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Capítulo 6 · A Educação Nacional

A Geografia Pátria e a Educação Nacional

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A GEOGRAPHIA PATRIA 9 5 das conquistas, moldaram o caracter nacional e deram até colorido • á mythologia e á litteratura nacionaes.» 1 «A geographia, diz o Sr. Buisson, põe mais ou menos em contribuição todas as sciencias. Toca á astronomia, á geometria, á geologia, á -physica, á chimica, á meteorologia, á botanica, á zoologia, á ethnographia, á linguística, á estatística, ao direito, á economia política, á 1 historia, á archeologia. Tendo de representar o mundo terrestre em escorço, resume e condensa todo o saber humano. Entretanto, nada inventa; contenta-se em comprehender, classificar e descrever.)) 2 Certo estamos bem longe d'esta nova concepção da geographia, apezar de haver o governo, ha disto uns quatro annos, modificado os programmas, como quer que seja inspirado d'esta concepção.

É verdade que ainda d'esta vez foi irreflectido e desacertado o acto da alta administração da «.lnstrucção Publica da Córte, » introduzindo no programma do estudo de geographia 1 Arch. Geil1e, The TeachingGeography, London, 1887, pag. 2. 2 Dictümnaire de Pédagogie et d'instruction primaire, II part. Tom. I, pag. 856..., 96 · A EDUCAÇÃO NACIOXAL do nosso mofino ensino secundaria questões que, dada a organisação e distribuição do ensino no ramo primaria e n'esse, eram absolutamente impossiveis para elles. Valeu-lhes, porém, que em algumas provincias o exame continuou a fazer-se pelos antigos programmas, e os novos pontos, si entraram na urna, nunca de lá sairam. No ensino primario brazileiro o da geographia é lamentavel e, quando feito, o é por uma 1 decoração bestial e a recitaç~o inintelligente da lição decorada.

N'este Estado - que gasta com a instrucção publica mais de 700 contos por anno, é raríssima, si existe, mesmo aqui na capital, uma escola em que se encontre um mappa geographico, e certamente não ha nenhuma que possua um globo. Creio que o Pará não tem o privilegio d'esta situação. Dizer isto, dispensa quaesquer considerações sobre o ensino geographico na nóssa escola primaria. O ensino secundaria é feito com vista no exame, apressada e precipitadamente, e resume-se na enumeração e nomenclatura. Não possuímos estudo superior de geographia. Temos, é certo, na Escola Polytechnica do A GEOGRAPHIA PATRIA 97 Rio de Janeiro, um curso que se chama de engenheiros geographos. Ignoramos o motivo de semelhante denomi~ação, pois não consta que n'esse curso se estude qualquer das materias que constituem as hoje chamadas sciencias g eographicas.

Além da astronomia, estudam geodesia e topographia, n'um estreito ponto de vista mathematico e de agrimensura. • A geographia ou corographia do Brazil con1 forme a nomeamos, não é mais bem aquinhoada. Os poucos compendios que temos, mal pensados e mal escriptos, carecem inteiramente de valor pédagogico. Alguns ha, e approvados e bem recommendados pelos conselhos directores de instrucção publica, que traiando especialmente de càda provincia limitam-se a enumeração secca das cidades, a indicação do bispado a que pertencem, a divisão judicial, o numero de representantes, calando completamente as noticias muito mais uteis sobre o clima, a co~figuração physica, o regimem das aguas, os productos e as zonas de producção. Quão longe estamos nós dos excellentes trabalhos allemães, inglezes, americanos ou francezes sobre isto!

Em França, para não citar sinão os que nos são mais familiares, 9 98 A EDUCAÇÃO NACIONAL ha no genero os trabalhos verdadeiramente superiores de Levasseur, de Foncin e de Vidal Lablache, e na Inglaterra os de Geikie e outros. Porque não havemos desde já, embora com sacrificio - fecundo sacrificio - procurar imitar esses paizes e suscitar a adaptação ao nosso paiz dos mais recentes e melhores trabalhos para o ensino escolar da geographia, da geographia patria sobre tudo? Não seria um excellente meio •. indirecto de provocar o apparecimento de melhores compendios e rnanuaes, negar systernaticarnente à. approvação e protecção official a esses cornpendios, e não dal-a sinão áquelles concebidos e executados segundo as actuaes exigencias do ensino geographico e.os melhores modelos estrangeiros?

Conviria, outrosirn, que n'estes como nos demais livros didacticos os poderes publicos que intervern na sua escolha, não despresassern, como completamente fazem, a feitura material dos livros. A feição exterior, a factura, não é urna das menores vergonhas da nossa escaça litteratura pedagogica. Pertencem realmente á infancia da arte umas gravuras que se nos deparam em alguns cornpendios de geographia, àliás de accordo com o pessimo do papel, da impressão A GEOGRAPHIA PATRIA 99 e, geralmente, da obra toda. Ninguem ha hoje que ignore não é questão de nonada esta da perfeição graphica dos livros de ensino; faz isso,. tambem parte da -educáção, pelo lado esthetico. Vejam-se por exemplo os magníficos livros escolares americanos e especialmente os seus compendies de geographia -verdadeiras obras de luxo, apezar da extrema modicidade dos preços.

A esta penuria de compendias, junta-se aggravando o mal já de si grave, a carencia total de mappas e cartas. Na mão do escolar brazilei:ro as cartas que se vêem, são estrangeiras. Acontece que ao passo que elle possue no seu atlas francez, inglez ou allemão, não s6 cartas especiaes de cada um dos principaes paizes da Europa, porém cartas particulares das divisões administrativas, das bacias fluviaes, além de cartas t economicas, geologicas, etc., do paiz de onde é o atlas, o Brazil, o seu paiz, lá vem obscuramente perdido n'uma de regra detestavel carta da America do Sul. Os dous unicos atlas brazileiros que existem, os de Candido Mendes de Almeida e o de Ch. Robin, além de não satisfazerem de nenhum modo as exigencias da cartographia actual, 100 A EDUCAÇÃO NACIONAL estão muito longe de ser correctos.

Demais, o seu preço exageradissimo põe-n'os completq.- mente fóra da classe dos livros escolares. Tambem faltam-nos absolutamente os mappas muraes. Afóra uma meia duzia de grosseiras especulações de livraria estrangeira ou n·acional, só ha dous annos a esta parte po~suimos um relativamente bom mappa mural do Brazil. 1 Este mesmo, porém, se nos affigura deficiente para um estudo do Brazil, qual o devemos fazer nas nossas escol~s. Varios accidentes geographi-. cos, como rios e lagos, não estão ahi indicados, como não está determinada de um modo graphico a geographia economica, os rios navega1 O do eminente geographo Sr. Levasseur, feito por encommenda da direcção da Instrucção Primaria do Rio de Janeiro, e editado pela casa Ch. Delagrave, de Paris. N'esse trabalho foi o Sr.

Levasseur pertinentemente auxiliado pelo Sr. Barão do Rio Branco, um dos homens que melhor conhec~ a nossa historia e a nossa geographia. Como mappa estrangeiro o melhor que conhecemos é allemão, de Stieler, que faz parte da carta da America Meridional do Stielers Hand Atlas. Os mesmos Srs. Levasseur e Rio Branco, acabam de publicar, com o concurso de scientistas e escriptores brazileiros uma bellissima edição em avulso do artigo Brésil, da Grdnde Encyclopédie, acompanhada de uma collecção magnifica de Ví,es riu Brésil. É actualmente o livro mais completo e mais perfeito sob os varios aspectos da nossa geographia. Prouvera que, traduzido ou em original, se encontrasse em todas ' as familias brazileiras. A GEOGRAPHIA PATRL-\. I OI dos e ~:mtras circumstancias que muito importam para o escolar brazlleiro.

Sente-se tambem n'elle, a falta de muitas cidades,.e as mesmas que mençiona, excepção feita das capitaes das províncias,. _ hoje estados, são em caracteres tão pequencJs que quasi se tornam inuteis n'uma carta, mural. Raríssimas são as provincias que têi;n um mappa especial, de sorte que o estudo particular de cada uma das grandes divisões do Brazil, torna-se assim difficilirno. Este mesmo mesquinho apparelho de geographia escolar comrn~rnrnente não se encontra nas escolas. O que affirrnam9s falando da geographia geral, é perfeitarnel').te verdadeiro e semelhante respeito ao Brazil. S6 extraordinariamente, n'este Estado ao menos, se encontra um i;nappa do Brazil, mesmo rnáo, dependurado das / paredes de uma escola! E, convém repetir, não acredito que o Pará sej'a n'isto a excepção.

E a esta mingua de estudos escolares da · geographia do paiz, e de elementos para o fazer, não ha corno os supra o adulto. Da mesma sorte que não temos livros e cartas escolares, não -OSi ternos tambem para os estudos e leituras da idade madura. ·· _____________,, ___...,...... 102 A EDUCAÇÃO NACIONAL O que sabemos da geographia da nossa patria, das feições caracteristicas do seu sólo, dos seus habitantes de outras zonas que não as nossas, sabemol-o pelos estrangeiros. Foram os Cas-. telnau, os Saint-Hilaire, os Eschwege, os Martius, os Burton, os Agassiz, os Bates, os Wallace, os New-Wied, os Hartt e os Steinen, que nos ensinaram a geographia da nos'!ia patria. O melhor trabalho geographico que sobre ella temos é allemão, de Wappceus. 1 Si, graças.ao benemerito Visconde de Porto Seguro possuimos, embora incompleta, uma historia geral nossa, ainda se não suscitou um brazileiro para nps dar uma geographia do Brazil.

Que desamor profundo do paiz, está este facto a revelar! Entretanto o conhecimento do paiz eip todos os seus aspectos, que todos se podem resumir em dous - geographico e histo- ~ico - é a base de todo o patriotismo esclare-.cido e pre:vidente. 1 Acha-se hoje cm parte magistralmente traduzido e refundido,sob a esclarecida direcção dos Srs. Valle Cabral e Capistrano de Abreu e publicado com o titulo de A Geographia Physica do Brazil, Rio de Janeiro, 1884. É o melhor livro que existe sobre a nossa geogra- ]Jhia physica. A GEOGRAPHIA PATRIA IOJ É _por isso que a geographia do paiz, intelligentemente comprehendida e ensinada, é por assim dizer a base de toda educação nacional bem dirigida. Amirável exemplo d'isto temos na França,!que procurando refazer a sua educação nacional, após os desastres do anno terrivel, voltou-se particularmente para o estudo da geographia.

« Afóra a dor, ficou-nos de nossos desastres, diz o Sr. Buisson, um certo sentimento de humilhação: o estrangeiro estava geographicamente mais bem preparado para invadir o nosso territorio do que nós para defendel-o. D'ahi um impulso subito que por haver tido rapidos resultados, não foi menos serio nem menos duravel. Esse impulso antes augmenta·que diminue, e em França não se esquecerá mais que é 'forçosamente necessario aprender a geographia.» 1 Foi realmente surprehendente o movimento nacional a favor do estudo da geographia. As sociedades topographicas e geographicas, os club alpinos, as revistas especiaes, multiplicaram-se. O ensino entrou largamente nos estudos pnmanos e se1 Obra cit., I"' partie. Artigo Geographie. 104 A EDUCAÇÃO NACIONA~ cundarios, como no superior., pela creação, de cadeiras de ensino geographico em algumas faculdades.

O resultado foi que esse povo, que até bem pouco tempo merecia ainda o famoso apodo de Grethe de não saber geographia, está hoje na primeira linha dos que a sabem. E quem, como o autor d'este livro, tev~ a inolvidavel fortuna-de lhe admirar o vigor e progressos na sua ultima grande exposição, pasma realmente do material' geographico que possue hoje a França. A secção pedagogica no grande palacio das Artes liberaes do Campo de Marte, era admiravelmente rica, e o que mais n'ella avultava eram os mil meios. que uma industria• habilissima e intelligente, ao serviço de geographos do mais alto valor, punha á disposição do ensino geographico. São sem numero hoje em França, não só os tratados, compendios e ~anuaes que se disputam a pri- • rtiasia do methodo mais sagaz, da disposição mais methodica, do systema mais perfeito, como o_s mappas muraes hyp::,ometricos, em relevo ou planos; os atlas mais meticulosamente trabalhados; as cartas mudas; os globos de todas as dimensões, lisos, em revelo ou em ardosia; os mapA.

GEOGRAPHJ4 ~ATRIA, lQS pas quadro preto com O$ circu,los t€rrestres traçados, onde o menino delineará.o paiz e marcará os accidentes,' as cidades, os caminhos de ferro;, as cartas ~speciaes, geologicas, economicas, demographicas dando, com admiravel nitidez, as noções mais claras, mais precisas e mais seguras., sobre a geogré'l,phia patria. _ • É sabido que a geographía, como. de t'esto, todos os ramos do. humano saber, é superiormente cultivada na Allemanha.. O ensino da geographia ali, baseando e se.cundando o da historia, preparou de lo,nga data a unidade allemã, e con-. tinua a insinuar os desejados e futuros engrandecimentos díi Allemanha. Em um c9mpendio.. official de geographia, que em 1.882 teve a sua ' ' 6 r.a edição, se e_nsina: « O centro da Europa conta nas suas 15.300 milhas quadradas 72.600:000, habitantes.

Como estes são quasi ~odas allemães,, havendo apenas slavos nos districtos da fronteira d.e leste, romaicos nas dé,!: do sul e d.e oeste, a, Europé:!, central reçebeu o nom.e de Allemanha. Entretanto, desde 1871,_ tem-se, o costume de restringir este nome á parte principal do todo, ao imperio da Allemanha. D'antes, não?e fazia nenhuma reserva, e todos os estados que est~:,., 106 A EDUCAÇÃO NACIONAL conceito comprehende: a Suissa, a Austria, a Bohemia, a ·Moravia, a Polonha, a Dinamarca, a Hollanda, a Belgica, o Luxemburgo, eram chamados: paizes da Allemanha exterior.» 1 «Uma das sciencias, diz o padre Didon no seu notavel livro sobre a Allemanha, cultivadas com mais predilecção (nas universidades), é a geographia superior. «Em Gottingen, mais de duzentos estudantes - por não citar sinão este facto - premavam-se em 1882 no curso do professorWagner.

Elle tratava da formação do solo allemão nas costas do mar do Norte. Affigurou-se-me digníssimo de nota o methodo do mestre. Tanto ensina elle pelo desenho e pelas cartas, como pela pala- •, vra. Tudo o que diz reproduz com giz de diversas cores. Assiste-se assim á constituição das diversas camadas de terreno, á origem dos cursos d'agua, á arborisação do solo, ao seu povoamento. Toda a lei geologica passa em escorço em um ponto do planeta, com · grande admiração d'aquelle jovem auditorio, que segue esta ex1 Apud Dumesnil, La Pédagogie dans. Z' Allemagne du Nord, Paris, r 88S, pag. 36, nota. A GEOGRAPHIA PATRIA: ro7 posição scientifica como as penpecias de um drama. «Que são alimento para o patriotismo n'estes cursos de sciencia profunda, onde a mocidade aprende por que vias providenciaes o territorio da patria constituio-se pouco a pouco!

» 1 É urgente cuidemos em reformar o nosso ensino geographico, especialmente o da i"eographia patria. Do conhecimento que d'ella tivermos depende igualmente a nossa affeição e prendimento a ella. Não basta porém pôr nos programmas o paragrapho Corographia do Brazil, é preciso que programmas detalhados, inspirados no methodo hodierno do ensino geographico, professores capa:ies e uma consti'nte vigilancia dos funccionarios prepostos á direcção e fiscalisação do ensino, como a de todos os cidadãos, faça uma · realidade do ensino da geographia patria. Para isto conseguir, porém, depois dos bons professores, habeis e devotados, e mais devotados que babeis, é indispensavel apparelhar as 1 Obra cit., pag. 276. 108 A, EDUCAÇÃO NACIONAL ( escolas com o material exigido e obrigado para um tal ensino.

Toda escola deve ter um ou mais mappas muraes do Brazil, uma boa carta do Estado é!,- que pertencer a escola e, si fosse possivel, uma planta da cidade em que está e de suas convisinhanças. Não devemos limitar-nos a um unico mappa, •sinão a mappas especiaes; economicos, em que venham indicadas, em cores e signaes differentes, as diversas zonas agdcolas, industriaesou mineralogicas, as estradas de rodagem ou de ferro, os rios navegaveis e navegados; geologicos, em que possamos estudar a formação e natureza do nosso solo e os diversos accidentes geologicos que importam ao perfeito conheci- • mento da nossa geographia physica. Foram utilissimas as cartas particulares de determinadas bacias fluviaes, como os diagrammas estatisticos mostrando o nosso desenvolvimento commercial, industrial, demographico, etc.

Assim apetrechado, inepto seria o professor que não ensinasse e · mais que não fizesse amar aos seus alumnos a geographia de sua terra, e portanto a mesma terra, que podiam ainda tornar melhor conhecida nos se_us aspectos pittoA GEOGRAPHIA PATRlA I 09 rescos, monumentaes ou de paizagem, mostrando-lhes gravuras, estampas ou photographias, e commentando-lh'as _com intelligencia e gosto. O methodo do ensino geographico é hoje em geral fundamentalmente o mesmo em todos os paizes cultos e são numerosos os livros que o indicam. As modificações que soffre dependem < da individualidade do professor, mais ou menos habil, mais ou menos inventiv9. Eis um exemplo da maneira intelligente por que um pedagogista francez vio-o fazer na Allemanha: « O ensino da geographia começa pela descripção da região onde se acha a escola.

O plano da cidade desenrolado diante dos alumnos, é muito circumstanciadamente estudado. • As grandes direçções que p6dem servirá orientação geral, as ruas, as avenidas, em uma palavra, as mais conhecidas arterias da cidade, e a posição relativa da escola, o curso do rio, si algum existe, são primeiramente indicados, sendo tudo apontado por sua vez na carta. Os differentes bairros discriminados por cores especiaes, são successivamente enumerados, d(;sde os mais · antigos aos mais novos; recordam os ·príncipes q~e os fundaram, os principaes architectos que II O A EDUCAÇÃO NACIONAL os edificaram ou ernbellezararn ·com edifícios, as circurnstancias que lhes deu o nome, de forma que assiste-se assim ao progresso que, activo já no antÍgo nucleo da velha cidade, provocou seu crescimento, fel-a muitas vezes saltar os muros de um recinto fortificado e que, atravez da historia e de suas vicissitudes, desenvolveu-,a na forma da cidade moderna em que hoje a vemos.

Os nomes das r_uas, as pontes, os monumentos publicos servem para de caminho reconstituir urna longa chronica local, e em verdade animam aos olhos da criança, os entes d'esta grande morada, da qual é um dos habitantes. « Si trata-se de urna proviricia, da Silesia por exemplo, contam ou repetem os acontecimentos que provocaram a sua reunião á Prussia. Depois o rµestre indica-lhe exactarnente as fronteiras. Os alumnos reproduzem irnrnediatarnente esta exposição. Mestre e classe estudam após da mesma maneira o curso do rio central, depois o de seus affluentes, depois os productos do solo cuja diversidade é ligada a de outras regiões da província, vindo por fim a divisão política d'essa.)) 1 1 Dumesnil, Obra cz't., pag. 36. A GEOGRAPHIA PATRIA I II Esta simples exposição, reproduzida ao acaso d'entre muitas outras que sobejam sobre o en-: sino na Allemanha, diz, parece-nos, com precisão notavel, como a geographia póde ser um elemento de educação nacional e um estimulo ao patriotismo.

' O livro de leitura, verdadeiramente brazileiro, viria, com descripções, noticias e illustrações geographicas, completar e constantemente recordar o ensino do mestre e do manual. VI A HISTORIA PATRIA E A EDUCAÇA-0 NACIONAL r o brazileiro ignora a geographia patria, mais profunda é ainda a sua ignorancia ela historia nacional. A geographia, essa aprende-se um pouco empiricamente nas viagens e digressões pelo paiz, nas conversações, na leitura das folhas diarias e nas mesmas relações sociaes. A historia, não ha outro meio de aprendel-a sinão estudando, e o brazileiro não estuda, ou tendo-a sempre materialmente representada por monumentos de toda ordem, e os não tem o Brazil. Porque não é sómente na? escolas ou pelo estudo dos autores e documentos, que se p6de 10 I I 4 A EDUCAÇÃO NACIONAL estudar a historia patria.

O mínimo ao menos do conhecimento do passado nacional indispensavel ao cidadão de um paiz livre _e civilisado, e,,por-. ventura, o que mais importa saber para despertar n'elle os fecundos estímulos do sentimento patrio, ha outros meios que o ensinem. Os monumentos; os museus, as collecções archeologi-. \ cas e historicas, essas construcções que os nossos antepassados com tanta propriedade chamaram memorias, são outras tantas maneiras de recordação do passado, de ensino historico portanto e, em:iltima analyse, nacional. E ensino ás vezes bem mais eloquente e pal- · pav.el que· a prosa de um historiador. Dir-se-ia d'isso houveram consciencia os antigos, levantando a cada grande feito, e d'esse modo consagrando-o, alguma construcção que mais duradoura que a memoria dos coevos ou que o papyro, o liber ou o pergaminho dos escribas, trouxesse até n6s a memoria de seus gestos grandiosos.

Por vezes a essas memorias de pedra ou de bronze juntam-se os cantos dos poetas e as legendas populares: uns e outros productos das mesmas forças emotivas que o povo contém e A HISTORIA PATRIA I I 5 que ou se consubstanciam e, por assim dizer, se individualisam n'um homem ou se dividem e repartem n'uma florescencia anonyma, mas vibrante e quente, da alma nacional. Portugal por exemp,lo - e é grato a qu~m tem a religião do passadó rememorar os fastos gloriosos dos av6s - Portugal, tem para recordar os dois factos capitaes da sua viela historica, a batalha de Aljubarrota, que lhe firmou a independencia, e as grandes navegações, e a co1Jsequente descoberta do caminho da India, que lhe deram a razão de ser historica, além das maravilhosas fabricas dos conventos de Nossa Senhora da Victoria e dos Jeronymos, o estupendo cyclo dos seus cancioneiros e o sublime poema de Camões.

O Esc irial é toda uma pagina, sombriamente gloriosa, da historia 'da Hespanha, como Westminster é, não s6 uma gloria do passado inglez, como o cofre gloriosíssimo que mais do que o sepulchral Ban1 ef England encerra a maxima riqueza da Inglaterra: os despojos d'aquelles que a fizeram verdadeiramente grande: os seus navegadores, os seus poetas, os seus sabios, os seus oradores, os seus estadistas, os seus artistas e os seus escriptores.

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Sinopse

Leia gratuitamente A Educação Nacional, de José Veríssimo, obra brasileira em domínio público publicada em 1890, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do acervo público da Fundação Cultural do Pará, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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