Universo da obra
Universo da obra
Ainda não havia de todo anoitecido, quando avistaram, dentre currais, os telhados do Quilombo, para onde tangia João Vaqueiro uma ponta de gado. Na tarde que caía, o vulto do cavaleiro, cortando a galope a frente dum garraio refugado na porteira, agitava-se ao longe como um pequeno ponto sujo no horizonte; e até cá embaixo, na vargem por onde subiam, vinha rolando o canto do vaqueano, num supremo e vigoroso lamento:
— Êh côou!... Êh! côou!... Êh!...
Ecoava tão perto o aboiado, no ar translúcido da tarde, junto aos ladridos do cão pastor mordendo a focinheira da rês espirrada, que um momento entreteram a ilusão de alcançá-los logo à cola, mal galgassem a encosta dos buritis, embora o comprido estirão a palmilhar que mediava ainda a vargem da fazenda.
E era já noite fechada quando transpuseram o mangueiro, manquejando como vinha o Malaquias, com uma estrepada de tucum no calcanhar, que inchara e se pusera a sangrar desde o pouso da boca da mata. A cancela bateu, num chiar prolongado de guariba malferida; e os dois endireitaram para o lanço principal, em silêncio àquela hora e onde as luzes permaneciam apagadas, como mansão sem moradores.
— Ó de casa! Êh, gente! Ó vaqueiro! — gritou Benedito.
João Vaqueiro pôs o nariz fora do paiol, onde recolhia os arreios, e numa mal disfarçada satisfação, retrucou:
— Êh, de fora! Ora essa, êh! Nhô Dito! Cá chegou o homem, enfim.
Arrastando as chilenas, correu a apertar-lhe as mãos, segurando as bridas para que apeasse, todo exclamações, mal dando tento de Malaquias, que se derreava encapotado à sombra do batente; e saía já às carreiras, a dar a novidade ao pessoal, quando o outro o interpelou de novo:
— Mas não se vá, homem de Deus, espera aí um tiquinho; que é do patrão mais a família?
Nhô Dito não sabia, mas tinha havido mudanças em casa; a patroa fora no princípio do mês passar com nhá Lica uma temporada em Curralinho, onde ia repor Nequinho na escola. Quanto ao patrão, andava lá pelo povoado, às voltas com os negócios da política; mas não seria aquele o transtorno, mandava um próprio avisá-lo, e de manhãzinha estaria em casa ou enviava as suas ordens.
Não sabia por quê, mas aquela mudança contrariou o moço; farejou qualquer cousa no ar. Apressou-se porém em recolher o nagoa à casa do tronco, o antigo legado da escravatura, onde, ao capricho dos fazendeiros, recebiam correção os camaradas malandros.
Desfeito o jejum forçado em que estava até aquela hora, pela pressa de chegar e dar cabo de sua missão, no rancho do vaqueiro, cuja mulher lhe serviu um quibebe de abóbora que foi depois levar ao Malaquias, dirigiu-se para o seu quarto de solteiro, onde um sono solto, sem sonhos, o empolgou numa assentada, compensando as horas mal dormidas ao relento, e acabando de vez com aquele mal-e star da viagem acidentada.
Acordou dia alto com o estrépito dum animal que transpunha a cancela, e a voz pigarrosa do coronel trovejando no terreiro. Deixou-se estar ainda algum tempo no leito, numa quebreira avassaladora, olhos no teto, a divagar sobre toda aquela existência ali decorrida, onde a visão de nhá Lica surgia agora iluminada duma nova luz, numa suave auréola de perdão e reconforto, a tirá-lo duma senda por onde cega e erradamente enveredara antes, e talvez, talvez... o verdadeiro descanso, a verdadeira felicidade, poderiam vir a bafejá-lo em cheio...
Mas a voz do fazendeiro, que mais brava e trovejante se escutava a espaços, arrancou-o de vez à inconseqüência daquele vago devanear. Levantou-se numa sacudidela, correu para a casa do tronco, na dependência à banda, onde o coronel, cercado de seus homens, empunhava o rebenque, ameaçando o preto acorrentado ao cepo, que, sem proferir palavra, olhava obstinadamente as cadeias do pulso.
O fazendeiro mal correspondeu à sua saudação. Voltado para os camaradas, ordenava imperioso:
— Que um de vocês chegue para aí às direitas o relho neste negro.
Os homens entreolhavam-se, confundidos. Não estavam acostumados àquele mister. Mandassem-nos assaltar a urna no povoado, sob o ferro dos contrários, correr com um bando de ciganos que talasse os campos da redondeza, e estavam ali todos prontos a enfrentar o perigo, pagando mesmo com a vida, se preciso fosse, o seu devotamento.
Mas surrar um preso, atado sem defesa àquele tronco, excedia as raias de seu entendimento, nem tinham ânimo para tanto.
A nobreza daquelas almas brotava-lhes nítida do coração à flor dos olhos, e somente o cenho duro e feroz do senhor dava largas a um ódio surdo, implacável, que lhe punha tremuras na fala e os demais transidos, hesitantes entre desobedecer ou cumprir uma ordem que lhes parecia fora de todos os preceitos da lei humana...
— Ninguém?! ninguém?! — resfolegava a custo, purpureado o rosto de cólera. — Pois eu mesmo vou mostrar como se ensina um cachorro!
Enrijado, o azorrague estalou no ar e desceu sibilando sobre o lombo nu de Malaquias, donde não tardou em pouco o sangue a ressumar.
O preto apanhou calado, batendo a cinza do cachimbo, que acendera momentos antes. Àquela resignada mudez, a encher de espanto os demais, afrouxou a sanha do algoz, que aplacado já à trigésima vergastada, rosronou d'entre dentes:
Tens para hoje a tua conta, veremos o resto depois. E olha que não sou dos mais vingativos, fosse noutra fazenda e a tua medida seria acrescentada...
Enfiou o chicote no cano da bota e meteu-se pelo interior da casa, onde não mais foi visto o resto do dia.
Benedito achou-se às voltas com um grande arrependimento. Ter ido a tão longes terras buscar o nagoa, para assistir àquela cena! Das outras vezes, cumpria relevar, fora sempre mais compassivo o patrão. Enfim, desobrigara-se do seu dever; que desse o coronel satisfações a quem de direito. Agora, só tinha em mente um pensamento: rever nhá Lica.
À noite, foi ter ao paiol, onde se reuniam os camaradas, a distrair o espírito daquelas idéias importunas. Na forma de costume, lá dava Fidélis largas à imaginação:
— Seu João, viu como o negro pitava o cachimbo?
— Vi, e que tem?
— Pois andava ali feitiço, tinha certeza; trato daquele jeito, ninguém pode aturar sem pôr a boca no mundo; só mesmo a santa paciência de Nosso Senhor Jesus Cristo era capaz de tanto. Ali havia feitiço...
— Ora, gente, Malaquias sempre foi homem de opinião; achou que não devia piar, e nem que o matassem a pancada mudava de tenção; aí está.
— Pois pergunta sá Quirina, que foi do tempo da escravidão, a história de pai Romeu; tal qual como o Malaquias!
E narrou. O senhor mandara surrá-lo por vias dum furto, de que o escravo era inocente. Deu-lhe o feitor uma tunda mestra, até não mais poder levantar o braço de cansado. Trezentas lambadas recebeu pai Romeu no cangaço sem que desse parecência de dor. Pediu apenas fogo para o pito, que atupiu de cinza.
A taca cantava de cima, e ele a tirar baforada mais baforada...
O senhor d'engenho apanhou o bacalhau, que o outro já não podia agüentar, e acrescentou outras tantas tacadas.
O preto, calado, pitava o seu cachimbo.
De vez em quando remoía os beiços, mastigando uma reza má; mas não soltou um só gemido.
Pois bem! assim a tereia cantou-lhe nas costas, lá no canavial ouviu-se um grito lamentoso. Era o filho do senhor a queixar-se de que o estavam espancando à traição.
Mas não havia ali perto ninguém. Os companheiros acudiram e bateram as moitas da redondeza, não topando viv'alma; e, entanto, as pancadas iam uma a uma caindo-lhe rijas nas costas, e ele a correr duma para outra banda, desvairado, ao tempo que os demais, tomados de pavor, levavam a mão à cabeça e clamavam por socorro. Ouvia-se perfeitamente o zunido do vergalho a retalhar-lhe as carnes, mas a correria, nem quem a manejava, não se percebia em parte alguma.
As roupas em frangalho, numa correria desatinada, o senhor moço embarafustou então pelo caminho de casa, apanhando sempre. Lá chegou arquejante à casa do tronco, onde o pai suspendia o castigo, e lá se estatelou atravessado no batente, vomitando sangue pela boca, para nunca mais se erguer...
Pai Romeu, entretanto, continuava a ruminar as suas rezas, puxando, indiferente, a fumaça do cachimbo.
— Isso viu sá Quirina, que aí está entrevada no jirau, em seu tempo de moça; e por esta luz me jurou que era verdadeiro.
Ora, Malaquias também pitava a cinza do seu cachimbo, e não tugiu nem mugiu quando recebia a coça... Uma criatura não apanha assim sem pacto com o diabo. Ninguém lhe tirava da cachola que o filho do patrão estava também levando a sua sova nalguma parte, em Curralinho por exemplo.
— Seu João, que me diz a respeito? A velha não mentiu, viu aquele fato com os olhos da cara que a terra há de comer. Que lhe parece?
O outro coçou a orelha, interdito. Histórias como aquela eram correntias no sertão. Demais, poucos, muito poucos, duvidavam. Entre aquela gente simples não era costume a mentira. Se alguém aprontava um carapetão, ficava logo desacreditado para o resto da vida; e daí, a ofensa grave de que se julga alvo o sertanejo cuja palavra é tomada em suspeição.
Assim quando um caso como aquele ia de encontro às idéias assentadas sobre a experiência de cada dia, chocando as mais comezinhas noções que possuíam da realidade, era vezo dizer-se previamente: Não punha a menor dúvida no acontecido, longe dele duvidar, mas...
E avançava as suas razões:
— O fato podia explicar-se. Talvez fossem os parceiros de pai Romeu que, aproveitando a ocasião, tivessem dado aquela pisa no filho do senhor, a ponto de não mais poder queixar-se depois. E vieram relatar o caso daquela maneira... Tudo podia ser neste mundo largo... Vingança de cativo tem manha. — Enfim, não duvidava...
Quanto ao ato arbitrário do coronel em chicotear o Malaquias, ninguém aludiu, nem lhes passou pela mente discutir as razões. Era aquele um costume que assistia aos fazendeiros, e que punham em prática quando bem lhes aprovinha, sem que com isso levantassem entre os seus a mínima oposição, ou mesmo um simples murmúrio de censura.
Competia-lhes aquele direito, como outrora competia ao senhor feudal indicar, entre a arraia-miúda de sua peonada, um vilão qualquer, tirado a dedo, para que se lhe abrissem as entranhas onde enfiar, nas carnes palpitantes, os pés regelados das sortidas de caça.
Demais, da freqüência dessas usanças, resultava escapar à rude singeleza daqueles homens a compreensão de semelhante arbitrariedade. E, se protesto havia, era apenas a repugnância instintiva que sentiam todos em pactuar naquelas iniqüidades.
João Vaqueiro que ali estava, o mais prestimoso servidor da casa, cuja família a vinha servindo de pais a filhos, também tinha as suas queixas, se tinha! a formular contra aquele pé de cousas. Cuidava da criação de eito a eito, estivesse o senhor na fazenda ou andasse ausente na capital; tangia dos malhadouros as vacas, quando amojavam; curava no curral a bicheira da bezerrada nova, ferrando-a com o ferro do patrão, capando em tempo os boiecos, a fim de evitar desandamento na mestiçagem. A mulher fabricava com o leite, o queijo, o requeijão, a manteiga, que iam no mercado render dinheiro à casa; enfim, tinha por ano a sua paga de vaqueiro, que lhe dava a marca de tala, a razão duma sorte por lote de quatro crias.
Com essas cabeças tenteava a existência, formando pouco a pouco a sua leva separada.
Mas o patrão vira-lhe os arranjos, deitava logo com inveja o olho em riba.
Ora era a mulher do vaqueiro, que fora ao povoado e lá cobiçara um guarda-chuva de cabo floreado na loja do major Higino. Aquilo não lhe proporcionaria a mínima utilidade na fazenda, entre as garrancheiras e cipoais dos cercados. Mas era um desejo. Chegada à casa, punha o marido ao corrente de seu capricho. Ele coçava a orelha, e ia ter com o patrão.
Este, apressado, com gestos amplos de largueza, mandava um portador adquirir o brinco no negócio, e a mulher do vaqueiro tinha com que se pavonear do rancho à cozinha da casagrande.
Mas aquele guarda-chuva, que custara à vista oito mil-réis, lançava-o à sua conta o fazendeiro por vinte e mais, resultando daí todo o fruto da trabalheira do ano, as suas sortes penosamente apartadas, serem quase que insuficientes para resgatar o preço de semelhante bugiganga...
Outras vezes, era um zebu reprodutor picado de cobra, um novilho de valia que uma rodada mal segura pusera defeituoso. Jogada a culpa sobre o vaqueiro por imperícia ou falta de vigilância, o seu rebotalho era então pouco para saldar aquela rês perdida, que o senhor encarecia.
Entretanto, continuava a servir a fazenda com o mesmo zelo de sempre. O amor àquela vida a que se acostumara desde os cueiros do balaio, o dasapego nativo às questões de dinheiro, compensavam-no largamente das vexações sofridas. Continuava ali servindo, como tinham servido seu pai e avô, como também viriam a servir filhos e netos, desinteressado no ganho, defendendo com aferro os negócios da fazenda, na prosperidade dos quais punha mais cuidados que nos próprios arranjos.
Assim, não compreendia a fuga do nagoa, que acreditava vergonhosa, como não compreenderia nunca a sua dedicação a toda prova pela causa do fazendeiro.
Só na alma de Benedito, mais esclarecido, como um cão danado remordeu o remorso...
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