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Tropas e Boiadas

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Tropas e Boiadas

Capítulo 22 · Tropas e Boiadas

Gente da gleba - XI

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A luz batia em chapa no forro de telha-vã, quando abriu os olhos daquele sono de pedra. Pela altura do sol, já devia passar de meio-dia.

A princípio, não se recordou da hora nem onde estava; mas o aspecto desordenado dos objetos, noutro tempo familiares, que o rodeavam, lembrando sestas fervorosas e noitadas mais felizes, acordou-lhe brusca no espírito a cena da véspera. E foi com mal sofreada ânsia que procurou ao lado o lugar de Chica.

Encontrou-o deserto e frio. Levantou-se às tontas, tateando; e, na semi-obscuridade do aposento, chegou à janela, puxando o tampo, que ainda se conservava cerrado. Voltou-se então com a claridade, e àquela desordem dos trastes, as roupas atabalhoadamente atiradas aos montes pelos cantos, os baús abertos, estripando o seu conteúdo numa profusão de peças revolvidas, uma suspeita súbita cresceu-lhe na mente superexcitada:

Fugira a cabocla!

Procurou-a ainda pela casa, batendo os recantos; mas a ausência dalguns objetos preciosos guardados em certos escaninhos que sabia, o xale desaparecido do cabide e a porta às escâncaras, atestavam bem em evidência a partida precipitada de sua moradora.

Não se deteve mais tempo a averiguar, e desceu ao povoado. Fez uma ligeira ablução na água da cacimba, molhando a fonte e os pulsos, a acalmar a efervescência do sangue; e já montado, deixou-se ficar mais dous minutos na venda da Maruca, cortando o jejum com um rebate de meio dedal de cana, após o que cravou esporas na besta, rumo do Quilombo, disposto ao que desse e viesse naquela embrulhada, de que não compreendera ainda patavina.

O álcool agiu depressa naquele organismo, que desde a véspera não ingeria alimento algum; e pela estrada, metendo o animal no trote picado, na marcha esquipada, entrou a bazofiar:

— Vote, cabra! Calango de chifre e macuta furada, se não me está a cheirar que ainda hoje vejo o melaço dalgum desgraçado correr na ponta de minha franqueira!

Insensivelmente, com as esporadas que ia acrescentando ao ventre da besta, abriu num galope furioso, sob o sol que assava, deixando ao lado os pinguelões das ribeiras, para num salto transpor as barranquias, vergastando os ramos que encontrava dobrados sobre o caminho com o cabo do piraí, numa fúria mal recalcada, que não achara ainda onde descarregar.

Já lá no fundo da baixada o mato da Estiva avolumava o seu listrão sombrio de frondes ramalhudas. Com o vento, engrossado pelas chuvas da quinzena, vinha o marulhar cachoante do córrego nas pedreiras deslavadas. Corria à rédea solta.

De repente, passarinhando para o lado, a Pelintra estacou em dois corcovos bruscos; e, não fora a segurança do cavaleiro, viria ao chão, numa rodada desastrosa.

Era um vulto, o Malaquias, que surdira como que por encanto de trás dum oco de pau, na estrada.

O preto, armado duma clavina, cuja boca revirara prudentemente para baixo, avançou cauteloso, um dedo ao beiço, impondo silêncio, pedindo atenção. O outro, meio ressabiado, alisava a coronha da garrucha, e esperou firme sobre os estribos.

— Seu Dito, volta donde veio e suma no mundo — disse o nagoa. — O patrão tem gente à sua espera para o prender, morto ou vivo.

E explicou. O patrão chegara, pela manhã, esbaforido, na fazenda, uma escolta de Zé Velho, Bentinho Baiano e Generoso das Abóboras ao lado. Depois de ter mandado soltá-lo à casa do tronco, propôs-lhe em particular a desobriga da conta e mais uma boa molhadura de vinte mil-réis de quebra, se fosse com os demais, e João Vaqueiro, esperar a ele, Dito, à saída do povoado, e conduzi-lo amarrado ao Quilombo, matando-o mesmo, caso resistisse.

Fingiu aceitar e deram-lhe aquela clavina, vindo então com os outros emboscar-se no córrego da Estiva, numa tocaia que fizeram junto à cruz do Ambrosino. Lá ficaram os quatro à espera; quanto a ele, que tinha Seu Dito em muita amizade e com o qual não queria questão, desconversou com a companhia, dizendo vir apalpar o terreno e dar-lhes aviso quando aparecesse o vulto do moço na estrada. Mas adiantara-se apenas para inteirá-lo do perigo e prestar-lhe o seu auxílio, se preciso fosse, caso pretendesse mesmo afrontar os capangas, o que não aconselhava.

— Bem dizia eu, seu Dito, aquela alma do diabo é que nem cobra, só vive para aprontar maldade! E mais a mais, metido em fuxico de saias! — Então, tomasse cuidado, a jararaca ia mostrar agora toda a peçonha que tinha. Bem dizia!

O outro ouviu de mão no queixo, refletindo. Dissipavam-se as dúvidas que viera entretendo pelo caminho. Era pois aquele velhote perrengue que se lhe metera com a Chica! Bom achado! Quem havia de tal convencê-lo! E aí estava explicado o silêncio birrento da mulata e a sua fuga pela manhã.

— Ora, ora, mais parecia caçoada, que patusco!

Mas o sangue de todo não se lhe acalmara ainda nas veias. Passada aquela onda de chacota, veio logo uma secura à garganta, começou a sentir saibo de sangue na boca travosa, e, só em pôr o pensamento na imagem da Chica, o seu corpo luxurioso e fresco nos braços daquele velho coroca, uma revolta sanhuda sacudiu-o dos pés à cabeça, eriçando-lhe as falripas do rosto, abafando todo o respeito antigo, e uma necessidade imediata de desforço mostrou-se-lhe clara, na mais fera e imperiosa bruteza do instinto animal afrontado...

Pelo lume dos olhos e o arreganho involuntário do gesto, que o fazia crescer meio palmo na sela, Malaquias percebeu-lhe logo a intenção, e ia arengar no intuito de demovê-lo, quando, fincando esporas, já Benedito afastava-se, cego, numa arrancada veloz, rumo da Estiva, para o seu destino, para a sua perdição...

Mais uma vez, o vulto do negro aprumou-se no meio do campo, soerguendo o busto agigantado, levantando as mãos no ar, como que para detê-lo ainda a tempo, e já animal e cavaleiro desapareciam além, num capoeiral da volta da estrada.

Então Malaquias encolheu os ombros, resignado; e atravessando a arma à bandoleira, enveredou por um trilho à esquerda, caminho do homízio e do sertão.

Benedito penetrou as primeiras árvores da Estiva de sobreaviso, rédeas aos dentes, a garrucha numa das mãos, pronto a varrer qualquer tiraço na lã grossa do pala que desdobrara na outra, olho à direita, olho à esquerda, pesquisando. E ainda bem não deitara o olhar investigador a uma pequena moita suspeita de marmelada, saltou-lhe dali à frente o Zé Velho, empunhando um forcado, sobre a ponta do qual agitava um molambo de baeta, que estadeou às ventas da Pelintra.

O cavaleiro mal teve tempo de sofrear, no refugo, a alimária; e um laço sibilou-lhe à cabeça, atirado certeiramente pela mão de João Vaqueiro, do alto duma árvore, onde se empoleirara.

os braços enredados pelo arrocho da correia, enquanto forcejava com os cotovelos, Generoso insinuava-se como uma cobra sob o ventre da mula, derrubando-o pela perna. Num fechar d'olhos estava desarmado, tolhido e atirado como um fardo ao lombo da besta, que os da matula entraram sem detença a tocar, rumo do Quilombo.

Entardecia quando o coronel, debruçado a espaços, impaciente, ao peitoril da janela, os viu chegar, enxotada a Pelintra à frente, sob a sua carga humana.

Um riso surdo, duma expressão maligna, indefinível, a repuxar-lhe os cantos da boca numa careta horripilante, e que devera ser o mesmo riso de Pêro Botelho às voltas com as almas do Purgatório, alumiou então o rosto do fazendeiro. Passou o dorso sardento da sinistra pelos beiços, prelibando o gozo da vingança, depois comandou:

— Amarrem o homem no curral, tirem-lhe os estorvos do corpo, deixem apenas pés e mãos manietados.

Mandou vir da armazenagem um garrafão de restilo, que distribuiu às canecas pela capangagem. João Vaqueiro, cumprida a sua obrigação, retirara-se para o seu rancho e, encostado ao poial, ficou de longe espiando.

Zé Velho e Generoso, fechado o corpo com o trago da pinga e embolsada a maquia da peita, tinham metido os trabucos ao ombro, e já lá iam distantes, batendo a poeira leve da estrada com as suas alpercatas de couro.

Então o fazendeiro despiu o paletó e arregaçando as mangas da camisa, saiu ao terreiro, uma comprida folha de quicé debaixo do braço. Deteve-se a amolar o ferro à piçarra do rego, pachorrentamente, voltando a fronte bronzeada e deprimida ora a uma, ora a outra banda, num faciesde riso alvar e cínico. Depois, mordendo os beiços, zombeteiro quase, rosronou à companhia:

— Que diacho de estupor é esse! Isto é lá cousa do outro mundo? É esta a primeira vez que trazem à porteira um poldro madraço em vias de capação? Pois as éguas do meu pasto não foram apuradas para roncolho dessa laia! É pô-lo manso, antes que me desande no campo a descendência de alguma potranca de estima. Uai, nunca viram? Pois o bicho parece mais esperto que a gente, fareja depressa a sorte que o espera no moirão, vejam só, está que nem bezerro desmamado!...

Mas a cólera rugia-lhe dentro demasiadamente violenta para continuar naquele enxurro de chufas. Tremia-lhe a voz, a cada palavrão; e, ao aproximar-se, os dedos da destra crispavam-selhe no cabo do quicé como cunhas.

Para Benedito, atado ao poste de tortura qual novo São Sebastião, as palavras do fazendeiro ressoavam-lhe à orelha sem significado, como um vago e longínquo zumbido de maribondos...

Desde que se sentira atravessado na Pelintra, uma prostração profunda, seqüência da excitação em que viera até aquele momento, paralisara no cabra a máquina do pensamento; e dali ao pelourinho do curral, tudo lhe parecera como num sonho, em que a sua personalidade semelhava desdobrar-se, e não era ele que ali estava jugulado pelo laço vaqueano, a arroxear-lhe os punhos intumescidos, e sim um outro indivíduo estranho, a quem era indiferente, com o qual não tinha a mínima relação.

A cabeça pendida sobre o peito, olhos esgazeados, olhava sem compreender, à espera de que aquele pesadelo de chumbo, à maneira do que lhe acontecia nas horas de febre — quando dormitava das soalheiras apanhadas na labuta do campo — se dissipasse ao vir da noite, nas primeiras frescuras orvalhadas do crepúsculo...

Que significava aquela lâmina reluzente, cujo fio o patrão experimentava na unha do polegar e a fitá-lo sinistramente? E a cadeia de idéias, de novo partida, se lhe embaralhava na mente, sem coordenação...

Modorrava...

Num gesto rápido, o coronel desabotoava-lhe d'alto a baixo as braguilhas da calça. A roupa caiu-lhe balofamente aos pés, em papos fofos. E a camisa muito curta, que o estertor desordenado das arcadas do peito soerguia a breves intervalos, mostrou uns flancos robustos, peludos, de Hércules rústico.

A operação foi demorada, cruenta, dolorosa, a julgar pela contração intermitente de seus lábios convulsionados. Mas a boca, os olhos, esses, não exprimiram uma só queixa... Deixou-se amputar em silêncio, sem movimento quase, como uma rês abatida.

Dados os dois talhos longitudinais, o operador espremera os testículos, e repuxando os cordões, aos quais deu em cruz a laçada de uso como se faz aos marruás, separou-os de vez, num corte hábil.

Estava consumada a operação.

Já aquele pastor intrometido não sairia mais pela redondeza a importunar-lhe as potrancas de estima...

João Vaqueiro, encostado ao poial, punhos cerrados, olhava aquela cena. Tratos, assistiraos a muitos, de formas e maneiras várias, nessa e em outras fazendas do interior. Mas como aquele, pedia castigo divino!

Entrou no seu rancho pobre de sapé, sobre cuja esteira de jirau perrengueava a mulher, numa recaída de resguardo de parto; acordou-a de manso, e baixo, quase choroso, avisou:

— É pôr-se logo de pé, que nos vamos daqui embora para nunca mais. A marca de tala deu boa porcentagem este ano; junto aos lavrados que possui, dá de sobra para a nossa desobriga. É pôr-se logo de pé...

Entretanto, o coronel, finda a tarefa, recolhia os despojos sangrentos de sua vítima num caco de telha, que depôs num moirão do cercado, onde já voejavam moscas varejeiras, e foi lavar as unhas sujas no limo do rego. Deu mais uma vez ordem a que atirassem com aquela rês pesteada no quarto escuro do tronco, e fechou-se na casa-grande, sem mais palavra.

Aos últimos raios de sol a ferir obliquamente a cumeeira da casa, naquela interminável tarde sertaneja de verão, uma alegre cavalgada apontou ao longe, na vargem em sombras, e veio estacar junto à cancela do mangueiro, que abriram, penetrando ruidosamente no pátio onde havia pouco se desenrolara aquela execução sumária.

Era um grupo de representantes do povo, coronéis e fazendeiros pela maioria como o senhor do Quilombo, que eleitos pelos círculos vizinhos, por ali iam de passagem, a assumir as suas respectivas funções de deputados e senadores no Congresso estadual.

Iam prazenteiros e satisfeitos, apressados como estavam em chegar ao término da viagem, ali se detendo apenas dous minutos para um aperto de mão ao correligionário político do lugar, uma das mais legítimas influências, e o mais forte esteio do partido no município...

Enquanto se serviam do café, contou-lhes por alto o fazendeiro o acontecimento do dia.

— Pois não, coronel!! — disse um da comitiva. — Fez muito bem; que essa gente, traste imprestável e traiçoeiro, só serve mesmo para nos dar prejuízos e cabelos brancos. Ainda a semana passada, morreu-me um dos tais, com uma dívida de um conto e quinhentos mil-réis no costado por pagar. E, se não mostrarmos energia, montam-nos o pêlo de botas e esporas... Gente ordinária até ali...

Tropas e Boiadas

Sinopse

Leia gratuitamente Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos, clássico regionalista brasileiro em domínio público. Esta edição reúne 14 contos e crônicas e os 12 capítulos da novela Gente da gleba, preparados a partir da transcrição integral da UFSC e cotejados com a edição do Instituto Centro-Brasileiro de Cultura para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

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