Universo da obra
Universo da obra
A Guimarães Natal
Apertando a sobrechincha encarnada por sobre os pelegos da sua boa sela mineira, o Benedito dos Dourados enfreou a mula rosilha e espalmando satisfeito a mão no lombilho dos arreios, voltou ao paiol da fazenda, onde a camaradagem se entretinha ferrada no truque.
— Morro abaixo, morro arriba, urrando como guariba, truco no meio, barriga de coeio — berrava o Malaquias, um negralhão espadaúdo, primeiro braço de foice e machado em derrubadas e demais eitos da roça.
— Estou de forma! com quinze quilos e quinhentas gramas! — retrucou Joaquim da Tapera, um cafuzinho pernóstico de gaforinha e barba rala, agregado do sítio.
— Êh lá, que eu também tenho parte do boi, os quatro quartos, a cabeça e o fato! — pilheriou o cabra entrando e indo abeirar-se do lume.
— Já de partida, seu Dito? — perguntou um adventício assentado numas retrancas de cangalhas e batendo fogo no isqueiro; olha que, mesmo assim, só estará em Santo Antônio lá pelas tantas do dia, com um solzão à mostra; a rosilha é estradeira, não resta dúvida, e amilhada como vai puxa bem légua e meia; mas a Estiva está que é uma lazeira, atoleiro pra riba do peitoral; um trabalhão, a passagem...
— Qual o quê! Seu Zeca passou lá ontem à boquinha da noite, sem lua, com o mato já escuro; não soube reparar no desvio que conheço. Chuva deste mês já não faz lamedo, e a mula, além de ferrada, arresta que fia fino pr'essas estradas...
— Bicho como aquele tive um, quando traquejava na linha de Cuiabá; macho rosado de fiança! Levou-o um arrieiro por seiscentos bagarotes, notas novinhas em folha, e uma franqueira aparelhada de prata de quebra; e assunta que, mesmo assim, não ficaria contente da barganha, não fora o defeito do macho em meter-se a passarinheiro nos últimos tempos. Bicho bom! como aquele bem poucos...
O cabra espicaçava com a unha uma rodela de fumo pixuá que tirara dum embornal da parede; assentado sobre os calcanhares, escutava descuidado a pacholice do correio. Retirou detrás da orelha a mortalha do cigarro, enrolou-o cuidadosamente e puxando com um graveto a brasa da fogueira, acendeu-o, baforando dous tragos longos de fumaça.
— A lua vai descambando, quero ainda amanhecer no arraial a tempo de pegar a missa do Divino; até amanhã, para toda a companhia.
E saiu fora, arrastando as chilenas.
— Não esqueça a minha cabaça de pólvora para as salvas de roqueira no Chico Fogueteiro — avisou o Malaquias interrompendo a partida.
— E o garrafão de licor com a comadre Maruca — disse João Vaqueiro.
— Esse não esqueço eu, sem o que corre chocha a função — caçoou o cabra desamarrando a besta no moirão do cercado; arre! está um frio das carepas!
— Veja lá um golo de pinga pra esquentar — obsequiou de dentro alguém.
— Vá feito.
Abeirou já montado do batente, estendeu para o interior o braço, tomando o cuité que lhe ofereciam. Bebericou uma golada e passando o dorso da mão pelo bigode fino, elogiou:
— Bicha braba!
— Truco tapera, quem não ama não espera! — gritava o Malaquias, que descobrindo com precaução o naipe seboso de suas cartas, levantara-se num repente até a cumeeira de sapé, ferrando uma patada no ligal que servia de mesa, a fazer dançar os tentos e bois da parceirada.
— Crioulo de sorte — observou o adventício.
O Benedito já virara rédeas, batendo lá longe a cancela do curral e ganhando o estradão.
A lua ia a transmontar, muito branca, como uma garça-real nas águas azuladas da lagoa. Os campos desdobravam-se por devesas e baixadas, em ondulações suaves e alguns sulcos fundos, onde negrejavam restingas de mato e os renques de buriti que orlam o curso dos córregos das vargens. Emperolava-se a orvalhada no grelo viçoso do catingueiro roxo dos serrotes e a gadaria ruminava ao luar, à sombra tranqüila das fruteiras-de-lobo e pequizeiros da chapada.
A mula cortava a estrada na marcha batida; o cabra, desengonçado no arção, ia a chupitar fumaçadas, algumas vezes entremeadas duma quadra esquecida:
Menina, amarra o cabelo,
Bota um lenço no pescoço,
Pra livrar dalgum quebranto,
Mau-olhado dalgum moço.
Caburés e noitibós estridulavam a sua elegia noturna à beira dos capões; um curiangu que encontrara a fingir uma ponta negra de cerne emergindo do solo, acompanhava-o agora no seu vôo rasteiro e balofo, indo postar-se adiante, para recomeçar à aproximação da montaria, estrada afora.
As divisas do Quilombo desapareciam ao longe, envoltas em neblina e luar; a mula resfolegava, abeirando a passo miúdo da Estiva; um galo tresnoitado arreliou numa palhoça, além, no fundo da baixada.
O Benedito repisou a melopéia:
Pra livrar dalgum quebranto,
Mau-olhado dalgum moço.
Aí, nesse mesmo estirão, viajando, alta noite, um luar tão claro como aquele, por pouco que se deixara ficar, assombrado.
Era pelo começo de seus amores com a Chica do povoado. A labuta ia dura na fazenda. Ajuntavam boiadas para a venda do ano. Nessas vaquejadas, mal tivera tempo de dar, no decorrer duma quinzena inteirinha, um só pulo a Santo Antônio para deitar seu olho enamorado à cabocla.
Assim, para que não o dissessem mofino e mulherengo, quando vinha a tardinha, após o jantar, enquanto a camaradagem, amodorrada, espichava-se pelas redes e mantas, ele aparelhava o macho queimado — velho sim, mas ainda marchador — e à socapa, juntando esporas, ganhava a porteira e dentro em pouco lá ia, plena andadura, chapadão em fora, rumo do povoado e do cochicholo da Chica, donde arribava madrugada alta, para, no dia seguinte, levantar-se com o sol, ao traquejo costumeiro.
— Raparigas...
Bom tempo aquele! E nunca, campeasse em plainos de malhadas ou fossem cerradões garranchentos, faltara à sustância, mostrando corpo mole, mesmo quando fosse para dar uma rodada bem feita num garraio espantadiço ou rês matreira enfurnada nas brenhas, que pedisse quem lhe corresse nas pegadas à desentoca.
O Malaquias, que lhe sabia das escapadelas, ao vê-lo noutro dia como sempre, laço à garupa, forte e desempenado, ao alto do seu pampa campeador, botava a mão no queixo, coçava o picumã da barba falha e metido lá naquelas espáduas largas de preto nagoa que eram a admiração do pessoal, rosronava d'olho avelhacado:
— Home, como sô Dito, só ele mesmo! Eta gente, quem havera de dizer. Qual! parece mais obra do capeta!
Pois meu povo, pr'essas pelintragens, se a fraqueza lhe dava às vezes à canela, não era de raspar-se com a estrela boieira para o povoado e lá, metido a noite toda em vira-vira de cateretês e sapateios à viola com a Chica, — toda dengosa e faceira em suas chinelinhas arrebitadas de marroquim, — ao outro dia agüentar escorreito com o seu posto no campeio. E mesmo — que nesses bailaricos surgiam dessas — topar pela frente um dunga qualquer de quatro costados, vezeiro em tretas, arrotando valentias e pabulagens, o jeito de querer sonegar-se com a morena. Não! que nesse caso fechava mesmo o tempo, acostava-se jururu à rapariga e fazia trabalhar o ferro, costurando o mais intrometido; e isso, quando a queimada vinha já a ponto de pedir que se tirassem as teimas ao valentão.
Uma cruz, simplesmente uma cruz, o motivo de todas as suas dúvidas e hesitações ao momento de pôr o pé no estribo e ganhar a estrada batida.
O caso é que era um fraco da meninice. Pequenote — puxava então guia de carro na fazenda à falta doutro préstimo — vindo duma festança em Santo Antônio, estourara ali perto o Zé Caolho, cantador daquelas bandas, dumas sopitações do coração, falta d'ar, segundo diziam uns, empanzinado de cachaça, afirmavam outros. O certo é que o velhote, quando no codório, metia-lhe medo com aquelas compridas unhas de pássaro agoureiro e as histórias infindáveis de sacis-pererês assobiando ao lusco-fusco no olho do pau, gemidos de menino pagão no cemitério, pragas de rola fogo-apagou no alto dos telheiros e cousas mais, que asseverava à noite aos pequenos, enquanto a cachorrada saía a ganir à lua no terreiro.
Desde então, passasse aí na Estiva, um mal-estar danado cerrava-lhe o peito; e era quase aos choros, geladinho de terror, juntando-se muito aos que com ele iam, que atravessava a ribeira. Com a idade, apontando o buço, fora-se a maior parte da perrenguice; contudo, talvez pelo costume adquirido, uma sensação incômoda molestava-o sempre naquele travessão de mato, onde a cruz do violeiro avultava dentre o mata-pasto e samambaias da beirada, toda roída de velhice e caruncho.
Três anos havia, vindo do arraial, sob o xadrez da camisa uma prenda querida da Chica e nos lábios escaldados a impressão gostosa de sua primeira boquinha — a cabeça zanzando, tonta de paixão — topara com boa naquele trato de terra.
Passava alheado, não se lembrando dessa vez da promessa que lhe fizera o cantador duma feita, por vias dumas peraltices, de vir puxá-lo pelas pernas à meia-noite, quando morresse; eis, um grito rouco, d'alma penada, chega-lhe com o vento aos ouvidos.
O macho entesourara orelhas, estacando na estrada. Ele caíra do céu das recordações e olhava em torno. Lá estava ela, a cruz do troveiro, em meio o seu montículo de pedras, braços abertos, no aceiro do mato; e o luar tão lindo, que tomava agora uns tons lívidos ao entranhar-se nas primeiras árvores da Estiva, donde aquele clamor parecia subir, tão fundo, tão angustioso, que só de lembrá-lo agora os pêlos se lhe arrepiavam na cara.
Fosse noutra ocasião e torceria rédeas, esperando pelo amanhecer. Mas essa noite, com a impressão ainda fresca do beijo da Chica, impressão nova que lhe infundia ao ânimo uma ardideza capaz de enfrentar com o Cuca em pessoa, pareceu ao cabra que andava mal em dar assim de costas ao perigo.
Fosse lá a morena vê-lo como se portava naquele aperto...
Apeou, já que o animal empacava de vez. Negaceando, com cautela, avançou sorrateiro, palpando o terreno em torno. Era agora um desfiar intermitente de ladainhas, como se andasse alguém encomendando almas a Satanás, ou houvesse ali uma tropilha de feiticeiros apanhados em tramóia.
Junto ao córrego, estralejante, um fogaréu luziluzia entre os cipoais, alumiando ao fundo, vagamente, um amontoado de vultos esquisitos, que a vista turva não distinguia bem, uns aqui direitos como guardas, outros ali de cócoras, sob uma coberta; no meio espaço, lívido, sinistro, estirado no chão duro, um rosto magro olhava o céu, as formas do corpo sobressaindo angulosas da mortalha, restos talvez de quem sucumbira escanifrado de fome, ou houvessem os vampiros e demônios chupado o sangue em seu festim imundo...
Ele detivera-se a olhar tudo aquilo, transido, mão na coronha da garrucha, como que grudado ao ingazeiro onde encostou para não cair. Uma cabeça branqueada surgia agora da terra, ao pé do morto; mastigava as ladainhas, um ferro a retinir no fundo da cova.
Não havia duvidar — era assombração.
Crac, crac, aperrava a arma; e, reagindo contra o medo, berrou:
— Lá vai obra!
Descarregara ambos os canos. Ao estampido, cessou a cantoria. Uma voz que nada tinha de sobre-humana, voz um tanto travada pela comoção, queixou do fundo do buraco:
— Olha que me mata, moço! Anda a gente a cumprir com seu dever de cristão e saem-lhe em cima aos tiros! Já se viu só! Santa Maria!...
— Ora, é o velho Cristino!
— Ele mesmo, moço! Uai, como se não bastasse uma só desgraça num dia.
E o velho carreiro, arrancando-se do fundo da escavação, veio até ele, tremendo.
Tudo ficou claro. A tropilha de bruxos encapotada ao fundo, era o carro do velho, o respectivo toldo de couro malhado, os fueiros e as cangas e cambões enfeixados ao lado. O defunto do lençol e para o qual olhava ainda com desconfiança, um filho do Cristino, que também ganhava a vida carreando nessas estradas. Apanhara umas febres no Veríssimo e vinha por toda a viagem tiritando no fundo do carretão. Morrera esse dia e o pai, entre lágrimas, orando ao Santíssimo, estava ali cuidando da sepultura, quando o surpreenderam os tiraços do passageiro.
— Ahn! isso é outra conversa. Pois me parecia... Mas não era para menos! Vote, a gente topa cada uma...
E como tinha boa alma, ajudou-o a enterrar o rapaz e passou ali ao pé do fogo o resto da noite, embrulhado no pala, bebericando café, que o velho veio aprontar, e procurando consolá-lo e entretê-lo com o seu proseado fácil de mestiço imaginoso.
— Êh, gente — ia agora a matutar. — Sertão, escola do mundo.
E com as barras que vinham quebrando, misterioso, soturno e imenso, esse mesmo sertão desaparecia ao longe, no nevoeiro da manhã, todo prenhe de assombros e aparições...
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