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Edson Basilio

@ edsonbas

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LITERÁRIA

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20/0118:42
Streaming de sonhos (parte 2)

A Mind Chip Corp era um mega complexo: 5 prédios com mais de 10 andares cada. Me explicaram que um era para pesquisas, outro para a administração, experimentos etc. Não prestei muita atenção, queria explicações. Andei alguns quilômetros até chegar ao prédio central, o da administração. O “guia” que me acompanhava me levou até o elevador, apertou o botão do último andar e me disse que eu seria recebido pelo responsável por esta parte dos serviços da empresa. Ele gostava de explicar pessoalmente e em detalhes quando a pessoa tinha alguma dúvida.
Fui bem recebido. O homem, muito bem vestido, me convidou para sentar ao seu lado no sofá, me ofereceu um café. Claro que aceitei, precisava de mais um. Me ouviu pacientemente e pediu a palavra para esclarecer todos os meus questionamentos. Começou perguntando se eu não tinha a curiosidade de saber o que as outras pessoas sonham. Respondi que sim e ele disse que todo mundo tem essa curiosidade e que estão dispostos a pagar por isso. Então ele me mostrou alguns sonhos e me explicou:

“- Na verdade, nossa atividade principal aqui é o implante de chips cerebrais para ampliação da capacidade de memorização e aquisição de novas habilidades através da simples transferência para o chip. É assim que as pessoas estão aprendendo outros idiomas, disciplinas escolares, entre outras coisas. No seu caso, você queria ampliar sua capacidade de memorização e saber falar inglês. Você chegou aqui dizendo que tinha conseguido juntar pouco dinheiro, apenas o suficiente para as passagens de vinda e de volta, pois estava sabendo da nossa condição especial para aquisição do implante sem custo, bastando autorizar a venda dos seus sonhos via streaming, o que fica a cargo da nossa parceira Dream Stream. O cartão que você está usando é do banco no qual depositamos a sua porcentagem devido aos direitos autorais, quando vir o seu saldo, você vai ver que valeu muito a pena. Quanto ao fato de você não saber o que está acontecendo, trata-se de uma amnésia temporária pós-implante, dentro de alguns dias você já estará se lembrando de tudo. No mais, desejamos felicidades e que o senhor fique muito satisfeito com os nossos serviços e produtos.”

Em seguida, ele me mostrou o contrato que eu assinei, imagens minhas feitas pelas câmeras no dia do meu implante e pediu que eu passasse a mão no topo da minha cabeça para sentir um pequeno “caroço”, dizendo ser a cicatriz da cirurgia. Agradeceu por eu ser um cliente da empresa e disse que esperava ter esclarecido todas as minhas dúvidas. Terminei o café, respondi que sim, agradeci também e fui embora daquele lugar.
Saí andando pelas ruas, sem rumo, tentando me lembrar do que tinha acontecido nos dias anteriores. Senti alguém batendo no meu ombro, olhei para trás e dei de cara com mais um “fã”. Ele me disse que já tinha assistido todos os meus sonhos. Que maratonou junto com a namorada e que tinham adorado. Olhei nos olhos dele, pisquei o meu olho direito, apontando com o indicador para ele, e disse: “- Aguarde a próxima temporada!”. Virei para frente de novo, caminhei mais um pouco, entrei numa cafeteria e pedi um café.
20/0118:40
Streaming de sonhos (parte 1)

Enquanto eu caminhava pela Times Square, eu percebi que todas as pessoas que passavam por mim ficavam me encarando. Uma dessas pessoas até me esbarrou e disse que era meu fã, que curtia tudo o que vinha de mim e que eu era o melhor. Sem saber do que se tratava, perguntei do que ele estava falando. Ele só apontou para cima, para um dos telões e disse: "- Eu assino o pacote Premium Live 18+".
Quando levantei a cabeça para olhar, o restante do meu corpo quase acompanhou o movimento e caiu para trás. O telão mostrava eu voando e, de dentro das nuvens surgia o anúncio: “Dream Stream - O streaming de sonhos - Live e On Demand - 1° mês grátis”. O que era aquilo? Um sonho meu sendo vendido? Eu voando entre as nuvens? Por que uma pessoa iria querer assistir isso? Espera! Aquele homem tinha falado em 18+. O que ele quis dizer com isso? Estão vendendo todo tipo de sonho? O que está acontecendo? Como? Onde? Quando? Por que?
Levei um bom tempo para voltar a mim. Tudo aquilo ficou rodando dentro da minha cabeça por muito tempo. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive, a de que fiquei alí parado, boquiaberto, sem piscar os olhos, encarando eu mesmo naquele telão e tentando entender. E não entendi. Mas queria. Então memorizei o nome do streaming, Dream Stream, o número do telefone e o endereço do site. Acho que eu nunca tinha conseguido memorizar tanta informação ao mesmo tempo.
Com os dados que eu tinha, não foi difícil descobrir o endereço da sede da empresa responsável pelo streaming. O difícil foi chegar até lá, pois eu não conhecia nada nem ninguém por alí. Eu não era dalí. Pensando bem, o que eu estava fazendo alí? E como eu estava conseguindo falar e entender inglês? Perdi mais um bom tempo tentando “digerir” todas essas perguntas. Não consegui e desisti. Resolvi revistar meus bolsos. Encontrei um cartão de banco. Parei para tomar um café, pedi informações, peguei ônibus, metrô. Em todos os lugares, o cartão foi aceito.
Desci numa estação do metrô que ficava em frente à sede da tal empresa. Foi só atravessar a avenida e lá estava eu. Não era muito grande, três andares apenas. O primeiro era para atendimento ao cliente. Os atendentes foram muito educados, mas não souberam dar nenhuma informação que não fosse sobre preços de assinaturas e as vantagens de cada pacote de programação. Pedi para falar com o gerente. Ele me encaminhou para o terceiro andar, onde ficava a administração. Disseram que não sabiam como funciona o processo, pois só eram responsáveis por transmitir as imagens para os assinantes. Na saída, o gerente insistiu para que eu ficasse com o cartão dele. Peguei e o enfiei no bolso. Agradeci e saí.
Voltei para a estação do metrô. Sentei num banco e abaixei a cabeça. No meio do caminho para baixo, meus olhos viram o cartão do gerente no bolso da camisa. Peguei. Tinha o nome da empresa, o dele e os contatos dos dois. Nada demais, um cartão de visita normal. E no verso? No verso, escrito à caneta, um endereço e o nome de uma outra empresa: Mind Chip Corp. Levantei, tomei mais um café e comecei uma nova jornada.
19/0113:17
Cheguei tarde. Muito tarde. A rua já estava deserta e o porteiro cochilava com a TV ligada passando um daqueles programas que mostram festas de gente rica ou de suas empresas. Continuei até o elevador. Ainda estava quebrado. Cinco andares. Dez lances de escada. Cinquenta degraus. Ainda não sou um idoso, mas também não sou mais um menino. Abri a porta, entrei e sentei no sofá. Fiquei alí por mais ou menos meia hora. Cansado, suado e com dores pelo corpo.
Sempre achei que faltavam quadros nas minhas paredes. Queria ter plantas também, mas nunca deu certo. Tudo acaba morrendo. Não consigo cuidar. Como cuidar de coisas se não estou conseguindo cuidar nem de mim mesmo? O dia-a-dia tem sido muito maquinal, mecânico. Não me sinto mais um ser vivo, nem um robô. Menos que um robô, me tornei um autômato. Sempre a mesma rotina. Esqueci o que sou, o que sinto e o que tenho.
Pensei que seria bom tomar um banho. Me levantei e fui para o banheiro. Tomei. Foi bom. O banho quente ajudou a relaxar o corpo e a diminuir as dores. Me acalmei e a cabeça começou a funcionar melhor, com mais clareza. E a pensar com menos pessimismo. Como estava com fome, fui para a cozinha preparar alguma coisa para comer. Fazer a própria comida é um tipo de terapia também. Descascar, cortar, temperar, esperar o tempo que cada ingrediente leva para cozinhar. E leva muito tempo. O bastante para pensar. Ah! Se eu tivesse todo esse tempo… Tinha que acordar cedo de novo. Fiz um Miojo.
19/0112:39
Na época da minha adolescência, quando iam chegando as eleições, as campanhas dos candidatos eram bem diferentes, eles distribuíam todo tipo de brinde: camisas, canetas, lixas de unha, bonés etc. Além disso, davam festinhas nos comitês de campanha com salgadinhos, refrigerante, música e muito bate-papo. O social, a interação, vinha em primeiro lugar.
Outro tipo de evento que a gente gostava muito eram os showmícios: shows de cantores famosos, contratados por um candidato, que fazia um discurso e depois chamava os artistas para o palco. O show começava e, entre uma música e outra, sempre vinha um agradecimento ao candidato que estava patrocinando, um reforço ao número dele e um pedido para voltar nele. Agora não pode mais, é crime.
A gente era adolescente e ainda não votava, mas aproveitava as festinhas e os shows. Dava para fazer novas amizades e conhecer umas meninas da nossa idade. Às vezes já rolava um beijo no comitê mesmo, outras só depois, no showmício. Era tão bom que a gente saía pelas ruas vestindo as camisas com os nomes e os números dos candidatos como se fossem abadás, carregava bandeiras e colava adesivos para todo lado. Verdadeiros cabos eleitorais, só que de graça, ou quase, nosso pagamento era em salgadinhos e refrigerantes. Muito barato para eles.
As camisas viraram pijamas e, depois, panos de limpeza. As canetas foram de grande utilidade para a gente no colégio, para os pais no trabalho e em casa, para deixar junto com o bloquinho de anotações do lado do telefone. Os bonés eram muito feios e, por isso, a gente não usava nem na campanha. As lixas de unha foram tantas que, até hoje, 30 anos depois, minha mãe ainda tem um monte delas presas com um elástico de dinheiro, e olha que ela usa, está sempre puxando mais uma quando a anterior acaba. As festinhas ainda existem, não participo mais, mas ouço falar que agora rola até churrasco. Os showmícios ficaram só nas lembranças. Já as amizades, muitas ainda duram até hoje.