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Tiago Bianchini Fidalgo

@ tibianchini

Nível
2
Essência
💧 Água
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0 Dias

Patrimônio

60.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

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20/0911:31
Morangos maduros

"Vou pensar com calma, amanhã."
"Ela ainda vai estar ali."
"Não há pressa."
"Com o tempo, tudo se resolve.”

Vai passar.
Um dia, vou olhar pra trás e dar risada.

Não vai passar - já está passando.
O tempo.
E ele não volta, não retrocede, nem para.

Nunca.

Já está passando, e você está perdendo
Dias em que poderia ser mais feliz
Um pouco mais
E, pensando, indeciso, relutante,
Esperando que o destino resolva as coisas por você,
Esperando que os outros decidam o que você não consegue decidir
Esperando, esperando...

Um dia, você vai olhar pra trás.
E a vida vai ter passado.
Não diante dos seus olhos, mas à margem
À sua volta.

E aquele beijo não roubado
Aquele abraço não sentido
Aquela aventura louca que te faria sentir-se vivo

Não serão sequer um passado para recordar,
Mas um futuro que o universo jogou fora
Que você jogou fora.

Ainda dá tempo. Nem sempre dá tempo.
Ainda é hora de mandar aquele "oi"
De puxar uma nova conversa
De sentir a vida correr nas veias.

Ainda dá tempo de experimentar e errar
Ainda dá tempo de tentar novamente.
Alguém, em algum lugar, ainda está esperando você dar o passo.

Mas o tempo para fazer isso tudo
É o mesmo tempo que se gasta
Esperando, esperando...
Esperando que o outro desista
Esperando que o sentimento desapareça
Esperando um sinal divino que te diga
Que você sempre esteve certo em esperar.

Não, o tempo continua correndo.
E está acabando, aos poucos...
Não adianta sonhar com o passado,
Nem temer o futuro.
Só temos o presente, e ele é exatamente isso:
Uma dádiva.
Uma oferta.
Um presente.

E o que você tem feito com esse presente?
Devolvido? Deixado jogado num canto?
Olhado para ele, com medo de desembrulhar?
Algumas coisas na vida
São morangos maduros:
Se se degusta, são ótimos,
Mas se se guarda, logo perecem...

E você? O que tem feito
Com os morangos que a vida te dá?

Então, se a coragem não quiser te acompanhar,
Se o receio te disser:
"Pense com calma, amanhã."
"Ela ainda vai estar ali."
"Não há pressa."
"Com o tempo, tudo se resolve.”,
Deixe que seu corpo fale,
Deixe que seu desejo tenha voz...

E, se for pra errar, que seja por tentar,
E não por se esconder,
Porque é melhor ser um personagem ruim,
Que sofre, chora, e morre no fim do filme,
Do que um mero expectador.

Ligue.
Chame.
Viva.

Agora.
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10/0821:21
Meus Meninos

Pensei em repetir um texto já publicado, aproveitando o dia dos pais (já que não sou um). Lembrei que havia feito o texto inspirado em alguma pérola da Cris Ribeiro (ela tem tanta coisa espetacular que o difícil é não se inspirar no que ela escreve). Pra quem já leu, passe. Pra quem não leu... Bem, leia, talvez valha a pena...

Meus meninos ainda não eram meus meninos quando os conheci; um já tinha 8 e o outro, 5. E eu, justo eu, um autista que não há tinha sido um bom tio, nem um bom primo, nem um bom irmão, nem um bom cunhado mais velho, fiquei com a incumbência de ser um bom padrasto.

Eles não gostaram de mim logo de cara; achavam que eu estava vindo pra tomar o lugar do pai. Não era verdade; o pai já havia abandonado esse posto, e o que eu estava fazendo era tentar preencher um espaço já vago, mas como demonstrar isso para duas crianças?

Talvez por isso eu tenha sido tão duro, tão intransigente, tão crítico e austero. Talvez por isso, eles, que nunca haviam encontrado limite e autoridade, tenham se apegado a mim como um porto seguro - algo que eu não era, inconstante que fui, genioso e chato e ranzinza e exigente.

Mas... O tempo foi passando. E o amor que eu antes tinha pela mãe deles foi virando um amor por três, um amor pela família que não era minha. Eu me cobrei como pai e exigi tudo o que eles poderiam ser como filhos.

E quantas vezes um deles não veio me mostrar algo incrível, e eu não deixei porque não tinha tempo? Quantas vezes os impedi de falar sobre a nova série, o novo jogo, o novo livro, porque havia "trabalho importante" a ser feito? Hoje, olho para dentro de mim, com os olhos do passado, e encontro momentos em que eu poderia ter estado mais com eles, em que eu deveria ter mandado às favas aqueles chefes que sequer sabiam meu nome, nem que eu tinha filhos e família e que devia ser exemplo. Olho para trás com a percepção de que devia ter sido mais presente, mais amigo, mais amoroso. Mais pai.

Mas, hoje, um deles gosta de rock, é músico, está trabalhando com TI. Tudo isso é exemplo do padrasto. O outro, mais novo, adora desenhar e ler, e torce para o meu Flamengo, em vez do Corinthians do pai. Em que momento eu fui tão importante na vida deles? Em que momento eu fui exemplo de alguma coisa?

Hoje eu olho para trás com orgulho, com a certeza de que passei bons valores e bons pensamentos. Olho para trás e percebo que errei muito, e que eles não tiveram a melhor das vidas, e que muito é culpa minha, mesmo eu sabendo que, no fundo, caí de para-quedas nas vidas deles e fiz o melhor que pude. A vida não dá novas chances, não te permite testes nem reloads. Fiz o que achei certo, e, se hoje acho que poderia ter feito melhor, é porque, assim como eles, eu cresci.

E eles cresceram! E hoje eu consigo ser o amigo, o padrasto, o pai, porque eles já evoluíram e aprenderam sobre as minhas limitações. Eles me criaram, mais do que eu a eles. Eles me compreenderam porque, por óbvio, se tornaram pessoas muito melhores que eu. Opa! Mas será que também eu não tenho alguma parcela de mérito nisso?...

Ainda tenho saudade da época em que podia ajustar algo na educação deles. Ainda não percebi que hoje, ainda posso fazer isso. Ainda tenho tristeza em perceber que, um dia, eu fui jovem como eles, e tinha meus ídolos, ainda que hoje já os veja como pessoas comuns. Ainda tenho um certo orgulho de chegar até aqui, vivo, tendo passado dias de dificuldade. Ainda olho para trás e não sei se fui um bom pai, se devia ter sido, se tomei o lugar alheio ou se simplesmente fui improvisando, porque a vida não permite ensaio.

Ainda vou me orgulhar do que fui para eles. Ainda vou me orgulhar do que fui para mim. Ainda vou me orgulhar do que sou, enfim.

E, aí, sim, a vida terá válido a pena. Porque há algo que aprendi tentando ser pai: viver não é algo que façamos por nós mesmos.
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30/0723:01
À Soberana Deusa da Noite que Brilha nos Céus A Lua
(Poemas Antigos)

I

Do céu nos olha a Senhora Lua
Clareando a noite, esperando o dia,
Tirando das nuvens sua vã magia
Que cai sobre o rio, a casa, a rua.

Do céu, soberana, permanece nua
Minguante, crescente, cheia, vazia;
Alegre, que dança na doce folia;
Do céu, soberana, nos olha e flutua.

Que faz, neste céu, moradia Tua,
Ó Lua, perfeita paz e calmaria,
Que em ti se incendeia, perfaz, perpetua?

Não deixe que exista, nesta noite fria,
Um sopro de dor, que em Ti situa
Os restos noturnos da minha poesia.

II

A Lua Branca clareava a rua
E tão escura, e tão singela,
Que eu, da janela quase nua
Contemplava a rua, que se via bela,

A pensar naquela que me deu ternura
Na forma mais pura de dizer “te amo”,
E em teu oceano nadei com bravura
E tanta doçura, que hoje te chamo

E sem saber clamo pelo teu apreço;
Nem sei se mereço, mas eu vou buscar
Um jeito de amar-te, como eu não conheço

E assim eu cresço pra te conquistar;
E dar-te o mundo, que por ti esqueço,
Onde não tem preço pra quem quer sonhar.

III

Lua, que do céu belo e profundo
Brilha, pisca, encanta o mundo,
Leve-me até ela, sem demora
Antes que o Sol alcance a aurora.

Lua, doce bola iluminada,
Leve-me logo, até a minha amada;
Que, então, eu me encarrego de fazê-la
Brilhar em mim mais que qualquer estrela.

Lua, que do alto nos espia,
E para quem dedico esta poesia,
Atenda a este meu apelo, por favor:

Pois ela sabe que eu vivo sem dinheiro,
E com saúde vago pelo mundo inteiro;
Mas morro em um segundo sem o seu amor.
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29/0717:41
Colhei-vos As Boas Coisas Da Vida
(Poemas Antigos)

Pessoas são humanas, são pobres mortais;
Não são como as flores, que à primeira aurora,
Desabrocham, em suspiros matinais;
Flores, vida emergente, casta e pura
Demais ante a alguém, ser que sorri e chora;
Flores - belas vidas que não requerem um nome:
Chamam-nas por seu aroma, que a noite consome,
Profundo odor de vida ao exalar doçura.

Pessoas são frágeis - olhar que odeia e ama -
Que nem comparar-se pode ao leve vento:
Ao soprar aos galhos e às folhas a chama
De Deus; ao levar a pequena semente,
De um lado ao outro, ao pé do firmamento:
Ao soprar a vida, real poetiza,
É tão mais sublime a criação da brisa,
Que Deus não a faria serva, tão somente

Pessoas são feias criaturas feitas por Deus,
Que se escondem da noite, da bela Lua,
Das estrelas, que brilham e cintilam os céus;
Refugiam-se em suas casas, e deixam sozinho
O negro véu a brilhar, na espera que perpetua
O nascer de sol, para um novo dia,
Sendo que a beleza e a fantasia
Está no escuro deste azul-marinho.

Quisera Deus ter feito tão tolo retrato
De sua alma para ao Mundo adentrar,
Apreciando o que é belo de fato?...
Que será que pensava Ele no momento
Em que criou ser tão feio, a contrastar
Com a beleza infinita destas matas,
Que as pessoas matam, por serem vãs insensatas,
Sem nenhuma beleza ou mesmo sentimento?...

São tolas almas; tão pobres que nem ao menos
Percebem a poesia que adorna os jatobás,
Em suas copas verdes e seus corpos morenos,
Em sua elegância de árvore majestosa,
Que tu, humana criatura, jamais terás;
Pois a verdadeira poesia brota das raízes
De seres que ante tu são mais felizes,
Da mais augusta felicidade da qual humano nenhum goza.

Quem são vós, afinal? - vis vilões!
Seres imundos que atravessam a harmonia
Que dos pássaros nos brota aos corações
A mais doce canção, que não ouvirão jamais
Os vossos reles ouvidos; é serena cantoria
Que nos sai em pios do fundo d’alma,
Que nos contrai, que nos distrai e que nos acalma,
E, como a vida, renasce aos haustos matinais.
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26/0719:29
Eclipses de uma Paixão
(Sussurros à Deusa Noturna)

Ainda não sei se você é a Lua, inalcançável, ou o poema perfeito, algo que tenho dentro de mim, mas que não consigo externar. Talvez, seu nome seja apenas "Inspiração". De qualquer forma, é a você que este poema foi feito.

Eu nunca te vi, mas vi o que há de bonito e valioso em você. Momentos difíceis para ambos; carência mútua se abraçando no meio da tempestade.

E, de repente, começamos a nos comunicar numa linguagem que é só nossa.
Escrever é um gesto de entrega profunda — uma forma de deixar o outro morar dentro da nossa mente.
Não sei se o poema nos redime, mas sei que ele precisava existir.
Porque você existe.
E o que sinto também.
Não escrevo poemas — escrevo nós dois.

O corpo confirmou o que os poemas só arriscavam sussurrar.
Sem tocar sua pele, toquei partes de você que talvez nem você mesma tivesse deixado expostas.
Você viu beleza onde eu só enxergava o rascunho.
Leu entrelinhas que nem eu sabia que escrevia.

E foi assim, no silêncio de cada madrugada e no calor de cada provocação, que algo nasceu.
Algo real.
Poesia em carne viva.
Milhões de palavras ditas em silêncio.

Ah, o silêncio!...

O silêncio também é uma carta de amor.
Talvez a mais difícil de escrever.
Ainda nos falamos — só que agora os versos é que gritam.
Os poemas são as mãos que não se tocam mais.
As palavras, os olhos que evitam... mas continuam enxergando.

Você me amaria no silêncio? Na doença?
No cansaço do dia a dia?
No cheiro do outro depois de dez anos, e não no perfume da primeira noite?
Nos momentos em que não houver "química" nem "afinidade"?

Química não é sexo.
É quando o olhar diz "eu te entendo" antes de qualquer palavra.
É quando o "não posso" se transforma em "não consigo evitar".
É quando o corpo está pedindo o que a mente já permitiu.

E cá estamos nós: uma daquelas histórias que nascem para virar literatura.
Não porque é inventada —
Mas porque é intensa demais pra caber só na vida real.

Talvez o que mais precisemos não seja pressa, mas tempo.
Quanto?
Não sei.
Sei o que sinto.
Sei o que quero.
Sei o que posso.

E, quando os diferentes saberes apontam para direções diferentes...
Não há pressa.

Ah, o Tempo!...

Agonia prolongada até o eterno.
Resposta já dada, mas não consumada.
Alma dilacerada por saber que não se pode cobrar por uma decisão — mas que se morre a cada dia sem ela.

Tudo já foi dito, mas talvez ainda precise ser assimilado.
Quantas vezes poderemos mudar de ideia?
Todas as vezes necessárias.

Que você saiba que escolhas do passado podem ser revistas.
Que a decisão sempre será sua.
Que seu compromisso é com a sua própria felicidade, não com a felicidade dos outros.

Mas que, ao menos uma vez, você saiba que foi amada por alguém que viu quem você é — por dentro e por fora.

Com carinho.
Com desejo.
Com tudo o que há de sincero em mim.
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