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Tropas e Boiadas

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Tropas e Boiadas

Capítulo 19 · Tropas e Boiadas

Gente da gleba - VIII

19 de 26 ≈ 10 min de leitura

Chovia aquela noite. Não essa chuvinha miúda, comum às plagas do litoral, que no sertão cacheia os arrozais, e o lavrador abençoa como as primícias duma colheita abundante; mas aquela pancada pesadona, cortada de relâmpagos ziguezagueantes e estampidos de trovão, que emudece a natureza e transe as árvores sob o látego do vento esfuziando nas baixadas, e quebra e tala o milharal em que o matuto depositou as esperanças do ano.

Chuva brava, a que sói muitas vezes, desentranhando raízes nas enxurradas, transpor socalcos e barranquias, despenhar-se nos grotões, esvazando nas covoadas e morrendo nos ribeirões, que engrossam e transbordam mato adentro.

Com os raios que fendem meio a meio angicos e canjeranas, estalando nos fraguedos nus e picos de morrarias, áspera provação, a do viandante desgarrado naqueles fundões.

De cada vargem rebenta um olho-d'água, fortes caudais descem reboando pela garganta das serras, a cada passo a montaria empaca junto a um lamarão inabordável, a pinguela do rio rodou légua abaixo, no atalho mais seguro. O frio cerra, sob o ponche encharcado; e é uma felicidade caída dos céus quando se avista, entre as cordas de chuva, uma luzinha ao longe, num desvio, que realenta o ânimo do caminhante transmalhado naquelas funduras. Tem-se então, viva, a sensação da graça divina outorgada. Daí o grande fundo de religiosidade daquela gente.

Naquele cochicholo da estrada, ao princípio do povoado, o cateretê entrara duro pela noite, sob as toldas d'água cantando no telhado, e aos goles da caninha com gengibre que a dona da festa repartia amiúde, em tigelas, aos convidados.

Sentado ao canto num tamborete, pernas trançadas, junto ao prato da queimada, o sanfoneiro espichava o fole do instrumento, a cabeça ora a uma banda, ora a outra, apertando entre os dedos as chaves, na toada dolente da dança.

Saracoteando na sala à frente duma mestiça, que bamboleava derreada o corpo, olhos em alvo para o parceiro que a distinguira na roda, chorava um crioulinho atarracado:

Rolete de cana

É bom de chupar!...

É bom de chupar!...

É bom de chupar!...

E os demais, acompanhando, gemiam em conjunto:

É bom de chupar!...

É bom de chupar!...

Malaquias, saltando num pé, meio tomado, saiu-se com esta:

Minha tia é magricela,

Tem achaque no pulmão,

Fui pedi-la em casamento,

Respondeu que fosse ao cão!

Rolete de cana

É bom de chupar!...

Logo o coro:

É bom de chupar!...

É bom de chupar!...

Mas alguém batera à porta. A festeira foi abrir. Montado, o pala escorrendo água, as abas do chapéu dobradas sobre o rosto, o forasteiro num relance varejou aquela cena. Descobriu o Malaquias agachado sobre o garrafão de cachaça, a despejar o seu conteúdo no prato de açúcar, e berrou:

— Negro! Vim buscar-te!

Ele olhou, turvo, e apanhando sobre a mesa um facão amolado com que raspara a rapadura, saiu ao terreiro. Os demais guardaram silêncio, intimidados com o tom imperativo do recém-vindo.

— A mim ninguém amarra — urrou o preto riscando a terra com a faca. — Quem entrar neste risco vai de encomenda pra Satanás. É chegar, quem pode!...

Benedito serviu-se da garrucha, alvejando-lhe o braço para desarmá-lo; não era, porém, fogo central e apenas as espoletas estalaram.

O negro, enfurecido, saltou-lhe então à goela num bote cego; e o outro, rodando numa esporada a besta, deu-lhe com a coronha da arma uma pancada no cotovelo, e o nagoa, tolhida a destra pelo choque, deixou cair o ferro.

Sem dentença, saltando do animal, já Benedito o algemava com as ferropéias, que tirara pouco antes da garupa. Jugulado o adversário, sem se importar com os protestos da assistência que dava mostras de querer intervir na questão, preso o cadeado da corrente à sobrechincha da sela, montou de novo e foi tocando o preso para a frente, sob o chuvisqueiro que recomeçava a cirandar.

— E essa! — disseram uns aos outros boquiabertos. Mas Silvirina, a festeira, que ostentava um vistoso corte de chita, presente do Malaquias, atalhou com um muxoxo:

— Ora, gente! Basta de pasmaceira. O que foi lá foi; o negro era camarada fugido, devia ao patrão. — Tinham vindo buscá-lo; o mais, era tratar de folgar enquanto houvesse música...

— Ó seu Tomás — disse, voltando-se para o sanfoneiro que se deixara ficar indiferente no tamborete. — Toca aí uma quadrilha, faz favor.

Estirado nos baixeiros que lhe deixara Benedito, Malaquias voltava a si, no rancho do povoado, dos vapores do álcool que lhe toldavam o juízo.

Desafogou o pescoço, metendo ambas as mãos à cadeia da gorja, a olhar aboborado para as brasas do lume, meneando a cabeça, num esforço penoso de quem procura coordenar as idéias. Sentia a goela seca, e, fazendo tenção de levantar-se, no que era estorvado pela corrente cuja extremidade o companheiro prendera por cautela ao pulso esquerdo, pediu com voz humilde uma gota d'água.

Benedito foi apará-la ao beiral e como se sentasse ao lado, chegando-lhe aos lábios a copa do chapéu onde a recolhera, o preto, limpando em cada ombro o fio d'água que escorria pelos cantos da boca, fitou-o demoradamente, depois disse aliviado, sem rancor:

— Seu Dito fez mal, não devia aceitar aquela incumbência... Tempo de cativo e capitãodo-mato já passou... — Estava no seu direito de ir para onde muito bem queria... Labutava na fazenda, trabalhando dia e noite como mouro; e no fim, que é que via? Dívidas e mais dívidas, o patrão de ano em ano mais exigente e desalmado; enfim, aquela vida de cachorro de camarada. De resto, sem garantia no trato. O patrão abusava de sua falta de letra, esticando como lhe parecia na conta, transtornando os seus arranjos de abatimento do fim do mês; e ela, a danada, a espichar, a espichar, que nem mesmo um imperador era agora capaz de resgatá-la! Ora, nesse pé, não podia haver seriedade no ajuste. Mais valia cair a gente no mundo, como fizera, ou estourar aí para um canto, moído de pancada, como sucedera ao Torquato por meter-se a respondão...

O outro deixou-o desabafar em sossego. Ultimava os aprestos do café, que tirara dos alforjes. De cócoras junto à fogueira, ia empurrando para o lume os gravetos que ardiam, picando um rolo de fumo, e a esmoê-lo silenciosamente na palma da mão.

— Olha, negro — disse de repente — se és o mesmo de sempre e dás a tua palavra de como não tentas fugir, tiro-te esses estorvos.

Deu-lha Malaquias com solene gravidade, e como ficassem proseando num certo pé de camaradagem, assentados sobre as mantas, o preto falou sentencioso, acentuando as palavras, quase em segredo:

— Olha, seu Dito, sempre lhe tive na estima desde pequerrucho; nem sei mesmo como aprontei aquela tarantada na porta da Silvirina; devia ser da cachaça. — Mas que tomasse sentido, aquele fazendeiro ainda havia de lhe dar o pago da sua dedicação.

— Hum! hum! aquilo é bicho mau que nem peste, Seu Dito; muito afável para os que não lhe deviam obrigação, mas judeu até ali com os subordinados ou quem se metesse a empatar-lhe as vazas. Se não dava mostra de toda a ruindade que tinha, era devido à presença da mulher, temente a Deus. A prova estava em como bastou a patroa ir com os filhos passar algumas semanas em Curralinho, para que mandasse logo surrar o Torquato da maneira que fez, escadeirando o rapaz e dando com ele na cova.

E como batesse o sarro do cachimbo, atupindo-o com o fumo que lhe emprestara o companheiro, ficou a banzar, chupando o canudo, olho pregado nas brasas que se consumiam. Depois, numa baforada, meneando a carapinha, repisou:

— Seu Dito, Seu Dito, toma tento naquele judeu. — Sabia de cousas... Olha, parecia conversa, mas era verdade; o velho botara o seu olho em riba da Chica; mandara-lhe por ele, Malaquias, uns presentes que a mulata recusou. Isso, depois que o moço já andava metido lá... Não dissera nada até então, a pedido da Chica, que não queria Seu Dito zangado com o patrão. Hum! hum! Aquela cobra tinha veneno... Nem mesmo parecia marido de quem era! D. Luísa, essa sim, uma santa. E a filha saíra-lhe em tudo na bondade, mais a beleza, que mesmo parecia uma Virgem no altar.

— E olha, seu Dito — ninguém lhe tirava da idéia — aquela moça tem paixão pelo senhor. — Quando andava ausente lá pelo povoado, vira-a uma vez sob a mangueira do quintal, olhando para a janela de seu quarto, uma lágrima nos olhos. Ele estava ali perto, agachado numa touça de fedegoso, a armar um laço para os filhos de João Vaqueiro. Ouvira-a dizer num suspiro:

— Benedito...

Àquela revelação, o moço sentia como que um aperto acerbo travar-lhe pouco a pouco, dolorosamente, as pancadas do coração. Fugira a lembrança de Chica, de que a narrativa do preto avivara zelos ferozes; ficara apenas de pé, nimbada no fundo de suas recordações de infância, a meiga companheira de travessuras passadas, de que uma timidez excessiva o afastara na fazenda, atalhando uma inclinação que não se sentira nunca com forças para revelar-se a si mesma. Exaltava-a em pensamento, nos rápidos instantes em que detinha em sua doce figura a imaginação, como um ideal mui alto, onde só se pode deter de joelhos, como as imagens das santas que se contemplam nas igrejas... E quando a via passar entre as laranjeiras ou a acompanhá-la silencioso nos longos passeios pelo campo, morriam nele os olhos da carne, e era uma imensa, dolorosa saudade que ficava, angelizando tudo... E não sabia que aquilo era amor!...

Fora, as trevas despejavam chuva com reiterada violência; uivavam os ventos ríspidos, e no largo, o chocalho da besta badalava cavamente, aos intervalos da borrasca.

Malaquias roncava, papo para o ar, estirado nos baixeiros. E ele ali a pensar, a pensar, curvado sobre as cinzas, comprimindo entre os joelhos as fontes, que latejavam...

Tropas e Boiadas

Sinopse

Leia gratuitamente Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos, clássico regionalista brasileiro em domínio público. Esta edição reúne 14 contos e crônicas e os 12 capítulos da novela Gente da gleba, preparados a partir da transcrição integral da UFSC e cotejados com a edição do Instituto Centro-Brasileiro de Cultura para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

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