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Tropas e Boiadas

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Tropas e Boiadas

Capítulo 13 · Tropas e Boiadas

Gente da gleba - II

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A madrugada amiudava. Já as barras vinham quebrando e no cabeço dum serro, mui branca e tremeluzente, a estrela-d'alva minguara o seu clarão lacrimej ante, anunciando o romper do dia.

Rédeas encurtadas, a niquelaria da cabeçada retinindo festivamente, Benedito deu entrada no arraial no trote picado da mula, que frechou direita ao rancho dos tropeiros.

Pelo largo, no vassouredo rasteiro onde trilhos se entrecruzavam em teia, adensava o lençol matutino da neblina, abafando o horizonte. E o mulherio do lugar, embiocado em xales, esgueirava-se ao longo dos casebres, arrastando pela mão a filharada, semitonta de sono e entanguida de frio sob as dobras da saia materna, que lá ia em camisola, o chinelinho de couro na ponta do pé, trec, trec, trec, rumo da igreja, onde o sino se pusera a badalar a intervalos, enforcado no trapézio de aroeira ao ângulo esquerdo da sacristia.

Pelos currais mugia o gado, ladravam cães, o galo amiudava o canto álacre e as vacas leiteiras, passando a beiçama rósea por baixo dos paus de porteira, farejavam avidamente a cria presa, soltando após doloroso e prolongado bramido.

O rapaz desenfreou, prestes, a mula no rancho dos tropeiros; desapertada a cilha, dependurou os arreios num caibro baixo do teto, enfiou à Pelintra o embornal de milho que trouxera à garupeira e, fechada a cancela, saiu então apressado, no retintim das esporas, em direção à capelinha.

De lá vinha o clarão tristonho dos círios, a alumiar ao fundo, soturnamente, a paramentação dos altares de pobreza vilareja, e imagens toscas, esculpidas a maior parte por ali mesmo, que o poviléu contemplava em silenciosa e profunda veneração, amontoado pelos cantos, sobre o pavimento úmido de terra batida.

Pelo teto desforrado, em surtos trôpegos, alguns morcegos erravam às tontas, apegandose ao caruncho das traves e de lá, inquietos e atordoados de luzes e o burburinho desusado, quedavam-se a observar os intrusos, agitando as suas cabeçorras de ratos. E andava em torno, de mistura com o arder de ceras e rolos de incenso, o cheiro enjoativo da excrementação daquelas “aves” noturnas, junto ao bafio peculiar dos templos do interior muito tempo fechados.

A campainha retiniu mais uma vez. Nos coqueiros de guariroba que ladeavam o calvário do adro, chalrava agora um bando de pássaros-pretos, tatalando as asas, arrepiados, saltitando de palma em palma. E ia fora a garoa matinal esgarçando-se e acentuando os contornos do casario, que principiava a debuxar-se dentre o caio alvacento das fachadas, que o sol não tardaria em pouco a branquear de vez com a sua grande luz cáustica de manhã sertaneja.

Ite missa est —perorava afinal o celebrante, um padre redentorista vindo expressamente da vila próxima.

Mais uma vez, repenicou o sino na sua forquilha de aroeira, naquela mesma toada cavernosa de bronze gretado. Um foguete subiu ao céu, estourando no meio da praça. Aos atropelos, os pequenos do adro precipitaram-se a ver quem apanharia a cana.

Estava findo o ofício.

Ele levantou-se lesto do canto à entrada, onde se tinha ajoelhado e perquiria em torno. Sim, lá estava ela, por sinal que um tanto macambúzia e entregue toda ao terço do rosário, naquele seu vestidinho de chita azul bem liso e justo ao corpo, fruto capitoso que o sol sertanejo amadurara e enrubescera despercebido ali, naquele fundão da boa terra goiana, para o gozo e a secreta ventura de seus olhos...

Não o vira, absorta na devoção. Também não insistiu em olhar muito para aquele lado, mesmo porque uma velhota se pusera a vigiá-lo com o seu único olho de coruja rabugenta, escandalizada, talvez, de não o ter visto ainda corresponder a preceito com as pancadas de contrição que a assistência rumava ao peito.

Ganhou o adro; atravessando rapidamente a praça em bulício; e veio esperá-la à esquina dum beco tortuoso, que ia ter, após voltas e reviravoltas, à fonte pública do lugar, uma cacimba afogada em estendais de são-caetano e fedegoso-bravo, onde a água minguava a maior parte do ano.

Ao fundo, num alto que apanhava a linda vista do povoado, a casinhola de Chica abria as duas janelas ao longe, mui brancacenta em suas paredes barradas a fresco de cal, a entrada baixa ao lado, por onde tantas vezes passara feliz, na certeza antecipada de logo ter aos braços, ofegante e rendida, aquela dengosa morena que fora o encanto de suas primeiras emoções de homem e a quem queria com a violência e o ardor que os daquele sangue põem em suas mínimas paixões.

Aí vinha ela já, um tanto arisca e sorridente — reconhecera-o de longe — ensaiando o seu passo requebrado, feito todo de denguices de felino e arqueios de pomba-rola, que o trazia enrabichado havia três anos.

— Não quis faltar à devoção, hein, sô Dito; medo do purgatório não é brincadeira... — E ria, mostrando os dentinhos claros, de roedor, na face cor de mate.

— Qual o quê, sá Chica; purgatório é este mundo, onde tanta alma de Deus vive a penar; oratório, tenho-o sim, mas aqui dentro, no coração, para rezar por certa ingrata que sei...

Suspirara fundo, brincando com a trança da açoiteira, que ia enrolando e desenrolando em espiral pelo cabo niquelado, num enleio que nem o hábito, nem o tempo tinha conseguido ainda dissipar.

E seguiram pelo pedregulho da viela, que os cercados de taquara dos quintais confinavam, ela adiante, ele um pouco atrás, a mão tisnada repuxando o fio do bigode, em derriço.

Um güegüé morrinhento saiu do fundo do quintalejo e veio escarreirado até a rampa por onde subiam, latindo furioso; reconheceu gente de casa, abanou a cauda farejando e foi anicharse entre cinzas, no palheiro, aos ganidos e mordidelas com os bernes da gafeira.

Uma boró apareceu no momento ao terreiro, a vassoura de piaçaba na mão, o bócio enorme avultando sob o queixo, e um riso atoleimado escorrendo da boca desdentada, donde duas compridas presas, sólidas e amareladas, surgiam, vincando o canto inferior do beiço.

— Ehú! ó Joana — acenou-lhe a mulata, bota a chaleira no fogo.

A idiota continuava a rir, acurvada; e os dous passaram, transpondo num salto, entrelaçados, a soleira. Na sala, presa das escápulas, roçagante, pendia a larga rede cuiabana, atravessando de lado a lado o pavimento de massapé. O resto da mobília espalhava-se em torno, meia dúzia de tamboretes de couro tauxiado ao pé da mesinha de costura, de cujo balaio transbordavam entremeios de crochê, um cabeção de crivo, alinhavos inacabados de corpete, junto ao castiçal de latão sobre um volume encadernado da história de Carlos Magno e dos pares de França. No canto oposto, uma banquinha com a sua almofada de bilros e a renda em começo sobre o papelão de alfinetes.

Ele espichou-se, deleitado, na rede; e Chica entrou no quarto contíguo, a dependurar o xale com que viera embrulhada.

Pôs-se então a fitar distraído as folhinhas que cobriam a parede, os recortes de jornais com retratos e figuras coladas de alto a baixo, estampas e cromos tirados de peças de morim, abrindo-se em leque no reboco nu; uma senhora Sant'Ana em moldura, duas séries intermináveis de fotografias do papa e grandes anúncios ilustrados do Rio, a forrar todo o espaço acima da mesa.

Eram-lhe familiares aquelas gravuras. Algumas fora ele até quem trouxera de Goiás, de quando lá ia levar os carregamentos de açúcar e café que o coronel mandava anualmente ao mercado. Tinha mesmo um vago prazer — misto de amizade e saudade antiga — em remirar um Santo Antônio já amarelinho, um dos primeiros ali grudados, o sorriso bonachão na cara desbotada, testemunha silenciosa de seus papagueados amorosos, e cúmplice da primeira beijoca que roubara à Chica, uma noite em que ela trazia um enorme monsenhor na rodilha do cabelo e tinha o riso mais úmido e sensual nos lábios polpudos e sangrentos...

Um cheiro forte, de banha fresca derretida, vinha lá de dentro; crepitavam os gravetos do fogão e a gordura na caçarola.

Benedito espreguiçou-se, bocejando:

— Ó benzinho!...

— Espera, homem, estou frigindo uns carajés.

Ela apareceu logo, um prato de bolos na bandeja, o bule fumegante à outra mão. Com denguice, fazendo cair do alto o café aromático, encheu-lhe a tigelinha bordada d'azul. Ele passou-lhe o braço em redor da cintura, petiscando pelo pires uma golada.

— Me deixe, homem, ora já se viu só!...

— Cabocla faceira...

— Uai, gente, como está hoje mesmo... Parece até que é separação...

— Hoje não, todo o santo dia, coraçãozinho...

— Que enjôo!... Anda, toma o café, é melhor; olha um bolo, tem pimenta; este não, essoutro que já mordisquei.

Depusera a bandeja sobre um tamborete e sentara-se ao lado na rede, sorrindo, encarandoo fito, os olhos langues.

Ele deitou-lhe a cabeça ao colo, olhos cerrados, numa felicidade calma de velha posse; e ligeira, com meiguice, a mão da amante ia perpassando devagar por sobre os seus cabelos corredios, a catá-lo minuciosamente, às cócegas, como um cachorrinho de estimação.

A claridade solar entrava aos jorros pela porta aberta, acalentava-o pouco a pouco, preguiçosamente, num enervamento volutuoso de corpo e sentidos. Lento e lento, pesava-lhe o sono as pálpebras cansadas.

Pela volta das dez e meia, Chica acordou-o como pedira. Foi à loja do major, a cuidar das encomendas. Deu um giro pelo arraial, à cata do fogueteiro e conhecidos; veio por último esbarrar na venda da Maruca.

Àquela hora, em sua fatiota domingueira de riscado, a rapaziada bebericava ali aguardente, jogando o truque e o douradão.

O tempo estava mesmo quente, pois desde o lado de fora ouvira exclamações:

— Milho no muro, antes que fique escuro!

— Quebrou um lanço da cerca, eu vou dentro!

— Vim topar o portão da romaria!...

— Licença, licença, meu povo.

— Ora, viva, o Ditinho dos Dourados! Pula pra cá, rapaz; entra na roda, que temos parceiro sacudido, gente! Cabra turuna pra esquentar uma partida!

— Pois então entra aqui no meu lugar — obsequiou Zé Velho — que tenho d'ir ainda campear o meu piquira; levou um sumiço desde trasanteontem.

— Se é um piquira cabano, estrelo de testa e ferrado das mãos, não se afoba, seu Zé, topeio ali atrás, numas barrocas de catingueiro, meia légua pra cá da Estiva. Estive mesmo quase a tocá-lo para o povoado; por sinal que trazia cincerro.

— Ele mesmo, muito obrigado; já lá vou atrás do malandro; agora não relaxo mais a peia. E dizer que o cigano com quem o barganhei afiançou ser mesmo o bicho raçoeiro. Vá lá uma criatura de Deus fiar-se naqueles excomungados.

— Ciganos? Dizem até que têm parte com o Cão — advertiu Bentinho Baiano.

— Se têm! Mal esticam a canela, vão logo de cambulhada para as areias gordas...

— Para animal fujão conheço santo remédio — aconselhou um velhote d'olhos pretos e cabeça branca, que tinha uma gagueira na voz e os membros trêmulos. — É receita afamada dum benzedor das bandas do Tocantins. Um porrete! Fiz a simpatia com a minha égua baia e nunca mais saiu deste largo. Ponha mecê numa cuia uma mancheia de sal torrado bem moído, vai dando a salga ao animal por debaixo do sovaco, da porta da cozinha à da rua e da frente à porta do fundo, três vezes sem parar, passando e repassando por dentro da casa. Faça isso três dias seguidos e pode dormir depois descansado.

— Não duvido, compadre; mas, por via das dúvidas, sempre passo hoje a peia de sola curta no danado. Sá Maruca, bota pr'aí mais um cobre de pinga e meia quarta de fumo, que o que tenho na patrona não chega para o pito. Até à vista, minha gente, apanhando o rastro, piso logo na retranca do velhaco.

— E mecê vai olhando as encomendas, que a demora também é pouca — ajuntou Benedito. — Trago aí debaixo dos coxonilhos um sapiquá, manda o pequeno buscá-lo lá no rancho, enquanto baralho cá uma corrida com esta rapaziada.

— Isto é que é falar às direitas — disse Bentinho Baiano, já entusiasmado.

— Quem é mão, pessoal?

— Agora é mecê — respondeu o velhote.

— Cuidado, minha gente — avisou alguém. — Temos aí cabra pra trucar sem zape nem catatau.

— Truco, tapera! Por que não me espera! — gritava já ao lado o primeiro parceiro.

Corrida a roda, Benedito retrucou, cortando-lhe a vaza. E um mulato apessoado, que fizera a segunda, estatelando a espadilha na mesa, desafiou todo ancho.

— Estudante de medicina, vou em Roma volto em mina, consulta seu companheiro e vê se vocês combina!

— Truco vai, milho vem, mosquito na corda desce bem!

— Assim, menino! Jesus Caetano! Noss'Senhor, diabinho!

— Onze! Baralho na mão do bronze!

Junto ao balcão, onde voejavam moscas caseiras sobre coscoros, Maruca coçava a verruga do queixo, e metia com pachorra o garrafão de licor no fundo do piquá. Da outra banda do saco, colocara os embrulhos, que dependurou ao alcance, numa vara.

— Os temperos vão de lado, seu Dito; fica aí à vista no varão, para não esquecer quando sair.

— Não seja esta a dúvida, sá Maruca. Comigo é nove, êh! velhote treme-treme! Corto o sete-de-ouros com o curinga!

Levantara-se no bico das botas e abatendo-se com arreganho, vozeou:

— Êh! carta véia... Chincha de Medéia!

O outro volveu encafifado:

— Velhote... treme-treme... Cada qual sabe de sua vida, moço; não fosse arribadiço naquelas bandas, conhecessem há mais tempo quem fora o Generoso das Abóboras e a conversa mudava de rumo. Mundo, lição pra gente...

E depôs as cartas, resmungando.

A partida esfriava. A companhia espreguiçava-se no saguão, em torno da mesa cambeta, sobre sacos de mamona, baforando cigarradas, desbonecando as mortalhas de palha, que a lâmina dos quicés ia a grosar, ringindo ásperas, e cuspilhando a miúdo, às placas estraladas, o pavimento de terra úmida com a gosma dos gorgomilos. Amiudavam-se os copitos duma cachaça amarelinha e rascante — das boas — que a vendeira trazia reservada para os fregueses mais chegados. E como entrasse o pequeno com o tabuleiro de café, o velhusco repetiu ainda uma vez, um tanto agastado, sorvendo pelo pires o conteúdo da xícara:

— Velhote?… treme-treme?… — Passasse aquela gente o quarto d’hora que tinha experimentado e o caso mudava de feição.

— Ora, sai daí! Que homem mofino! Deixa de zanga, seu Generoso, que o Dito é assim mesmo; é do jogo. Venha antes a história, se há; o mais, conversa fiada.

Pois não, pois não; mas assuntassem que nem sempre aquela tremura de pernas lhe atrasara a vida, nem tampouco tivera a língua perra nalgum aperto que pr’este mundo de Cristo a gente topa…

O caso acontecera pouco antes da campanha de Canudos, onde a jagunçada dera pancas ao antigo batalhão cá do Estado, segundo ouvira contar, e um seu mano obteve as divisas de furriel…

— Andava nesse tempo numa comissão de linha telegráfica, porta-mira de turma. Féria boa, é verdade, mas trabalho era ali! Isso, rumo do Araguaia, abrindo picada na mata virgem, esse mundão de mato grosso que principia em Jaraguá, beiradeia os rios Uru e das Almas, cai no Araguaia, ganha o Tocantins e vai acabar lá para as bandas do Pará.

Madrugadão, com um frio de bater queixo, o pessoal já estava de pé, teodolito e apetrechos ao ombro, rumo do serviço. Poucas léguas faltavam para alcançar o porto do Registro e ganhar a outra banda do rio. A turma armara o acampamento num aceiro largo, à beira dum ribeirão. Ali os borrachudos e miruins eram que nem castigo. Assim, moído como estava, não pudera pregar o olho boa tirada de tempo.

Os mosquitos — zim!… zim!… — outras vezes — zum!… zim!… — estas eram as muriçocas miúdas, azoinavam-lhe o ouvido, conquanto trouxesse a cara tapada sob o cobertor. Os pernilongos então, esses, nunca vira cousa assim; atravessavam com o ferrão a lã grossa do pala, a calça, a camisa e vinham aferretoar-lhe embaixo as carnes, com danação.

— Vote! Praga desse feitio, só mesmo naqueles fundões; mil vezes antes os carrapatinhos, que se encontram às bolotas nos travessões de mato, mas uma boa fumegação bota-os abaixo por dá cá aquela palha; e, mesmo, porque não resistem às primeiras chuvas do ano.

Mas, como estava a dizer, aquilo já passava de mangação, tinha as orelhas a arder, as horas iam correndo e manhãzinha lá o esperava o serviço costumeiro.

Puxou umas mantas dos arreios, onde dormia; e, na luz das estrelas, saiu às gatinhas da barraca, indo arranjar a sua cama bem longe do córrego, entre folhas secas, ao pé duma sucupira.

Ferrara no sono que nem camaleão no oco do pau. Com o virar da madrugada, começou a ter uns sonhos maus; ora era enterrado vivo, como sucedera na estranja a uma velha, ora uma porção de diabinhos se punha a batucar no seu peito, pesando, pesando, que… Acordou.

Abriu os olhos, mas esses, meio cerrados, pisca-piscando, tornaram a fechar-se com força.

Cruzes! Parecia até que era ainda em sonho! Descerrou de novo os luzios com cautela, o coração aos trancos, mal-assombrado.

Lembrava-se como se fora naquela hora. O dia acabava de clarear, cantava perto um curió no galho da sucupira.

Sobre o seu peito, enroscada, a cabeçorra ao centro, os olhinhos voltados para a sua cara e a língua em forquilha para fora, uma cascavel dormia sossegadamente, no calor brando do corpo.

Ficou gelado, sem movimento, a cabeça transtornada, a olhar apatetado a cobra.

O tempo que assim passou, não sabia dizer; mas se há inferno nalguma parte, é curtir uma alma de Deus as amarguras daquele ruim quarto d'hora!

— Santo nome da Virgem, que martírio! Olham a tremura que reaparece...

— Eu sacudia de riba o bicharoco e pulava para o lado — comentou Bentinho Baiano vivamente interessado.

— Qual! e resolução? Pensar não é nada, fazer é que são elas!... Se acudisse um gesto, um expediente, estava salvo; mas, como lhes dizia, fiquei gelado, as juntas bambas, sem movimento, como cousa largada. Vivi naquele momento mais vida que a de mecês todos somada.

Afinal a cascavel, despertando, espichou a forquilha da língua, foi desenrolando aos poucos os anéis do corpo e saiu devagar pelo meio das folhas, farfalhando...

— No acampamento era tudo animação. Ultimavam-se os preparativos para o trabalho do dia. Cheguei tremelicando, as pernas vergadas, como atacado de maleitas. A voz embargada, relatei o fato ao chefe. Mas que é isso, Generoso, disse ele; olha aqui este espelho. Olhei. Tinha a cabeça branquinha!

— O que deve acontecer, tem força, acontece mesmo — ponderou Benedito à laia de consolo.

— Pinga pr'aí mais dous dedos, sá Maruca — pediu o narrador.

No largo, a luz meridiana rebrilhava na areia das estradas, faulhavam ao longe os detritos de mica e uma evaporação quente, pulverulenta, como que parecia subir da terra rescaldada.

Alguns já se erguiam, despedindo-se dos parceiros; e, como era domingo e dia santo, a vendeira aprestava-se a fechar as portas do negócio.

Tropas e Boiadas

Sinopse

Leia gratuitamente Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos, clássico regionalista brasileiro em domínio público. Esta edição reúne 14 contos e crônicas e os 12 capítulos da novela Gente da gleba, preparados a partir da transcrição integral da UFSC e cotejados com a edição do Instituto Centro-Brasileiro de Cultura para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

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