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Capítulo 3 · A Educação Nacional

As Características Brasileiras

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20 A EDUCAÇÃO NACIONAL éalando no fundo da sua alma e occultando com ciumento cuidado os seus descaminhos. Tal é o dever infallivel do bom filho. Máo patriota, desleal cidadão fôra, porém, aquelle que sob não sei que falso pejo entendesse menos amar ·a patria dissimulando-lhe vicios e defeitos, cuja em~nda está exigindo divulgados e conhecidos. Não, a patria• quer-se amaqa ainda com as suas maculas, ou, e direi melhor, com os senões e defeitos de seus filhos e de suas instituições, i 1 sob a explicita condição, porém, de que em prol de suas melhorias havemos de empregar todo o nosso amor e com elle todo o nosso esforço. Sei que no Brazil temos acaso abusado d'este amor qesligado de falsas conveniencias patrioticas - com tanto mais merecimento á censura que os esforços empenhados na extincção dos vicios accusados, não têm sido em relação nem com o numero, nem com a vehemencia das accusações.,!\rgúe desamor da patria este zelo de critic~ não seguido de mais forte e positiva vontade de regenerai-a, regenerando-nos n6s em primeiro lugar.

_As virtudes e v1c1os de um paiz não são. \ CARACTERISTICAS BRAZILEIRAS 2 I sinão, as virtudes e vícios de seus naturaes. Reconhecel-os no_paiz é inculcal-os nos seus filhos. A patria essa, na sua figura ideal e amada, paira acima dos nossos erros e das nossas paixões - atacar os vícios dos qu·e a constituem ainda é estremecel-a no filial desejo de a ver não só objecto do nosso amor, mas fonte do nosso orgulho. D'esse singular costume que nos põe· a publicar-lhe os defeitos, em vez de melhoral-a melhorando-nos a nós mesmos, dirá este livro as causas, e dizendo-as procurará incitar-nos a todos nós brazileiros e principalm·ente áquelles que tomaram a si a empreza formidavel da nossa administração, a corajosamente removel-as. Não basta estar, co,1!:o até agora havemos feito a por a nu, qual o sacrilego filho de Noé, ao que parece apenas pelo prazer do escarneo, as vergonhas do paiz; cumpre mais que tudo remedial-as, e abandonando as declamações tão, de nosso gosto, pormo-nos franca e singellamente a servil-a, com a consciencia de um dever individual religiosa, humilde, mas devotada e correctamente cumprido.

O brazileiro, radicalmente político, no peior 2 2 A EDUCAÇÃO NACIONAL ·sentido d'esta palavra, teve o seu julgamento, e ·com elle o seu caracter pervertido, pela educa- ·ção que lhe deram os partidos a que infallivelmente pertencia e a cuja índole - pois doutrinas e comportamento nunca t~veram distinctos - subordinava todos. os pensamentos e acções da sua vida social. EstéJ. educação -partidaria foi a unica especie de educação civica que tivemos. · Desde a Independencia e consequente genese dos partidos politic~s não conheceu a sociedade brazileira outra vida que não a vida política., Nunca tivemos vida commercial porque o commercio esteve sempre e está àindá hoje em mãos estrangeiras; nunca tivemos vida industrial porque não temos. industria; nunca tivemos siquer vida agrícola porque a agricultura eram os escravos que a faziam; nunca tivemos vida militar porque nem · o exigiram as circumstancias especiaes do paiz, nem o consentia a profunda aversão do nosso povo pelo militarismo, e, finalmente nunca tivemos vida intellectual porque nunca tivemos movimento scientifico, movimento litterario ou movimento artístico, e esses a um tempo factores e resultantes_da civilisação, a Sciencia, a Arte, a Litteratura foram apena.s apanagio de CARACTERISTICAS BRAZILEIRAS 23'.

uma limitada minoria antes afastada que intromettida no movimento geral da nação, e jamais influenciaram a massa -popular. · Balda assim de estímulos de actividade e energia, q.eterminados em qualquer sentido pela Industria, pela Sciencia. ou pela Arte, mas em definitiva em proveito da patría, a sociedade brazileira limitou a sua exclusiva activiçlade á política ou, e preferivel é a expressão, ao partidarismo. 1:-Jão é no Rio de Janeiro, cidade cosmopolita e artificial, que devemos estudar o Brazil, mas na provincia, no interior. É esse que é o Brazil, ou sejam quatorze milhões de habitantes contra os 500 mil da capital. Nada mais miseravel, mais triste, mais sem, attractivos a não serem os da natureza, do que ' as povoações do nosso interior, condecoradas algumas, verdadeiras ald~as, com o pomposo titulo de cidades.

Para todos os effeitos da vida dir-se-iam cidades mortas. Ha porém em todas ellas, ainda na mais humilde aldêa dos sertões do Pará ou de Pernambuco, da Bahia ou de S. Paulo, do Paraná ou de Matto Grosso, dous partidos, dous chefes, alguns cabos eleitoraes, os 24 A EDUCAÇÃO NACIONAL adeptos indispensaveis e, ao menos em vesperas de eleição, unia vida relativa. Não acharíeis ali algum genero indispensavel á vossa vida de perfeito civilisado, mas infallivelmente, rriathematica-. mente encontraríeis o liberal e o conservador, inimigos politicos e particulares decididos e irreconciliaveis. Nenhum d'elles saberia por que era antes liberal que conservador e vice-versa, nem mesmo sobre os negocios locaes dar-vos uma opinião, sinão justa e sensata, ao menos propria e chã, não inspira~a pelo seu partido e n'elle corrente; ambos, porém, lá teriam os seus preC0)1Ceitos, as suas idéas feitas, os s~us juízos as~ sentados, as suas paixões ás vezes violentíssimas, o seu fanatfsmo partidario, e, característica dominante, â ingenua.crença na innerrancia do seu partido, com a fé profunda na indefectível falli~ bilidade do outro.

Pois bem, desde esta aldêa perdida lá na margem de um recondito afflué'nte do Paraguay ou do Paraná, do S. Francisco ou do Amazonas, ou debru 7ada n'algurna pittoresca encosta dos Cariris, da Borborema,.ou da Mantiqueira, até as capitaes mais adiantadas, a intuição política é a mesma, absolutamente a mesma. CARAC rERISTICAS BRAZILEIRAS 2 5 Imagine-se d'ahi a viciação dos juizos e finalmente do caracter que se não exercendo em nenhuma oufra especie de lucta sinão na chicana, · na intriga, no mexerico político - e fazendo da política não um meio mas um · fim - pri~eiro amollece, depois dilue-se, esvae-se, some-se, quando se ~o perverte e estraga. É este o grande mal que corroe o corpo social brazileiro e envergonha a patria, verdade que precisamos dizer e aceitar si nos queremos sincera1~1ente corrigir': não é principalmente a actividade physica, é antes a energia moral que nos falta e que torna negativas as boas qualidçtd~s que temos.

Somos, p9r exemplo um povo honesto. Simples, sincero, modesto de gostos e de maneiras, desambicioso, conversavel, indolente e ge!}eroso, o brazileiro. conserva-se em geral estranho ás desmarcadas ambições que vemos em outros povos, como a certos vícios que as qualidades contrarias entre elles desenvolvem. Os nossos estadistas, nada obstante as calumniosas accusações que os partidos contraries systematicamente faziam sem outro intuito que atacal-os para irem por sua vez ser por elles injuriados, os nossos •. 26 A EDUCAÇJ. O NACIONAL estadistas, cujo modestissimo trem de casa podia competir com o dos fundadores · da republica · americana, deixaram sempre o poder as mais das vezes mais pobres do que para lá foram. Quando foi pelo Governo provisorio da Republica dissolvido o Senado, uma folha do Rio de Janeiro deu algumas informações sobre~ recursos que tinham ou os meios de vide!, que iam tentar alguns çl'esses homens envelhecidos no manejo dos negocios publicas, homens que foram deputados, que foram senadores, que foram ministros, e que agora para viver tinham de recomeçar uma profissão ou limitar-se a escassos meios.

O Visconde do Rio Branco, ministro plenipotenciario, ministro da fazenda, presidente do Conselho de ministros, deputado, senador, conselheiro de estado, morreu menos que pobre, sendo a sua familia immediatamente obrigada a vender-lhe os modestos moveis e a livraria, e seus amigos a fazer uma subscripção para ajudal-a.a manter-se. O Visconde dé. Itaborahy, o Conselheiro Francisco José Furtado, o Conselheiro Buarque de l\face40, e muitos o Jtros morreram na extrema pobreza, e o contrario d'isso é entre nó~ extra9rdinaria excepção., CARACTERISTICAS BRAZILEIRAS 2 7 Ent~etanto o Brazil tem estadD longe de ser bem governado. Esses homens honestos fizeram sempre uma politica cuja immoralidade só é talvez ultrapassada pela dos Estados-Unidos; e isto por essa falha de caracter, essa faltá de energia, de decisão, de iniciativa, de combatividade direi, que fa" com que o homem que á honestidade reune o caracter, não se contenta só em ser elle honesto mas obriga a sel-o tudo e todos q1:te d'elle dependem.

A proverbial desorganisayto e relaxamento da nossa administração publica, 'i1-º mesmQ defeito e não á corrupção moral deve ser principalmente attribuida. Si a nossa desprotegida magistratura que os poderes publicos pela exiguidade dos vencimentos que lhe _paga collocou entre a depen~ dencia e a miseria, levanta geraes queixas no paiz, taes queixas rarissimo tomam a fórrna de accusação de peculato, e vêm.immediatamente deséulpadas com reparos caracteristicos a indicarem tibiezas de caracter, deixando-se influir por considerações alheias ao lucro sordido. E d'esta sorte vão, apezar da nossa vulgar honestidade, todos os nossos serviços. Uma das causas da liberdade ter no Brazil 6,BLI 28 A EDUCAÇÃO NACIONAL quasi degenerado em licença, sendo o governo quem mais d'ella abusava, foi esse defeito do caracter nacional que tornou possível con:i o desleixo e o desmazelo todas as condescendencias.

A nossa indulgencia tão peculiar por certos factos criminosos e actos condemnaveis, de que os nossos tribunaes do J ury e outros tantos exemplos nos offerecem; não é, como acaso se poderia suppor, fructo de uma perversão da moral, sinão da debilidade e extrema bonhomia do nosso caracter. No Brazil as associações que por sua natureza ou regp deviam escrupülisar na admissão dos assodados, não têm melhor pessoal que as abertas a todo o mundo, porque os associados aceitam infallivelmente todas as propostas ou por nimia e complacente bondade, ou por se não comprometterem, não crearem um desaffecto, ou outra desculpa em que se revê a fragilidade do animo. N acionaes e estrangeiros que tem-se occupado da demopsychologia brazileira estãp todos de accordo em reconhecer como a dominante de nosso caracter a indifferença, o desanimo, a passividade, em summa.

«· N-ão se pôde talvez dizer, escreve o illustre CARACTERISTICAS BRAZILEIRAS 2 9 autor da Historia da Litteratúra Brazileira, que o brazileiro tomado _individualmente, seja descuidoso de si ·proprio; considerado porém em geral, como typo sociologico, o povo brazileiro é apathico, sem iniciativa, desanimado. Pareceme ser.este um dos primeiros factos a consignar ·em a nossa psychologia nacional. É assignalavel a' propensão que temos para esperar, nas relações internas, a iniciativa do poder, e, no que é referente á vida intellectual, para imitar desordenadamente ·tudo quanto é estrangeiro, scilicet, francez. A nação brazileira não tem em rigor uma 1 fórma propria, uma individualidade caracteristica, ·nem politica, nem intellectual. » 1 H~ cinco annos di~ia de nós um geographo allemão: «.À peior feição do.

caracter brazileiro é a negação ao trabalho regular; pois isto é que concorre para a terra se desenvolver tão demoradamente, e para o nacional a todo esforço de adiantar que lhe perturba o dolcefar niente responder com o estereotypado: Paciencia. Nem uma palavra se emprega talvez mais no Brazil 1 Sylvio Roméro, Historia da Litteratura Brazileira, Rio de Janeiro, 1888, pag. 124-125. 30 A EDUCAÇÃO: NACIONAL do que essa. » 1 E tratando da religião no Brazil argúe claramente a nossa indifferença. · Herndon, official da mç1rinha americana que por ordem do seu governo fez com Gibbon em 1850 uma exploração no valle do Amazonas, tratando do povÔ do Pará, depois de assentar a sua desambição, b seu amor de nada fazer e a sua satisfação em apenas gosar sem trabalho os fructos espontaneos da terra, indifferente a toda concurrencia e contente desde que tem chá ou café, cigarros e a rede, e notar que no Pará os crimes são muito raros observa, não sem graça: «Provavelmente o povo é demasiado indolente para ser máo.

» 2 • Estudando com admiravel perspicacia e discernimento as cou~as políticas do Brazil, em um artigo prophetico, publicado na Revista de Portugal, o aprimorado escriptór brazileiro, Sr. Eduardo Prado, nota como o nosso povo tem-se conservado estranho aos nossos mais notaveis acontecimentos, e apropositadamente reflecte: «Esta 1 A.,v. Sellin, Geograplda geral do Brazil, trad. por Capistrano de Abreu, Rio, 1889, pag. 104. 2 Herndon and Gibbon, Exploration cif tlte Valley of tlze Amazon, vVashington, 1853, I, pag. 344. • "I CARACTERISTLCAS BRAZTLETRAS 3 I inacção, esta não interfe~encia do povo verdadeiro, das grandes camadas da população brazileira nos acontecimentos publicos, é sempre observada. Um pintor brazileiro, Pedro Americo, no seu grande quadro A Proclamação da.lndependencia do Bra.:i!, retraçou o facto com toda a verdade e toda a philosophia.

Vê-se n'essa pintura o Principe Regente, a cavallo, de espada desembainhada, cercado da sua guarda de honra, dos gentis homens da sua camara, de varios capitães-m6res e de officiaes de ordenanças. Os courâ.ceiros, os officiaes, os da côrte brandem as espadas ou agitam ós chapéos, e no. quadro ha a vida admiravel d'aquelle momento historico. A um canto, um homem de côr guiando um carro, arreda os seus bois da estrada e olha admirado para o grupo militar; ao longe, destacando-se no fundo illuminado de uma tarde que cae sobre a paizagem melancolica, um homem do campo, um caipira retem o passo á cavalgadura e voltando tranquillamente o rosto vê, de longe, a scena que não comprehende. Esses dous homens são o povo brazileiro, o povo real... » 1 1 Destinos Politicos do Brazil in Rcv.

de Por!., YOI. I, pag. 470. 32 A EDUCAC. Ã-O NACIONAL,. De tres ordens de factos derivam estas caracteristicas brazileiras: a ethnogenia, isto é, as origens ethnogtaphicas e historicas; a geographia, ou a acção da terra sobre o homem; a educação, isto é, a influencia da sociedade sobre o cidadão. Somos o producto de tres raças perfeitamente distinctas. Duas selvagens e portanto descuidosas e indifferentes como soem ser n'esse estadio da vida, e uma em rapido declinio depois de uma gloriosa, brilhante e fugaz. illustra- <;:ão. Quando iniciou a colonisação do Braz'il, começava ·a gente portugueza a experimentar os symptomas da perversão moral que fez logo resvalar os heroicos batalhadores da Peninsula e d'Africa, os ousados navegadores do mar tenebroso, os mestres de Colombo, nos cupidos tratantes da India.

Martim Affonso de Souza, o grande explorador da costa brazileira, o fundador de S. Vicente e.o mais bem aquinhoad0 dos donatarios das primitivas capitanias, foi ao depois nas conquistas da Asia um dos mais infamados concussionarios. Amollecido na rapina da India, como os hespanhoes na do Perú e do Mexico, imbecilisado CARACTERISTICAS BRAZILEIRAS 33 nos faceis prazeres das ter;as conquistadas; de um lado enfreado pelo temor da Inquisição e de outro enervado pela educação jesuitica, o povo portuguez ·decaía visivelmente na época da colonisação, para a qual, é de notar, ainda cooperou com os seus peiores ·elementos. Da nossa vida política no periodo da formação da nacionalidade, pertinentemente escreve patriotico escriptor: · « O povo não tinha vida autonomica, nem tinha iniciativa; a justiça lhe era ministrada como um favor do monarcha.

As sesmarias territoriaes eram concedidas aos portuguezes, que tambem monopolisavam o commercio. Na ordem puramente intellectual, a educação era jesuítica; desenvolvia-se a memoria com prejuizo do raciocinio. A escravidão no seio das familias veio consolidar este complicado systema de abatimento, de alheação da vida independente. Desde o principio, toda a população dividia-se em duas grandes classes: senhores e escravos. Aquelles eram portuguezes, ou seus descendentes; os outros - os negros e os índios! Os mestiços d'estas duas classes, quando livres, eram tratados com rigor, porque se tinha certeza de encontrar sua origem nas senzalas... As décas 34 A EDUCAÇÃO NACIONAL das foram passa'ndo; e o tempo foi robustecendo esta obra da injustiça é da extorsão.

D'ahi saío o imperio do Brazil, paiz de senhores, de gran,.. des, de magnatas; mas terra sem povo, no alto. séntido da palavra! E como Portugal foi sempre ~ma feitoria inglêza, nas relações exteriores nós o somos tambem, e nas internas governa-nos ainda o reino com todos os seus abusos, com todos os seus prejuízos. A nossa independencia, sendo um facto historico de alcance quasi nullo, não tendo aqui havido uma revolução que afogasse os velhos preconceitos, não abrio-nos uma phase de autonomia e liberalismo. » ~ Agassiz, nas suas sensatas e ainda agora aproveitaveis impressões geraes do Brazil, nota ' com razão que a administração das nossas províncias era, como entre os romanos, orgamsada principalmente no intuito de reforçar a auctoridade. 2 Podera accrescentar que ella concorreu muito por esse facto não só para o lento desenvolvimento dos recursos materiaes do paiz, como 1 Sylvio Roméro, Obra citada, pag.

I 19. • Agassiz (l\_fr. et M.m'), Voyage au Brésil, tra<l. F. Vogeli, Paris, 1869, pag. 495• CARAC'l'. ElUSTICAS BRAZILEIRA$ 35 elle aÍiás reconhece, mas para lisongear a ·nossa natural imprevidehcia e falta de iniciativa., As condiçõe~ ·geographicas do Brazil, assás · concorreram para a accentuàção e desenvolvimento d'essas caracteris.ticas. invej çtvehnente fer..: til, sinão prodigiosamente uberrima, a nossa terra é principalmente rica de productos n~turaes, de facil cultivo e recolta, dispensando assim esforços e trabalho. Este pouco mesmo, ahi estava o escravo para fazel-o, livrando quasi totalmente a população civil da obrigação de trabalhar.· As condições climatericâs/ por seu lado, annullando a necessidade de·agasalho,s e tornando mais supportaveis as exigencias physiologicas da vida pela menor actividade das combustões, auxi,liou o pendor á indolencia que ellas mesmo, principal~, mente do Rio de Janeiro pa:ra o norte, crEravam,,, ' debilitando forças e enervando esforço$; \q:ue a• escravidão estava prompta para dispensar de.

exercerem-se. A educação desde o principio foi a da indo~ lencia e de u11;1 fatuo menospreso do trabalho. A primitiva sociedade composta de máos ele.: mentas, quasi não podendo constituir familia sinão pelo concubinato, occupando-se exclusiva.:.. 36 A EDUCAÇÃO NAC(ONAL mente de interesses materiaes e de momento, certo, carecia de requisitos para se occupar da educação das gerações que iam nascendo. Essa sociedade achou-se logo com um elemento terrivelmente deleterio em seu seio, a escravidão. Não é possível exagerar os males que nos trouxe. a escravidão. Durante trezentos annos refastelamo-nos no trabalho, primeiro do índio depois do negro. Queiram os destinos do Brazil que não nos seja preciso tanto tempo para livrarmo-nos de uma vez do funestíssimo veneno da maldita instituição, que pela indefectível lei da justiça na historia, que quer todo o erro traga em si o seu castigo, ainda hoje nos pésa e avexa!

Não sómente abolindo como degradando o trabalho, a escravidão consumou em nós a morte de todas as energias, já enfraquecidas pelo clima e viciadas pela hereditariedade. Extincta a escravidão índia, o africano alegre, descuidoso, affectivo, metteu-se com a sua moralidade primitiva de selvagem, seus rancores de perseguido, suas idéas e crenças fetichistas, na familia, na sociedade, no lar. Invadio tudo e immiscuio-se em tudo. Embalou a rede da sinhá,.. CARAC l'ERISTICAS BRAZILEIRAS 37 foi o pagem do sinhô-1noço, o escudeiro do sinhô. Ama, amamentou •. todas as gerações brazileiras; mucama, a todas acalentou; homem, para todas trabalhou; mulher; a todas entregou-se. N~o havia casa onde não existisse um ou mais moleques, um ou mais çorumins, victimas consagradas· aos caprichos do nhônhô.

Eram-lhe o cavallo, o leva-pancadas, os amigos, os companheiros, os criados. ·. As meninas, as moça~, as senhoras tinham para os mesmos misteres, as mucamas, em geral creoulas e mulatas. Nunca se frizou bastante a depravada influencia d'este característico · typo brazileiro, a mulata, no amollecimento do nosso caracter. « Esse fermento de aphrodisismo patrio,» <? Orno lhe chama o Sr. Sylvio Roméro, foi um dissolvente.. da nossa virilidade physica e moral. A poesia popular brazileira nol-a mostra, com insistente preoccupação apaixonada, em toda a força dos seus attractivos e da sua influen•cia. O povo amoroso se não fatiga em celebrar-lhe, n'uma nota lubrica, os encantos, que elle esmiuça, n'uma soffreguidão de desejos ardentes. Canta-lhe a volupia, a magia, a luxuria, os feitiços, a faceirice, os A EDUCACÃO NACI01',AL ' dengues, os quindins como elle diz na ~ua linguagem, piegas, desejosa.

e sensual. Decididamente ella ·atormenta a sua inspiração, e os poetas, Gregorio de Mattos á frente, fazem d'ella com mais franqueza e màis sensualidade.no desejo, a Mareia ou a Nize de seus-cantos. Na familia ê a confidente da súzhá-11ws:a e a amante do nhônhô. Graças principalmente ·a ella, aos quatorze 'annos o amor physico não tem ·segr:edos para o brazileiro, iniciado desde idade mais tenra na athmosphera excitante que lhe fazem em torno, ·dando-lhe o banho, vestindo-o,, deifaQdo-o., Molle pelo clit_na, molle pela raça, molle por esta precocidade das funcções genesicas, molle pela falta de todo trabalho, de qualquer acti~idade, o sangue p9bre, o caracter nullo ou irrita- ' diço · e por isso mesmo inconsequente, os sentimentos deflorados e pervertidos, amimado, indisciplin'ado, mal criado em todo o rigor da palavra ~eis como de reg ra começa o j6vem ôrazileiro a vida.

Que livro soberbo ha a fazér sobre a educa-,ção d'esse rapaz desde o berço até minist;o 'd•e estado, por exemplo! Qual será o fino psychoCARACTERI~TICAS BRAZILEIRAS 39 logo e elegante estyllista, mas de um espirito bei:n brazileiro que, sep1 as exagerações e idéas preconcebidas de certa ·escola, nos dê esse quadro verdadeiramente nosso, que, como tantos outros, falta, de~ido ~ n_oss~ fatal ten~encia de iLitação estral).geira, a htteratura naqonal! Quem nos mostrára a acção constante e poderosa e invencivel na nossa vida social do e1npenho a iriutilisar todos os esforços, a nullificar todas as actividades, a entibiar todas as boa:s vontades, descoro~ çoadas pela certeza de uma concurrencia insuperavel! E nos pintára a falta de energia para o trabalho, o amor da vida facil, a imbecillidaêle physica e mora} forrando-se á h.1cta pelo rebaixamento de todas as justas altivezas, mendigando protecções, aceitando tutellas, assoalhando baixezas!

Fazendo os preparatorios por empenhos, fazendo os annos academicos por empenhos, formando-se por empenhos ~ por empenhos de toda a casta e de toda a gente, traidos os principios proclamados, desertado o dever, despresados os escrupulos, mettendo-se aqui, apparecendo acolá, até surgir-nos nas cumieiras sociaes ou, vencido por outro de melhores empenhos desapparecer, sumir-se n'um cargo miseravel ou pingue, con- • 40 A EDUCAÇÃO NACIONAL forme sorrio-lhe ou não a deusa que favorece os audazes! Mas, continuemos... Educação publica, que realmente este nome mereça, já o disse, não ha no paiz. Ha instrucção publica que é cousa differente. As tendencias herdadas e adquiridas dos diversos elementos que · vou analysando, não encontram estorvo e impecilho em qualquer especie de cultura que procurasse systematicamente reagir contra cllas.

A vidapublica de preferencia as estimula e lisongêa. A política é lioje por toda a parte mais ou menos a mesma cousa, « a mãe das frazes ôcas, da declamação, das idéas lobregas, do máo estylo e das paixões injustas», I um fim e não um meio. No Brazil, porém, sendo tudo isso, não tem ao menos a vantagem de ser uma excitadora da opinião, um estimulante ás energias soc1aes. Os meetinlfs, os comícios, os discursos, as orações que fóra d'aqui congregam os cidadãos de todas as opiniões em torno de um oràdor, nos parecem a nós aquem de um homem de alto valor político e são meios apenas a medo e raro 1 Jules Lemaitre, in Rev. Polit. et Lit:, 1885, pag. 610. CARACTE. RISTICAS BRAZILEIRAS 4 1 tentados por estreantes. Aqui a politica faz-se em curriculos, em,conventilhos, em parcerias.

O povo, a grande massa dos cidadãos, limita-se a votar, sem discutir· nem ouvir discutir. T A esta viciosa educação politic'?' acresce a escacez do eleitorado que até dous annos era apenas de pouco mais de 200 mil eleitores, em. ' uma população de cerca de I 5 milhões de habitantes. O que esperar de n6s, pois, sinão a indifferença - por aquillo a qúe somos quasi todos forçados a ser indifferentes? Dous aspectos principaes notava eu por occasião da proclamação da Republica 1 - e tristemente caracteristicos, resaltam da attitude do nosso povo em face do movimento d'onde 'saío a Republica: a sua profunda indifferença, tão dolorosa aos espiritos preoccupados do futuro da patria, e a falta absoluta de fé nos principios ✓ • e de fixidez nas crenças, a,.inda n_a vespera apregoadas e mantidas.

« Si d'essa carencia de virilidade moral, que 1 E sse trabalho ficou inedito. Dá-se esta parte por ser uma impressão <ld momento. · 42 A EDUCAÇÃO NACIONAL aquelles factos traduzem, foi a monarchia a fautora ou a causa, recebeu ella o justo castigo do seu erro, pois que, aqui no Pará ao menos 1, caío no meio da mais,glacial, da mais profunda, da mais completa indifferença, · «A sinceridade, porém, obriga a reconhecer que á.proclamação do novo governo, exceptuando os seus autores, os membros do Club Republicano, os militares e alguns adventícios promptos a festejarem todos os successos, acompanhou a mesma indifferença.» Á falta de educação publica e de educação política que acaso poderiam ter modificado a índole dos antepassados herdada e, por condições geographicas, sociologicas e mesologicas desenvolvidas, ha que juntar a ausencia de estímulos exteriores, como fossem por um lado as guerras ou a concurrencia estrangeira ás industrias e commercio nacionaes, de outro é].

S manifestações collectivas com que os povos que tem ª Por toda a parle, dizem noticias insuspeitas, foi o mesmo. É conhecida a carta do Sr. Aristi.dcs Lobo, primeiro ministro do interior da Republica, dizendo a mesma cousa do povo do Rio de Janeiro, que, conforme a sua frase, assistio bestificado aos:icontccimentos. l l 1, CARACTERISTICAS BRAZILEIRAS 4 3 o culto das tradições, da patria ou de certos habitos é costumes se aggremiam e reunem em festas, em jogos, em solemnisações de grandes dias e grandes feitos. «Causou-nos sempre _:_ já notava eu, perdoem-me lembral-o, ha dez annos 1 -. e causanos ainda profunda impressão, o caracter frio,.sem enthusiasmo, sem vida, das nossas festas tão em contradição com a nossa esplendida natureza... Os grandes dias nacionaes, passam~nos despercebidos, quasi esquecidos.

Que sentimento desperta a data da nossa independencia, essa data tão festejada por todos os povos? Nenhum, o povo vê-a passar todos os annos, com um indifferentismo gla<?ial. Será por convicções politicas? Os outros dias nacionaes, 2 5 de Março, o juramento daConstituição; 7 de Abril, umâ hella pagina da nossa historia, a expulsão de Pedro I, nem são lembrados sinão por algum jornalista obrigado pela sua profissão a uma noticiasinha, ou pelo mundo official. Acaso este povo nega o seu apoio moral á lei fundamental do imperio, ' Liberal do Pará, 12 de Janeiro de 1879. • 44 A EDUCAÇÃO NACIONAL \ ou pensa que o que fizeram os homens der 830 - foi um erro politico? Duvidamos. <d\fas então porque os grandes dias da patria que despertam lá fóra o enthusiasmo mais ruidoso nas grandes festas populares com que se solemnisam esses dias, aqui conseguem apénas accender algumas pallidas e tremulas Iuminarias em cuja luz vacillante parece retratar-se a tibieza das crenças d'aquelles que as accendem?» As unicas festas que reunem periodicamente o nosso povo, e onde elle se encontra unido pela solidariedade da mesma crença e das mesmas tradições, são as religiosas, ou antes, de igreja, essas deprimentes pela extrema licenciosidade que n'ellas reina, e de nenhum modo capazes de accordar no povo um écco siquer do sentimento nacional.

Assim as do Bomjim na Bahia, da Penha no Rio, do Rozario no Maranhão, de Nazareth aqui. 1 Taes são, mal ditas, mas sinceramente e de, l'. boa fé expostas, a nossa situação moral e as prin1 Veja-se o interessante livro do Sr. Mello Moraes Filho, Festas populares do Brazil, Rio de Janeiro, 1888. Pena é que esquecesse a nossa de 1Vazareth, talvez a mais caracteristica do Brazil.· '1ft CARACTERISTICAS BRAZILECRAS 45 cipaes e, para o objecto d'este livro essenciaes, feições do caracter ·-rtacional. Não ha ahi esmiuçar' novidades, e muito menos escandalo. O imperfeito esboço foi árranjado com côres, tintas e linhas conhecidas, vulgaríssimas e triviaes. Offe-, recem-se á apreciação de cada um, que o não queira fazer do natural, nos trabalhos dos viajantes desde Saint-Hilaire e Martins até Agassiz ou Burton e em todos os escriptores brazileiros, que não viven_do exclusivamente dos defeitos da nação não tiveram jamais a peito lisongeal-os ou escondel-os.

Nem hostilidade contra n6s, nem' falta de patriotismo, reçumam das apreciações de uns e de outros. «Consiste por ventura o patriotismo, perguntarei co,mo um valente e terso escriptor brazileiro, em negar impudentemente uma verdade conhecida por tal, ou antes confessar nobremente o mal,. e da grandeza d'elle'tirar motivo e occasião para reclamar a emenda e reforma a grandes brados? 1 » Não ha negar os fructos colhidos d'essa propicia franqueza de uns e. de outros. Alguma cousa, infelizmente pouca 1 João Francisco Lisboa, Obras, Maranhão, 1~64, tom. I, pag. 428. f'.. 46, A EDUCAÇÃO: NACIONAL ainda, havemos feito por melhorar. Não é deslembrando o diagnostico, que se podem aproveitar os recursos da medicina·. Dizer-nos a nós mesmos os nossos defe'itos e vícios, é já um passo para corrigil-os.

O exame de consciencia~ independente da confissão, é para os indivíduos e para,os povos, um salutar recurso moral. Feito esse, cumpre, para não ser inutil e vão, procurar na pratica das.virtudes ·contrarias aos peccados reconhecidos, a regeneração, não pelas palavras, sinão pelos actos..., III A JWUCAÇÃO DO CARACTER educação não é de certo, como inculcaram apostolas demasiado convictos uma panacéa, mas é sem contestação poderosissimo modificad?r. Tristemente, mas triumphantemente, as estatisticas demonstraram a falsidade da as~erção que começava a atlqui-, rir fóros de axioma, que abrir escolas era fechar ·prisões. Mas, discutindo o valor dos methodos e systemas, nenhum pensador ha que sem paradoxo discuta e deprecie a proficuidade da instrucção e a ·acção modificadora da educação.

· Como a intelligencia, como a sensibilidade, como o proprio corpo, o caracter p6de educar-se,

A Educação Nacional

Sinopse

Leia gratuitamente A Educação Nacional, de José Veríssimo, obra brasileira em domínio público publicada em 1890, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do acervo público da Fundação Cultural do Pará, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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