Universo da obra
Universo da obra
Pela volta das três horas, Benedito recolheu-se do campeio; e, após uma terrina de coalhada, modorrava na rede do paiol, ao abrigo da soalheira, que abrasava.
Fora um dia trabalhoso aquele, na boca da mata! Metido na macega, no pampa mascarado campeador, ao virar das onze e meia já tinha todas as reses encostadas num furado, sob a guarda de Fidélis; mas um novilho de nhá Lica, alentado meio-sangue reprodutor, dera-lhe ainda pancas por uma boa estirada de tempo; e, não fora topá-lo depois a jeito, dando-lhe uma rodada merecida, nem mesmo sabia quando lograriam pôr-se de novo a caminho de casa.
Ajudara Fidélis a tanger o gado até a malhada próxima, onde os esperava João Vaqueiro com outra ponta, e fora depois tirar os palmitos de guariroba que lhe tinham recomendado na cozinha.
Chegou moído, o pampa meio bambo da labuta, que até mesmo recusara a mão de sal no cocho da salgadeira. Por seu lado, ele trazia as juntas doloridas, as mãos ardendo do cabo da machadinha, e o couro do guarda-peito inutilizado por um violento rasgão de espinho de veludo, que, na tropelia do campeio, quase o trespassava também de vez na mata.
Mal pousou a cabeça sobre o punho da rede, já uma camoeca molesta chumbava-lhe as pálpebras; e, na sonolência que o quebrantava, formas estranhas começaram a passear-lhe a imaginação, encarniçando-se às vezes sobre um pequenino episódio do dia, a ampliá-lo e a exagerá-lo dum modo bizarro, ora era o novilho ateimado em encafuar-se na biboca, ou tinha sempre à vista um galho atravessado na galopada, de que era preciso desviar-se a todo o custo.
Zuniam-lhe os ouvidos. A mormaceira ardente daquele dia, que ao recolher o gado apanhara quase toda na chapada, punha-lhe as artérias a latejar, e a cabeça mais parecia uma zorra a zumbir...
Fora o veranico, aquela dura soalhada que nas intermitências das chuvas castiga o solo goiano, imobilizava a natureza, numa letargia contagiosa, emudecendo no terreiro o terno cacarejar da criação, sob as taiobas do açude, a sugar ávida a água do rego, catando no tijuco uma minhoca para a ninhada de pintainhos, que recolhia agora à sombra dos laranjais, onde ciscava uma cama fofa e esparrimava-se na frescura da terra, o bico semi-aberto de cansaço e insolação.
A grande luz faiscava intensa na fachada do edifício principal. Da parede, uma tênue e impalpável poeirada ascendia, a provocar terçóis e inflamações noturnas à vista de quem desastradamente ali detivesse o olhar sonolento e deslumbrado.
A tarde já descia rápida, sem aragens. Benedito passava, enfim, do incômodo modorrar a um ligeiro sono reparador. E quando veio o crepúsculo, com um bando de pássaros-pretos que gorjeavam no coqueiro da cerca, e se pusera a picar no batente da porta o fumo do cigarro, tirando uma fumaçada distraído, ocorreu-lhe súbito a lembrança da Chica.
Assim, numa tarde calorenta como aquela, ao badalar do sino chamando os fiéis à novena e à alegre garrulada dos pássaros-pretos nos coqueiros do adro, vira-a a vez primeira no arraial, três anos e tanto atrás.
E uma semana havia já que estava no Quilombo, donde logo se ausentara o patrão, deixando-lhe expresso o encargo de vigiá-lo, e embalado num devaneio intraduzível, deixado n'alma pela revelação de Malaquias, não tivera tempo ainda de pensar naquela alegre companheira de folgares, que penas e aborrecimentos tantas vezes lhe poupara, com as suas chistosas galhofas e o riso brincalhão sempre pronto a desabrochar nos lábios escarlates.
Uma necessidade brusca de revê-la apossou-se-lhe da alma.
Seguindo, na forma do costume, o impulso da primeira idéia, mal o pensara já apanhava o cabresto, indo pegar no pasto a Pelintra.
Deixou-se ainda ficar dous minutos no curral, proseando com João Vaqueiro, a fazer diversas recomendações, após recusar o convite para a janta, que estava posta, e dizendo ir cear no povoado.
Depois, duas esporadas no vazio e a mula atravessou a cancela escancarada num galope mal contido, descarregando o ar da barriga, na ânsia de ganhar o chapadão.
— Sinal de que volta logo — ainda bradou de longe o cabra a rir, voltando-se na sela. E sumiram ambos numa depressão.
— Hum! hum! — pigarreou João Vaqueiro. E o patrão que punha tanto empenho ao ordenar-lhe que em caso algum deixasse a fazenda. — Hum! temos aí marosca feita.
E recolheu-se, pensativo, a repuxar a barba. Tinha uma dúvida a doer-lhe a consciência quando o moço se despedia, mas entre o dever e a amizade, resolvera calar.
— Mulheres!...
— Que é que te põe assim macambúzio, criatura! — interpelou-o a mulher, que o via ali parado à soleira, matutando.
— Cousas...
E num repente, meio irado, descarregando-lhe por cima o peso da preocupação em que vinha:
— Mulher, diacho de bicho abelhudo! É tratar antes do que é da sua conta, deixa os outros em paz.
— Também, pra que tanta zanga, homem de Deus? — não perguntara por mal. E não falaram mais naquele assunto.
Entanto, Benedito batia longe, no galope sustado da rosilha.
Eram onze horas menos um quarto quando, deixando arreada a mula no rancho dos tropeiros, galgou com vagar a rampa que levava à casinhola da Chica; e, por maior cautela que pusesse em dar volta ao fundo da casa e aflorar de sobreleve a porta em duas breves e secas pancadas, sempre despertou o faro do guegué no palheiro, que investiu às cegas, ladrando desabaladamente.
Lá dentro houve um rumor de conversa abafada, como que duas pessoas se interrogavam precipitadamente, depois alteou-se a voz de Chica, que indagou medrosa:
— Quem está aí?
Não respondeu, numa súbita desconfiança; desviado na sombra, apurava o ouvido à escuta. O guegué fazia-lhe agora festas entre as pernas, relambendo o cano das botas, a reconhecê-lo. Um pontapé no ventre, e pô-lo depressa a caminho do palheiro, aos ganidos.
De novo a voz de Chica perguntava quem estava lá fora. Ele permaneceu silencioso, a orelha aplicada à fechadura; e já aquietada, ouviu a mulata que dizia:
Não foi nada, certamente a vaca que vem aí lamber todas as noites o barro da parede assanhou o cachorro; em todo o caso, lá vou ver.
Escutou a cama ringir, e outra fala descansada de homem atalhando:
— Não é preciso, deixa-te estar.
Àquela voz, voz dum macho lá dentro, dum rival feliz, já a cólera o colhia repentina; e uma, duas, três, assentou sucessivas patadas à porta, cuja taramela cedeu à quarta; mas achando atrás anteparo numa escora, resistiu ainda, deixando uma abertura, por onde enfiou como uma cobra o braço, retirando a tranca.
Como um raio entrou na cozinha, e já forçava a porta do quarto, quando ouviu ranger lá dentro a janela que deitava para o oitão, dando talvez passagem ao fugitivo. Num pulo d'onça, achava-se de novo cá fora; deu às carreiras rodeio à casa, a garrucha engatilhada, e lobrigou ainda um vulto que descia apressuradamente a ladeira, enfiando o casaco.
Fez com ambos os canos fogo naquela direção, e voltou espumando ao interior, onde Chica rezava de joelhos, apegada ao oratório, junto ao leito desmanchado, a chorar copiosamente.
Arrancou-lhe num safanão o rosário dos dedos, e o gesto transmudado, indagou:
— Quem era? Quem?!...
Ela abaixara a cabeça, e assim de joelhos, pôs-se a suspirar, lamuriando a intervalo das lágrimas:
— Ai! Jesus!... Ai! Jesus!...
— Vamos, diabo! Quem era o homem que estava aqui contigo?
Soluços, apenas soluços, sacudindo-lhe dolorosamente as arcadas do busto farto, e o olhar baixo, de cão corrido, eram a resposta às sucessivas e impacientadas perguntas.
Batia o pé no chão, cerrando os punhos, mordendo os beiços, o olhar chamejante, varrido numa raiva que não tardaria em pouco a explodir nalgum desmando, a repetir em desatino, com rancor:
— Quem era? Quem?!...
Aquela inércia exasperava-o. Fustigou-lhe o rosto com as contas do rosário, a coronha da arma chuchou-lhe o peito, a ver se conseguia obrigá-la a erguer o olhar culpado, rosnando sempre o estribilho feroz:
— Quem era? Quem?
Afinal, numa onda de sangue, atirou-lhe o primeiro pontapé às nádegas, jogou-a de bruços de encontro à parede; e, num assomo para o qual já não havia freio, pisou-a um instante barbaramente, estupidamente, passeando-lhe o corpo com as botas.
Depois, como tivesse ainda em resposta aquele choro frouxo e contínuo, cortado a espaços pelo estrangulado soluçar, um pasmo repentino sopitou-lhe a ira; e, na inexplicável comoção que o ia insensivelmente invadindo e era como que a gota d'água na fervura, ergueu-a com cuidado, assentou-a à borda da cama; e à luz do candeeiro que espalhava o seu clarão amortecido aos quatro cantos do aposento, deformando e ampliando em torno os objetos dum feitio estranho, levantou o queixo à mulata que tremia, pôs-se a festejar-lhe as faces mansamente, suavemente, num arrependimento mudo agora, em que tentava, embalde, estancarlhe o pranto ao rosto esbraseado.
— Não chora!... Não foi nada... Ora veja, que molenga!...
E já sentindo que ia em breve fazer acompanhamento àquela choradeira desatada, reagindo contra a natureza que o traía, interpelou de novo, num esforço:
— Mas quem era, quem? Não faço nada, vamos, diz...
Ante o silêncio que mais uma vez o acolhia, a negar toda a certeza daquele amor passado, da fidelidade e obediência antiga, achou-se de todo desorientado; e, perdida a tramontana, numa impulsiva revolta, derrubou-a de novo arrebatadamente, e desandou a espancá-la, aos rugidos de fera.
A um solavanco da mesa, a candeia entornou-se e apagou, num último e sanguinolento lampejo.
Então, já dementado, dobrou-se sobre aquele corpo que lhe opunha apenas a morna passividade dum silêncio obstinado, e furiosamente, bestialmente, violentou-a com selvageria, a unhadas e mordidelas, que lhe foram, enfim, com igual furor, com igual paixão, retribuídas aos ganidos pela boca convulsa da amante...
Leia gratuitamente Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos, clássico regionalista brasileiro em domínio público. Esta edição reúne 14 contos e crônicas e os 12 capítulos da novela Gente da gleba, preparados a partir da transcrição integral da UFSC e cotejados com a edição do Instituto Centro-Brasileiro de Cultura para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.