Universo da obra
Universo da obra
QUADRIMESTRE DE MAIO A SETEMBRO DE 1554, DE PIRATININGA (1) Partida do Padre Leonardo Nunes. — Residências da Companhia no Brasil. — Padres Manuel da Nóbrega, Luiz da Grã, Antônio Pires e Irmão João Gonçalves. — Morte de Domingos Pecorella. — Porto Seguro. — Padre Ambrósio Pires e Irmão Antônio Blasquez. — Espírito Santo. — Padre Braz Lourenço e Irmão Simão Gonçalves. — São Vicente. — Padres Manuel da Nóbrega, Manuel de Paiva, Francisco Pires, Vicente Rodrigues, Afonso Braz, Leonardo Nunes, e Irmãos Diogo Jacome, Gregorio Serrão, Pero Corrêa, Antônio Rodrigues, Manuel de Chaves, Fabiano, Antônio, Mateus Nogueira, João de Sousa e Gonçalo Antônio. — Trabalhos e frutos da catequese em Piratininga. — Carijós. — Guerras do gentio. — Os mamalucos de João Ramalho. — Ida de Pero Corrêa e mais dois Irmãos à terra dos Ibirajáras. — Espera do Padre Luiz da Grã. A Paz de N. S. Jesus Cristo esteja sempre nos nossos corações. Amen. Nestas cartas passadas creio que se explicou satisfatoriamente o que nestes lugares, maxime nesta nova habitação dos Cristãos, se passou: porque porém julgamos ser-te pelo menos pouco conhecido, Reverendo Padre, o estado singular do que se passa junto de nós; induzidos também pelas tuas cartas, que há pouco recebemos, cuidaremos de te fazer sabedor de todas as coisas, cujo conhecimento dizes ser-te necessário, posto que pelo Padre Leonardo (2), que ha poucos dias dentre nós para aí partiu, mais claramente as conheças. Vivemos, nesta índia Brasilica sob a obediência do Reverendo
em Cristo Padre Manuel da Nóbrega, espalhados em quatro partes. Na Baía de Todos os Santos, também chamada Cidade do Salvador, onde reside o próprio Governador (3) com os principais, está o Padre Luiz da Grã (4) com o Irmão João Gonçalves (5) e o Padre Antônio Pires (6), que não há muito chegou da cidade de Pernambuco, distante da primeira 300 milhas. Prega o mesmo Irmão e ocupa-se com o ensino dos meninos. Outro Irmão, porém, de nome Domingos Pecorella (7), intérprete dos índios, aqui recebido na Companhia, passou-se não ha muito para o Senhor, privado do uso da razão pouco antes da morte. Na outra Capitania, separada desta última pelo espaço de 180 milhas (a que chamam Porto Seguro), reside o Padre Ambrósio Pires (8) com o Irmão Antônio Blasquez (9). Esta divide-se em quatro habitações de Portugueses (10), distantes entre si umas, três, e outras, seis milhas: a todas elas, cada semana, não sem grande trabalho, ele ministra o alimento espiritual, ora celebrando missas, ora fazendo prédicas; é também necessário frequentemente que não só se digam duas missas, como que haja duas pregações nos dias de domingo e também ir algumas vezes à outra aldeia, distante vinte milhas destas; assim, grande fruto se espara daí, não só por causa do amor com que todos o cercam, como ainda pela boa opinião que fazem da sua virtude e doutrina. Ao Irmão (segundo cremos) se entregou a doutrina dos meninos nos rudimentos da fé e o que diz respeito ao estudo dos elementos e à escrita. Nenhum negócio têm eles com os índios, que são indomitos e ferozes, e nem se contêm bastante pela razão. Nas cartas quadrimestrais, que serão enviadas da Cidade do Salvador, se referirà mais largamente o que ali e aqui se tem feito (como foi ordenado aos mesmos Irmãos), porque mais facilmente e com mais rapidez, pela maior vizinhança, poderão eles ir e vir de umas povoações para outras. A estas duas segue-se a terceira Capitania, distante da Baía de Todos os Santos 360 milhas e que se chama Espírito Santo, na qual trabalha na pregação da palavra de Deus o Padre Braz Lourenço (11) com o Irmão Simão Gonçalves (12), aqui recebido na Companhia: do que se colhe abundantíssimo fruto; porquanto alguns
casam com suas escravas concubinas, por lei de matrimônio, e outros, abandonando-as, adotam um modo de viver salutar: no que principalmente brilha a nobre virtude de um certo principal, que, repudiada a manceba, com quem vivera por muitíssimo tempo e da qual tivera filhos, se voltou para salutifera e reta forma de vida. Não aparece na verdade pouca emenda e correção em extirpar outros vicios: para que os homens se dissuadissem dos juramentos, estabeleceu-se uma como Confraria de caridade; os que a ela se filiarem, se, quando jurarem, a si mesmos se acusarem, pagam uma determinada quantia de dinheiro para o casamento de alguma órfã; acusados, porém, por outros, pagam o dobro; assim, raramente se pronuncia o nome de Deus com irreverência: se, porém, chegando a outra parte, juram por ignorarem estas coisas, repreendidos de continuo pelos outros, acautelam-se para o futuro (13). As habitações dos índios estão longe destas; os escravos, porém, de que há aqui grandíssima multidão, são instruídos na doutrina cristã. Quatro ou cinco meninos órfãos, dos nascidos de pai português, mas de mãe brasilica, que viviam em casa e sob o regimen do pai, foram recolhidos por algum tempo ao Colégio, e ministra-se a todos alimento, à mesa de Cristo. Estas e outras coisas que ali se fazem, pelas cartas do mesmo Padre largamente e em particular se conhecerão. O sustento para todos vem: de esmolas; o vestuário, porém, é o mesmo que a nós e aos Irmãos em Portugal é fornecido pelo sereníssimo rei de Portugal (14); em lugar de cama, usa a máxima parte dos Irmãos de uns panos tecidos à maneira de rede, suspensos por duas cordas e traves; todavia, os que padecem de enfermidade de corpo por algum tempo, usam de camas como em Portugal. Resta a quarta e última morada dos Cristãos, 720 milhas distante da Cidade do Salvador; esta está dividida em seis aldeias (15): em uma delas (cujo nome é São Vicente) estão os Irmãos da nossa Companhia, a saber: o Reverendo em Cristo Padre Manuel da Nóbrega (16), o Padre Manuel de Paiva (17), o Padre Fran-
cisco Pires (18), o Padre Vicente Rodrigues (19), o Padre Afonso Braz (20), e o Padre Leonardo (21), que partiu este ano para Portugal, para que se tivesse conhecimento mais exato e seguro do que aqui se pratica; e os Irmãos Diogo Jacome (22), Gregorio Serrão (23) e eu, que fomos todos mandados de Portugal. Aqui foram recebidos na Companhia o Irmão Pero Corrêa (24), dos principais deste reino e grande sabedor da língua dos índios, que nos trouxe valioso auxílio para a conversão dos infiéis, não só pela muita autoridade, que tem entre eles, como pelo exatíssimo conhecimento da língua; os Irmãos Antônio Rodrigues (25), Manuel de Chaves (26), Fabiano (27), Antônio (28), todos intérpretes dos índios; Mateus Nogueira (29), João de Sousa (30) e Gonçalo Antônio (31). Todos estes (como acima disse), residiam com os Portugueses em São Vicente, onde ajuntaram de diversas partes muitos dos filhos dos índios, e os instruíam otimamente nos rudimentos da fé cristã, no estudo dos elementos e no escrever. Para a sustentação destes meninos trazia-se da região mediterrânea, de 30 milhas na distância, farinha de pau, o que lhes custava grande trabalho e dificuldade, por causa da árdua aspereza do caminho; pareceu mais conveniente ao Padre in Domino (32) que nos passássemos para esta habitação dos índios, e isto por muitas causas: primeiro, seguramente, pela falta de viveres; depois, porque poulco aproveitava aos Portugueses, embora logo em princípio grande resultado trouxe aos mesmos a freqüência dos Padres, como a do Padre Leonardo, primeiro da Companhia que para aqui veio, fácil será saber; maxime, finalmente, porque se patenteava por esta parte entrada a inúmeras nações, sujeitas ao jugo da razão. Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga (33), chegámos a 25 de Janeiro do ano do Senhor 1554, e celebrámos em paupérrima e estreitissima casinhá a primeira missa, no dia da Conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicámos a nossa casa. De tudo isso falei mais longamente nas passadas cartas escritas até o mês de Junho do pouco que falta e que depois ocorreu tratarei brevemente. Moramos aqui presentemente oito Irmãos aplicados na dou-
trina destas almas e pedindo a infinita misericórdia divina, para que finalmente nos conceda por algum tempo acesso para combater outras muitas gerações com a palavra de Deus, às quais todos cremos que, se lhá pregamos, se converterão à fé. Estes, entre os quais vivemos, trazem-nos voluntariamente seus filhos para os ensinarmos, os quais, sucedendo depois a seus pais, tornem o povo agradável a Cristo; dentre eles quinze batizados e muitos outros catecúmenos frequentam a escola otimamente instruídos, tendo por mestre o Irmão Antônio Rodrigues antes do meio dia, depois da lição, recitam juntos na igreja a ladainhá e depois do meio dia, entoado o cântico Salve-Rainha, se dispersam; em cada sexta-feira, disciplinando-se com suma devoção até fazerem sangue, saem em procissão. Nesta aldeia, cento e trinta de todo o sexo e idade foram chamados para o catequismo e trinta e seis para o batismo, os quais são todos os dias instruídos na doutrina, repetindo as orações em português e na sua própria língua; o concurso e freqüência das mulheres é maior; em cada domingo celebra-se missa para os mesmos; sendo muitos catecúmenos despedidos gravemente depois do ofertorio, com dificuldade e gravemente o toleram, e nos rogam incessantemente que os promovamos ao batismo, o que é de cautela que se não faça, para que não voltem ao erro dos antigos costumes; porquanto, julgamos que não se lhes deve conceder o batismo senão depois de uma longa prova. Vendo o Senhor por esse tempo que estes se chegavam para o verdadeiro estado e culto da fé, começou a privar a muitos desta vida, e (segundo cremos) a chamá-los para a eterna, no que se tem cuidado com diligência e aplicação, para que morram estáveis e firmes na fé; entre eles não poucos inocentes, depois de batizados, se foram para o Senhor. Um certo dos principais que viera para nós com Pero Corrêa, deixada a pátria, distante daqui mais de 300 milhas, para aprender os preceitos da lei divina e a doutrina da fé cristã, dirigindo-se um dia para uma habitação de Portugueses, situada longe de nós nove milhas, convidando-o a beber um dos Cristãos, respondeu-lhe que já tinhá deixado os antigos costumes, e que
nós lhe havíamos proibido que o fizesse. O outro porém disse-lhe "Nada receies porque isso não chegarà ao conhecimento deles.' Vencido assim pela longa importunação, acedeu ao convite e entregou-se à bebida, pelo que caiu em gravíssima languidez, a que se seguiu a morte. Confessado e arrependido, morreu, tendo recebido o batismo. Esse costumava dizer-nos fora convidado muitas vezes do céu por um seu filho inocente que tinha morrido depois de batizado, e incitado a vir a nós, que de modo nenhum duvidava que fora guiado para aqui pelo mesmo. Outro, que já havia muito tempo se tinha feito cristão com os Portugueses que outrora moraram nesta aldeia, e se apartara de nós para que mais licenciosa e livremente pudesse viver à maneira dos gentios, oprimido por grave enfermidade (manifesto juizo de Deus) não pôde aproveitar-se do socorro dos Irmãos, pois quando nos aproximámos dele já tinha perdido o uso da palavra; privâmo-lo, para terror dos outros, de sepultura eclesiástica, de maneira que, quem vivera como pagão, também como pagão se sepultasse. Nem pareça digno de menor admiração que ordenando o Padre, que certos índios (chamados Carijós), que viviam; já havia muito tempo entre nós, fossem por nós levados para sua pátria, para que, com auxílio e favor deles, pudessem os restantes converter-se à fé de Cristo, acometeu-os uma enfermidade repentina, da qual morreram quasi todos. Estes depois conhecemos que não nos eram muito afeiçoados e estavam determinados a, quando estivessem na pátria, retirar-se da nossa sociedade ou a fazer-nos algum outro mal mais grave. Sem o auxílio destes, se em algum tempo nos chegaremos àquela nação e a muitas outras suas vizinhas, o maior fruto, esparamos, se colherà delas. Aqueles com quem vivemos trazem, antiquissimas inimizades com outros da mesma nação, e por isso de uma e outra parte se declara e se aceita frequentissimamente a guerra, para a qual concorrem muitos de diversos lugares; assim também estando nós entre eles, partiram contra os inimigos. Um dia antes de entrarem em combate, os que vinham de ou-
tra parte (como é costume entre eles) começaram a oferecer sacrifício a seus feiticeiros (a que chamam pagés) em uma casita para isso construída, interrogando-os eles sobre o que lhes sucederia no conflito: ao que, não só os nossos catecúmenos, mas também outros, entre os quais a palavra de Deus fora já semeada pelos irmãos da Companhia, perguntados se queriam dar crédito àquelas mentiras, responderam que não, e que traziam o seu Deus no coração, em cujo auxílio confiados alcançariam maior vitória do que os mesmos com seus imundos sacrificios. Tendo eles, pois, entrado em combate e aparecendo a imensa multidão dos inimigos, estes, abalados pelo medo e terror, começaram a perder o ânimo; vendo isso a mulher, já batizada, do capitão dessa aldeia, que partira com seu marido para a guerra, aconselhou a todos com valor varonil que fizessem nas frontes o sinal da cruz para perder o temor; e assim, dois só, que se desdenharam de o fazer, foram feridos e um sucumbiu; os inimigos foram desbaratados e dispersados pelos restantes; dos nossos catecúmenos nenhum foi feito prisioneiro, os quais dantes com máxima alegria e suma solenidade de cantares costumavam comê-los: os mortos, porém, segundo o costume dos cristãos, foram sepultados: a estes, ainda há pouco deixados, vêem os inimigos, encontram-nos enterrados, desenterramj-nos, julgando serem dos contrários, e levam-nos para comer. Quando voltaram da guerra, um certo, como não encontrasse a mulher, e ouvindo dizer que fora por ela repudiado, veio à Igreja, onde a mesma assistia à doutrina, arrancou-a pelos cabelos á vista de todos com murros e bofetadas, tratou-a com modos indignos; ao qual o capitão sabendo disso prendeu, rogando-nos que consentíssemos em se lhe porem algemas, porquanto todos os facinorosos, e maxime este que cometera tão grande desacato no templo, deviam ser postos a ferros. Contudo, solto a rogos nossos, pediu-nos perdão, pois que não pelo seu, mas induzido pelo conselho de uns certos malvados fizera aquilo; essa submissão é digna de não medíocre admiração, porquanto estes a nenhuma lei, a nenhuma autoridade se submetem, nem ao império de ninguém obedecem.
Aqueles feiticeiros de que já falei são tidos por eles em grande estimação, porquanto chupam aos outros, quando são acometidos de alguma dôr, e assim os livram das doenças e afirmam que têm a vida e a morte em seu poder. Nenhum deles comparece deante de nós, porque descobrimos os seus embustes e mentiras; a um, porém, que aqui viera com outros para a guerra, um dos catecúmenos se apresentou para que o curasse, do que vindo a saber o filho, que frequenta a nossa escola, o repreendeu asperamente, dizendo que seria assado pelo demônio, e não entraria mais na igreja, quem, dando crédito ao feiticeiro, recusaria crer em nós. Uma criança de quatro ou cinco anos de idade, assaltada de grave enfermidade, rogava muitas vezes em prantos à mãe que a trouxesse ao templo, e a mesma criança, gemendo deante do altar, dizia na sua própria língua: " O ' Padre cura-me!" Esta, interrogada por seu pai, se porventura queria que lhe chamassem aquele feiticeiro para lhe aplicar o remédio, chorando com grandes lamentos lançou-se por terra, dizendo que, não com o dele, mas com o auxílio de Deus lhe seria restituido o antigo vigor: o que o mesmo Senhor operou, pois, aplicado pelos nossos Irmãos um certo remédio, recobrou a não esperada saúde. Esperamos que se colherão com a graça e o favor divino copiosissimos frutos pelos obreiros que Deus envie para esta sua tão fecunda vinha: por agora não pouco fruto, antes, o maior beneficio de Deus, julgamos ser só livrarmos dos dentes e dos manjares dos próximos a estas poucas ovelhas dentre tanta multidão de infiéis. Aqui, pois, habitamos presentemente com o Reverendo em Cristo Padre Manuel da Nóbrega sete irmãos separados da convivência dos Portugueses, aplicados somente à doutrina dos índios. Temos também em casa comnosco alguns filhos dos gentios, que atraímos para nós de diversas partes, e estes até abominam os costumes paternos a tal ponto que, passando por aqui para outro lugar o pai de um e vendo o filho, este longe de mostrar para com ele o amor de filho, pelo contrário só lhe falava rarissimamente e de mà vontade, e compelido por nós. Outro, estando já
de há muito separado do contato dos pais, passando com os nossos Irmãos pela aldeia em que morava a mãe, dando-lhe os mesmos licença para ver sua mãe, não a saudou no entanto e passou além; assim, antepõem em tudo ao amor dos pais o nosso. Louvor e glória a Deus, de quem todo bem procede. De Janeiro até o presente tempo permanecemos, algumas vezes mais de vinte, em uma pobre casinhá feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha, a dispensa; todavia, não invejamos as espaçosas habitações, de que gozam em outras partes os nossos Irmãos, pois N. S. Jesus Cristo se colocou em mais estreito lugar, e dignou-se nascer em pobre mangedoura entre dois brutos animais e morrer em altíssima cruz por nós. Os índios por si mesmos edificaram para nosso uso esta casa; mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios (34). Em tantas estreitezas nos achamos na verdade colocados, que é muitas vezes necessário aos Irmãos explicarem a lição de gramática no campo, e como ordinariamente o frio nos incomoda da parte de fora, e, dentro da casa, o fumo, preferimos sofrer o incômodo do frio de fora, do que o do fumo de dentro. Jà os meninos que frequentam a escola, cujo ânimo não se abala expostos ao vento e ao frio, agora também, aquentando-se ao calor da fogueira, em paupérrima e antiquissima, porém, decerto, feliz cabanazinha, vemos que se aplicam à lição. O principal alimento nesta terra é a farinha de pau, feita de umas certas raizes que se plantam (a que chamam mandioca), as quais, se se comerem cruas, assadas ou cozidas, matam; é preciso serem deixadas nagua até que apodreçam; apodrecidas porém que sejam, convertem-se em farinha, que se come, depois de torrada em vasos um tanto grandes, feitos de barro; isso substitui entre nós a farinha de trigo. Constituem a outra parte da alimentação as carnes selváticas, como sejam os macacos, as corças, certos outros animais semelhantes aos lagartos, os pardais, («), e outras feras; também os peixes dos rios, mas esses raramente. A parte mais im-
portante, porém, do sustento consiste em legumes e favas, em abóboras e outras que a terra produz, em folhas de mostarda e outras ervas cozidas: usamos, em lugar de vinho, de milho cozido em água, a que se ajunta mel, de que há abundância; é assim que sempre bebemos as tisanas ou remédios; e se isto temos com fartura, quasi que não nos parecemos a nós mesmos pobres. O que pois pertence à conservação da nossa vida, adquirimos com o trabalho das nossas mãos, como o bemaventurado apóstolo Paulo, para que não sejamos pesados a ninguém. O que, porém, principalmente nos abastece é o trabalho de ferreiro de um Irmão (35), ao qual, como nada pede em paga do que para eles faz, os índios oferecem farinha, e legumes e algumas vezes também carnes e peixes, ao que se ajuntam as esmolas, que os mesmos nos trazem movidos pelo amor de Deus, e assim, muitas vezes, o Senhor, a cujo cuidado nos entregamos, nos prove de todas as coisas de que carecemos, até de onde menos esperávamos. O que, sendo assim, não podemos admirar com demasiado ardor, a suma bondade de Deus para comnosco, o qual como careçamos inteiramente de todos os refrescos e as coisas necessárias ao sustento sejam insipidissimas e de pouca estimação, contudo, nos conserva perfeitamente a saúde do corpo, na verdade mais delicadamente do que a própria terra o permite; porquanto, um Irmão chegou de Portugal sofrendo na saúde, como vivesse em uma aldeia distante desta nossa 90 milhas, tendo por alimento diário uma galinhá que, com bastante trabalho, e todavia por baixo preço, se ia procurar a diversos lugares, o seu estômago não a podia conservar e logo vomitava; veio para junto de nós e, com as paupérrimas comidas de que usamos, se fez mais robusto. Em outra aldeia (36) de índios estão os Padres Francisco Pires e Vicente (37), com outros irmãos, semeando a palavra de Deus entre os mesmos índios; colhendo, todavia, pouco fruto por causa da sua dureza. Esta parte da região brasilica que habitamos está situada em 24 graus para o Sul; toda ela porém é costa de mar; desde Pernambuco (que é a primeira habitação dos Cristãos) até além, que não abrange o espaço de 900 milhas, é povoada por índios que
usam todos comer em seus banquetes carne humana, no que mostram achar tanto prazer e doçura, de modo que comumente caminham mais de 300 milhas para a guerra; se reduzem ao cativeiro quatro ou cinco dos inimigos, voltam sem mais outro motivo e os comem com grande festa de cantares, e copiosíssima libação de vinhos (que fabricam de raízes), de modo que nem as unhas perdem; alegram-se toda a vida com o desvanecimento da singular vitória; os prisioneiros no entanto julgam ser assim tratados excelentemente e com distinção, e pedem uma morte tão (como eles mesmos imaginam) gloriosa; porquanto, dizem que só os medrosos e fracos de ânimo é que morrem e vão, sepultados, suportar o peso da terra, que eles crêem ser gravíssimo. Estes entre os quais vivemos estão espalhados 300 milhas (segundo nos parece) pelo sertão; todos eles se alimentam de carne humana e andam nús; moram em casas feitas de madeira e barro, cobertas de palhas ou com cortiças de árvores; não são sujeitos a nenhum rei ou capitão, só têm em alguma conta os que alguma façanhá fizeram, digna do homem valente, e por isso comumente recalcitram, porque não há quem os obrigue a obedecer; os filhos dão obediência aos pais quando lhes parece; finalmente, cada um é rei em sua casa e vive como quer; pelo que nenhum ou certamente muito pouco fruto se pôde colher deles, se a força e o auxílio do braço secular não acudirem para domá-los e submetê-los ao jugo da obediência. O que faz com que, como vivam sem leis nem governo, não possam conservar-se em paz e concórdia, tanto que cada aldeia contém somente seis ou sete casas, nas quais se não se interpusessem o parentesco ou aliança, não poderiam viver juntos e uns e outros se devorariam; bastantes vezes e em muitos outros lugares vimos fazerem isso, e não moderam a insaciável raiva nem com o sentimento do parentesco. Ajunta-se a isso que, contraído o matrimônio com os mesmos parentes e primos, se torna dificilimo, se porventura queremos admiti-los ao batismo, achar mulher que, por causa do parentesco de sangue, possa ser tomada por esposa. O que não pequeno embaraço nos traz; porquanto, não podemos admitir a receber o batis-
mo à que se conserva manceba. Por isso, parece grandemente necessário que o direito positivo se afrouxe nestas paragens, de modo que, a não ser o parentesco de irmão com irmã, possam em todos os graus contrair casamento, o que é preciso que se faça em outras leis da Santa Madre Igreja, às quais, se os quisermos presentemente obrigar, é fora de dúvida que não quererão chegar-se ao culto da fé cristã; pois são de tal fôrma bárbaros e indomitos, que, parecem aproximar-se mais à natureza das feras do que à dos homens. O que não é tanto para admirar como a detestável maldade dos próprios Cristãos, nos quais acham não só exemplo de vida como favor e auxílio para cometerem delitos; porquanto, uns certos Cristãos, nascidos de pai português e de mãe brasilica (38), que estão distantes de nós nove milhas, em uma povoação de Portugueses (39), não cessam, juntamente com seu pai, de empregar contínuos esforços para derrubar a obra que, ajudando-nos a graça de Deus, trabalhamos por edificar, persuadindo aos próprios catecúmenos com assíduos e nefandos conselhos para que se apartem de nós e só a eles, que também usam de arco e flechas como eles, ereiam, e não dêm o menor crédito a nós, que para aqui fomos mandados por causa da nossa perversidade. Com estas e outras semelhantes fazem que uns não acreditem na pregação da palavra de Deus, e outros, que já viamos entrarem para o aprisco de Cristo, voltem aos antigos costumes, e fujam de nós para que possam mais livremente viver. Tendo os irmãos gasto um ano quasi inteiro no ensino de uns certos, que distam de nós 90 milhas e tinham renunciado a costumes pagãos, estavam, determinados a seguir os nossos, e haviam-nos prometido que nunca matariam aos contrários, nem usariam de carne humana em suas festas; agora, porém, induzidos pelos conselhos e palavras destes Cristãos e pelo exemplo da nefanda e abominável ignomínia dalguns deles, preparam-se não só para os matar, mas também para os comer. Tendo, pois, um destes Cristãos cativado um dos inimigos na guerra de que acima fiz menção, trouxe-o a um seu irmão para que o matasse, o qual o matou, pintando-se de encarnado nas pernas e tomando o nome do morto por insigne honra (como é de uso entre
os gentios); se não comeu, deu certamente a comer aos índios, para os quais, e não para si mesmo, o matara, exortando-os para que não o deixassem escapar, mas antes o assassem e levassem consigo para comer. Tendo outro, irmão deste, avisado de certas práticas gentilicas, sendo advertido duas vezes que se acautelasse com a Santa Inquisição, disse: "Acabarei com as Inquisições a flechas" (40). E são cristãos, nascidos de pais cristãos! Quem na verdade é espinho, não pode produzir uvas. Este atravessou por quasi cincoenta anos esta região, tendo por manceba uma mulher brasilica, da qual teve muitos filhos, em cuja saúde os Irmãos da nossa Companhia puseram o maior cuidado e trabalho, rogando-lhes com toda a mansidão e convidando-os com o espirito da brandura a que se deixassem da mà vida, de tal modo que o Padre Manuel de Paiva, conhecendo o parentesco de sangue que havia entre eles, cuidou em firmemente ligá-los, julgando por esse modo fazer alguma cousa por ele. Nenhum fruto, porém, tirando disso, mas antes observando que continuavam os maiores escândalos por causa do indecoroso e dissoluto modo de viver, não só do pai como dos filhos, que estavam amancebados com duas irmãs e parentas, começaram a exercer algum rigor e violência para com eles, expelindo-os sobretudo da comunhão da Igreja, os quais, devendo com isso mudar de vida, de tal modo se depravaram que nos perseguiram com o maior ódio, esforçando-se em fazer-nos mal por todos os meios e modos, ameaçando-nos também com a morte, mas especialmente trabalhando para tornar nula a doutrina com que instruímos e doutrinamos os índios e movendo contra nós o ódio deles. E assim, se não se extinguir de todo este tão pernicioso contagio, não só não progredirà a conversão dos infiéis, como enfraquecerá, e de dia em dia, necessariamente desfalecerá. Toquei nessas coisas de passagem: torno, porém, ao propósito. Além destes há outra casta de índios grandemente disseminada por toda a parte (à qual chamam Carijó), em nada diferente destes no alimento, no modo de viver e na língua, todavia muito mais mansos e mais propensos às coisas divinas, o que claramente conhecemos pela conversação de alguns que conhecemos aqui entre
nós, bastante firmes e constantes. Estes estão sob a jurisdição dos Castelhanos, cujas casas fazem de boa mente, comprando-lhes o necessário para o uso da vida e com quem vivem em amigável disposição. A estes seguem inumeráveis gerações para o ocidente pelo sertão, até a província do Peru, que um nosso Irmão percorreu; as quais são na verdade muito mansas e facilmente se chegam à razão; são todas sujeitas a um principal, vive cada um separadamente em sua casa com mulher e filhos, não se alimentam por maneira alguma de carne humana, e aos quais, se se anunciar a palavra de Deus, não é duvidoso que mais se aproveitarà em um mês com eles, do que com estes em um ano. E também ha, vizinho destas, outra infinita multidão de nações (que propriamente se dizem "escravos"), pelas quais se vai até o Amazonas, e cremos que vivem em outra parte do mar da Etiópia. Mandou-se agora o Irmão Pero Corrêa com dois outros Irmãos (41) a umas povoações de índios, que estão situadas perto do mar, a pregar entre eles a palavra de Deus, e maxime se se puder, a manifestá-la em certos povos, a que apelidam Ibirajáras, os quais cremos que se avantajam a todos estes, não só no uso da razão, como na inteligência e na brandura de costumes. Obedecem todos estes a um único senhor, têm grande horror à carne humana, vivem satisfeitos com uma só mulher, e resguardam cuidadosamente as filhas virgens (o que outros não curam) e a ninguém, senão ao próprio marido, as entregam. Se a mulher cai em adultério, o marido mata-a; se porém esta, evadindo-se das mãos do marido, foge para a casa do principal, é recebida benignamente e conservada por este, até que se abrande a cólera do marido e ele se aplaque. Se alguém faz sua, por furto, a coisa alheia, é levado à presença do principal, e este ordena que seja açoutado pelo algoz. Não crêem em idolatria alguma ou feiticeiro, e levam vantagem a muitíssimos outros em bons costumes, de sorte que parecem aproximar-se da lei mais conforme à natureza. Só uma coisa pode parecer merecedora de repreensão neles, é que, quando algumas vezes entram em guerra,
matam os prisioneiros e guardam-lhes as cabeças como troféus de honra. Esperamos agora a chegada do Padre Luiz da Grã (42), para que se delibere com o seu conselho o que se deva finalmente fazer, e se enviem ao mesmo tempo alguns dos Irmãos àquelas nações, contanto que sobejem, pois tanta falta sentimos deles que, de todos os que acima mencionei, apenas um sabe a língua latina; como, pois, bastará para acudir-se a tal e tanto trabalho? Maximè por esse motivo, Reverendo Padre, cumpre que mandes obreiros para tão fecunda seara, o que confiadamente esparamos que faças, pois que esta região está ao cuidado do Senhor Onipotente, e cuja especial administração está a ti mesmo confiada. Acresce também a isso que, como todas as orações e gemidos dos nossos Irmãos, depois que aqui estão, se afadigam pedindo contínua e fervorosamente a Deus Ótimo e Máximo que enfim se digne algumas vezes mostrar e descobrir algum caminho em que para aqui se dirijam os gentios a receberem a sua fé, agora finalmente se descobriu uma grande cópia de ouro, prata, ferro, e outros metais, (43) até aqui inteiramente desconhecida (como afirmam todos), a qual julgamos ótima e facílima razão, de que já por experiência estamos instruídos. Porquanto, muitos dos Cristãos, que aqui têm vindo, submetem os mesmos ao jugo de Cristo, e sejam eles assim obrigados a fazer por força o que não se resolveriam a fazer por amor. Resta que, Reverendo Padre, nos encomendemos humildemente à tua e ás orações de todos os nossos Irmãos. Piratininga, na Casa de S. Paulo, 1554. O mínimo da Sociedade de Jesus.
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