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Tiago Bianchini Fidalgo

@ tibianchini

Nível
2
Essência
💧 Água
Ritual
1 Dia

Patrimônio

60.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

Updates

06/1022:05
Pai

- Cabo Mendes, ele ainda não quer colaborar.
Uma voz pingando de sarcasmo. Ele não aguentava mais apanhar, mas não tinha como dizer mais nada. O comandante estava sorrindo - ou assim imaginava ele, pois já não conseguia distinguir os borrões entre o inchaço da pálpebra aberta e o sangue que inundava a retina.
- Desde ontem, comandante. Não abre o bico. O que faremos?
Ontem. Um dia tão, tão distante. Não se lembrava de ter ido dormir, mas lembrava-se de ter acordado aos pontapés.
"Como é difícil acordar calado"
- Sabe o que eu acho, Cabo Mendes?
- Acho que posso adivinhar, comandante. Quer que eu vá buscar a turquesa? Talvez ele ainda não tenha entendido o que é "dor".
Novos risos, satisfeitos e ansiosos pelos próximos passos.
Ele tentava não esquecer do porquê de estar ali. Tentava manter, no imenso telão de projeção da sua mente, aquela imagem do sol nascendo por trás dos montes verdes, da terra que, um dia, jurou viver e morrer, jurou fertilizar e tornar produtiva.
- Sim, sim, cabo... Então traga a dor para ele.
"Tragar a dor"
Lembrava do rosto do seu Amor, sorrindo, de cabelos soltos e revoltos ao vento. Era com esse rosto em mente que ele queria se despedir desse mundo... Uma nova bofetada veio lhe acordar dos devaneios:
- Não vai falar nada, desgraçado? Você sabe que já está morto, não é? Que não vai mais sair daqui...NÃO É?
"Talvez a vida seja um fato consumado", mas, não; não era assim que as palavras lhe vinham à mente. Agora já não fazia diferença: o importante era manter em segurança aqueles que ele amava.
Um objeto pontiagudo e afiado lhe dilacerou um dedo; aquele dedo que tocava as mais belas canções para ela, na rede, ao pôr do sol. A dor já não era material; seu corpo já não era seu de fato.
"Resta a cuca".
A dor era lancinante, mas o pior mesmo era saber que não voltaria mais a rever aqueles olhos negros e aquela boca que tantas vezes lhe fizera perder o juízo - e só esperava que todo aquele sofrimento não fosse em vão. Não falaria mais nada. Já bastava o que não conseguira suportar.
- Eu estou tentando te ajudar, você sabe... Eu sei que você queria estar na sua casa... Mas, De que adianta ter boa vontade? Vocês não prestam, mesmo, são a escória.
Ouvia risos, ecoando na tontura da calada noite. Misturava-se à letra o riso que quebrava o silêncio.
"Esse silêncio todo me atordoa"
E era melhor assim: o torpor o ajudava a abstrair a dor que ainda viria. O desespero do corpo, ainda tão arraigado à luta pela vida que - ele sabia - já não valia mais nada.
Ouviu o morder das lâminas da turquesa. Lhe abriram as pernas. Chutes e pisões e objetos pontiagudos lhe atingindo as partes baixas. O tilintar da turquesa, voraz, vindo morder e esmigalhar tudo o que visse pela frente.
Sentiu um cheiro novo, entre o sangue e o pavor: queimado. A sua testa ardia sob o ferro quente.
"Cheiro de fumaça de óleo diesel"
- Sabe por que estamos te marcando? Porque você não passa de gado, ouviu bem? GADO. Você obedece aos comunistas malditos que querem fazer desse país uma nova Cuba. Uma nova Rússia. Um novo Chile. AQUI NÃO!
"Tanta mentira, tanta força bruta"
Nova pancada na têmpora. De repente, tudo ficou mudo.
"Silêncio na cidade não se escuta"
Por uns instantes, as risadas deram lugar ao nada. E, em meio ao nada, a voz da amada conseguiu sobressair-se:
- Não fraqueje. Talvez o mundo não seja pequeno. Em breve, vamos nos encontrar, em outra realidade, menos morta.
Como era doce a voz da sua amada!... Esboçou um leve sorriso ao lembrar; a boca já sem dentes e de língua inchada.
E então, sentiu entre as pernas que a turquesa trabalhava.
Um grito desumano.
No chão, um mar escorregadio,
"tinto de sangue".
- Ah, quer saber? Esse não vai conseguir falar mais nada, mesmo.
Ele só queria voltar para o mundo dos seus sonhos. Voltar a sonhar com seu Amor, num vestido de chita, chamando para o almoço. Ele queria provar de novo aquela boca e aquele corpo, "morrer do meu próprio veneno".
O Cabo espeta a faca no seu pescoço, a tentar separar o corpo da mente.
"presa na garganta"
"a faca já não corta"
Ele agora está prestes a perder de vez.
"perder de vez tua cabeça".
Saudade. Sensação de nunca mais. Últimas lembranças daqueles olhos negros. Eles estarão chorando agora, sabendo do seu destino. Balbucia, quase inaudível:
- Afasta... de mim...
Mas o comandante já não tem paciência. Puxa a colt, puxa o gatilho:
- Cale-se.
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IMAGEM
05/1021:28
O contrabaixo no meio da sala

Se eu me calo, é porque não me importo.
Se eu dou espaço, é porque não gosto.
Se eu procuro, é porque estou pressionando.
Se eu finjo que está tudo bem, é porque sou dissimulado.

Estou cansado de ser um monstro.
De acabar com vidas e casamentos felizes.
De não ser compreendido,
De ser temido como um predador,
Prestes a acabar com a sanidade mental de pessoas decentes.

Estou cansado de estar errado.
De agredir mesmo quando não faço nada.
De ser o chato, o ranzinza, o inflexível.
O maldito autista insuportável.
Não quero mais pensar em nada, nem em ninguém.
Quero pensar em mim.
No que restou de mim.

E vocês, que me lêem, não se iludam:
Eu sou um ser desprezível, que inclusive
Tem a cara-de-pau de me fingir de pessoa do bem,
Enquanto destruo corações e mentes ao meu redor.

Eu, o vil, o mau, o torpe.
O que, mesmo sem fazer nada, atrapalha.
O que, mesmo calado, ofende.
Mesmo calado.

Não esperem que eu seja um piano,
De cauda, brilhante, dando glamour ao ambiente:
Eu sou o feioso, o rude, o agressivo.
O eterno inconveniente.
O que incomoda mas não pode ser expulso.
O contrabaixo no meio da sala.

Se eu cantar, perceberão todos como sou dispensável,
E se arrancar as minhas cordas,
Tornar-me-ei ainda mais uma bagagem grande e inútil.

Tudo isso, até o dia em que não estiver mais,
Em que ninguém mais puder ouvir falar de mim
(Não que alguém vá me procurar um dia, eu sei)
Até o dia em que meus graves ríspidos e intrusos
Não mais invadam a doce vida de ninguém.

E aí, sim, dirão que, no fundo, ao longe,
Eu até que era uma boa alma,
Eu até que serviria a um propósito,
Ou que poderia ser útil para a felicidade de alguém.
E um dia, eu sei, alguém dirá, com lágrimas de crocodilo,
Como aquele rapaz era uma boa pessoa.
20/0911:31
Morangos maduros

"Vou pensar com calma, amanhã."
"Ela ainda vai estar ali."
"Não há pressa."
"Com o tempo, tudo se resolve.”

Vai passar.
Um dia, vou olhar pra trás e dar risada.

Não vai passar - já está passando.
O tempo.
E ele não volta, não retrocede, nem para.

Nunca.

Já está passando, e você está perdendo
Dias em que poderia ser mais feliz
Um pouco mais
E, pensando, indeciso, relutante,
Esperando que o destino resolva as coisas por você,
Esperando que os outros decidam o que você não consegue decidir
Esperando, esperando...

Um dia, você vai olhar pra trás.
E a vida vai ter passado.
Não diante dos seus olhos, mas à margem
À sua volta.

E aquele beijo não roubado
Aquele abraço não sentido
Aquela aventura louca que te faria sentir-se vivo

Não serão sequer um passado para recordar,
Mas um futuro que o universo jogou fora
Que você jogou fora.

Ainda dá tempo. Nem sempre dá tempo.
Ainda é hora de mandar aquele "oi"
De puxar uma nova conversa
De sentir a vida correr nas veias.

Ainda dá tempo de experimentar e errar
Ainda dá tempo de tentar novamente.
Alguém, em algum lugar, ainda está esperando você dar o passo.

Mas o tempo para fazer isso tudo
É o mesmo tempo que se gasta
Esperando, esperando...
Esperando que o outro desista
Esperando que o sentimento desapareça
Esperando um sinal divino que te diga
Que você sempre esteve certo em esperar.

Não, o tempo continua correndo.
E está acabando, aos poucos...
Não adianta sonhar com o passado,
Nem temer o futuro.
Só temos o presente, e ele é exatamente isso:
Uma dádiva.
Uma oferta.
Um presente.

E o que você tem feito com esse presente?
Devolvido? Deixado jogado num canto?
Olhado para ele, com medo de desembrulhar?
Algumas coisas na vida
São morangos maduros:
Se se degusta, são ótimos,
Mas se se guarda, logo perecem...

E você? O que tem feito
Com os morangos que a vida te dá?

Então, se a coragem não quiser te acompanhar,
Se o receio te disser:
"Pense com calma, amanhã."
"Ela ainda vai estar ali."
"Não há pressa."
"Com o tempo, tudo se resolve.”,
Deixe que seu corpo fale,
Deixe que seu desejo tenha voz...

E, se for pra errar, que seja por tentar,
E não por se esconder,
Porque é melhor ser um personagem ruim,
Que sofre, chora, e morre no fim do filme,
Do que um mero expectador.

Ligue.
Chame.
Viva.

Agora.
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10/0821:21
Meus Meninos

Pensei em repetir um texto já publicado, aproveitando o dia dos pais (já que não sou um). Lembrei que havia feito o texto inspirado em alguma pérola da Cris Ribeiro (ela tem tanta coisa espetacular que o difícil é não se inspirar no que ela escreve). Pra quem já leu, passe. Pra quem não leu... Bem, leia, talvez valha a pena...

Meus meninos ainda não eram meus meninos quando os conheci; um já tinha 8 e o outro, 5. E eu, justo eu, um autista que não há tinha sido um bom tio, nem um bom primo, nem um bom irmão, nem um bom cunhado mais velho, fiquei com a incumbência de ser um bom padrasto.

Eles não gostaram de mim logo de cara; achavam que eu estava vindo pra tomar o lugar do pai. Não era verdade; o pai já havia abandonado esse posto, e o que eu estava fazendo era tentar preencher um espaço já vago, mas como demonstrar isso para duas crianças?

Talvez por isso eu tenha sido tão duro, tão intransigente, tão crítico e austero. Talvez por isso, eles, que nunca haviam encontrado limite e autoridade, tenham se apegado a mim como um porto seguro - algo que eu não era, inconstante que fui, genioso e chato e ranzinza e exigente.

Mas... O tempo foi passando. E o amor que eu antes tinha pela mãe deles foi virando um amor por três, um amor pela família que não era minha. Eu me cobrei como pai e exigi tudo o que eles poderiam ser como filhos.

E quantas vezes um deles não veio me mostrar algo incrível, e eu não deixei porque não tinha tempo? Quantas vezes os impedi de falar sobre a nova série, o novo jogo, o novo livro, porque havia "trabalho importante" a ser feito? Hoje, olho para dentro de mim, com os olhos do passado, e encontro momentos em que eu poderia ter estado mais com eles, em que eu deveria ter mandado às favas aqueles chefes que sequer sabiam meu nome, nem que eu tinha filhos e família e que devia ser exemplo. Olho para trás com a percepção de que devia ter sido mais presente, mais amigo, mais amoroso. Mais pai.

Mas, hoje, um deles gosta de rock, é músico, está trabalhando com TI. Tudo isso é exemplo do padrasto. O outro, mais novo, adora desenhar e ler, e torce para o meu Flamengo, em vez do Corinthians do pai. Em que momento eu fui tão importante na vida deles? Em que momento eu fui exemplo de alguma coisa?

Hoje eu olho para trás com orgulho, com a certeza de que passei bons valores e bons pensamentos. Olho para trás e percebo que errei muito, e que eles não tiveram a melhor das vidas, e que muito é culpa minha, mesmo eu sabendo que, no fundo, caí de para-quedas nas vidas deles e fiz o melhor que pude. A vida não dá novas chances, não te permite testes nem reloads. Fiz o que achei certo, e, se hoje acho que poderia ter feito melhor, é porque, assim como eles, eu cresci.

E eles cresceram! E hoje eu consigo ser o amigo, o padrasto, o pai, porque eles já evoluíram e aprenderam sobre as minhas limitações. Eles me criaram, mais do que eu a eles. Eles me compreenderam porque, por óbvio, se tornaram pessoas muito melhores que eu. Opa! Mas será que também eu não tenho alguma parcela de mérito nisso?...

Ainda tenho saudade da época em que podia ajustar algo na educação deles. Ainda não percebi que hoje, ainda posso fazer isso. Ainda tenho tristeza em perceber que, um dia, eu fui jovem como eles, e tinha meus ídolos, ainda que hoje já os veja como pessoas comuns. Ainda tenho um certo orgulho de chegar até aqui, vivo, tendo passado dias de dificuldade. Ainda olho para trás e não sei se fui um bom pai, se devia ter sido, se tomei o lugar alheio ou se simplesmente fui improvisando, porque a vida não permite ensaio.

Ainda vou me orgulhar do que fui para eles. Ainda vou me orgulhar do que fui para mim. Ainda vou me orgulhar do que sou, enfim.

E, aí, sim, a vida terá válido a pena. Porque há algo que aprendi tentando ser pai: viver não é algo que façamos por nós mesmos.
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