Universo da obra
Universo da obra
A EDUCAÇÃO PHYSICA 6 ';j educação de ammaes de uma espec1e ou de outra. « Quem, entretanto, nas conversações de depois do jantar ou nas palestras da mesma natureza, ouvio jamais upia palavra sobre a criação das crianças? Quando o fidalgQ rural fez sua visita quotidiana ás_ estrebarias, e elle proprio inspeccionou o regímen que fazem seguir aos seus cavallos, quando deu uma volta de olhos a seus gados e fez recommendações a respeito, quantas vezes succede que suba ao quarto das crianças, examine os alimentos que lhes dão, informe-se das suas horas de comida, e veja si é sufficiente o arejamento da nursery.'l! Em sua livraria encontram-se O Ferrador de White, o Livro da herdade de Stephens, o Tratado de caça de N emrod e, em geral, leu estas obras; mas que livros leu elle sobre a arte de criar as ' crianças de mama e as mais crescidas?
As propriedades que para a engorda do gado têm o nabo ou a colza, o valor nutritivo do feno e da palha picada, o perigo do abuso do trevo, são pontos sobre os quaes é instruído todo o proprietario, todo o fazendeiro, todo o matuto. Mas qual d.'entre elles inqueria si a nutrição que 68 A EDUCAÇÃO NACIONAL dá aos seus pequenos é apropriada ás necessidades da natureza _de meninas e menino& em crescimento? Acaso dirão, para explicar esta anomalia, que estes homens, em se occupando dos.animaes, não fazem sinão oc-c,uparem-se de seus negocios. Não é e~tá razão bastante, porque o mesmo acontece nas outras classes da sociedade. Muito poucos entre os habitantes das cidades, ignorarão que não convém fazer trabalhar um cavallo logo depois de ter comido; e todavia, se encontraria apenas um entre elles, suppondo que fossem todos paes, que comsigo mesmo consultasse si é sufficiente o tempo que discorre entre os repastos e as lições de seus filhos!
Si penetrardes o intimo das cousas, vereis que quasi sempre um homem considera o regimen seguido na nursery, como assumpto que lhe deve serestranho. Ah! deixo isso ás senhoras! respondervos-á elle provavelmente; e, frequentemente, o _tom em que o dirá deixará manifesto que julga taes cuidados incompatíveis com a dignidade de seu sexo. «A qualquer luz que encaremos o facto, não é singular que emquanto homens de educação consagram muito tempo e reflexão á criação de ' r.. A EDUCAÇÃO PIW$ICA 69 touros selectos, julguem tacitament~ o cuidado de criar bellos homens, indigno d~ sua attenção?' As mamães que apen~s aprenderam as línguas, a musica e certas prendas feminis, auxiliadas por amas carregadas de velhos preconceitos, são julgadas juízes competentes da alimentação, do vestuario, do gráo de exercício que ás crianças convém.
Emquanto isso, os paes lêem livros e artigos de jomaes, reunem-se em commissões, fazem experiencias e travam discussões; com o fim de descobrir quaes os melhores meios de engordar os porcos! Vemos que se dão a perros para pro~ <luzir um cavallo de corrida que ganhará o Derby, nada se faz para produzir um moderno athleta. Si Gulliver houvesse contado que os habitantes de Laput<;> entre si contendiam em criar o melhor possível os filhinhos das outras creaturas, e não se lhes dava de saber conforme cumpria-lhes criar os ~eus, este absurdo pareceria igual a quantas sandices lhes elle attribue. «A questão, entretanto, é grave. Por mais ridículo que seja o contraste, o facto que involve não é menos desastroso. Conforme disse um espirituoso escriptor, n'este mundo a primeira condição do successo é ser ie1n bom animal, e a pri70 A EDUCAÇÃO NACIONAL meira condição da prosperidade nacional, é ser a nação forma~a de bons animaes.
Si o des~nlace de uma guerra depende m~itas vezes da força e da audacia dos soldados, nas luctas industriaes tambem, a victoria depende do vigor physico dos productores. » 1 ' É assim que Herbert Spencer, o grande pensador inglez, enceta no seu suggestivo liv~o sobre a educação intellectual, moral e physica, o capitulo que esta ultima trata. E esta critica, tao cheia do excellente humour inglez, faz o maximo dos modernos philosophos d'aquella nação, ao povo que aliás mais se occupa da educação physica, ao povo em cujas escolas secundarias e superiores o tempo dado aos exercicios corporaes é quasi igual ao horario votado aos trabalhos intellectuaes! O que se poderia dizer do Brazil onde a educação physica é apenas uma vaga designação que sómente agora entra a ser superficialissimamente conhecida?
Aqui, estamos ainda mais atrazados, porque nem ao menos da educação dos animaes 1 Herbert Spencer, Obra cit., pag. I 66-1 69. \ A EDUCAÇÃO PHYSICA, 7 I tratamos, como soem fazer os inglezes, e o arremedo do sport britannico, que só o amor do jogo faz manter entre nós·, na exclusiva fórma de corridas de cavallos, é uma macaquice desintelligente e como quer que seja ridicula. Pelo citado trecho do famoso. philosopho, ·cujo syst(;ma baseia-se nos mais prof1:1ndos estudos da biologia e da psychologia, está-se vendo como corriprehende elle -· e com elle a maioria de pensadores e pedagogistas, a educação physica. ' Entre nós, quando se fala em educação phyica, quasi se subentendem os exercicios gymasticos e principalmente os chamados acrobaticos. Não é esta a verdadeira e utilissima com-.
prehensão d'essa fórma de educação que, não obstante preconisada desde Montaigne, Locke, J. J. Rousseau, Hufeland e Frõbel, 1 apenas àgora começa a sair do dominio da especulação para o da pratica. Como deixa manifesto a citada passagem de Spencer, a educação physica, não se. 1 Veja-se em Fonsagrives, Entretiens sur l'hygiene, Paris, 1881, pag. 130 e seg. a discussão deis systemas d'estes philosophos. 7 2 A EDUCAÇÃO NA,. CIO: NAL limita apenas, como vulgarmente suppõe-se, aos exercícios physicos, mas abrange a hygiene, considerada esta, segundo a excellente definição de Littré e Robin como o conjuncto de « regras a seguir na escolha dos meios convenientes para entreter a acção normal dos orgãos nas diversas idades, constituições, çondições da vida e profissões.» 1 Con;io a educação espiritual (intellectual e moral) tem por fim preparar um espirita culto 1 e bom; assim á educação physica compete formar um corpo robusto e são, completando am_bas o fim superior da educação, que é tornar o homem bom, instruido e forte.
A educação physica, pois, deve tomar o hdmem criai;tça ainda, no berço e, atravez da primeira e da secu,nda infancia, da adolescencia e da mocidade, leval-o á virilidade, que lhe cabe fazer. rija e valente. Racionalmente, essa educação conviria começar da vida intra-uterina, por uma cuidadosa hygien,e da mãe durante o longo e melindroso pe1 Dictionnaire de i1fédécine, Paris, 1873, verbum Hygiene. A EDUCAÇÃO PHYSICA 73 riodo da gestação. Desde Hippocrates sabe-se que « na madre identifica-se a criança de tal f6rma com a vida da mãe, que a saude de uma faz a saude de outra,» e o notabilíssimo especialista que cita este acertado conceito do profundo sabedor grego, ajunta «que 1!,ão se poderia insistir demais sobre as fataes consequencias para a saude da criança, das faltas de regímen e imprudencias das mães.» 1 O alleitamento, a ablactação ou desmamamento, a primeira nutrição, o vestuario, para não esmiuçarmos outi;-os elementos que notaveis theoricos da educação fazem entrar nos seus systemas, como os mesmos objectos quE: cercam o infante, os sons que cumpre elle ouça, as cores que lhe devem ferir a retina, em summa todas as influencias do meio circü.mstante, exigem attenções especialíssimas n'uma educação physica intelligentemente dirigida.
Si na Europa cultíssima estes ensinamentos de medicos ·e pedagogos não entraram ainda completamente na massa do publico, entre nós são siquer conhecidos; com gra1 E. Bouchut, Ifygiene de la prémiêre enfance, Paris, 1885, pag. 6. 74 A EDUCAÇÃO NACIONAL v1ss1mo e incalculavel prejuizo, não só para o melhoramento da população como para o seu mesmo crescimento. Acredito que si houvessemos um serviço de estatistica bem organisado e digno de fé, espan'taria a cifra dos ohitos de crianças._E, como é sabido, as estatisticas européas provam, a não deixar duvida, que a mortalidade das crianças depende consideravelmente da hygiene. Nada obstante a meiguice e carinho da mãe brazileira - o que prova que mesmo as virtudes querem-se esclarecidas - a nossa educação in.- 'fantil, physica como espiritual, é inteiramente primitiva e empirica.
· Os nossos filhos eram entregues aos cuidados das escravas, cujo leite quasi sempre eivado de vicios que mais tarde·lqes comprometteriam a saude, principalmente as alimentavam. Eram as mucamas, escravas ou ex-escravas,- e isto'basta para indicar o seu valor - que de facto dirigiam_ a sua primeira educação physica, pois eram ellas quem superentendia na alimentação, nos passeios, no vestuario e nos demais actos da vida infantil. N~o era raro ver meninos de oito e mais annos dormindo na mesma rede que a muca·ma de seu A EDUCAÇÃO PHYSICA 75 serviço que, em geral extremamente amorosa e affeiçoada a elles, não sabia recusar-lhes nada, nem mesmo aquillo que evidentemente lhes podia comprometter a saude. O que tinham de enervantes semelhantes costumes, que, sem mentir, si não podem dizer findos, não escapará a nmguem.
Estes habitos exigem corrigidos, e modificados de accordo com os ensinamentos da hygiene e pedagogia infantil. É desde a primeira infancia que a educação physica b~m comprehendida deve começar a sua obra de preparar gerações sãs e fortes. Uma sociedade que se présa de civilisada e a quem não são alheios os interesses das gerações que lhe hão de succeder e preparar o futuro da patria, não póde, sem fallir aos seus deveres, postergar es$e, talvez o mais caro de todos. Não ) lhe é dado tão pouco, para o desempenho intelligente d'esse encargo, ignorar qual a influencia que têm na educação physica dos primeiros annos, e quaes os cuidados que reclamam, as questões do vestuario, da alimentação, do arejamento dos quartos, da repartição 'das horas de refeição, de somno, ou.de brinquedos, dos exercícios, das pri76 A EDUCAÇÃO NACIONAL meiras noções e dos primeiros estudos, e ainda das companhias e ~as cousas exteriores que cercam a criança.
É desconsolador que todas estas graves e.interessantes questões, tenhamos de ir estudal-as em autores estrangeiros, cujas doutrinas nem sempre se coadunem talvez ao nosso meio. N'esta parte da educação physica que incumbe á educação nacional ao nosso corpo medico - onde, com justo desvanecimento diga-se, não escaceia o merecimento - cabe uma.parte preeminente. A educação - physica, intellectual e moral - tem hoje por base a psychologia, não a psychologia do nosso absoleto e como quer que seja ridículo ensino de philosophia, mas a psychologia sci~ntifica, cuja base é a biologia e a psychologia. Sem duvida alguma a psy~hologia da criança brazileira - como a do brazileiro ·- nãQ é a mesma que a da criança franceza ou americana. São que fa'rte as razões d'essa differença, a 'forrar-nos á obrigação ·de as pôr aqui.
Entretanto, é aos sabias e mestres d'aquellas nações que vamos n6s beber todo o conhecimento da psychologia in- • fantil, que possamos ter. Aos nossos ·medicos, cujo concurso no ramo biologico a educação naA EDUCAÇÃO PHYSICA 77 cional reclama, cabe prover a esta penuria, que ao mesmo tempo como que vida entre nós o problema da educação. Na educação physica, principalmente, é o seu concurso intlispensavel, pois estou a crer que, dadas as nossas condições de clima e de raça, a nossa constituição, o nosso temperamento, a nossa idiosyncracia, não tem absolutamente o mesmo valor os preceitos e ensinamentos dos especialistas estrangeiros relativamente ao vestuario, a habitação, a alimentação ou aos exercicios de corpo. E é isto tanto mais relevante que, como ninguem ignora, a questão de temperamento e de idiosyncracia é capital na educação physica.
1 Nem todos os exercicios convém a todos,já como qualidade, já como quantidade. A idade, o estado de saude,., o predominio d'estes ou· d'aquelles caracteres physicos, intellectuaes e moraes, merecem tomados em consideração n'esta como nas demais formas de educação. Importa, pois, e muitissimo, possuirmos trabalhos nossos, de observação original, brazildra, quer sobre a nossa 1 Veja-se Dr. F. Lagrange, Physiologie des exercices du corps, Paris, 1888. • 78 A EDUCAÇÃO NACIONAL propria physiologia e psychologia, quer sobre sua applicação á pedagogia nacional. Propriamente é na segunda infancia-que devem começar os exercicios de corpo, as boas caminhadas, as marchas, os diversos' movimentos dos varios membros, a pé firme ou em m:ovimento, as corridas, os saltos e, sobretudo, os jogos como a -petéca, as barras, o quadrado, o salta carneiro, a malha e todo uma collecção de jogos que nos faltam nacionalmente a nós mas que podem e devem ser introduzidos nas nossas escolas, nos nossos collegios e - oh!
candida illusão · minha! - até nas academias e demais cursos superiores. Isso, porém, ha de ser difficilimo, dado esse enfatuamento de se fingir de homem, que distingue o academico brazileiro, o maximo fautor da indisciplina moral que tanto está prejudicando o paiz. Elle é litterato, poeta, discute os philosophos com uma grande erudição de catalogas,, janota, poseur, discursador, namorado, a_!:>oneca- - q_o,. doutor desde segundo ·annista - estaria abaixo d'elle, da sua dignidade, do seu caracter, entregar-se a 'exercicios de corpo, fazer gymnastica, correr, jogar a bolla, a malha ou o cricket. ' 1 1 ~ r.. ( A EDUCAÇ.-\. O PHYSICA 79 Como o jogo, além do 'bilhar nas salas empestadas de tabaco e suor. aprazem-lhe ap~n~s os de cartas ou o da roleta.......
Quasi se póde assegurar que si a direcção do nosso ensino superior quizesse, embora·mais officiosa que officialmente, levar esses rapaze~ á pratica dos exercícios physicos, a quasi totalidade d'elles seria resistentemente avessa á innovação. Arremedarão grotescamente todas as ruins novidades parisienses de exportação, macaquearão ridiculamente os caixeiros viajantes. inglezes, mas a sua vaidade infantil e o medo de exercício, proprio á nossa molleza e indolencia, não lhes consentirá imitar intelligenternente as instituições e os costumes que cumpre-nos adoptar, si nos importa o não abastardamento da nossa raça. Não s6 nos collegios, mas nas universidades e academias inglezas, suissas, allernãs, americanas e, muito recentemente, fra~cez~s, a educação physica sob a forma de gyrnnastica, dos jogos athleticos, de esgrima, de pedestrianismo, de canoagem, de equitação, é, quando não urna instituição officiali um costume tão inveterado e tão respeitado, que quasi faz lei..
80 ' A EDUCAÇÃO NACIONAL Na Inglaterra, CUJO povo é, incontestavelmente, o mais forte, o mais energico, o mais viril dos d'este fim de seculo, os exercicios physicos são, ~igamos assim, uma instituição nacional. As celeberrimas regatas entre as universidades de Oxford e Cambridge, occupam tanto a attenção cl'esse povo grave entre todos, como a mais palpitante questão parlamentar sobre a sua política exterior. Nos collegios universitarios, frequentados pela aristocracia,ingleza e onde a despeza dos alumnos é em media de 3 a 4 contos por anno, corno Eton, como Harrow, corno Rugby, nove horas por semana são exclusivamente consagradas em tres dias differentes aos exercícios physicos. 1 O cricket, o faot-ball, as regatas, as grandes marchas, as corridas a pé, quantidade de peque- · nos jogos collegiaes, a natação, a caça á rapoza,.a equitação, o lawntennis, o boxe, amados, espalhados e praticados por toda a Inglaterra•e colonias, são a grande escola da educação physica ingleza.
Seus resultados, ahi estão patentes. 1 V. Philippe Daryl, Renaissance physique, Paris, 1888, e R. Bonghi, Instriezio11e secondaria in Inglzilterra, in Nuova Antologia, Vol. XVI. A EDUCAÇÃO PI-FSICA 8 I A Suissa, tem a· gymnastica e os exercicios militares que ali, desde a escola até a universidade, fazem de todo o cidadão um bom soldad9. Possue ainda os club alpinos e as excursões alpinas, e as numerosissimas sociedades de tiro, além da esgrima e dos multiplices jogos a que se entrega em geral a mocidade européa. As grandes festas federaes que ali se fazem, de tiro, gymnastica, exercicios militares, recordam as grandes festas isthmicas da Grecia antiga. Taes solemnidades não são apenas manifestações de exercicios e vigor physicos, são mais, são verdadeiros meios de educação nacional, pelos sentimentos patriotices que despertam e pela sensação moral que deixam da solidariedade dos mesmos esforços em commum feitos e das · mesmas palmas ganhas.
« A Allemanha, diz, fundado em autoridades valiosissimas, o Sr. Ruy B 1 arbosa, consagra á educa.ão physica um culto que se confunde quasi com o patriotismo.» 1 A gymnastica é ali appellidada, conforme Miguel Bréal, citado pelo mesmo Sr. Ruy Barbosa, uma arte nacional. Em • Obra cit., pag. 127.- 8 82 A EDUCAÇÃO NACIONAL uma conferencia feita na Associação dos medicas militares allemães, o celebre physiologista I2u Bois Reymond, professor na Universidade de Berlim, affirmava que.º exercício merece um lugar: na ordem do dia da sciencia, e analysando tres systemas de exercício, a gymnastica allemã (sic), a gymnastica sueca e os exercícios athleticos inglezes, assevera que « a gymnastica allemã, com a sua sabía mistura de theoria e pratica; fornece a mais favoravel solução, quiçá a solução definitiva, do tão importante problema que desde Rousseau occupa a pedagogia.
» 1 Isto só deixa ver a importancia que na cultissima Allemanha dão, como principal elemento de educação physica, á gymnastica, intelligentemente cultivada, e por sabios illustres regulada nos seus methodos e estudada nos seus effeitos. Á gymp.astica juntam-se os exercícios militares, os jogos e, nas universidades? a esgrima praticada como uma tradição de honra e de cora~em. O serviço militar obrigatorio, trabalhoso, duro, rude e sempre activo, completa esta educação. Os Estados-Unidos conservam tradicional1 L'Exercice, Revue Sczentijique, Paris. Tome xxrx, pag. 108. A EDUCAÇÃO PHYSICA '8 3 mente os velhos jogos inglezes. Demais, a gymnastica, sob a forma e nome especial de exercicios callisthenicos, entrou desde muito no systerI).a geral de educação publica.
Organisando após a catastrophe a educação nacional, não esqueceu a França esta feição fundamental d'ella. A gymnastica, acaso por'demais systematicamente organisada, e depois os exercicios militares, entraràm obrigatoriamente no ensino official primario e secundario. Por 1888 uma _reacção, provocada principalmente pelos estudos sobre a educação physica na Inglaterra, de Paschal Grousset (Phillipe Daryl) primeiro publicados no Temps e depois em volume, 1 contra o systema francez e a favor do inglez, desafiou um movimento a favor dos jogos. D'esse movimento nasceu a Liga da Educação physica, que encontrando a maior sympathia e auxilio do governo, de todas as administrações, da Universidade e da população, conseguio, sem prejuizo da gymnastica, introduzir nas escola~, collegios e lyceus o uso dos jogos athleticos, assim ingle- ' Renaissance Pltysique, Paris, 1888.
84 A EDUCAÇÃO NACIONAL zes como velhos jogos francezes restaurados. 1 1 Um jornal especial da Liga não só informa do seu movimento e progresso, como publica constantemente conselhos de hygiene, preceitos sobre a educação physica e noticias de jogos, com explicaçõd circumstanciadas e praticas das suas regras e me10s..., Em todas as demais nações onde o espirito publico não dorme, sinão que vela continuamente pelos interesses da patria, tem a educ~ção physiça merecido particular interesse. Na Sue- -eia, na Belgica, na Hollanda, na Austria e na ltalia faz parte dos programmas escolares. Em todos os paizes civilisados, medicos, physiologistas, hygienistas, pedagogistas multiplicam em livros, em revistas e nos mesmos jornaes diarios, conselhos, prescripções, alvitres ou direcções sobre todos os diversos aspectos que póde apre-, sentar o interessante problema da educação phys1ca.
Entre_nós tudo, infelizmente, está por fazer. Existe, é certo, em alguns programmas officiaes 1 Ver este movimento em L'Éducation Physique, Bulletin de la Ligue Nationale de l'Édt,catzon Physique, Paris, RueVivienne, 5r. A EDUCAÇÃO PHYSICA 85 sob a exclusiva forma da gyrnnastica, mas, ou seja porque esses programmàs em geral se não executam sinão em mínima parte, ou seja porque os professores ta1nbem a não aprenderam e menos a estimam, é essa determinação letra morta. Acresce o julgarmos que gymnastica são os exercícios a~robaticos, o que de todo o ponto falsêa a idéa pedagogica d'esse ensino. Precisamos, n'este ponto como em tantos outros, reagir..... cumpre fazermos entrar a educação physica na nossa educação, nos nossos costumes. Devemos, entret~nto, comprehendel-a largamente, scientificamente.
Penetrar-nos de qué ella se não limita a gymnastica, cujo valor, como foi de passagem iridicado, é muito relativo. Cuidemos da hygiene particular e individual, apenas entre nós conhecida, mas de nenhuma forma praticada. Introduzamos nas nossas escolas, nos nossos collegios e outros estabelecimentos de instrucção primaria e secundaria, a gymnastica, principalmente -aquella qu~ dispensa apparelhos, os exercícios callisthenicos, as corridas, as marchas, os salto~ e os jogos estrangeiros, pois não temos proprios, que melhor se adaptem ao 86 A EDUCAÇÃO NACIONAL nosso clima, ao nosso meio. Que e_m cada cidade as municipalidades preparem pequenos ou grandes prados em parte arborisados, em parte grammados, onde os alumnos dos estabelecimentos publicas e particulares,vão, conduzidos pelos mestres, em dias determinados, entregar-se a exercicios de corpo e aos salutares prazeres dos jogos athleticos.
Creemas na nossa mocidade, tão fraca, tão estiolada por urna piegas litteratice precoce, isso que um escriptor francez, tratando estes assumptos, chama materia de enthusiasmo. 1 Incitemos n'ella esses ~a__physka, a ver se lhe geramos o enthusiasmo que lhe falta nas luctas intellectuaes e moraes. Quantos pedagogistas e physiologistas têm estudado ·estas questões, são accordes em reconhecer a influencia poderosa da educação physica sobre a ·intelligencia, sobre o caracter, sobre a moral. E a pedagogia scientifica, sciencia - si tal nome lhe cabe - ainda em via de formação e onde tantas são as questões controversas, é unanime n'este ponto. Suscitemos nas!1ossas academias o gosto por 1 P. de Coubertin, L'Éducation Pliysique in R evue Scienti.fi• que, Tome XLIII, pag.
r41. A EDUC. AÇÃO PHYSICA 87 esses exercícios. Todas ellas se acham em cidades onde a canoagem, sob o aspecto hygienico um dos mais completos exercícios que se possa fazer, facilmente poderia ser praticada. Mas não s6mente o exercício de remar, porém as grandes marchas a pé, a esgrima, os jogos como o cricket, a malha, a pélla, certo não desdourariam os nossos jovens.doutores. Os que remam nas regatas de Oxford e Cambridge podem ler á primeira. vista uma pagina de Homero ou de Demosthenes, um capitulo de Tacito ou uma comedia de Plauto, e discutir1.am com grande lucidez e solida noticia dos textos uma questão de direito- ·romano ou patrio. E não ha quem não saiba que uma das glorias de que se desvanece o velho Gladstone, o famoso cricketer de Eton, é de ainda septuagenario poder derrubar um carvalho.a machadadas.
Tem oitenta annos e dirige na Inglaterra, com a actividade e o ardor de um rapaz, a mais bella, a mais generosa, porém a mais ardua e difficil campanha política d'este fim de seculo. Exemplos d'estes ali encheriam uma pagina, e os homens mais altamente collocados n'esse paiz tão essencialmente hierarchico, cujos nomes figuram nos velhos registros universita88 A EDUCAÇÃO N-:'°CIONAL rios como cricketers, ou boxers de primeira força, como chefes no faot-ball ou vencedores nas famosas regatas, têm como uma honra apreciavel presidir os clubs athleticos, os seus meetings e as suas luctas nos varios campos em que, em determinados periodos, se reune a mocidade ingleza em prazo dado de emolução, de força, de vigor e de coragem. E não é amplificação dizer que a.
Inglaterra acompanha estes incidentes com um grande interesse nunca enfraquecido. Os mais graves jornaes, como ·o Titnes, occupam-se longamente d'essas celebres partidas, com quàsi o mesmo interesse com que tratam as questões da politica européa. Não nos admiremos, pois, que esse povo vá conquistando o mundo; sobeja-lhe para isso força, energia e audacia. Em se tratando d'estes exercícios no Brazil, a nossa indolencia nacional acóde com a contrari~dade do clima, que se não presta ç1. elles, que os não consente, que torna-os impossíveis. Taes objecções são sem valia alguma, não só diante da physiologia, como da pratica. Si, como o demonstra aquella sciencia, os exercícios physicos são um revigorador das energias physicas e portanto da saude, é justamente em os climas A EDUCAÇÃO PHYSICA 89 enervadores e debilitantes como o nosso que convém mediante elles reagir contra a acção do meio physico.
Segundo o physiologista francez Lagrange, a medidà physiologica dos exercicios corporaes é o affrontamento (essouflement) no seu terceiro periodo ou axphyxico. 1 Sendo assim já temos no Brazil um criterio seguro na pratica J ' d'esses exercícios. Visto o nosso clima, o cançaço nos chegará a nós primeiro e com menor somma de força despendida,que em ' clima mais fresco ou frio, ~as como a maior ou menor intensidade da fadiga depende tambem do preparo (entrainçment) e do habito do exercício, essa perturbação na funcção dos orgãos respiratorios póde ser pouco e pouco recuada. Demais aos nossos physiologistas compete o estudo minucioso d'esta questão no ponto de vista brazileiro, para determinarmos com certeza quaes os exercici,os que melhor nos convém, como o tempo a emprega~ n'elles, a hygiene que reclamam.
Afóra esta parte scientiti.ca da questão, a pratica prova a favor da sua adaptação. Si os exercícios physicos não fossem aqui po~siveis, o 1 Obra cit. 1 pag. 65 e seg. 90 A EDUCAÇÃO NACIONAL trabalho physico, como a lavoura, não o seria tambem. Um viajante inglez, que estudou demoradamente a Amazonia, referindo-se á habitabilidade d'esta região pelo europeu e a possibilidade d'elle n'ella se occupar, julga que o problema se resolveria pela simples modificação das horas de trabalho; o europeu que lá trabalha doze podia limitar-se aqui a trabalhar seis, tres de manhã, tres á tarde. 1 Tal indicação do celebre emulo de Darwin, tem certo excellente applicação n'esta controversia da praticabilidade e conveniencia dos exercicios physicos entre nós. Ha, porém, argumento acaso mais forte e ponderoso.
Na A.ustralia, cujo clima é seguramente mais quente e peior que o nosso, esses exercicios são correntemente praticados. Sabem todos que periodicamente o Cricket Club australiano envia ca;npeões seus á mãe patria disputa-r aos criçketers inglezes as victorias dos celebres ma-. tches. Derrubada assim a especiosa objecção, urge cuidarmos seriamente de introduzir no nosso sys1 Alfred Wallace, 1Varrative of ti-avels on fite Amazon and Rio Negro, London, 1853, pag. 80. A EDUCAÇÃO PHYSICA 9 I tema geral de educação, a educação physica, e nas nossas es,~olas, -. nos nossos collegios, nas nossas academias, nos nossos costumes emfim, os exercicios de corp?, todos esses exercicios que os inglezes conhecem sob o nome tollectivo de sport. A educação physica no Brazil é, em todo o rigor da expressão, um problema naçional.
No~sa raça, sentem-no todos, se enfraquece e abastarda sob a influencia de um clima deprimente, peiorada pela falta de hygiene, pela carencia qe exercicio, pela_privação da actividade. Uma propaganda que não quero, c~mo 01 Sr. Sylvio Roméro, chamar anti-patriotica, mas que certo não vio o interesse do Brazil sinão por um lado, attraío e localisou em determinadas regiões do paiz uma immigração, forte pelo numero e pelo vigor, e que melhor valera disseminada por elle todo. Essa propaganda continúa, e certo continuará a affluir, e em maior numero, a immigração, principalmente allemã e italiana. A lucta entre essa gente, incomparavelmente mais forte, e nós, não póde ser duvidosa. O campo de combate será primeiramente o das actividades physicas, aquelle que exige maior somma de 92 A EDUCACÃO NACIONAL, robustez, de força e de saude, o commercio, a industria, os officios, a lavoura.
É, portanto, indispensavel preparar-nos para, sem recorrer a meios que não consente a nossa civilisação, não nos deixarmos abater e esbulhar, afim de que esta terra, que nossos antepassados creararn e civilisaram, e cuja futura grandeza preparam, seja principalmente nossa. • j I! • V A GEOGRAPHIA PA'J'RIA E A EDUCAÇA-0 NACIONAL PEZAR da pretenção contraria, n6s não sabemos geographia. N'esta materia a nossa sciencia é de nomenclatura, e, em geral, cifra-se á nomenclatura geographica da Europa. É mesmo vulgar achar entre n6s quem. conheça melhor essa que a do Brazi1. A geographia da Africa, tão interessa,nte e attractiva, a da Asia ou da Oceania e até a da America, que ap6s a nossa, é a que mais interesse nos devia merecér, mesmo reduzida a essa esteril enominação, ignoramos completamente.
E o peior é que esse nosso conhecimento dos nomes dos diver- ·sos accidentes geographico~ da Europa, nos 94 A EDUCAÇÃO NACIONAL torna orgulhos'os e prestes sempre a ridicularisar os frequentes desacertos dos európeus, principalmente francezes, quando se mettem a tratar de nossas cousas. Como si os nossos jornaes não estivessem cheios de iguaes desconchavos quando entram a tratar mesmo da Europa, fóra da batida estrada da nomenclatura! A geographia, entretanto, sob a influencia.· principalmente dos allemães e do seu grande geographo Ritter, soffreu n'esta ultima metade do seculo uma reforma radical tanto nos seus methodos, como no seu espirita. Depois de Ritter póde-se dizer, como conceitúa um critico, que a geographia tornou-se a psychologia da terra.
Um notavel homem de sciencia inglez, em um livro substancial que muito recommendamos aos nossos professores de geographia, indica superiormente a importancia do ensino geographico, qual se o está comprehendendo hoje. «Ligando, diz elle, estas particularidades locaes com a historia humana, a geographia nota quão largamente influiram ellas sobre o progresso dos acontecimentos politicos, como por exemplo dirigiram a emigração dos povos, guiaram ou detiveram a onda
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