Pai
- Cabo Mendes, ele ainda não quer colaborar.
Uma voz pingando de sarcasmo. Ele não aguentava mais apanhar, mas não tinha como dizer mais nada. O comandante estava sorrindo - ou assim imaginava ele, pois já não conseguia distinguir os borrões entre o inchaço da pálpebra aberta e o sangue que inundava a retina.
- Desde ontem, comandante. Não abre o bico. O que faremos?
Ontem. Um dia tão, tão distante. Não se lembrava de ter ido dormir, mas lembrava-se de ter acordado aos pontapés.
"Como é difícil acordar calado"
- Sabe o que eu acho, Cabo Mendes?
- Acho que posso adivinhar, comandante. Quer que eu vá buscar a turquesa? Talvez ele ainda não tenha entendido o que é "dor".
Novos risos, satisfeitos e ansiosos pelos próximos passos.
Ele tentava não esquecer do porquê de estar ali. Tentava manter, no imenso telão de projeção da sua mente, aquela imagem do sol nascendo por trás dos montes verdes, da terra que, um dia, jurou viver e morrer, jurou fertilizar e tornar produtiva.
- Sim, sim, cabo... Então traga a dor para ele.
"Tragar a dor"
Lembrava do rosto do seu Amor, sorrindo, de cabelos soltos e revoltos ao vento. Era com esse rosto em mente que ele queria se despedir desse mundo... Uma nova bofetada veio lhe acordar dos devaneios:
- Não vai falar nada, desgraçado? Você sabe que já está morto, não é? Que não vai mais sair daqui...NÃO É?
"Talvez a vida seja um fato consumado", mas, não; não era assim que as palavras lhe vinham à mente. Agora já não fazia diferença: o importante era manter em segurança aqueles que ele amava.
Um objeto pontiagudo e afiado lhe dilacerou um dedo; aquele dedo que tocava as mais belas canções para ela, na rede, ao pôr do sol. A dor já não era material; seu corpo já não era seu de fato.
"Resta a cuca".
A dor era lancinante, mas o pior mesmo era saber que não voltaria mais a rever aqueles olhos negros e aquela boca que tantas vezes lhe fizera perder o juízo - e só esperava que todo aquele sofrimento não fosse em vão. Não falaria mais nada. Já bastava o que não conseguira suportar.
- Eu estou tentando te ajudar, você sabe... Eu sei que você queria estar na sua casa... Mas, De que adianta ter boa vontade? Vocês não prestam, mesmo, são a escória.
Ouvia risos, ecoando na tontura da calada noite. Misturava-se à letra o riso que quebrava o silêncio.
"Esse silêncio todo me atordoa"
E era melhor assim: o torpor o ajudava a abstrair a dor que ainda viria. O desespero do corpo, ainda tão arraigado à luta pela vida que - ele sabia - já não valia mais nada.
Ouviu o morder das lâminas da turquesa. Lhe abriram as pernas. Chutes e pisões e objetos pontiagudos lhe atingindo as partes baixas. O tilintar da turquesa, voraz, vindo morder e esmigalhar tudo o que visse pela frente.
Sentiu um cheiro novo, entre o sangue e o pavor: queimado. A sua testa ardia sob o ferro quente.
"Cheiro de fumaça de óleo diesel"
- Sabe por que estamos te marcando? Porque você não passa de gado, ouviu bem? GADO. Você obedece aos comunistas malditos que querem fazer desse país uma nova Cuba. Uma nova Rússia. Um novo Chile. AQUI NÃO!
"Tanta mentira, tanta força bruta"
Nova pancada na têmpora. De repente, tudo ficou mudo.
"Silêncio na cidade não se escuta"
Por uns instantes, as risadas deram lugar ao nada. E, em meio ao nada, a voz da amada conseguiu sobressair-se:
- Não fraqueje. Talvez o mundo não seja pequeno. Em breve, vamos nos encontrar, em outra realidade, menos morta.
Como era doce a voz da sua amada!... Esboçou um leve sorriso ao lembrar; a boca já sem dentes e de língua inchada.
E então, sentiu entre as pernas que a turquesa trabalhava.
Um grito desumano.
No chão, um mar escorregadio,
"tinto de sangue".
- Ah, quer saber? Esse não vai conseguir falar mais nada, mesmo.
Ele só queria voltar para o mundo dos seus sonhos. Voltar a sonhar com seu Amor, num vestido de chita, chamando para o almoço. Ele queria provar de novo aquela boca e aquele corpo, "morrer do meu próprio veneno".
O Cabo espeta a faca no seu pescoço, a tentar separar o corpo da mente.
"presa na garganta"
"a faca já não corta"
Ele agora está prestes a perder de vez.
"perder de vez tua cabeça".
Saudade. Sensação de nunca mais. Últimas lembranças daqueles olhos negros. Eles estarão chorando agora, sabendo do seu destino. Balbucia, quase inaudível:
- Afasta... de mim...
Mas o comandante já não tem paciência. Puxa a colt, puxa o gatilho:
- Cale-se.