Universo da obra
Universo da obra
Na fazenda, agora erma, lento e lento o tempo começara a sua obra de estrago e desconforto.
Um a um, valendo-se de novos contratos com fazendeiros do arredor, os camaradas do sítio se tinham ido, numa passividade fatalista de rebanho, das ferropéias dum jugo para as de outro, quem sabe, mais duro e cruel...
Por último João Vaqueiro, que ali se deixara ainda ficar, lutando embalde com um atavismo de condição que o trazia atreito àquelas paragens, arrancou-se uma clara manhã, tocando adiante da família maltrapilha os refugos de gado que conseguira ressalvar no seu ajuste final de contas.
Também, para que persistir naquele pedaço de terra, tão ingrata e penosa agora de rever pela maldade dos homens? O patrão recolhera-se a Curralinho, onde estava a família, pusera anúncio nos jornais da venda do Quilombo, com pastos, benfeitorias, criação e mais gado miúdo.
Já o inverno vinha próximo, na azul transparência daqueles céus de abril, que ofertava, nas vargens de mimoso e jaraguá, as últimas galas da estação. Emudecia em torno a natureza, sob a frialdade das noites... Nas nascentes, a água dos córregos ia escasseando.
Assim, na chapada, sob um sol de rachar, tangendo à frente dos seus remanescentes da antiga manada, rumo incerto de distantes terras onde iria recompor a vida transtornada, e ao chiar do carretão que conduzia cambotando os destroços de seu lar desfeito, a bela voz do vaqueano já não tinha aquela sonoridade vibrante de outrora no ecoar do aboiado, e mesmo, fazia-se triste e compungida ao acentuar as notas derradeiras da cantiga.
É que ali, naquele mesmo trato da campina, fizera-lhe tantas vezes acompanhamento o grito triufante de nhô Dito, que vira crescer e tornar-se homem sob o seu olhar desvanecido, e que — pobrezinho — lá ficava agora esquecido na fazenda, sob os gravatás e ananases da beira da cerca, onde o tinham a mando enterrado, a sonhar o seu sonho de paz e de ventura noutra vida melhor...
Morrera o infeliz, após lenta agonia de uma semana sem pão e sem água no fundo da casa do tronco, donde urros de endemoninhado saíam na noite, ao acompanhamento lúgubre das aves de má morte no telhado.
E mais dolente e compungido se faria decerto o sertanejo, se soubesse que aquele seu descante agoniado, na tarde que baixava, era a nênia fúnebre que acompanhava, mais além, o enterro de nhá Lica, a filha do fazendeiro, morta em Curralinho de tristeza e paixão.
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