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Tropas e Boiadas

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Tropas e Boiadas

Capítulo 14 · Tropas e Boiadas

Gente da gleba - III

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Deixando atrás a longa trilha paralela do ferro das rodas, rolava um carro encosta abaixo, ao passo vagaroso da parelha de bois, o eixo lamuriando à distância ao atrito dos munhões, vindo das plantações do outro lado da baixada.

Ensangüentada, a tarde baixara o seu clarão crepuscular sobre a mata, ao longe, a cuja entrada dois jequitibás se alteavam, erectos e sobranceiros àquele mar de frondes, donde a sombra parecia avolumar por graduações, redourada e tênue ainda nas últimas cumeadas, dum azul sombrio e carregado sob as últimas ramagens, riscadas aqui, ali, dos primeiros pirilampos.

Aumentara a gritaria dos meninos no terreiro da fazenda. Uns, ao canto, jogavam o bete; escarranchados os demais na gangorra, cujo peão fazia eco ao rechinar distante do carro, que descia aos solavancos os brocotós do carreiro.

A camaradagem, acocorada ao longo dos puxados, comprimidos os pés em chinelões de caititu e botas de veado catingueiro, chupava pachorrentamente cigarradas, manejando o Malaquias uma alavanca no meio do terreiro, a cavar o lugar onde em pouco se aprumaria a bandeira do Divino.

João Vaqueiro alinhou as roqueiras em direção à estrada; e, como um moleque o acompanhasse curioso, ordenou áspero:

— Anda a ver uma cuia de farinha, ó pamonha, e mais a pólvora que sobrou da festa passada. Êh, pessoal, vamos cá esperar nhô Dito com uma salva de sustância!

— Olha que a Pelintra é reparadeira — avisou o nagoa. — O rapaz, se vier distraído, pode comer terra na força do estrondo.

— Quem, aquele? Tá, tá, tá, vai para outro lado com essa cantiga; ainda meninote, não havia poldro nestas redondezas ao qual não lhe desse na veneta tirar as tretas. Nhô Dito, esse, conheço-o melhor que as veredas deste sítio: peão de fiança!

E, enquanto proseava, punha a carga à roqueira; sobrecarregou-a com um punhado de farinha grossa de mandioca e duas pancadas secas da culatra no chão serviram de soquete.

— Lá vem ele, lá vem! — bradou um molecote empoleirado no moirão da cancela.

O vaqueano escorvou o ouvido à peça e correu a apanhar um tição no fogo que fizera entre as pedras da gameleira; mas alguém atalhava:

— Rebate falso, é a obrigação de sô Quim.

De fato, o agregado, naquele pedrês caolho, barganha infeliz duma lazarina nova, chegara à frente da sua obrigação, a Gertrudes, três meninas rechonchudas e bisonhas, e um par de pequenotes atarracados, d'olho esbugalhado e triste, a barriga a impar sob a correia da cinta — sinal característico de meninada molenga, afeita a roer torrões de barro às escondidas, pelos cantos da palhoça.

A mãe vinha adiante toda sestrosa, empurrando a filharada para a frente, o bócio avultado sob o carão empalamado, pito à boca, um lenço d'alcobaça atado à cabeça, as pontas reviradas para trás e os chinelões de marroquim amarrados numa trouxinha sob o braço, para calçar à hora da reza.

— Uma salva pra seu Quim e a comadre Gertrudes, minha gente — propôs Malaquias. E sem mais, descarregou o trabuco de que se armara.

Joaquim da Tapera voltou-se então, ufaneiro, na cutuca velha; aprumou o clavinote que trouxera a tiracolo para um galho de gameleira, pipocando estrondoso tiraço.

— Desapeia, desapeia, compadre, e chega pra cá, que seu Dito não deve tardar. Vamos todos arrebentar a pipocada tão logo apareça lá na vargem a rosilha.

O caipira afrouxou a barrigueira do pedrês, sacudiu de riba a sela, e as caçambas de pau entrechocando-se uma na outra, foi guardá-la ao paiol.

Na saleta da casa-grande acendiam-se agora as velas em torno da bandeira. Nhá Lica, a filha do patrão, já lhe pregara aos bicos os bambolins azuis e andava borboleteando em torno do altar improvisado, a enfeitá-lo com florinhas de papel de seda rosa. A Divina Pomba, mui mansa e serena, asas espalmadas, abria o seu vôo místico inclinada no fundo branco do andor, sobre uma toalha engomada de linho, ladeada por dous jarrões, que embalsamavam o aposento com a fragrância ativa dos resedás.

Cessara há muito a grita dos meninos no curral. O carro, aos avisos — êh! Barroso, êh! Relógio! — entrara lá fora no abrigo dos tropeiros. Desajoujados da canga, os bois foram soltos no mangueiro e o guia, um latagão destorcido, sobrinho de João Vaqueiro, que se tinha deixado ficar ainda aquele dia no canavial, veio enxaguar a poeira do rosto e as mãos à bica do monjolo, reunindo-se depois à rapaziada.

O lusco-fusco já se fazia cerrado nos arredores. Ia no céu, atrás da copa distante dos jequitibás, o brilho trêmulo de papa-ceia.

Súbito, no fundo da estrada, junto à nascente que os buritizais assombreavam, adensou uma nuvem de pó, que cresceu rapidamente, na marcha de mais em mais apressurada da mula rosilha.

— Agora é ele, agora é ele! — berrou o pequeno lá do poleiro da cerca.

João Vaqueiro encostou a brasa ao rastilho da peça. Ao estampido, a besta refugava, atravessando em dous trancos a cancela escancarada e veio célere bufando alto, esbarrar ao pé dos foliões, contida nas rédeas pela mão segura do cavaleiro. Este, garrucha em punho, aperrados os gatilhos, virara-se no arção, mirando a caveira de boi-espácio que alvejava na forquilha do cercado.

Joaquim da Tapera fez ainda fogo com o clavinote. Então o recém-vindo desfechou de vez os dois canos, saudando a companhia.

Lá na forquilha da cerca saltaram lascas das chanfras do espácio.

Vitoriava-o uma aclamação geral. Apeado, as pernas meio trôpegas da caminhada, dirigiu-se para a casa-grande, onde o coronel relia àquela hora, sob a luz baça do lampião de queresone, um número atrasado da Folha de Goiás,recostado pachorrentamente na sua rede de embira.

— Bênção.

fazendeiro tirou as cangalhas que pusera para ler, chupou uma última fumaça à ponta sarrosa do cigarro e fez um gesto vago.

— Deus o abençoe. Não me manda nada o major?

— Trago aqui na patrona as cartas do correio e um maço de jornais. O major manda dizer que rompeu com o partido, à vista das últimas eleições; o resto vem aí relatado na carta.

Entregou os objetos e foi avançando para o interior, as botas esturradas de mormaço ringindo ásperas no assoalho desigual, rumo da cozinha. Lá provava d. Luísa o caldo à comezaina do dia, azafamada numa roda-viva de mulheres.

Beijou-lhe com respeito os dedos nodosos da mão reumática e trabalhadeira. Foi tirando do piquá as encomendas e como a boa senhora se pusesse logo a esparrimar umas pitadas de canela no pratarraz d'arroz-doce, indagou apressado:

— Dindinha não tem mais precisão de mim para alguma cousa?

— Ah, sim, toma tento em Nequinho; diacho de pequeno sapeca, não me deu sossego todo o santo dia, a querer provar o ponto a quanta tachada houvesse. Sentido naquele capetinha, não fosse também querer deitar fogo às roqueiras...

Em pouco, na sala toda luzes, por cuja janela aberta o clarão dos círios vinha alastrar-se cá fora, no terreiro, principiaram as rezas em torno do altar rústico.

Malaquias dera desde cedo a mão de cal ao mastro, que branquejava ao longo da casa, sobre dous cavaletes, cintado todo d'anéis d'oca e tinta a três cores. Era um magnífico cedro, que ele próprio fora tirar às terras da baixada, alto, liso, direito, medindo de ponta a ponta uns sessenta e seis palmos bem puxados.

Os moradores do sítio, ajoelhados até o fundo do salão, iam engrossando o vozerio das mulheres, reforçando atrás, gradualmente, a rogativa. Fazia-se uma pausa lenta, após a qual a voz afinada e suplicante de d. Luísa evocava novo santo, tirando a ladainha.

À saída, Nequinho distribuía os rolos de cera, enrolados em talas de taquaril, que cada qual foi acendendo ao lume do vizinho; e a procissão se fez breve, levado o andor à frente por quatro meninas, acompanhando as cercas dos currais, dando voltas às gameleiras, em torno do casario dos agregados, as luzes a tremeluzir na noite clara, sob o límpido luar do sertão, vindo por último esbarrar junto à espiga do mastaréu.

Fez-se um grande círculo. O coronel colocou a bandeira. Benedito adaptou a maçaneta, segurando-a a prego.

Rasgando em raiva o ar, estrugiu no alto um rojão. Era o sinal. A camaradagem agarrarase ao longo do mastro e à garrulada dos pequenos e estouros de foguetes, puseram-no acima, aos vivas e brados ao Divino Espírito Santo.

Um momento, no afã da ascensão, o pesado madeiro pendeu para o lado da casa e esteve vai não vai a cair sobre os telhados.

— Arriba! arriba! — urrou Malaquias, o mais entusiasta, puxando pela peitaria.

— Puxa! puxa!

— Arriba, homem — gemeu sufocado Joaquim da Tapera, arcando de seu lado com o maior peso.

— Agüenta, agüenta, meu povo — acudiu Benedito, metendo um forcado de escada na parte perigosa.

A rapaziada respirava aliviada, agüentando nas cordas, previamente atadas ao longo do espigão; e aos atropelos, trataram de encher o buraco. Pedras, calhaus e terra socada atupiram logo a cova; e o mastro, já seguro, aprumou-se airosamente, mui branco em sua mão de cal, os anéis em ressalte na noite luminosa e a bandeira lá no topo balouçante, sobre a cabeça de Malaquias, que se encarniçava embaixo, em torno da raiz, remoendo cantorias, a manejar o pesado macete.

Poucas braças adiante, junto ao calvário da fazenda, donde pendiam, esculpidos em madeira, os sete instrumentos de tortura, tinham sido levantadas as cruzes de bananeira, d'alto a baixo espetadas por um renque paralelo de pauzinhos destinados a suporte das luminárias. Estas apareceram logo, em casca despolpada de laranja-da-terra, a torcida grossa d'algodão ao centro, embebida em azeite, trazidas em bandejas à cabeça do mulherio, como ex-votos piedosos de passadas promessas.

Malaquias, paciente, com unção, foi dispondo as luzes nos espeques; e, vistos à distância, eram dous grandes cruzeiros luminosos, a rebrilhar sob a paz radiosa daqueles céus e ante a serena brancura do luar, que varria longe os escampos solitários.

D. Luísa surgiu no limiar da casa-grande, um tabuleiro de tigelinhas em cada mão; arrastando-se de joelhos, veio depô-las ao pé do mastro, que osculou repetidas vezes, em fervorosa contrição. Só assim cumpria de todo a promessa que fizera antes pelo restabelecimento de nhá Lica, presa das febres intermitentes quando da romaria do Muquém.

Nequinho, desenvolto, numa arteirice de colegial vadio, aproveitou-se logo daquelas luzes e desenhou em arco, ao redor da bandeira, em letras de fogo: Viva o Divino.

Arrematou-as com um enorme ponto de exclamação e às piruetas, de súcia com a molecagem dos agregados, atirou-se a ver quem saltava mais alto a fogueira do pátio.

Nhá Lica recolheu-se depressa ao interior da casa, onde tinha ordens a comandar.

A ceia, lauta, duma fartura de senhorio feudal, fumegava no varandão, esclarecida a intervalos pelos candeeiros de quatro bicos. A família do fazendeiro agrupou-se em torno do chefe e para o fundo, segundo o costume tradicional das velhas colônias, o pessoal do sítio, por graduação de idade e serviço.

Deram pela falta do Nequinho. Apareceu logo, à mão de Benedito, sujo de cal, amarrotado o lindo terno d'azul-ferrete à marinheira, pé fincado atrás em oposição, arrepiadinho de ira. O moço levantou-o nos dedos, veio assentá-lo ao pé de nhá Lica e foi tomar assento do outro lado da mesa, junto à velha senhora.

Quisera o meleiro, de parceria com os moleques, marinhar-se ao alto do mastro e ele, Dito, obedecendo ao aviso da Dindinha, apanhara-o a meio caminho.

O pequeno desceu do tamborete e veio cavalgar a perna do coronel. A voz travada, explicava ainda o caso: seu Dito que se intrometesse com o que era da sua conta, não fosse mandar nos outros. Queria apenas ser o primeiro a beijar lá em cima a estampa do Divino, e virar a bandeira para o lado da casa.

O fazendeiro embalava-o na perna, gravemente, em silêncio. Mas nhá Lica, fitando o moço, reclamou assustada:

— Veja só! que maldade, mordeste-o na mão!

Uma pequena mancha rubra, vincada de dentinhos afiados, pontilhava o dorso da mão do rapaz, a ressumar umas gotículas de sangue.

Embaraçado, num acanhamento súbito, recolheu a destra debaixo da toalha e disse chocarreiro:

— Ora, ora, não foi nada, um arranhão; amanhã faremos novamente as pazes. Mas o coronel encrespara o sobrolho, descia do joelho o filho e ralhava severo:

— Não fosse hoje dia de festa e levarias uma tunda de arnica e salmoura, para aprender a respeitar os mais velhos!

— Menino de hoje — disse d. Luísa reconciliadora — não guarda mais respeito a ninguém; olha, seu briquiteques, este moço que aqui vês, estás escutando? Já o sujaste muitas vezes nos braços, quando trazias cueiros!...

— Pois sim, mas agora sei português e geografia, e seu Dito levou uma manhã inteirinha a escrever um bilhete que mandou depois ao povoado...

Benedito disfarçou, carregando nas talhadas de leitão recheado que estavam à sua frente. Nhá Lica abstraíra-se da conversa, atarefada em dar de comer a uma pequenita birrenta, sua afilhada, que pusera ao colo.

O fazendeiro, melhor humorado, cofiava a barba, asseverando:

— Gente de agora, nasce falando; influência do regime, fosse lá no tempo da monarquia...

Espalitava os dentes, espreguiçando-se no espaldar, repleto. Os subordinados, um a um, já se iam retirando silenciosamente; e as mulheres do sítio, assentadas como trouxas aos cantos, pelos batentes da cozinha, distribuíam a refeição à filharada, amassando entre os dedos a comida, a empurrar com o polegar os capitães de tutu de feijão para a goela dos pequenos, que engoliam sem mastigar, como patos.

No paiol, repenicando na prima, já ensaiava João Vaqueiro um descante. Malaquias logo o seguiu, a respectiva viola à bandoleira; depois outro, mais outro e outro ainda. O resto formou alas do lado oposto e caíram todos com entusiasmo, batendo palmas, na velha dança-decamaradas.

No terreiro, à míngua de azeite, morriam as lamparinas dos cruzeiros; e o micaruloso luar do sertão, tão límpido e sugestivo naquelas terras, entrava por toda parte, espancando penumbras, devassando meandros, coado aqui pela galharada das gameleiras, alastrando-se acolá sem mancha e sem obstáculo pela lhanura plana dos chapadões.

E até tarde chorou no paiol a viola, na toada doída da trova sertaneja.

Tropas e Boiadas

Sinopse

Leia gratuitamente Tropas e Boiadas, de Hugo de Carvalho Ramos, clássico regionalista brasileiro em domínio público. Esta edição reúne 14 contos e crônicas e os 12 capítulos da novela Gente da gleba, preparados a partir da transcrição integral da UFSC e cotejados com a edição do Instituto Centro-Brasileiro de Cultura para leitura online, busca, estudo e pesquisa por inteligência artificial.

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