e apreciar os seus factos historicos com calor, com um enthusiasmo de bom gosto e sincero, de modo a despertar nas crianças uma commoção benefica, o amor da patria e o orgulho da sua futura ' grandeza.
r 1 V. Swett, Obra cit., pag. 164-167. A HISTORIA PATRIA I4 5, Conviria muitíssimo que o livro de leitura, como o compendio, fossem illustrados, como seria de grande alcance, ao menos para as classes infantis, possuir a escola uma collecção de gravuras historicas que commentadas em classe seriam a melhor e a mais gostosamente aprendida das liçõe?, Mas quando teremos nós semelhantes estampas?! Como adjuctorio a este estudo feito na estampa, no livro de leitura, no compendio de historia e na lição oral do mestre, parece-me seria grandemente apreciavel a imitação do systema allemão da commemoração das datas celebres da historia patria. Organisado u~ calendario patrioticà, o mestre poderia por meio de uma pequena narração celebrar esse dia, e na vespera d'aquelles que são feriados, e que são os maiores dias da patria, na ultima hora, expor aos alumnos os motivos que os tornam dignos d'essa consagração, fazendo-lhes uma especie de lição supplementar sobre elles.
O ensino secundario no Brazil feito exclusivamente em vista de obter matricula nos cursos superiores, é entre nós tão irracional e grosseira12 146 A EDUCAÇÃO NACIONAL mente organisado que, a menos de suppor-lhe, uma reforma radical e completa, não é possivel estabelecer esperanças sobre elle. Já dissemos como é ahi precipitadamente feito o estudo da historia patria que, com o da corographia do paiz, que lhe é annexa, raro toma mais de um anno. Si ao menos durante o curso primaria a tivesse o menino aprendido, não seria tamanho o mal; a verdade, porém, é que, a despeito dos programmas, é rara a escola em que ella se dá, e quando isso acontece é de modo tal que melhor valera não dal-a. Não possuímos como fica dito, nenhuma cadeira de ensino superior da nossa historia e nas escolas de direito não ha ao menos uma da historia da legislação colonial ou em geral da historia da legislação óu direito nacional.
O Brazil está reclamando a creação de algum instituto de ensino superior, fóra dás especialidades da medicina, elo direito ou da engenharia. N'essa futura escola, a historia do Brazil deve ter pelo menos uma cadeira., Um esclarecido pensador italiano, e efficaz cooperador na obra da restauração da Italia, obra que muito, sinão tudo, deve á educação naA HISTORIA P ATRIA 1 4 7 cional e principalmente ao estudo da historia, reflecte ponderosamente: «Tornando-se Sciencia, a Historia torna-se ao mesmo tempo um estudo pratico, e faz-se não só a sciencia do estadista, mas de todo o perfeito cidadão, porque em um paiz livre cada cidadão deve ser homem _de es"'. tado nos limites de sua actividade. » 1 1 Nicolo: Marselli, La Sd enza della Stoná, Torino, 1885, I, pag.
390. VII BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS urro é o -que havemos a aprender e mesmo a imitar dos Estados-Unidos, mas que isto nos não induza a pormonos simplesmente a copiál-os. Excusa alongar-nos sobre a nossa mania de imitação. A alcunha de macacos com que nos condecoram alguns povos irmãos ou amigos, bem póde ser uma referencia topographicamente zoologica, mas calharia tambem si alludisse ao nosso pronunciado e nem sempre bem inspirado gosto das cousas exoticas. Sabe-se até que extremo levamos a copia das modas, dos usos, da litteratura e dos costumes I 50 A EDUCAÇÃO NACIONAL francezes. A politica era á Inglaterra que arremedava; os usos._ e tradições e historia politica da grande nação parlamentar nunca foram em parte nenhuma tão citados como em o nosso parlamento.
A pratica sabemos n6s todos qual era. Actualmente sente-se já que é a grande republica norte-americana que nos irá servir de modelo. Não tenho a estulticia de pretender possa o · Brazil bastar-se a s.i 'mesmo. Sei que os povos.: ainda os mais fundamentalmente originaes, não se desenvolveram e prosperaram sem um escambo não s6 de productos, sinão de idéas, de creações, de invenções, de instituições e até de costumes. O que importa, porém, para conservar á patria a sua integridade moral e dar-lhe um caracter que a distinga na Humanidade e na Historia, é que essa troca se faça ·sempre sem prejuizo do seu individualismo nem sacrifício das modalidades especiaes ao seu caracter nacional. Portanto, insto, nos devemos penetrar d'esta idéa, que tendo muito a aprender dos EstadosUnidos, não devemos por-nos simplesmente a ma_ç:aqueal-os irreflectidamente.
E a elles especialmente me refiro porque, repito, sente-se que BRAZIL E ESTADOS-UNIDOS I 5 I elles são quem nos vae servir de modelo: É pre-' ciso não confundir a adaptação intelligente, a assimilação perfeita, com a ~opia servil ou o arren:edo grotesco. Sejamos brazileiros e não yankces. Eu, confesso, não tenho pela desmarcada e apregoadissima civilisação americana, sinão uma mediocre inveja. E no fundo do meu coração de brazileiro alguma cousa ha que desdenha d'aquella nação tão excessivamente pratica, tão col1oss'almente egoista e tão e1;11inentemente, perdoem-me a expressão, strugforlifista. Essa civilisação sobretudo material, commercial, arrogante e reclamista, não a nego grançle; admiro-a, mas não a estimo. Esse paiz novo, onde ha fortunas,que fazem fantasticas as lendarias riquezas dos nababos, quando o proletariato já se lobriga atravéz de uma grandeza desmedida, offend~ a minha simpleza de matuto chão e honesto.
Essa · politica cruel que veda a um povo a entrada do paiz, persegue-o e lyncha-o; que massacra toda uma raça; que tem uma habilidade especial para adestrar cães contra outra · e que, de Biblia na mão, discute, justifica, applaude e exalta a escravidão, fere de frente a idéa que da equidade e • I 52 A EDUCAÇÃO NACIONAL., da justiça tenho. Aquella corrupção política que · tanto impressionou Spencer e a quantos publicistas tem visitado e estudado os Estados-Unidos, repugna ao meu senso moral. Aquelle puffismo, aquella charlatanice do. jornalismo, com seus títulos enormes, extravagantes, mentirosos, de um reclame desfaçado e insolente, escandalisam a minha probidade litteraria. Aquella supremacia brutal das massas, aquelle reino absoluto do numero, revoltam a minha liberdade espiritual.
Não é a mera satisfação de revelar o meu sentimento sobre alguns aspectos da republica que todos admira,m, que todos invejam e que todos exalçam, que me faz assim escrever. É unicamente porque, parece-me, este sentimento é natural em todo o brazileiro. São estes antagonismos nacionaes, e não antipathias nacionaes, que, fazem a cada povo uma especie de linha divisoria que o distingue e differença. Admiro grandemente aquelle egregio povo, mas não o invejo e sobretudo - e isto é para nós o principalnão creio applicàvel utilmente ao Brazil, quanto lhe fez o progresso admiravel, nem quanto os desvanece a elles mesmos.
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