Universo da obra
Universo da obra
Pelos dias de agosto, todo o horizonte goiano é um vasto mar de chamas: fogo das queimadas que ardem, alastrando-se pelos Gerais dos tabuleiros e chapadões a afugentar a fauna alada daqueles campos; fogo dos cerrados que esbraseiam, estadeando à noite os seus longos listrões de incêndio nas cumeadas das serras, intrometendo-se léguas e léguas pelo mato grosso e travessões do curso dos rios e subindo, carbonizadas as folhas secas que o vento acamara, pelo cipoal e trepadeiras dos troncos seculares, cuja casca rugosa tisna de sobreleve para ir em fúria crepitar nas grimpas, entre as galharadas verdes, reduzindo a cinzas os ninhos balouçantes do sabiá nativo, as caixas extravagantes da borá e mandaçaia, quando não enxota de pouso em pouso as guinchantes guaribas, os velozes caxinguelês, das alturas prediletas do tamboril, jatobá, aroeira ou barriguda — os mais comuns — daquelas matas.
Através do espesso lençol de fumaça que à noite encobre o lume das estrelas, o sol semelha de eito a eito um enorme carvão aceso e sangra pelos flancos a sua luz avermelhada e mortiça, numa atmosfera de forja, que nenhum sopro de aragem alenta.
Emigra a vida para longes climas. Das alfurjas, nas tocas solapadas de ao pé dos morros, nos desvãos de pedra, onde em dias de chuva calangos e lagartixas espapaçaram-se ao vento, à cata de insetos, desapareceram misteriosamente os reptis, à espera da tarda estação da fartura, que aí deve chegar com as primeiras chuvadas de outubro. E somente à beira dos charcos que ficaram, nos furados úmidos, continua ininterrupto o ramerrão do cururu e saparia miúda, ao mormaço das longas tardes nevoentas e a zoada surda das mutucas e pernilongos, que lá, mais que alhures, enxameiam no gado acossado dos capões.
Não há ali porém, louvado seja, os rigores da seca em céus do Norte. As nuvens vão beber no farto divortium aquarumdos grandes rios que alimentam simultaneamente as bacias do Amazonas, Prata e São Francisco, elementos abundantes para o próximo ressurgimento da terra; e a miséria do solo resulta antes da incúria do homem, que ateia fogo às derrubadas para a fertilidade da lavoura e destas, quase sempre, transpõe as divisas da roça e vai floresta adentro avançando a sua obra de assolação, transpondo levadas e ribeirões, escalonando serras de extremo a extremo do sertão, espraiando-se sem obstáculo pelas extensas ondulações das campinas fecundas, e só parando quando o tropeço dum grande rio ou o encontro com outra queimada lhe roube elemento onde saciar a sua fome implacável de extermínio. Rodopia e morre então em torno de si mesmo, quando não cinge uma vítima, caça ou rês dos arredores, no redomoinho trágico.
A obra de destruição vai lento e lento preparando ali a ruína das gerações futuras, embora a natureza opulenta exubere a cada nova hecatombe com redobrado vigor e esplenda em louçanias aos primeiros aguaceiros, espalhando aos quatro ventos, indiferentemente, as messes abundantes com que retribui de ano a ano a bronca insensatez do matuto. E ai do destino daquele ubérrimo rincão, não fora o recurso natural das imensas florestas virgens e dos sertões ainda por violar.
Cessa por esse tempo a labuta nas fazendas. O gado espera a chuva para amojar e remói o mata-pasto ruim das encostas, o angola paludoso dos alagados desaparecidos, o capimpuba e gordura que o fazendeiro reservou e defendeu nas invernadas, se se não embrenha na selva imune, atrás do papuã.
Se o incêndio devorou os capoeirões e pastagens naturais, deu por sua vez cabo da praga de carrapatinhos que depauperava a criação. É o tempo em que os carniceiros caracarás, únicos satisfeitos na desolação derredor, se põem a catar os gordos rodoleiros — caídos de maduro — na pelanca descarnada dos animais, esborrachando-os no bico d'aço retinto dum bigode de sangue negro, ora pousados no lombo, ora entre as aspas, ou sob a barriga varada, aos pulinhos curtos, mas certeiros, e gritos bruscos de espaço a espaço.
E se acaso passou, na lombada descoberta dos campos, um pé-d'água que não fez torrente, as perdidas emergem o seu caule nu dentre os interstícios do pedregulho rescaldado, sob uma pompa bizarra de flores de sangue...
Também o homem, agente irresponsável naquela desolação, ressente-se molestamente da mágoa que ressuma errante na natureza. Mais que o aspecto acabrunhante daqueles céus, reflete-se-lhe no olhar com que sonda as alturas, a nostalgia das águas que se foram, chupadas da terra avara e o verde primitivo das serranias que — quando? — verá de novo reflorir na quadra feliz, com as ramalhadas de ipê e paineiras esfolhando-se à distância, e a criação mugindo satisfeita nos currais, repletos de bezerrada nova.
Depois de São Sebastião, ultimam-se os aprestos do plantio nas roças calcinadas; a terra recebe a semente do pobre, que encoivarou as cercas nos derradeiros muxirões. Rondam os vaqueanos os malhadouros freqüentados, onde as vacas amojaram na força da lua; e em pilões da cozinha, o mulherio soca e peneira o sal para o cocho das salgadeiras. Na casa da oficina, temperam os ferros enferrujados, rebatem na bigorna uma marca nova para o filho do patrão, que já tem aquele ano a sua ponta separada.
E todos atendem às chuvas que não tardam.
Na alma de nhá Lica, à sugestão daquela paisagem amortalhada em brumas, pesares e saudades acorriam lentas, como nuvens...
A bica do monjolo corria embaixo, um fio tênue, indo empoçar-se lá no fundo do açude do mangueiro, para onde tangiam os campeiros de manhã a tropa das pastarias adjacentes, e o coaxar soturno das rãs punha uma nota lúgubre, ao vir das tardes enfumaradas, com as suas tristezas mudas do anoitecer.
Três meses atrás, e o céu revestia-se ainda de tons suavíssimos, numa transparência luminosa de anilina, refrescado pelos aguaceiros temporões que abril e maio prodigam às vezes. Nas malhadas, refloria a flor-de-maio; cambarás vergavam sob os corimbos apendoados; e, dominando os escampos, sob as paineiras do outeiro, o solo estivava-se duma aluvião de pétalas lilases, quando o roxo vivo da quaresma não feria o olhar à distância, avultando nos alcantis dentre tufos de folhagem.
De manhã ou em vindo o crepúsculo, havia nas espessuras uma orgia contínua de sons, estrídulos prolongados de seriemas confidenciando nos vargedos, lamentos reiterados de almasde-tapuio, no fundo da mata, trilos, matinadas, algaravia de povis, tiês e sanhaços no colmo frutificado das gameleiras. Bento-vieiras e tesouras, como frechas, abicoravam a lavadeira, uma chupé que carreava para o cortiço, ou simples tanajura que tecia os seus amores nos espaços, e vinham depô-las na goela sôfrega dos filhotes, que aos chilidos esticavam o pescocelho implume dentre flóculos de paina, na copa altanada das marias-pretas...
Nuvens consecutivas de guaxos abatiam-se, elevavam-se, das fruteiras carregadas do quintal, cujas laranjas, poupadas da estação passada, reverdesciam outra vez, num orgulho exuberante de seiva nova, ao tempo que rombos anuns e azulões solertes remexiam, como besouros, a estrumeira dos currais.
Sobre os lameiros d'água empapaçada que secavam ao sol o seu limo esverdeado, borboletas enxameavam, numa ronda alerta d'asas multicores, variando entre o azul-negro, azulclaro e azul-metálico das Ageronias aretusas,cambiando a fartura de tons dos amarelados d'ocre, laranja e amarelo-enxofre das Pieris pirra,umas a pousar do surto incerto, estriduloso, nas pontas dos gravetos e nervuras descobertas de folhas podres que emergiam do charco, espalmadas as asas horizontalmente, as demais da margem levantando o vôo caprichoso em alegre farândola, pelo vento tocadas a outras vasas e vergéis mais fartos, para o aéreo noivado, para a aérea fecundação das pradarias em gala...
E mal ouvissem o passo dum animal na devesa, papa-capins, coleiros e patativas erguiam dentre moitas cacheadas de jaraguá o vôo frustre e o peixe-frito saía matraqueando ao longe, às orelhas-de-pau que se quedavam a escutá-lo, o zombeteiro cantar...
Na alma de nhá Lica, ao aspecto da paisagem fumarenta, como nimbos, saudades e sonhos se acastelavam. Dias de março, saía com o mano e o Dito, a quem confiava os filhos a mamãe, campo afora, ela na sua egüita castanha, uma pluma d'ema presa à fiveleta do chapeuzinho de feltro, airosa no selim, destemida às vezes nas apostas de galopada, a colher pelo caminho, junto aos cerrados e capoeiras, o murici cheiroso, cuja árvore anã e folhuda se distinguia ao longe, as corriolas verdolengas, denunciadas à distância pela fragrância intensa e mangabas e guabirobas, que trazia em jacazinhos, sobre o gancho do silhão.
E um a um, os passeios antigos iam avolumando, os da infância principalmente, a povoar aquelas horas de lazer doméstico do encanto agridoce da saudade, através da adustão derredor, e as primeiras bátegas espaçadas de chuva, que pejavam já as nuvens aplumbeadas das morrarias distantes.
Nesse tempo, talvez no Paranaíba, talvez do outro lado de Minas, em Mato Grosso quem sabe, Benedito viajava longes terras, nas pegadas do negro fugitivo.
Nhá Lica recordava sempre.
O hábito da soledade exacerbara a sua imaginação. Nos compridos vagares da agulha, quando d. Luísa se absorvia nos misteres domésticos e o fazendeiro rondava os arredores fiscalizando o serviço, vivia a vida passada, rememorando sentimentos, repassando saudades, reatando o fio de pequeninos episódios do viver sertanejo, que lhe iam apressurando os momentos langorosos de trabalho ao canto da janela.
É que, quando se sente infelicitada no presente, a alma corre para o passado, como um refúgio.
Da cozinha, no meio-dia ardente, vinha o baque alternado das mãos de pilão esmoendo a canjica. A água espanejava lá embaixo, junto aos alicerces do açude, na roda limosa do moinho. Ciscavam pintainhos no terreiro. No pilão do monjolo afluíam as cocás, gulosas do arroz pilado, esticando para o interior o pescoço esgrouvinhado aos intervalos das pancadas, quando não empinavam a crista córnea de sobre a copororoca dos cercados, desatando o agudo tofraque.
Os olhos da nhá Lica baixavam de novo sobre o crochê e uma aqui, outra ali, evocações e saudades iam surgindo a cada movimento dos dedos ágeis, se a trama não ficava parada no colo e o olhar remoto, perdido numa imagem defunta, de que, sacudindo as bastas tranças, a arrancava um suspiro de alívio, para entregar-se novamente com redobrada atenção à contagem dos pontos...
Às vezes lia. Histórias tocantes de Genoveva de Brabante ou as aventuras dos doze pares de França, livro tido em grande estima no sertão, cuja leitura, nos serões solarengos das fazendas do interior, era feita em torno do lampião de querosene à família atenta, que tinha herdado da idade feudal, através do drama das conquistas, aquele gosto barbaresco de façanhas guerreiras, postas em prática anualmente na sede dos municípios com o espetáculo faustoso das cavalhadas.
Nhá Lica fazia em casa essas leituras. Começava quase sempre pelo episódio da princesa Floripes, de que tinha um secreto prazer em acentuar a animosidade e o ardor belicoso com que, abrasada toda por converter-se à fé cristã de seu amado Gui de Borgonha, acirrava contra as hostes de seu pai os cavaleiros cativos na torre de Ferrabrás...
E uma noite, recolhendo-se um tanto excitada daquelas narrativas, sonhou que estava encerrada numa alta torreola, como a que armaram a vez passada em Curralinho, e Dito era o moço paladino que viera libertá-la dos furores paternos do almirante Balão, encarnado na figura venerável de seu velho pai... De então, ao reler aquelas páginas, sentia-se enleada por um sentimento obscuro e era com desafogo que passava aos amores da rainha Angélica com o sobrinho do imperador, o destemido Roldão, corajosamente encerrado no interior do leão mágico...
Tinha ainda sobre a mesinha da cabeceira alguns exemplares de contos da carocha, vindos com ela do colégio, cadernos de modinhas brasileiras, que lhe dera uma das amigas na capital, e um desaparelhado romance de Alencar, esquecido entre os formulários da medicina caseira do papai, que, mui positivo em matéria de livros, além dos de Carlos Magno e jornais políticos da terra, eram os únicos que tolerava.
O organismo debilitado pelas febres intermitentes apanhadas na romaria do Muquém, de que se vira tão-somente boa o ano passado, como que a energia vital se lhe refugiara no cérebro, desenvolvendo exageradamente as faculdades da imaginação; e esta, sôfrega, ia suprir-se naquela meia dúzia de volumes, junto às impressões cotidianas do viver campesino, que iam acre scentando dia a dia uma nova página onde deter e fixar aquela sua irresistível tendência evocadora.
Nos últimos dias de setembro, rolaram trovões pelo lado do Anicuns. Apertara a canícula abafadiça. No lamaçal do açude, sob as taiobas, redobrava o cantochão das rãs; e à tarde, com o chuvisqueiro que passara, um fartum ativo, de húmus fermentado e terra fecundada, exalava-se dos plainos escaldados.
Na alma de nhá Lica refloriam recordações...
Via-se pequena, na casa do engenho. A chuva corria grossa pelos beirais de telha-vã, descia em rego ao longo das almanjarras, e a espaços, com as rajadas de vento, vinha fustigarlhes o rosto, a ela e ao Dito, encolhidos num canto, sobre o borco duma talha.
Entontecia-a o bafio pesado de calda azeda que as masseiras exalavam; e como o aguaceiro abrandasse, a água do açude começasse a subir com as enxurradas que desciam, e o córrego fosse agora uma vasta caudal de torrentes tumultuosas, ocorreu-lhe uma idéia:
— E se arranjássemos um bote?
— Ora, não custa — disse o companheiro.
E pronto, revirou a masseira em que se achavam, cavada num tronco largo de tamboril, arrastou-a até a margem do rio, e arremangando as calças acima do joelho, impeliu-a para dentro.
Ela descalçou os tamanquinhos, experimentava a água fria com a ponta rósea do pé. E como ele lhe oferecesse a mão, saltou sem hesitar para a canoa, que a corredeira já puxava para o meio do rebojo.
Benedito empunhou a pá de bater melaço, deu com firmeza duas remadas, para a direita, para a esquerda. A embarcação, muito frágil, inclinou para uma banda, carregando água. Com o balanço, ela agarrara-se assustada à outra borda, para lá pendendo o corpo; e, àquela sobrecarga, o barco virou de vez, arremessando os tripulantes ao bojo das águas.
Procurou nadar, desatinada; mas Benedito já a rebocava para terra, em duas vigorosas braçadas. E de novo no engenho, tiritantes, procuravam os dois reanimar-se mutuamente com gracejos, sacudindo os fatos molhados.
Ela suplicou:
— Não digas nada, hein?
— Pois sim.
E o parceiro foi de novo atirar-se à torrente repor no lugar a masseira, engarranchada lá embaixo, num espinharal de malícias.
Aqueceram breve a roupa, ao sol ardente que se fizera após a chuva, como acontece tantas vezes no sertão; e foram depois apanhar os girinos do córrego, que depunham, trementes, em tanques separados, ou cheia a mão d'água da bica, faziam-na cair aos pingos nas folhas largas de taioba, cuja extrema polidura emperolava o orvalho como líquidos, translúcidos brilhantes.
À noite, teve um ameaço de febre; mas o escalda-pés que lhe deu a mamã, pusera-a de novo risonha e lépida na manhã seguinte.
Benedito armava mundéus de cutia nos goiabeirais, ou vinha trazer-lhe as juritis surpreendidas nas arapucas do quintal. Uma tarde, tinha onze anos — o papai tencionava conduzi-la na manhã seguinte ao colégio da capital — acompanhava-a ele ao sítio próximo duns conhecidos, onde ia levar as suas despedidas. Cavalgava a egüita castanha, nesse tempo muito nova e extremamente arisca. Passavam à distância dum cercado. De lá um pastor se pôs a relinchar prolongadamente.
A porteira estava aberta, uma trave atravessada no furo mais alto dos moirões. A potranca, surda aos reclamos do freio, enveredou num galope desatinado naquela direção. A trave pegá-la-ia pelo peito, à passagem do animal.
Àquele risco iminente, fechara os olhos, abandonara as rédeas, transida de pavor... Mas o seu companheiro vira de longe o perigo; numa corrida desenfreada, fincando esporas ao piquira, chegou ainda a tempo de alcançar a poldra entrando de raspão no curral e de arrancá-la com violência de cima do selim.
E fora ele quem recebera a pancada em pleno peito! Pancada que o atirou na lama, mas a depôs, intacta e de pé, sobre o solo.
Levantara-se sem queixar e fora pegar no curral os animais, que espojavam os arreios no lamedo.
Depois, depois... ela partira para o colégio.
Quando voltou, era moça, ele passou a olhá-la com um respeito e uma timidez, que só se rende às rainhas e às santas.
Nunca mais se deixou levar nos abandonos duma amizade de irmãos; e quando obrigado a dirigir-lhe a palavra, era contrafeito, como se se envergonhasse em seu foro íntimo da antiga camaradagem que ousara dedicar à filha do mais opulento fazendeiro daquelas terras.
E era aquele o único homem que lhe fora dado admirar, e que a mão do Acaso tinha atravessado em sua vida!
Ah, quando? Quando? Chegariam a entender-se?
E como a lua surdia no horizonte, como uma enorme roda de carro, avermelhada e triste dentre os vapores das derradeiras queimadas, alumiando ao longe os carreiros cor de barro e inundando o rosto pálido de nhá Lica, os seus olhos voltaram-se para o céu; e, fitando aquele astro, exalou-se-lhe dos lábios uma prece tímida:
— Nossa Senhora das Candeias, minha madrinha, velai por nós!
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