Universo da obra
Universo da obra
Benedito pensava a Pelintra. Uma dobra dos baixeiros pusera-a sentida do espinhaço no passeio que tinha feito pouco antes em companhia dos filhos da fazenda, ao sítio próximo. Vieram chamá-lo a mando do patrão.
Dependurou o chifre de tutano com que lhe engraxava o pêlo na argola de recavém dum carro, saiu às pressas do puxado dos tropeiros, rumo da casa-grande, onde o fazendeiro media impaciente as passadas ao longo do varandão.
Caminho andado, João Vaqueiro fizera-o ciente do sucedido — fugira o Malaquias!
O nagoa, furtando-se à velha dívida do ajuste, abrira o pala à meia-noite, montado na melhor besta de sela da fazenda.
Galgando os degraus do varandil, viu logo pelo jeito que o caso era sério. O coronel passeava os quatro cantos da sala, carrancudo, repuxando as falripas da barba grisalhona, o olhar atravessado e duro sob a ruga da testa, num daqueles seus terríveis e freqüentes acessos de mau-humor.
Era quase ao anoitecer. Pelos tampos escancarados das janelas, enquadradas em portais de jacarandá, a luz crepuscular entrava difusamente, alumiando ao fundo o ouro fulvo das peles d'onça que forravam as paredes, esbatendo-se entre os rosários de orelha d'anta e veado entrecruzados e pendentes do teto, destacando aos renques — bizarramente — a alvura das caveiras de capivara, galheiro e queixada que ate stavam aos cantos, ao gosto das fazendas do interior, as proezas venatórias do chefe.
Sob aquele peso de troféus, de rifles, clavinotes e caçadeiras dependuradas dos cabides, o fazendeiro media às passadas o aposento, como outrora o senhor feudal cruzando as lájeas de sua sala d'armas, a meditar a baixa justiça sobre a cabeça redonda e vil dum vassalo acusado de felonia e traição...
Mal o divisou, foi advertindo ríspido:
— É aprontar-se já e partir sem detença pela madrugada. Não descanso mais uma só noite sossegado, enquanto não ver aquele ladrão na sala do tronco.
— A Pelintra veio sentida do Mamede, mas não havia de ser por isso que o negro deixaria de vir...
— Pois é escolher aí no pasto o animal que mais convier. Quanto a dinheiro para despesas, vem aqui ter comigo assim que tudo estiver arrumado. Gaste eu um conto de réis nesta empreitada, mas a fama do Quilombo não há de ficar desmerecida; nesta fazenda cachorro vadio teve sempre ensino, ninguém foge aqui ao trato firmado! É dar em riba do negro e trazê-lo amarrado pelo cangaço ao moirão do curral, que o resto havemos de ver.
O outro não estranhou, acostumado àqueles repentes. Coçou a orelha sob a aba do chapéu, e, sem mais, foi tratar com zelo dos aprestos da viagem.
Sabia-a arriscada, melindrosa mesmo, dado o desapego do nagoa ao perigo, e o seu tino tantas vezes comprovado em manhas e astúcias para enfrentar ou esquivar-se a quem se lhe atravessava no caminho. Também a ele, Dito, não faltava jeito... Haviam de ver.
Foi ao quarto, em separado num dos ângulos do casarão; abriu uma canastra, vinda com ele em pequeno dos Dourados, quando lá mandara buscá-lo a Dindinha. Trazia ainda tacheadas sobre a tampa de couro, as iniciais de seu finado pai. Pôs-se a separar atento a roupa — dous parelhos de brim riscado, ceroulas d'algodão grosseiro, três camisas de morim, que lhe dera a madrinha pela véspera do Natal. Levaria aquilo tudo sob os coxonilhos dos arreios, reservando os alforjes da garupa para a matula, as mezinhas, se houvesse precisão, e demais objetos miúdos. Enfim, ali estava todo o necessário para quem, como ele, ia viajar à escoteira. Despendurou do cabide o rifle e, à luz da candeia que acendera, pôs-se a examinar com cuidado o mecanismo da culatra, fazendo mover lentamente a alavanca do gatilho. Limpou-a minuciosamente, meteu pelo cano de reserva os doze cartuchos precisos, fechou a arma e foi pendurá-la à bandeira da porta, para quando saísse.
Nada, o nagoa era arteiro, trazia patuá bento contra ferro alheio; e, para gente curada, só mesmo calibre 44 e a pontaria de seu olho. Pois sim, que com ele, não havia reza nem bentinho; era tiro e queda.
Enfim, ia prevenido.
Demais, não era essa a primeira vez que o patrão o enviava à pega de camarada fugido. Tinha até fama o seu faro nas redondezas. Em apanhando a catinga, ia direito no rastro que nem cachorro perdigueiro e não havia então tirá-lo da pista enquanto não trazia filada a caça à porteira do curral.
Ainda duma vez...
Mas para que lembrar! Tinha ainda no braço os caroços de chumbo com que o chamuscara um cigano, ladrão de cavalos, que andava a limpar as pastarias dos arredores. Ao estampido, caminhara que nem canguçu na fumaça e trouxera-o ali amarrado ao moirão, onde o coronel, à vista de todo o pessoal reunido, mandou aquele mesmo Malaquias chegar-lhe aos untos do traseiro uma coça mestra, rapar pestanas e cocuruto à moda de frade, salvo seja, e depois, com desprezo e aos risos da camaradagem, soltá-lo no campo, assim como uma rês capada...
Outra, foi na romaria da Trindade. Um baiano apessoado batera uns contecos ao patrão no jogo. Ele bem observara, postado do lado de fora, a tramóia. O meleiro ia ajuntando uma por uma as pelegas, de que fazia um bolo e que metia no bolso interior do jaleco, proseando com ufania, a entreter o coronel; este, mui confiado, a praguejar contra o azar do marimbo que o perseguia, atirando nota sobre nota na mesa.
Aquilo cheirava às léguas a embromação. Com disfarce, descobriu logo que o gajo, de súcia com o parceiro, manejava com outro baralho, que traziam escondido no forro dos chapéus. A horas tantas, quando já se levantavam satisfeitos, saltou-lhes à frente, a garrucha na destra, a franqueira na outra, desmascarando num berro a esperteza.
Foi uma roda-viva. Um deles pôs-se logo a tremer, acovardado; mas o baiano, sujeito atirado e quizilento, encrespou o sobrolho, rugiu cinco desaforos e quis abecá-lo pelas costas, armado dum sabre-punhal que sacara do cabo do rebenque.
Homem aquele de peitaria! Mas não dera tempo; já o apertava num canto, riscando-lhe de sobreleve a faca pelo ventre, dominando-o com a garrucha, até que, rendido, o forasteiro achou por seguro chegar às boas, restituindo a cobreira, sempre protestando no entanto, o descarado, contra a sua parte na maroteira...
Ah, tempo! Metesse na veneta do fazendeiro fazer-se oposicionista, não havia mãos a medir com tantos seu-Dito-faz-isto, seu-Dito-desmancha-aquilo!
Verdade seja, não mandara nunca uma criatura de Deus desta para melhor, não, graças ao Santíssimo; mas não era que carecesse de ocasião. Santa Maria! brigas, tivera-as muitas, raras por provocação, seja dito de passagem, que era lá de seu foro mui ordeiro e avesso àquelas exibições, antes de natural lhano e metido em seu canto; mas, as mais das vezes, birras do patrão com a gente da redondeza, no que o servia em reconhecimento de ter ido recolhê-lo aos Dourados, quando lá ficara órfão e só; e depois, pela Chica, mulata que por ser mulher, tinha seu quê de faceira, gostando de estadear o talento do amante quando se lhe faziam de engraçado.
Em épocas de eleições, quando o coronel estava contra o governo, então, andava numa corre-coxia dos trezentos, tais os embrulhos que surgiam. Na vila, às vezes, dançava alto o pau; não raro, eram os tiros que se não sabia donde partidos, as teimas para convencer o votante contrário, enfim, o costume da terra. Eram ordens pra aqui, ordens pra ali, arregimentando o pessoal da fazenda, garantindo a chapa, o diabo!
Malaquias fora sempre um dos que mais o ajudavam naquelas alhadas. Nem mesmo sabia por que fugira o preto. Estimado da casa, afeito àquele serviço desde rapazote, não podia ganhar fora mais do que lhe davam na fazenda. Feitiçaria? Não acreditava, apesar de tudo, naquelas baboseiras; que ali, naquelas cercanias, eram ele e nhá Lica, talvez, os únicos que não criam nessas imundícies... Feitiço, talvez, mas dalguma daquelas mulheres que tinham pousado a semana passada no puxado dos tropeiros, em companhia duns soldados em diligência para as recebedorias do Paranaíba. Isso sim, acreditava; tanto que elas tinham passado a noite toda em gaitadas e cantorias, enquanto o cabo da tropilha tocava a sanfona de sobre o jirau dumas cangalhas, as espingardas empilhadas ao canto, o chapelão de palha com fanfarrice batido e acampado à banda. Por sinal que uma daquelas raparigas veio comprar à casa-grande meia garrafa de caninha e fora o Malaquias quem lha medira no quarto da armazenagem. Não fosse o preto ficar embeiçado da roxa, e daí os propósitos da fuga.
Mas abanou a cabeça, duvidando:
— Qual! O nagoa fugia sempre ao rabicho das saias e não seria daquela vez que se deixaria tentar.
Quanto à besta de estima, sabia-o bem, não havia ali tenção de furto; Malaquias levara-a por necessidade de montaria ligeira que o apartasse depressa daqueles sítios.
Então, que seria?
E o cabra, apoiado à cabeceira da cama, entrou a matutar fundamente. Lembrou-se pela vez primeira — ele que a praticava instintivamente — que era livre e movia-se para onde bem queria, prendendo-o apenas àqueles lugares o hábito da meninice e a sua gratidão para com os donos da fazenda, enquanto que a condição dum camarada era muito diferente, tolhida a liberdade pelo ajuste do fazendeiro.
Geralmente, o empregado na lavoura ou simples trabalho de campo e criação, ganha no máximo quinze mil-réis ao mês. Quando tem longa prática no traquejo e é homem de confiança, chega a perceber vinte, quantia já considerada exorbitante na maioria dos casos. É essa a soma irrisória que deve prover às suas necessidades. Gasta-a em poucos dias. Principia então a tomar emprestado ao senhor. Dá-lhe este cinco hoje, dez amanhã, certo de que cada mil-réis que adianta, é mais um elo acrescentado à cadeia que prende o jornaleiro ao seu serviço. Isso, no começo do trato; com o tempo, a dívida avoluma-se, chega a proporções exageradas, resultando para o infeliz não poder nunca saldá-la e torna-se assim completamente alienado da vontade própria. Perde o crédito na venda próxima, não faz o mínimo negócio sem pleno consentimento do patrão, que já não lhe adianta mais dinheiro. É escravo da sua dívida, que, no sertão, constitui hoje em dia uma das curiosas modalidades do antigo cativeiro. Quando muito, querendo dalgum modo mudar de condição, pede a conta ao senhor, que fica no livre arbítrio de lha dar, e sai à procura dum novo patrão que queira resgatá-lo ao antigo, tomando-o ao seu serviço. Passa assim de mão em mão, devendo em média de quinhentos a um conto e mais, maltratado aqui por uns de coração empedernido, ali mais ou menos aliviado dos maus-tratos, mas sempre sujeito ao ajuste, de que só se livra, comumente, quando chega a morte.
Benedito sentiu aquilo tudo, confusamente; mas nem por sombra lhe passou pelo juízo contrariar as ordens do coronel. Desde pequeno, achara as cousas naquele pé, e assim como estavam, haviam de continuar até quando fosse Deus servido em comandar o contrário.
O preto fugira, estava ali o fato; devia ao patrão novecentos e cinqüenta e cinco mil-réis, eis a circunstância; mandavam-no buscá-lo: havia de vir. Os meios, pouco importavam; morto ou vivo, filado à gola pelo sedenho ou apenas o par de orelhas como prova, havia de vir.
— Nhô Dito, olha que a ceia está a esfriar — arrancou-o daquelas preocupações a voz de João Vaqueiro, surgindo à abertura da porta.
No varandão, agora deserto, provando uma colherada d'angu de caruru que lhe servia a mulher do caseiro, pôs-se a ruminar os planos de campanha.
D. Luísa apareceu do interior e colocou sobre a mesa um sapiquá atufado, aconselhando maternal:
— Muita prudência, menino.
Não fosse atirar no outro sem necessidade; também, nada de afoiteza em expor-se à ira do camarada.
A Dindinha que não se arreceasse, sabia com quem lidava; demais, se o preto emproasse, ali estava ele mais a carabina para quebrar as proas que fossem aparecendo.
E como nhá Lica surgia no limiar, iluminando com o seu perfil suave a moldura enegrecida da porta, empinou o busto orgulhoso, mão à cinta, sobre o cinturão de sola larga, onde rebrilhava o cabo niquelado da franqueira.
— Olha, deste lado vão a paçoca, um frango recheado e o mexido d'ovos em separado na lata — disse a senhora. — Do outro, café, o açúcar em latinhas e umas cocadas que nhá Lica aprontou.
— Não era preciso tanto cuidado — agradeceu meio confundido. Tomou-lhe a bênção rápido, cumprimentou a moça e foi despedir-se do pessoal da casa, àquela hora, como de costume, reunida no paiol de milho, em comentários ao caso do dia.
— Aquele negro tem sorte — dizia Joaquim da Tapera. — Caindo no mundo, ninguém mais lhe bota a vista em riba. Cabra destorcido! Matreiro que nem lagartixa, com a cabeça diz que sim, com o rabo diz que não. Ali está a marca que fez uma vez para mostrar como se empalma uma faca nesta terra! Traçou uma roda de palmo na parede, dividiu-a em doze riscas e à distância de seis passos não errou um só bote! Demais, arrepiado como ouriço-cacheiro; diabo como aquele não entrega à toa os pulsos à correia.
— Pois, seu Quim — respondia João Vaqueiro —, se ele é que nem martinho-pescador, que frecha certeiro o peixe, tem pra frente nhô Dito, que é como tucano, quebra tudo que o bico alcança.
— A pois, lá diz o rifão, dois bicudos não se beijam — comentou alguém.
Entrando, ele foi assentar-se num amontoado de suadouros de cangalha que ali estavam empilhados para atalhar e pôs-se a ouvir em silêncio a conversa.
— Seu Dito, toma tento com aquele crioulo, caso venha a topá-lo, o que duvido — avisou Fidélis. — É bicho sarado, tem mandinga contra arma de fogo. Mesmo ferro benzido, escorrega naquele couro que até parece bagre fora d'água. Toma sentido!
— Essa cantiga comigo não adianta — disse afinal. — Não há como pulso firme e franqueira de fiança, sempre pronta na ocasião. O mais, conversa fiada...
— Ora, ora... Não acreditava! — cortou o outro melindrado. — E esta! Só mesmo um moço da cidade. Nem parecia até que fora criado naqueles fundões. Conversa fiada, veja só!...
E desatou a rir, constrangido. Depois:
— Pois vou contar um fato, acontecido com o meu defunto compadre Desidério, cabo de polícia no tempo da monarquia. Andava aí pr'esses sertões um tal Deodato, bandido de profissão, com dezoito mortes e tantas no costado, e um sem-número de falcatruas nos povoados, a caçoar do governo com as arrelias e façanhas de todo o dia, matando hoje um homem aqui, forçando amanhã uma mulher ali, ora nos Gerais, ora nesta província, e, apesar dos prêmios e a fama que adviria a quem o prendesse, sem poder as diligências jamais botar-lhe o olho em cima. Crescendo de atrevimento com a falta de ensino, chegou a penetrar nas vilas à luz do meio-dia, ameaçando céus e terra, pondo o povo todo espavorido com as bravatas que arrotava, e faria mesmo, caso piasse alguém ao lado. Duma feita, penetrou na cadeia do lugar onde estava arranchada a escolta encarregada de prendê-lo e foi desancando do primeiro ao último com o cabo do chicote, enquanto dous de seus parceiros mantinham em respeito, com a boca dos trabucos escancarados da soleira, a soldadesca surpreendida. Vivia num estadão, garantido até pelos chefes de partido, que aproveitavam os seus préstimos de capanga para negócios de politicagem. Deodato trazia sempre consigo um bentinho no pescoço, bentinho em que depositava muita fé e é aqui que bate o ponto da história.
“O meu compadre era um homem às direitas. Metera-se-lhe na cachola que havia de dar cabo do bandido, e uma vez assim ateimado, não havia por onde torcer. Ele batia pois essas estradas e cafuas, à frente de quatro cabras decididos, e tanto viramexeu, que uma noite, dando cerco a uma tapera à beira do Uru, onde tinha notado uns sinais que o punham assofismado, calhou que lá dentro se encontrasse de pernoite, sozinho, o afamado assassino. Deram volta à casa, e um deles foi bater à porta da frente, de cujas fendas gretadas de caruncho saía um longo crivo de luz. Os demais ficaram de tocaia, estirados atrás das moitas de gravatá e tiririca do arredor, vigiando as saídas.
“— Ó de casa — bradou o soldado com voz firme. Respondeu-lhe tremendo estampido de clavinote, que escumou de vez a madeira da porta, e a fera pulou para fora, o facalhão em punho. O rapaz ouvira antes o estalido da arma aperrando e teve tempo de desviar-se da descarga. Ajoelhado de banda, fez-lhe fogo ao peito. Os companheiros descarregaram por sua vez, da tocaia, as pederneiras. Deodato, mortalmente baleado, caiu sobre um joelho; e o destacamento, carregando de novo as espingardas, deu-lhe mais duas ou três descargas à queima-bucha, quebrando-lhe um a um, por quinze sangrentas feridas, os ossos do corpo. Foram depois pernoitar meia légua adiante, numa fazendola, donde voltaram com enxadas ao romper d'alva, para dar sepultura ao criminoso e cortar-lhe as orelhas. Conforme o uso, elas iriam dar testemunho daquele feito. O dia clareara já de todo, o sol mostrava-se meia braça acima dum oiteiro, quando chegaram à tapera. Deram um rodeio ao oitão, à procura do morto. Não o tinham encontrado no lugar em que caíra varado de papouco.
“O ervaçal espezinhado, coágulos frescos de sangue umedecendo o orvalho e que se alastravam agora em largas manchas sobre a grama, diziam bem que era ali exatamente o local onde sucumbira de vez o bandido sob os couces d'armas da patrulha. Mas o corpo, que é dele? Admirados, zanza pra'qui, zanza pra'colá, na suposição de que uma vara de bichos do mato o tivesse arrastado para longe, eis que o anspeçada, afoitado numa capoeira de assa-peixe e juábravo, solta um grito de espanto, clamando socorro. Acudiram todos. Os cabelos em pé, olhos esbugalhados, o rapaz apontava para um claro da saroba. E aí está o que viram: encostado a um cupim, as pernas direitas, segurando numa das mãos o clavinote, a outra aconchegada ao peito, Deodato olhava-os também, mui vivo, procurando armar o cão emperreado do seu boca-desino... O anspeçada, sem relutância, meteu a arma à cara, e estava para disparar, quando o compadre atalhou:
“— Fica quieto, não é preciso gastar mais munição com esta cobra; deixa-a cá comigo. — Achegou-se com cautela e afastando a mão do jagunço, que procurava embalde obstá-lo, arrancou-lhe do peito o bentinho, junto a um patuá, em cujo forro estava cosida a reza brava contra bala! Assim que lho tirou, o homem caiu que nem fruta podre, para nunca mais se erguer. Como esse, tantos casos mais; qual, ser curado é cousa séria; perigo, e grande, corre quem se mete com esse povo. E o Malaquias, afirmo porque vi, sempre trouxe no pescoço um breve...”
— Por mim — ponderou João Vaqueiro levantando-se — acho que a melhor reza é confiança no santíssimo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e a carabina de nhô Dito, que nunca negou fogo.
— Pois não, pois não — confirmava o outro, arrastando um couro do fundo do paiol; mas que o moço fosse sempre prevenido.
E começou a preparar a cama, arranjada com um ligal aberto sobre a esteira de espigas, forrando-a depois com as mantas e lombilhos d'arreios.
Um acauã guinchava à distância, na noite escura.
O minguante, esguio e tardo, principiava a espalhar, entre nuvens, os seus primeiros bruxuleios de luz mortiça por detrás das últimas serranias do nascente.
E, no paiol da fazenda, a camaradagem conversava ainda em torno da chocolateira fumegante, preparando nova infusão aromática de folhas de limeira-de-umbigo com rapadura, enquanto pelo sertão sem termo, de cotovelo a cotovelo das estradas, de barroca a barroca, ia o grito d'alarma das aves noturnas.
Através das persianas cerradas da janela de nhá Lica, uma luzinha brilhava ainda.
Que estaria a fazer àquela hora a filha do patrão? pensou Benedito, recolhendo caminho de seu quarto de solteiro.
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