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Tropas e Boiadas

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Capítulo 15 · Tropas e Boiadas

Gente da gleba - IV

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Abrandara o mormaço do meio-dia. Com o chiar lamurioso dos carros que desciam das roças atulhados de cana para o serão da moagem, vinha refrescando no ar translúcido a viração da tarde.

Nhá Lica contava pontos de crochê junto à janela do quarto. Para o fundo, abriam-se os canteiros de roseiras, a horta viçosa, as mangueiras folhudas do quintal, com sua longa fila de laranjeiras em sazão de ouro, o cafezal abaulado, dum verde retinto e sombrio; e mais além, onde a vista se perdia, vagos contornos de colinas verdejantes, malhadas aqui e ali duma rês esquiva que pascia, entre teias longínquas de arame farpado...

Joões-conguinhos e guaxos importunos galravam no laranjal, em matinadas atordoantes, ora abatendo-se aos bandos, ora em arribadas para a grimpa distante dos coqueiros do cerrado, onde tinham os grandes ninhos pendentes.

Nhá Lica contava pontos de crochê, a linha de novelo entre os dedos.

Cismava...

Eram recordações que lá iam, perdidas no fundo da memória, ao trabalho silencioso da agulha, dias de meninice, as primeiras inquietações da adolescência e a saudade ainda latente do colégio de Sant'Ana, na capital, onde bela e calmosa quadra da existência passara descuidosa.

E surgiam os passeios com as boas dominicanas, em tardes gloriosas como aquela, nos arrabaldes, pela estrada do Areão; as correrias das companheiras ao longo do caminho, a colheita de campainhas e boninas, umas róseas, dum perfume intenso, outras brancas, da candidez imaculada das almas que com ela iam, apanhadas aqui, além, aos molhos, que vinham sorridentes e confiadas ostentar ao sorriso benevolente da Madre; o jogo das prendas, o chicotinho-queimado, nos pontos de descanso; e depois, ao crescer o crepúsculo, a volta para o convento, duas a duas, elas adiante, as irmãs atrás, às orações invariáveis d'ave-maria.

Vinham os caprichosos artefatos d'agulha e bordado, aquarelas, pastéis, a confecção artística de almofadas para a exposição do fim de ano, que ao colégio atraía toda a alta sociedade da capital; os prêmios, antecipando as férias, passadas entre arvoredo e alegres folgares, numa chácara pitoresca que possuíam as religiosas à beira do Bagagem.

No ano seguinte, a mesma vida uniforme, com as alterações do adiantamento de idade e progresso nos estudos, e de mais a mais, o gosto acentuado que crescia nela para as cousas místicas, os desvelos que punha no adorno da capela e aquele seu ardente fervor religioso ao terço do rosário, quando anoitecia...

Iam então juntas aos tríduos e novenas da Boa-Morte, às rezas vesperais da igreja do Rosário, e com que ansiosa expectativa, misto de impaciência e alegria, atendiam todas, as internas, às solenidades da Semana Santa! Pelo menos, eram as únicas em que lhes fora dado tomar parte.

Folias do Divino, com cantorias louvaminheiras de crianças à frente das filarmônicas, os peditórios de porta em porta por meninos e cavalheiros revestidos de balandrau e opa encarnada, o cetro, a coroa e a bandeira do Divino passeadas de lar em lar, aos ósculos extáticos da multidão e moedas e cédulas que se iam amontoando nas salvas, mal as podiam apreciar, através das persianas do monastério, a cuja saleta exígua recebiam algumas freiras o farrancho.

O ano passado, no entanto, aparecera ali no Quilombo uma das tais folias da roça, mui diversa, aliás, das da cidade. Compunham-na um bando de trinta mandriões, cavalgando animais lazarentos, apetrechados de pandeiros e violas, que se tinham deixado ficar em pândega na fazenda oito dias seguidos. Ao aproximar, deram uma descarga de trabucos, que a camaradagem do sítio replicou com salvas de roqueiras. Depois, apeados, aos descantes e loas, encostaram a um canto da sala a bandeira e caíram em regozijo na dança, aos sapateados e louvaminhas, que se prolongaram até altas horas da madrugada, e insaciáveis todos de cachaça, que o coronel mandara vir às canadas da armazenagem.

Abateram-se reses no curral, despovoou-se o chiqueiro de porcos, vários leitões foram assados, e, daquela folia, só guardara lembrança do muito cuidado que lhe dera, e à mamãe, na direção da cozinha. Ainda bem que o papai estava acostumado àquelas pousadas intempestivas.

Mas o que lhe doera ao coração, ao saber, foi os foliões, apenas saídos do Quilombo, terem ido arranchar meia légua adiante, na palhoça dum pobre lavrador, onde acamparam três dias seguidos. O rancheiro, coitado, ficara certamente na miséria, desertos os currais e poleiros da pequena criação, em folgança devorada pelos tiradores de esmola...

— Ora, que fazer — dissera o coronel. — Costume da terra!

Não guardava, muito menos, daquele tempo na capital, lembranças das cavalhadas que o imperador eleito do Divino realizava no campo de São Francisco para gáudio da população local, com aquelas histórias tocantes do cativeiro dos cristãos na torre de Ferrabrás, os amores da princesa Floripes com o par de França, o cativeiro dos mouros, a sua conversão na capelinha, que armavam ao segundo dia, e, no terceiro, a corrida final de argolinhas, que punha termo àqueles divertimentos.

Esses festejos, presenciara-os o ano passado em Curralinho, onde tomavam parte o papai como embaixador cristão, e Dito — rei dos mouros.

Guapa cavalgada! Como empinava bem o baio de estima de Roldão, dizendo atrevidamente a embaixada de Carlos Magno ao rei dos infiéis! E com que arrogância e donaire lhe respondia Dito na letra, cabriolando o ginete, a lança alçada, dois passos adiante da sua guarda! Chamejavam espadas. A pedraria reluzia faiscante na bordadura azul e vermelha dos justilhos e pelo cravejamento das fivelas prateadas, que prendiam os penachos encaracolados dos guerreiros. O sol lavava de luz opulenta e clara a arena sonora onde a pugna se desenrolava fremente. Havia um contínuo tropear de cavalos, mal contidos nas estacadas, e o vozerio indistinto da multidão, sob o varandil dos palanques, mãos em pala, à crueza dos raios solares, enquanto a charanga atacava num ângulo da praça a marcha belicosa.

Dentre o contínuo lantejoulamento das arreatas suntuosamente revestidas, a moirama passava em árdegos serbunos, crinas entrelaçadas, ferraduras e cascos dourados rebrilhando ao longe, à desfilada franca, toda sangue em sua vestimenta de veludo carmesim, as flâmulas tremulando na haste pontiaguda das lanças, à investida audaz contra os defensores da Fé. Estes, dentro o uniforme azul-celeste de seu rei, não menos garbosos e escorreitos, saíam em campo, à rebatida brusca dos barbarescos.

Apreciara o desenrolar de toda a justa do palanque de pita que o coronel mandara armar no lado principal, bem a coberto do sol. Divertira-se tanto aqueles três dias!

Mas em Goiás, quando no colégio, as irmãs não as levavam ao campo de São Francisco, supondo talvez, em seu piedoso entendimento, um tanto profanas aquelas exibições.

Havia ainda, na capital, outros divertimentos por ocasião das festas do Espírito Santo. Danças principalmente. O bumba-meu-boi, que afugentava às marradas a petizada; a dança-dosíndios, na sua véstia cor de carne, tinta de urucum, à moda dos tapuios, os cocares e as cintas de penas variegadas, trazidas de propósito de aldeamentos indígenas da beira do Araguaia, com toda aquela figuração de brandir de tacapes, lamentações de pesar em torno do pequenino cacique morto e o grande grito vindicativo de guerra:

Jaburê, quá! quá!...

Jaburê, quá! quá!...

Começavam os combates singulares de lança, porrete e frecha, sucessivamente, em torno da maloca assanhada. Os campeões procuravam-se por sob uma abóbada de arcos entesados, em artimanhas de selvagens e choques bruscos d'armas.

E ao tempo que os adversários se sonegavam felinamente, uníssonos, num diapasão que ia do mais leve sussurro ao estertor fero d'ódio e vingança, e deste, novamente, ao queixume lancinante murmurado em dolência, entoavam os guerreiros o hino bárbaro:

Arirê, cum! cum!...

Arirê, cum! cum!...

Saíam a campo, afinal, os dous pequenos caciques, maneirosos e ligeiros, em esquivanças rápidas de caxinguelê e passes traiçoeiros de jaguatirica, à rebatida derradeira dos tacapes enfrentados. As tabas rivais cercavam-nos então, a passo lento, esticando o cordame dos arcos, a clamar em lamúria:

Japurunga matou minha fia,

Japurunga matou minha fia,

Frecha nele sem parar!...

Frecha nele sem parar!...

Prazs!... Prazs!... Prazs!...

Disparavam.

Havia ainda a dança-de-velhos, em grandes cabeleiras empoadas, os sapatos de fivelão e costumes à Luís XV, exibindo por salões franqueados voltas obsoletas, à moda antiga.

O vilão, os lanceiros, estes organizados pelos rapazes da fina flor social, em rica fantasia, inauguravam as suas quadrilhas logo à noite do baile e banquete que o imperador do Divino oferecia à cidade.

O quebra-bunda não deixava de fazer também a sua aparição desde o começo das novenas, com as coplas e lundus chorosos dos mulatos, quadras requebradas e dolentes, uma das quais, esperem, rezava assim:

Minha mãe me pôs na escola

Pra aprender o bê-a-bá,

Eu fugi, fui aprender

O lundu do marruá!...

Indecente, pois não, mas apenas de nome, que no fundo, tão ingênua, tão simples, dessa simplicidade de velha dança colonial, não se impedindo o seu ingresso no seio das famílias, antes mui disputados e solicitados os organizadores a irem exibir os bailados no interior das casas principais e mesmo no palácio governamental...

De todos aqueles festejos, tinha conhecimento pelo que lhes contavam no outro dia as externas, aos intervalos da aula, o que valia, às vezes, exemplar reprimenda da irmã zeladora.

Um e outro ano surgia a mais a dança do Congo, posta à rua pelos pretos, cujo rei era sempre um africano centenário, ainda forte e robusto, trazido de Luanda ao tempo da escravatura.

Aos reco-recos das varetas pela superfície estriada em serras das compridas cabaças que apropriavam, e ao som de adufes e pandeiros, celebravam os ritos e glórias de seu país ancestral, religiosamente através do exílio transmitidos, em fraseados complicados e embaixadas pomposas de língua perra.

Executava-se o duelo dos príncipes, procurando-se os dous rivais aos pulos ágeis, ora num pé ora no outro, entre as filas apartadas dos guerreiros e a final degola destes — a espada correndo cerce ao longo das gargantas. Arrematavam a encenação com dolentes cantorias, onde a nota — êh! Maria-Longuê! — era repisada em estribilho a cada retorno, invariavelmente.

Esses, os do Congado, vira-os passar duma feita sob as gelosias, num quente meio-dia de domingo. Uns traziam gorros e capacetes de plumas, grandes corações recamados de vidrilho sobre o peito ofuscante de lantejoulas e glóbulos dourados; outros, meias-luas de prata em ressalte no fundo do colete mourisco, colares de búzio com voltas de conta e pulseiras de miçangas, metidos em calções de debrum e largos sapatões cara-de-gato. Os mais vistosos calçavam botins e tinham o justilho azul de pano mais fino, sobressaindo-se os tufos de pelúcia nos punhos curtos e sobre a gorjeira baixa.

Caminhando, iam e vinham sobre os próprios passos, arrastando a cantilena, ao reco-reco infatigável das cabaças empunhadas.

Ah, as doces, ingênuas, tradições goianas!

De novo, a saudade de Lica voou, trêfega, para as procissões da Semana Santa.

Ah, as procissões... Então, através das persianas donde espreitavam, como que a cidade tomava outro aspecto, revestindo-se dum ar solene e grandioso.

Trabalhadores, enxada à mão, punham-se nas ruas e praças a capinar febrilmente, dentre os interstícios do macadame, os tufos rasteiros de gramíneas; varriam-se as calçadas, o chão era atapetado de goivos, miosótis, jacintos, manjericões e mais folhas odoríferas.

No primeiro domingo, o de Passos, iam todas à Boa-Morte, a cuja entrada tinha lugar o encontro da Virgem Maria com o Filho desejado. Este, sob o peso do madeiro, mui lívido e doloroso, a grossa corda de nós cingindo os rins sobre a túnica roxa, a fronte pálida, porejando sangue, dobrava a esquina à coral mística dos rabecões, sob a auréola sangrenta da coroa de espinhos e nuvens e nuvens consecutivas de incenso, que o pároco, mui solene e paramentado, ia à frente turibulando.

Fazia-se um grande silêncio. A banda de música, que fechava o cortejo, cessava a sinfonia plangente do acompanhamento. Acotovelava-se o povo no ádito da igreja, pelas ruas e vielas que desembocavam na praça; e, de ao pé duma das janelas que abriam do coro para o largo, um frade beneditino, mui untuoso e comovedor, começava a longa prédica da paixão do Senhor, a voz soluçante e profunda no descrever a cena patética do Calvário, e a disputa última dos guardas sobre o corpo ainda palpitante do Crucificado!

Choravam todas. Ainda agora, ao relembrar, tinha as pálpebras umedecidas...

À noite, os Sete Passos da cidade, encravados em espaçosos nichos, onde o Cristo se detivera lasso na caminhada, iluminavam-se d'alto a baixo, e toda a gente corria em Via-Sacra a visitá-los, depositando na toalha do altar, sobre a salva exposta, o óbolo devoto.

Depois, Quinta-Feira das Dores, nova procissão, a da Virgem Dolorosa em busca do Filho bem-amado. O andor, numa suntuosa ornamentação de flores artificiais, a imagem naquele manto azulíneo todo constelações, era pelo percurso levado ao ombro das donzelas de mais destaque na sociedade, todas de branco trajadas. E que desejo nutria ela, Lica, de carregálo também, garbosa e transfigurada da divina carga, embora nessa época mal debuxara ainda os seus primeiros catorze enfermiços anos e ser assim tão franzina e frágil de forças!

Dirigia-se então com as irmãs a esperar o acompanhamento na Matriz, onde recolhia, e deixava-se estar de joelhos muito tempo em adoração, extasiada, e, enquanto os círios ardiam, evolava-se em torno o cheiro profundamente místico dos incensórios, e o sacerdote no altar-mor principiava o ofício.

Após as Trevas, na Sexta-Feira Santa, as solenidades atingiam o seu apogeu de esplendor e compunção religiosa. Desde a véspera, nenhum rumor, nenhum grito de pregão, nem mesmo o ao de leve bater dos saltos dum sapato na rua deserta. A cidade soterrava-se num silêncio mortuário, sombrio, profundo, sepulcral, de necrópole abandonada... Nenhum brado d'armas na cadeia pública; os toques de corneta dos quartéis não davam esse dia os sinais regulamentares e até os galos, no fundo dos quintais, pareciam olvidar o seu canto álacre.

Era o dia das santas virtudes, em que as árvores e as cousas se revestiam dum atributo sagrado e os homens, mulheres e crianças saíam pelos campos e matas dos arredores, atrás duma raiz milagreira de amaro leite, suma, batatinha ou folhas de chá-de-frade, que, colhidas em tal ocasião, santificadas pelo teândrico martírio do Cristo, adquiriam um maravilhado poder de cura nos achaques caseiros do ano...

Súbito, às doze, quando o sol que — único — não se velara de crepe, alcançava o pináculo do quadrante, ouviam-se as notas retumbantes e ásperas da matraca, anunciando aos quatro cantos da cidade que Nosso Senhor era morto. Então as meninas, que haviam comungado pela manhã e estavam desde a véspera em jejum absoluto, encaminhavam-se para o refeitório, onde o jantar era amelhorado duma iguaria nova, preparando-se todas logo em seguida para continuar as devoções da Boa-Morte.

À procissão do Enterro, acudiam moradores de toda a redondeza e mesmo de fora do município afluíam às vezes. Apesar da distância, a sua família viera duma feita, mais no entanto para visitá-la, que a essas cerimônias tinha d. Luísa por costume assistir em Curralinho, lugar bem mais próximo do Quilombo.

Milhares de luzes tremeluzindo em alas davam volta às ruas principais, o cortejo ritual ao centro. Escutava-se a espaços, o peito lacerado por inenarrável opressão, o cântico merencório e lancinante da Verônica — moça feliz que tivera a fortuna de representar esse ano a Madalena — trepada a um tamborete carmesim, o diadema refulgente sobre a testa e a ampla cabeleira desnastrada espáduas abaixo, exibindo à multidão contrita, entre mal sopitadas lágrimas, o lençol sanguinolento que amoldara a cabeça coroada de espinhos do Homem-Deus.

E toda a milenária Dor humana, consubstanciada naquelas palavras, parecia ainda como que a ressoar-lhe aos ouvidos, funebremente, doloridamente: Vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut dolor meus!...

À sua imaginação, impressionada ao excesso, fugiam os detalhes, num turbilhão de figuras litúrgicas a passar; aqui São João, o halo predestinado sobre a fronte, entre dous apóstolos, sobraçando um livro; ali, as três Marias carpideiras,vestidas de crepe, atrás do catafalco lúgubre, sob cujo pálio damasquino, sustentado por seis cavalheiros d'opa violeta a empunhar as varas de prata maciça, jazia num leito de martírio o corpo seminu e anguloso da Divindade, macerado d'angústia, em holocausto sacrificado à redenção de todos os mortais.

Sábado da Aleluia! Repiques festivais de sino na catedral; pombos e pássaros que se soltavam, a esvoaçar entre os coruchéus e cornijas do templo; foguetes e girândolas no largo estourando. Saudade...

Domingo da Ressurreição, madrugada alta, um frio cortante descendo da garganta da Carioca e tanta gente amontoada à luz do luar no adro da igreja, à espera de que as largas portas se descerrassem, enquanto a meninada se ajuntava no meio do largo, procurando distinguir as feições do Judas, lá dependurado no alto duma embaúba, e que seria queimado após o ofício divino.

Até àquele canto da nave, onde costumavam ajoelhar-se, chegavam de fora gritos e assovios, matinadas ferozes em torno dum mesmo objeto, vaias estrídulas, a partir dos quatro ângulos da praça. Era a molecada, às centenas, às maltas incontáveis, armada de seixos, atacando os caipiras — pobres matutos desentocados do fundo de suas roças e plantações pelo prazer de tomar parte naquela santa festividade, — e a bradar-lhes à orelha a alcunha injuriosa:

— Queijeiro!... Queijeiro!... Queijeiro!...

Ainda bem que Benedito, que fora com a família uma daquelas vezes à capital, mudava de feição, adotando facilmente o aspecto distinto de moço da cidade, não obstante passar a maior parte do ano na fazenda, e mesmo, não se envergonhando de — na necessidade — pegar o cabo da foice, como vira o ano passado e pôr num chinelo toda a camaradagem do sítio, batendo-a no eito, mesmo àquele Malaquias, apontado como o primeiro no corte dos canaviais.

E Lica, levada por outro curso de idéias, olhou para o fundo do quintal, onde o seu companheiro de infância, assentado numa moenda velha de engenho, à sombra das mangueiras, se entretinha a traçar com o canivete arabescos caprichosos na peroba dum piraí, a assobiar descuidado, enquanto Nequinho já em vias de reconciliação, rondava em torno, olhos grudados no trabalho do moço, entre arrependido e incerto da posse daquele brinco.

— Olha que apanhas um resfriado, menina — disse d. Luísa abeirando-se sem que percebesse. — São horas de recolher, o sereno já começa a cair e tu aí absorta, como se estivesses sonhando!

Anoitecera. No céu azulíneo, duma diafaneidade única, o Cruzeiro do Sul lucilava como um símbolo vivo sobre a imensurada vastidão daquelas planuras, que a rudeza do velho Anhangüera desbravara e estendera o guante de conquista, povoando-a duma grande raça empreendedora e forte, que a moleza do clima, o misticismo ancestral dos reinóis e bastardias de sangue, iam lento e lento desfibrando, salvo arrancadas extemporâneas dum e outro rebento mais rebelde...

E nhá Lica cismava ainda nos festejos queridos de sua terra, que traziam entretecida a cadeia de suas recordações de menina e moça dum filão preciosíssimo de suaves e repassadas saudades, que o luar, a noite, o sertão e a festa da véspera tornavam ainda mais fundas e cruciantes naquela alma ingênua e simples, virgem ainda dos contatos brutais com as paixões, os azares, com a Vida enfim.

Uma mato-virgem arrulhou além, oculta entre os cafezais; e um grilo, cricri, afinou sob a janela, ao rés da grama, numa fenda mal coberta de reboco.

Súbita tristeza, amálgama de confrangimento e aperto de coração, num pesar indefinível, assenhorou-se de nhá Lica. Dobrando o pescoço, mui alvo e transparente, sobre o peitoril da janela — um bucle anelado a ressaltar na nuca, sobre o cetim da epiderme — as lágrimas, uma a uma, correram lentas, sem causa aparente e sem um só queixume de seus lábios contrafeitos...

Tropas e Boiadas

Sinopse

Leia gratuitamente Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos, clássico regionalista brasileiro em domínio público. Esta edição reúne 14 contos e crônicas e os 12 capítulos da novela Gente da gleba, preparados a partir da transcrição integral da UFSC e cotejados com a edição do Instituto Centro-Brasileiro de Cultura para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

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