Avatar

Tiago Bianchini Fidalgo

@ tibianchini

Nível
2
Essência
💧 Água
Ritual
0 Dias

Patrimônio

60.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

Updates

29/0622:27
Nunca tinha visto o mar

Olhava para as imagens, impressas em preto-e-branco
De fotos maravilhosas que saíam nas reportagens
Dos cadernos de cultura que encartavam os jornais.
Papai dizia-me, com aquele sorriso franco,
Que já vira o mar, em suas viagens,
Que era lindo, e não o esquecera jamais.

E lá ficava eu, menino da roça,
Sonhando com aquele lago que não tinha fim:
Imaginando-o, verde, azul, de cor nenhuma;
Desejando vê-lo, pedindo sempre à Nossa
Senhora, mãe de Deus, que desse a mim
A chance de conhece-lo, de brincar em sua bruma.

E diziam que sua água era salgada,
Como a temperar os peixes que nele moravam;
E diziam que ele era tão fundo, mas tão fundo,
Que no fim da água não havia lodo nem nada,
E os navios displicentes que afundavam,
Afundavam, afundavam, até o outro lado do mundo.

Ah! O mar! Meu Deus, como eu queria
Poder olhar para ele, num dia de sol quente,
Com sunga e boia, e balde de areia!
E ficar ali, brincando, todo o dia,
E fazer castelos, e correr, e ver gente
E ter a alma, de felicidade, cheia!...

Papai me dizia que não tínhamos dinheiro:
“Mas, um dia, meu filho, você vai crescer
E vai enricar, e vai ser muito feliz,
E vai poder viajar o mundo inteiro,
E até o mar e a neve vai conhecer,
E vai viver e ser dono do seu nariz!”

Mas eu não queria esperar crescer, eu só pensava
Em ver o mar, em poder sentir o vento
Das tais “brisas marinhas”, no meu cabelo;
E papai, que sempre dizia que não dava,
Ao ouvir meu pedido e meu lamento,
E sofria por não poder atendê-lo.

Era a vida, não se pode ter tudo.
O Mundo gira, a Terra é redonda,
E flutua, solta, no Universo,
Tal qual o peixe no mar, e eu, miúdo,
Podia apenas imaginar como era a onda
Tão bem cantada por poetas, em prosiverso.

E assim ficava, em meus sonhos absorto,
Até que um dia, papai chegou com o riso aberto:
“Tenho uma carga importante pra levar
Lá pra São Paulo, e vou deixa-la no porto;
Façam as malas, fiquem prontos: se der certo,
Nós vamos todos lá pra praia, ver o mar!”

Naquela noite, não dormi, tamanha era
A excitação: íamos viajar, eu e meus pais
Na boleia do caminhão, de madrugada;
Finalmente, teria fim a minha espera:
Eu chegaria pela manhã à beira do cais.
Meu sonho estava ali, ao fim da estrada.

E, então, Deus, eu seria feliz por completo!...
Mas, na escuridão da rodovia, uma luz
Na direção contrária, veio nos pegar de frente:
Senti meu corpo ser jogado contra o teto,
O caminhão tombar, mamãe chamando por Jesus
E, num estrondo, tudo sumir de repente.

Acordei, um pouco tonto, em uma cama
de hospital, com talas e soro, entre lençóis.
Tudo doía, de uma dor que não se esvai.
E ao olhar em volta, e, depois, para a mamma,
Eu percebi, com dor e medo, que entre nós,
Faltava uma pessoa, e perguntei: “Cadê papai?”

Mamãe, então, contou-me o ocorrido…
Havia outro caminhão em sentido contrário
E papai fez uma manobra decidida:
E conseguira mudar o que certamente teria sido
A morte de nós três; e, solitário,
Apenas ele despediu-se desta vida.

Fiquei mudo, aturdido; tentei ser forte,
Tentei conter a dor no meu peito de menino
E entender como é possível tão cruel
Desfecho; papai abraçou a morte
Para nos salvar, e aceitou o seu destino
E foi mergulhar nos mares lá do Céu…

E dos meus olhos senti brotar tanta água,
Água salgada, a inundar meu peito ferido…
E fazer ondas de tristeza em meu olhar,
E, sem poder controlar meu choro e mágoa,
Sentindo a vida submersa, pensei comigo
Que era a primeira vez, enfim, que via o mar…
🔒 Conteúdo Exclusivo
29/0616:38
CARTA DE AMOR PARA SER LIDA DE MADRUGADA

Havia publicado um poema aqui e tinha ficado na dúvida se ele seria compreendido por todos. Aí aconteceu o blackout de dados. Podia ter re-postado, mas achei que era um sinal. Então, segue um poema bem antigo, cuja primeira parte já havia postado aqui. Agora, ele vem inteiro e coeso.

Carta de amor para ser lida de madrugada

I
Apenas leia:
Sinta meus lábios tocarem teu semblante
E que meu peito cante em teu vazio.
Apenas deixe o frio
Acariciar com brilho louro tuas melenas
Que meus poemas, disfarçados de brisa fina,
Brincam, enredando na divina luz do teu olhar.
E ao leres, chorando de saudade,
Esta metade de ilusão que o peito invade
Como uma jade, exposta ao vento e ao calor,
Perceberás que minha dor ‘inda é mais forte
do que a morte deste amor que me dá a sorte
que deste corte surja um beijo curador.

Amor:
Não peço que me esqueças, nem que me ame;
Mas que me chame, sempre, do seu lado;
e, mesmo que de brilho apagado, me proclame.
Apenas leia; chore, se preciso
Se preciso vista-se comigo, e me abrace
Através desta face de papel
que o negro véu da noite fecha o doce enlace.

II

Apenas Leia:
Deixe-me invadir teu peito vago;
Que nos teus olhos
Quero sentir teu calor imenso;
Apenas Leia:
Sinta então os beijos que te trago
Na esperança
De que possam encontrar-te, como eu penso.

Apenas ouça:
Não diga nada, não relute à verdade
De que me amas;
Não se esforce em mentir contra o desejo;
Apenas ouça:
Encontre a luz, esqueça-se da saudade,
E enfim entregue-se
Venha até mim; me presenteie com teu beijo.

Não diga nada:
Não há palavras que descrevam o amor;
Apenas sinta:
E sinta sempre, que te amo eternamente.
Nunca mais chores,
Pois tens em mim o seu eterno servidor,
Que te adora
E que te envolve num abraço forte e quente.

Sonhe comigo;
E saiba que te amo mais que tudo
E nos teus sonhos
Guarde sempre a certeza que te quero;
E ao acordares
Ouvirás o grito do meu coração mudo
E saberás
Que és a deusa, que em meu recanto venero.

Não sei se posso
Lhe dizer de todo o tamanho deste amor;
Não sei se existem
Tantas palavras, neste mundo, onde eu consiga
Lhe explicar
Tudo o que sinto, ao perder-me em teu calor
Para aquecer
O meu caminho, por onde quer que eu siga.

Apenas sinto;
Falar é pouco pra exprimir o que desejo.
Melhor sentir;
E esperar que este amor me seja eterno.
Apenas calo;
Não falo nada; apenas calo com teu beijo
Que me aquece
E que me faz ferver por dentro neste inverno.

Somente sonhe;
Que nos teus sonhos me verás apaixonado;
E nesta noite
Serás a minha mais maravilhosa dama.
Somente sonhe;
E só me deixe voar no teu sonho alado;
Mas não te ofendas:
Pois sou apenas um poeta que te ama.
🔒 Conteúdo Exclusivo
27/0600:12
ENTRE CAFÉS E POEMAS
🅢🅔🅧🅧🅧🅣🅞🅤

Uma camisa. Aberta. Mal esconde os seios.
Uma calcinha. Rendas. Delicadamente justa.
Você anda como quem desliza ou flutua,
Roçando o interior das coxas, pé antes pé...

Debruça sobre mim. Um beijo quente
Para aquecer a manhã fria que desperta.
Não há sequer uma palavra: o "bom dia" é sorriso,
Que, sem dizer, já diz tudo, em melodia.

Deita-se ao meu lado. Com o seu pé
Cutuca de leve o meu pé, sobre o edredom:
Carícias tão íntimas quanto todas as outras
Que trocamos durante a noite.

"Agora, me traz um café. Forte".
Tal é o seu pedido, uma ordem, um afago.
Um café. Forte. Quente. "Açúcar ou adoçante?"
"Nenhum dos dois. Apenas o seu beijo me adoça".

Um gole lento, deixando que eu admire
A curva do seu pescoço, onde, há algumas horas,
Deixei marcas de mordidas e arranhões,
Que serão renovadas daqui a alguns minutos.

Espreguiça-se. Vira o bumbum para mim,
E, enquanto isso, estica os dedos em busca
De uma caneta e um papel. Inspiração.
O café, quente. Seu corpo, mais ainda.

De bruços, rabisca habilmente. Na curva das suas costas,
A omoplata banhada pelo sol, que, sobre sua pele,
Desliza passeando pelo contorno do seu quadril:
Tudo isso é o verdadeiro espetáculo.

Uma calcinha rendada e uma camisa que é minha.
Um pouco de perfume de ontem em meio ao meu suor.
É tudo o que cobre este corpo, do qual
Ainda não consegui me desconectar.

Contorno com os dedos as curvas que a renda faz.
"Para", você diz, "Senão não consigo terminar"
É um poema, eu sei. Mas, depois de ontem,
Nossos poemas não são escritos, são vividos.

Seu café acabou. O meu? Nem chegou a ser tocado.
Você se vira e sorri. Cruza as pernas.
Lê o poema com os lábios entreabertos,
como se cada palavra fosse um toque físico.

"Você me transformou em poema", você diz,
Abraçando o papel como se temesse que o poema pudesse escapar.
"Foi você quem me fez querer ser musa,
Mas é em nós que eu me torno deusa".

"A noite foi sua. A manhã? É minha.
Você me trouxe café, mas eu prefiro o sal
Que ficou na minha pele quando você foi meu".
Nas minhas mãos, o último botão arrancado da camisa.

Enlaça o meu pescoço, me puxa com as pernas,
Encosta sua testa na minha, e me invade com os olhos.
O café esqueceu de esfriar, mas outras coisas fervem,
E o poema? Este já é vida real novamente.

"Não somos poetas", eu sussurro, entre um beijo e outro,
"Somos o próprio verso."
E assim, entre cafés frios e corpos quentes,
Escrevemos - sem palavras - o epílogo perfeito.

A renda da calcinha toca o chão.
O café acabou. Os poemas também.
Só o que resta é a verdade mais pura:
Nós.
🔒 Conteúdo Exclusivo
26/0617:20
Para que servem os poemas

Para que serve um poema? Para nada?
Para contar uma verdade velada?
Para conquistar um coração frio?
Para transbordar sentimentos até ficar vazio?

Para quem escrevo um poema, me diz?
Para que eu mesmo possa ser feliz?
Para que eu me liberte? Me solte?
Para que aquele Amor, um dia, volte?

A arte do poema está em transmitir
Verdades de de mim que não saberei sentir
E esperar que quem o leia o entenda
E que, no seu íntimo, uma fagulha se acenda.

O poema cumpriria seu propósito, então:
Convidar aquela pessoa à reflexão.
Ela o leria e entenderia o que digo:
Meu poema, então, seria seu melhor amigo.

E, ao pensar no que eu, calado, lhe diria
Através da minha reles poesia,
Esta pessoa entenderia que, também,
Eu lhe faço pensar, e lhe quero bem.

Mas, e se o que eu tenho pra dizer não lhe apraz?
Se ela entender errado, então, como se faz?
Se a minha mensagem não lhe for direta,
É sinal, então, de que não sou um bom poeta.

E se minha ânsia de verdades indizíveis
Me privar de futuros felizes e impossíveis?
Então devo guardá-lo para mim, apenas,
Porque não quero me meter nos seus problemas.

Então, anjo, não fique brava comigo.
Meu poema só pretende ser abrigo
Do que eu acho que se deve ter na vida:
E, assim, ele terá sua missão cumprida.

Meu poema não pretende dar lição:
Está não é, enfim, a sua função.
Ele só quer te mostrar que os seus medos
Não deveriam te privar de novos enredos.

Ele só quer me livrar da necessidade
De te contar a mais profunda verdade:
Que só existe para o poeta te dizer
Que te ama tanto que não quer te ver sofrer.
🔒 Conteúdo Exclusivo
25/0623:51
Preguiça

Ainda está escuro. Tento abrir os olhos, um de cada vez. As pontas dos cabelos me revelam que o frio é intenso lá fora; o frio é intenso mesmo ali dentro do meu quarto, fora do universo que se encerra abaixo do meu edredom. Um dos olhos abertos tenta dar uma esticada até o relógio, para saber as horas; a íris reclama do frio que bombardeia o globo ocular, e a pálpebra volta a protege-la. O outro olho tenta; agora é a sua vez. São seis e quarenta e oito, é o que consegue decifrar a retina. Quarenta e oito!
Faço um movimento com a perna. Um mísero movimento. Ela sai do seu lugar de conforto e vai para um canto mais frio da cama, aquele canto que o edredom não aqueceu porque, até aquele momento, não havia nenhuma perna ali para ser aquecida. O edredom é um ser inteligente: usa seu poder de aquecimento em pontos específicos da cama, justamente para proteger aquele que lhe é senhor. Volto correndo com a perna ao lugar de origem; este será o último movimento que farei com esta perna.
Estico a mão e pego o controle da TV. Está passando um documentário em alemão sobre a Tchecoslováquia. Deixo o volume no mínimo para não acordar minha amada; ela não gosta de tchecos ou alemães, não gosta de documentários invadindo a madrugada e, como eu, não gosta de ter que acordar em manhãs de frio. No mundo dos sonhos da minha amada, ela nem faz questão de saber que existiu, em algum tempo e lugar, um país que era dois, depois de ter sido vários, e que acabou virando nenhum. Ela não precisa entender alemão em seu träumerei. Tampouco eu preciso entender o que dizem: a mim basta que meus olhos se movimentem um pouco, que os tímpanos se aqueçam, que o cérebro comece a pegar no tranco. As ruas tchecas são tão frias quanto o mundo lá fora. A voz do narrador alemão vem embargada daquele vapor que nos sai da boca nos dias frios; vem sedenta e carente de um bom conhaque para aquecê-la. Hitze, bitte!
Há chuva lá fora. As gotas batem na janela e no telhado, e parecem que vão acabar escorrendo ali, na minha cama. Sinto mentalmente o pingar nas roupas, no chão, sinto calafrios imaginários, sinto que preciso me levantar e ir trabalhar logo. Sinto frio e sinto que o mundo lá fora não importa, seja aqui ou na antiga Tchecoslováquia, seja heute, gestern ou langen Zeit. Deixa a chuva lá fora no mundo que imagino ser real; é aqui que quero ficar, com minha amada e meu edredom, no meu universo particular. Quero ficar aqui, abraçado a ela, sentindo o calor do seu corpo a dormir, sentindo que poderia ficar ali por milhares de quarenta-e-oitos minutos, sem me cansar.
Mas o despertador desperta. Cumpre sua função, de fazer barulho e se tornar insuportável. Cumpre sua função, de destruir com um ruído todo aquele universo maravilhoso de instantes atrás, e, ao mesmo tempo, fazer o ruído das gotas parecerem um atrativo a mais para sair da cama. O despertador desperta, como a me dizer: “E agora? Vai me dar atenção ou eu vou ter que ficar aqui, gritando com você?”, sendo que o simples fato de prestar atenção em qualquer coisa já me faz entender que estou acordado, que não há mais volta, que chove lá fora e a Tchecoslováquia ficou no passado e o que tenho é o hoje e tenho que levantar. Ele apenas cumpre a função para a qual foi criado, e a cumpre bem, e não o posso condenar por isso.
Levanto. Jogo as pernas, o cabelo e os olhos ao frio de fora. Já o dia não está mais tão escuro. Respiro fundo, olho para a cama e para a amada (que neste instante se fundem em uma única aspiração) e lhes digo, em tom de melancolia: Vou ali na Tchecoslováquia. À noite a gente se encontra novamente.
🔒 Conteúdo Exclusivo
20/0601:14
❤️‍🔥O ABRAÇO❤️‍🔥
🅢🅔🅧🅧🅧🅣🅞🅤
(isso era uma crônica, mas converti em versos e rimas... Espero que gostem)

❤️‍🔥❤️‍🔥❤️‍🔥 O ABRAÇO ❤️‍🔥❤️‍🔥❤️‍🔥

Seu perfume não combina com seu vestido:
Você deve se despir de um, então.
Seu perfume, no nosso suor, dissolvido;
Seu vestido ficará melhor no chão.

Ponho o meu peito em suas costas; dos seus ombros
Tiro as alças que levam ao chão o pano
E por dentro da lingerie, com tesão e assombro,
Vejo todo o teu corpo, perfeito, insano.

Meu olhar te devora, ébrio e faminto
Em suas curvas, minha alma afoga e inunda.
A Sua boca me promete um labirinto,
E meu corpo já clama por sua bunda.

Te envolvo: mão direita em seu umbigo,
E a esquerda te acariciando o seio.
Me encaixo na sua bunda, e consigo
Que meu volume se acomode ali no meio.

Seu gemido, qual um anseio, ao sentir-me
Respirar na sua nuca, e, afinal,
Abre as nádegas com as mãos, para que meu firme
Membro em riste, encontre seu orifício anal.

Puxo sua calcinha para o lado,
afastando-a do meu dedo, que ora desce,
desbravando os pelos, em busca do molhado
Vale do prazer que você me oferece.

Seu quadril responde, se elevando,
Buscando o toque que o corpo já adivinha.
No ritmo do nosso amor, me entregando,
O teu calor pulsante, que a mim aninha.

"Arrebita, vadia, esse traseiro",
Eu sussurro em seu ouvido, e o arrepio
Percorre como um raio o seu corpo inteiro,
Como uma loba, como uma gata no cio.

Você obedece, já rendida ao prazer
Do seu instinto animal, selvagem, bruto.
E, ao sentir meu toque a te estremecer,
"Gostoso...", você diz, em fogo absoluto.

E, uma vez senhor das tuas partes desnudas,
Eu puxo o seu corpo para mim, e então, procuro
Abrir espaço entre suas nádegas carnudas
Para invadir com o meu membro forte e duro.

O êxtase toma conta, em gozo profundo,
Nossos corpos se torcem, sem mais segredo.
Um universo em nós, desfeito e fecundo,
Explode em êxtase, sem culpa e sem medo.

Um dedo à frente, um pau atrás, a mão no peito:
Você é minha por completo, e, nesse abraço,
Eu te envolvo em sexo, e me deleito,
Te faço mulher, e, enfim, te satisfaço.
🔒 Conteúdo Exclusivo
12/0601:13
Pedaço de Papel
(Poemas Antigos 015)

I- Invidia

Queria eu ser tu, papel, um dia;
Alvo, límpido, às vezes preenchido
De palavras de uma reles poesia;
Do desenho de um jardim florido.

Tu não falas, não sentes, não choras;
Nada fazes; apenas transparece
O que alguéns escreveram, ante auroras
Que por causa de teu brilho não se esquece.

Tu não sentes, nada, nem de amor
És capaz de expirar, pela saudade;
Só consegues reviver alheia dor
De quem escreve, e sente de verdade.

Queria, minha folha, ter um dia
Um só pedaço de teu corpo alvo e puro;
Para inspirar a minha mágoa e agonia
Neste grafite negro do lápis que seguro.

Mas, de amor, meu vão papel, não tens o gosto,
E de ternura não conheces o perfume;
E tuas linhas não adoram nenhum rosto
Nas brancas bordas que consideras teu cume.

És tão morto, enfim, caro papel,
Que não refletes nem os mares, nem o céu;
E que não serves, para mim, de inspiração;

Que ser igual a ti, já não queria
Pois assim sendo, logo me queimaria
Na experiência doce de uma paixão.

II- Celulose

Folha, folha,
página branca da minha existência;
onde posso me dizer
de ti, ó papel límpido,
para que consiga obter de ti
a preciosa inspiração? Não,
a inspiração é divina;
deve brotar da alma
e não de ti, caro papel;
tuas pautas claras, teu corpo puro
a mim não inspiram,
a ninguém inspiram.
Mas, então... para que serves,
senão para emprestar-me
teu corpo alvo, puro e belo,
para que possa, por mim mesmo,
escrever, dizer, sonhar...

Ah, minha humilde folha!
Invejo-te tanto...
És clara, mas não transpareces
o que sentes;
então, que seja eu também uma folha,
limpa, solta, que um vento leva,
e, às vezes, traz,
para que eu consiga, então,
assim como tu
e em ti,
roubar a magia dos poetas
- e, creia: eles existem -
que venham por ventura pegar-me nas mãos.

Mãos que empunham, com graça e opulência,
os belos rabiscos do duro carvão.

III- Soneto

Tenho em mãos uma folha; mas não me vem
O interessante, algo que não salta
Aos olhos, à primeira vista; me falta
A dita inspiração: escrever a quem?

Escrever àquela que deixou-me sem
Seus lábios suaves, que este tolo exalta;
Compor uma ária, escrevê-la em pauta,
Escrever nada; escrever a ninguém.

Tenho em mãos a folha, ó papel maldito;
E maldito seja! Não quero escrever
Sobre o nada! Sobre estas tortas linhas

Não guardarei o que eu não acredito:
Acredito em todas as saudades minhas,
Acredito em amor; de amor vou viver!
🔒 Conteúdo Exclusivo
09/0618:23
TUCSON

(Poemas antigos 014)

Algumas pessoas sabem que a maioria dos meus poemas antigos foi feita para um grande amor da juventude, que me acompanhou até uns 12 anos atrás e terminou de forma um tanto complexa. Seu nome era Divina. Ela tinha olhos furta-cor, corpo escultural, sorriso maliciosamente bonito (os mais atentos já devem tê-la reconhecido em diversos poemas meus por aqui). Era uma mulher forte que enfrentava o mundo (literalmente: saiu do interior de Minas para viver a vida nos EUA, e depois de ter vencido por lá, voltou para a roça).

***

Ela é passado, mas os poemas são eternos. Havia feito estes poemas para ela. A ideia já se tornou tão irreal, tão absurda,  qmas nao me importo em postar aqui...

I
Meu amor está em Tucson,
Tu, que sabes como sou,
Tu, que aceitas meus defeitos,
Arizona, here I go!

Lá, não tenho mordomias,
Nem sou amigo do Rei;
Mas amo lá uma prenda,
Amo tanto, que nem sei...

Se aqui eu não sou feliz,
Lá não serei jamais triste,
Pois lá tenho quem me diz

Que o amor por lá existe;
E sem fazer qualquer chiste,
Dar-me-á o que sempre quis.

II
Vou me embora para Tucson:
Tu, que sonhas como eu
Tu, que sangras minhas mágoas
Tu, que sentes que sou teu.

Lá tenho a mulher que eu quero,
E a cama me importa pouco;
Lá eu tenho quem mais amo
E amo, e amo como louco!...

Mas é vazia sua cama;
Talvez seja esta a sina
De todo mortal que ama...

Meu amor é brisa fina
Que dia e noite te chama:
Divina.

Não deveria mais pensar nisso. Não penso, juro. Virou passado. Hoje tenho meu Amor, "minha prenda", a mulher da minha vida.
Mas a estrutura e delicadeza dos sonetinhos, as trovinhas infantis de criança que vai para o parque e, principalmente, a homenagem ao Bandeira valem que seja publicado. Como eu sempre digo: ninguém lê, nem mesmo ela irá ler (não que me importe...)

Meu Amor está alhures,
Quanto mais longe, melhor:
Já não quero aquela prenda...
Arizona, nevermore!

Lá não há reis ou rainhas,
Lá não poderei viver:
Lá não tenho mordomias
Lá não tenho o que fazer.

Prefiro ficar aqui:
Outro amor um dia chega
Me dá um beijo e sorri!...

Meu amor não mais me cega:
Ah, meu anjo, minha nêga!
Como ainda espero a ti!...

Estou ficando piegas demais. Acho melhor parar de fazer poemas.

***
Mas, calma: isso foi há 12 anos. É como o whisky: as coisas ficam melhores com o tempo.
🔒 Conteúdo Exclusivo