Universo da obra
A origem das vozes da minha cabeça
A origem das vozes da minha cabeça
Existem dois motivos muito claros para eu estar escrevendo isso. O primeiro é uma espécie de homenagem piegas: sempre quis manter um diário de bordo, exatamente como meu pai fazia nas suas velhas aventuras. O segundo motivo é consideravelmente mais urgente: a última semana me provou que preciso colocar as ideias no papel antes que o resto de sanidade que me sobra resolva evacuar o prédio. As vozes continuam sussurrando no fundo da minha cabeça desde aquele dia, e a linha entre o que é real e o que é puro surto está ficando cada vez mais borrada.
Mas onde estão meus bons modos? Caso este diário termine nas mãos de algum estranho após a minha morte prematura: meu nome é William D. Von Kasten. Sou o atual proprietário de uma loja de antiguidades herdada do meu avô e, nas horas vagas — ou melhor, quando a fome aperta —, atuo como caçador de recompensas ocultista.
Minha loja de antiguidades — ou de "velharias imprestáveis", como prefiro chamar — continua a mesma tragédia de sempre. O movimento, que já era péssimo, despencou de vez. A única alma que cruzou aquela porta nos últimos sete dias foi um velho decrépito na sexta-feira passada. O sujeito cheirava a maresia e rum barato, e tentou me vender o crânio ressequido de um suposto marinheiro. Ele jurava, enrolando as palavras numa gagueira alcoólica, que aquilo pertenceu a um grande almirante morto em uma batalha épica. Sinceramente? Acho mais fácil ter pertencido a algum bêbado que caiu do cais, mas não pude resistir.
Admito que a ideia de ter um crânio humano enfeitando minha mesa de trabalho me pareceu uma excelente combinação de intimidação corporativa e charme erudito. Fechei o negócio por duas moedas de prata e uma garrafa de rum duvidoso que estava mofando no porão. Apelidei meu novo sócio carinhosamente de Reginaldo. E, sendo bem honesto, ele tem sido a melhor companhia que tive em meses. Já desabafei sobre metade dos meus problemas com ele, e o cara nunca reclama. Um ouvinte exemplar. Zero julgamentos, dentes sempre à mostra.
Meu avô sempre teve um carinho doentio por este lugar. Sinceramente, em vários momentos da minha infância, eu tinha certeza absoluta de que ele gostava mais do cheiro de mofo e da poeira destas prateleiras do que da minha avó. Ele cuidava de cada quinquilharia como se fosse um relicário sagrado. Ver este balcão abandonado, sem um único cliente decente para enganar, parece uma traição à memória do velho.
O problema é que conversa fiada não paga as contas. A realidade tem uma forma bem desagradável de nos dar um choque de ordem, e pelo visto vou ter que trancar as portas e seguir os passos do meu pai.
E dói. Me dói muito ter que admitir isso.
Eu passei a vida inteira jurando que meu destino seria diferente, que me aposentaria como um comerciante pacato de relíquias duvidosas, e não como mais um maluco caçando coisas que rastejam na escuridão. Afinal, a loja sempre foi a verdadeira paixão do meu avô e a fachada perfeita do meu pai; o comércio era só a vitrine bonita para cobrir o verdadeiro ganha-pão da família. Agora que o dinheiro acabou de vez e as vozes na minha cabeça decidiram morar aqui sem pagar aluguel, empunhar uma lâmina e caçar demônios voltou a ser minha única opção viável de carreira. Não que eu ame trocar o conforto deste balcão poeirento pelo perigo, mas encarar criaturas das sombras tem apenas aquela pequena desvantagem chata de colocar minha vida em risco a cada cinco minutos.
Olhei para o lado e Reginaldo continuava me encarando sobre a mesa, com aquele sorriso banguela e imóvel de sempre. Pelo visto, pelo menos o meu sócio não vai me julgar por ter que voltar à ativa.
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Mas, antes de fechar estas páginas e ir afiar minha lâmina, preciso registrar exatamente o que aconteceu nas últimas semanas para me deixar nesse estado deplorável.
Cerca de vinte dias atrás, cometi o erro crasso de decidir arrumar a bagunça do porão. Meu avô tinha o péssimo hábito de entulhar lá embaixo todas as quinquilharias e tomos mofados que ninguém jamais demonstrou o menor interesse em comprar, tudo para abrir espaço na loja para... bom, para novas quinquilharias. Eu só queria abrir caminho para uma prateleira nova de livros, já que a pilha acumulada na minha mesa estava começando a arranhar o teto e ameaçava me soterrar a qualquer momento.
Depois de horas engolindo teias de aranha e sujeira secular, encontrei um pequeno baú esquecido no canto mais escuro do porão. Havia tanta poeira e terra acumuladas ali que por um segundo me senti um arqueólogo de renome — um extremamente mal pago e com crises de espirro, claro. Contra toda a minha força de vontade, que me gritava para abandonar a faxina e ir tomar um chá, resolvi puxar a caixa.
Pelo peso, parecia completamente vazia. Mas, ao dar uma leve chacoalhada, ouvi o estalo seco de algo pequeno e sólido batendo contra as paredes de madeira. Tentei abrir a tampa, mas deparei com um cadeado de metal minúsculo na parte frontal. Procurei por alguma chave no meio daquela bagunça e não achei nada, o que não foi um grande problema: nenhum segredo antigo resiste por muito tempo a um bom alicate bem afiado.
Apesar da curiosidade corroendo minha cabeça, decidi adiar a invasão de domicílio do baú para terminar a faxina. Tirei o equivalente a três toneladas de entulho e madeira podre daquele buraco. Pelo menos a trabalheira serviu para algo útil: o porão agora virou um excelente refúgio para ler e estudar em paz quando quero fugir do mundo — embora a loja lá em cima já seja consideravelmente mais silenciosa do que um cemitério à meia-noite. Ah, e ganhei lenha para a lareira por pelo menos uns três meses.
Deixei o baú sobre a mesa e só fui quebrar aquele cadeado na manhã seguinte, depois de uma noite inteira de descanso.
Assim que a faxina terminou e tudo ficou minimamente apresentável, fui finalmente buscar meu velho e confiável alicate de corte — o mesmo que costumo usar nas autópsias mais grosseiras de monstros. O ferro do cadeado já estava carcomido pelo tempo, então a ferramenta atravessou o metal com a facilidade de quem corta manteiga.
Com um estalo seco, a tampa do baú cedeu.
Para a minha surpresa, lá dentro havia apenas um pequeno objeto envolto na poeira: um isqueiro de prata.
Admito que fiquei fascinado na hora. O acabamento era impecável, coberto por entalhes minuciosos e símbolos arcanos desenhados ao longo do corpo de metal. Era infinitamente mais elegante e estiloso do que qualquer quinquilharia barata que já vi os marinheiros ou mercadores usarem pela cidade. Olhando para aquela peça, meu primeiro pensamento de comerciante teso foi puramente pragmático: com a pessoa certa, aquilo com certeza me renderia umas boas moedas de prata.
Mal sabia eu que a bagatela vinha com brinde incluído.
Deixei o isqueiro em cima do meu balcão e fui jogar o baú despojadamente de volta para dentro do porão. Assim que subi as escadas, percebi que havia uma cliente na loja. Isso era extremamente estranho: eu não tinha escutado o tilintar dos sinos da porta — e olha que aquele barulho infernal já me acordou mais vezes do que posso contar. Minha cabeça era praticamente programada para disparar um alarme mental a cada nova visita.
Era uma mulher ruiva, com o cabelo acobreado preso em uma trança descuidada. Ela usava um sobretudo de couro marrom surrado por cima de um colete ajustado e calças de montaria.
O olhar atento e bainha velada na cintura deixavam bem claro que ela não estava ali para comprar relíquias. Aquela era a indumentária clássica de quem ganhava a vida no mesmo ramo sujo que o meu, bem era apenas um palpite.
Ela estava inclinada sobre uma prateleira, fingindo examinar uma bússola de latão oxidado. A postura era firme, o peso do corpo sutilmente distribuído para permitir uma reação rápida — um reflexo defensivo peculiar demais para qualquer pessoa comum.
O fato de o sino não ter tocado continuava me intrigando. Passar por aquela porta sem produzir um único ruído exigia uma habilidade refinada, praticamente impossível de executar sem um conhecimento prévio e milimétrico do local.
Ela se virou devagar, equilibrando a bússola entre os dedos. Tinha olhos amarelados e penetrantes, parecidos com os de um bruxo, mas sem aquela pupila felina fenda que fazia a maioria deles ser chamada de "olho de gato". A expressão era calma, dominada pela certeza de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Devo ser honesto comigo mesmo e não ter medo de escrever o que irei contar, — ainda mais sabendo do contexto inteiro da história —. É meio vergonhoso colocar isso no papel, para falar a verdade, mas, sendo um pouco eufemístico: eu me senti atraído por aquela figura.
Meu Deus, que horrível. Não sei se é algum mecanismo de defesa bizarro da minha cabeça, mas simplesmente escrever isso me dá calafrios. Nunca fui bom com sentimentos desse naipe, e um comentário desse tipo soa pessoal e vulnerável demais para o meu gosto. Mas enfim, resumindo o desastre: ela era absolutamente o meu tipo.
Antes de qualquer outra coisa, passei a mão pelo balcão e deslizei o tal isqueiro de prata diretamente para dentro do bolso do meu casaco. Velhos hábitos de comerciante — ou paranoia pura de caçador. Relíquias bonitas têm a péssima mania de mudar de dono quando tem mais de um profissional da área na mesma sala.
Olhei de relance para o Reginaldo na mesa, torcendo para que um crânio não tivesse a capacidade de ler mentes ou julgar o meu péssimo timing. Se ele pudesse falar, com certeza estaria rindo da minha cara. Eu enfrentava criaturas das sombras sem piscar, mas a simples presença de uma mulher bonita na minha loja era o suficiente para me fazer suar frio.
Repus a minha melhor cara de comerciante indiferente — ou pelo menos a versão dela que não parecia um completo idiota —, cruzei os braços sobre o balcão e encarei os tais olhos amarelados.
— Precisa de ajuda com algo? — perguntei, apontando com o queixo para o objeto na mão dela.
Soltei a pergunta tentando soar o mais natural possível, mantendo a postura neutra de um comerciante, embora a observação fosse pura ironia. Afinal, ela segurava uma bússola de latão oxidado com o ponteiro visivelmente emperrado. Se ela estivesse ali procurando orientação de verdade, tinha escolhido a pior ferramenta da loja.
A intenção era testar o terreno, ver qual era a dela sem entregar o jogo de cara.
Ela não piscou. Apenas continuou girando a bússola entre os dedos com uma facilidade irritante, sustentando aquele olhar amarelado. Um sorriso curto e de canto de boca apareceu no rosto dela — o tipo de sorriso que deixou bem claro que ela tinha percebido a minha tentativa de soar indiferente.
— O sino está enferrujado, Von Kasten — disse ela, colocando a bússola de volta no balcão com um estalo suave. — Ou você é quem está ficando velho e surdo.
Confesso que gelei naquele momento. Como diabos ela sabia o meu nome?
Procurei mentalmente pela fachada ou pelo balcão: não havia nada na loja que remetesse ao meu sobrenome. Um soco direto daqueles me pegou totalmente desprevenido. Naquele milissegundo, minha mente de caçador ativou o modo de sobrevivência: havia uma profissional armada dentro do meu estabelecimento, e ela provavelmente veio cobrar alguma dívida velha que eu tinha esquecido de pagar.
— Sei que minha cara de acabado soa como a de um idoso, mas sou bem mais jovem do que você imagina, sabia? — respondi, tentando manter o tom leve e me fazer de desentendido. — Afinal, o que traz uma bela moça como você a um lugar mofado como este?
Enquanto soltava a piada para distraí-la, comecei a deslizar a mão com uma lentidão milimétrica sobre o balcão, mirando a gaveta secreta onde eu guardava meu revólver — o meu resolvedor de problemas favorito para conversas desse tipo.
— Procurando por isso aqui? — perguntou ela, com uma expressão fria e ameaçadora.
Ela ergueu a mão, equilibrando o meu próprio revólver com apenas dois dedos pelo cão da arma. O metal reluzia entre nós como uma piada de mau gosto.
Naquele exato instante, senti uma descarga brutal de adrenalina percorrer cada veia do meu corpo, do topo da cabeça à ponta dos pés. Meu coração começou a martelar no peito como um tambor de guerra.
Eu não vou morrer aqui, pensei, tentando desesperadamente não entrar em pânico. Não na minha própria loja e certamente não por causa de uma ruiva com o meu próprio revólver.
Sem tirar os olhos dos dela, comecei a me afastar milimetricamente do balcão, dando passos calculados em direção à saída mais próxima. Minha mente já recalculava todas as rotas de fuga, os pontos de cobertura atrás das prateleiras de carvalho e o tempo exato que eu levaria para alcançar uma lâmina de emergência.
— Opa, opa, opa, calma aí... — murmurei, mantendo as mãos erguidas à altura do peito, em um gesto de rendição que não passava de pura fachada. — Que tal a gente dar um passo para trás e conversar como dois profissionais civilizados, sabe? É feio chegar assim na loja dos outros. Seus pais não te ensinaram bons modos?
Deboche em momento de risco de morte: o clássico mecanismo de defesa da família Von Kasten.
Enquanto a provocação saía da minha boca, meus pés continuavam o trabalho tático. Mais dois centímetros para a esquerda e a quina da prateleira de mogno me daria cobertura contra o primeiro disparo. Eu só precisava que ela caísse na conversa por três segundos.
Para a minha surpresa, ela não puxou o gatilho. Em vez disso, soltou um riso soprado pelo nariz — curto, seco e perigosamente divertido.
— Se meus pais tivessem me ensinado bons modos, Von Kasten, eu teria batido na porta — respondeu ela.
Com um movimento ágil e absurdamente exibido, ela girou o revólver no indicador pelo guarda-mato, invertendo o cabo, e jogou a arma no ar. O tambor de ferro deu duas voltas antes de cair com um baque seco bem no meio do balcão, a poucos centímetros do meu braço.
— Guarde o seu brinquedo. Eu não vim aqui para te matar. Se quisesse fazer isso, já teria feito enquanto você fingia que estava limpando o porão.
Gelei de novo. Ela não só estava na loja há mais tempo do que eu imaginava, como tinha me assistido carregar entulho como um idiota.
— Então... — pigarreei, recolhendo o revólver com a velocidade de um gato e checando o tambor por puro reflexo —, o que uma caçadora com talentos de invasão domiciliar quer no meu estabelecimento falido?
— Estabelecimento falido? É uma forma caridosa de chamar essa tumba — retrucou ela. Ela deu dois passos em minha direção, mas não me encarou. Olhou em volta, correndo os dedos pelas prateleiras poeirentas com uma nostalgia amarga. — O seu avô tinha um gosto péssimo para decoração. E um senso de responsabilidade ainda pior.
Travei a mão no cabo do revólver.
— Você conheceu meu avô?
— Se eu conheci? — Ela soltou uma risada curta, sem um pingo de humor. — Arthur Von Kasten me trancou num baú com um cadeado ridículo e me jogou no fundo do porão. Ele prometeu que voltaria em três dias assim que resolvesse um "pequeno contrato". Isso foi há duas décadas, William. Vinte anos engolindo poeira na escuridão por causa da memória de galinha do velho.
Fiquei encarando aquela mulher sem saber se sacava a arma de novo ou se pedia desculpas em nome da família.
— Espera aí... — Coloquei a mão sobre o bolso do casaco, sentindo o peso frio do metal de prata contra a minha coxa. A ficha finalmente começou a cair, trazendo consigo uma onda de arrepio. — O baú... O isqueiro...
— Demorou para juntar as peças, hein? — Ela deu um sorriso de canto de boca, e pela primeira vez notei uma sutil e quase imperceptível translucidez nas bordas da silhueta dela sob a luz fraca da loja. — Eu não passei pela porta da frente, garoto. E não sou uma invasora. Você me libertou quando quebrou aquele cadeado miserável hoje de manhã.
Ela inclinou o corpo sobre o balcão, ficando a poucos centímetros do meu rosto. Os olhos amarelados dela brilhavam com um fogo arcanamente antigo.
— Eu sou a Conquista, William. Ou pelo menos o que restou dela. O seu avô não me prendeu por maldade; ele me prendeu para conter a praga que eu carrego. Mas meu tempo neste plano acabou. Minha alma está presa a este isqueiro e ao fardo deste título, definhando em uma dor que você nem consegue imaginar. Eu só quero descansar. Ir embora de vez.
Olhei para a figura à minha frente. Toda a minha paranoia de caçador e meu cinismo de comerciante ameaçaram se dissolver diante daquele olhar de desespero calculado. Por um segundo, cheguei a sentir pena.
— Existe um jeito — murmurou ela, inclinando-se sobre o balcão e segurando minha mão. O toque dela era frio como o próprio gelo da morte. — Um ritual simples de transferência. Uma forma de selar a chama do isqueiro e libertar minha alma para o descanso eterno. É rápido, garanto.
Soltei minha mão da dela num estalo de lucidez.
— Espere um pouco... O meu avô não prenderia ninguém sem um motivo extremamente sombrio. E ele jamais deixaria um "espírito inocente" esquecido em um porão por mero descuido; o velho era meticuloso demais para uma cagada desse tamanho. E por que diabos usar a palavra transferência em vez de banimento ou libertação? E "Conquista"? Que tipo de nome de batismo é esse?
Foi aí que a ficha caiu com o peso de uma bigorna. Só uma entidade arcanamente maligna usaria um título como pseudônimo. O que estava parado do outro lado do meu balcão não era uma alma penada buscando redenção, mas a própria personificação do Demônio da Conquista, tentando me dar um golpe dos mais sujos.
— PUTA MERD... — o grito rasgou minha garganta.
Tentei me impulsionar para trás e sair em disparada rumo à porta, havia um espirito maligno na minha frente e eu estava totalmente desprotegido, mas não houve tempo nem para o meu segundo passo. O ar da loja congelou instantaneamente e minha visão foi tomada por uma escuridão absoluta e sufocante.
Apaguei antes mesmo de atingir o chão. E, para ser completamente sincero com este diário, não faço a menor ideia do que aconteceu no intervalo entre o meu desmaio e os fatos bizarros que vou relatar a seguir.
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Não sei dizer exatamente o que aconteceu, quantos dias se passaram ou o que a minha carcaça fez enquanto estive apagado. Por mais que eu tente forçar a memória, só me restaram alguns lapsos borrados de dor e sussurros — nada que faça o menor sentido. Eu simplesmente não tinha noção nenhuma do que havia sido feito da minha vida enquanto fiquei inconsciente.
Recobrei a consciência graças a um raio de sol implacável, que atravessou a janelinha alta do porão e mirou direto no meu olho esquerdo. Já era manhã. Tentei me mexer, mas meu corpo parecia ter sido atropelado por uma carruagem cheia de tijolos; cada músculo pesava uma tonelada e minhas articulações gritavam de exaustão.
E o cheiro... Puta merda, o cheiro. O ar estava impregnado com uma mistura insuportável de cinzas, carne queimada e um cheiro nauseante de enxofre puro.
Pisquei várias vezes para limpar a visão e consegui, com um esforço absurdo, ficar minimamente sentado no chão frio. Foi quando olhei para baixo e notei o cenário de desgraça: eu estava bem no centro de um círculo ritualístico.
Linhas pretas e chamuscadas se espalhavam pelo assoalho de madeira, desenhando símbolos arcanos que eu conhecia bem demais para o meu próprio bem. A magia que queimou aquele chão não era proteção. Era uma transferência completa.
Levei a mão trêmula ao bolso do casaco por puro reflexo e senti o metal de prata. O isqueiro ainda estava lá. Mas, quando olhei para o meu braço, percebi que a verdadeira conta daquela noite tinha acabado de chegar.
Fiz um esforço gigantesco apenas para me arrastar para fora daquele porão. Cada degrau de madeira parecia uma montanha que eu precisava escalar a pulso. Devo ter passado uns trinta ou quarenta minutos brigando com a gravidade e com o meu próprio corpo, tremendo feito um vara-pau e soltando palavrões entre dentes, só para conseguir chegar à parte de cima da loja.
O meu prêmio por ter alcançado o topo da escada? Desmaiar de novo, nobremente espalhado sobre o piso poeirento do meu próprio estabelecimento.
Quando finalmente voltei a ter algum vislumbre de consciência — nem sei quantas horas depois —, a primeira coisa que vi foi o teto da loja. Minha cabeça latejava como se um demônio menor estivesse treinando esgrima dentro do meu crânio.
Eu estava deitado a poucos metros do meu balcão. O silêncio na loja era absoluto, com exceção da minha respiração pesada e da fumaça do enxofre que ainda parecia impregnada na minha garganta.
Olhei para o lado. O isqueiro de prata estava jogado ali no chão, reluzindo com uma calmaria irritante. A "Conquista" não estava em lugar nenhum. Ela tinha conseguido exatamente o que queria: dissolvera sua presença, evaporara no ar e me deixara o presente de grego.
Levei a mão trêmula ao rosto para limpar a poeira e foi aí que os tremores começaram de verdade. Não no meu corpo desta vez, mas na minha mente. O ar ao meu redor parecia pesado, quase sufocante.
Foi a partir daquele exato momento que os sussurros começaram.
As palavras não vinham como um pensamento meu; era uma vibração incômoda no fundo do crânio, como um inseto preso zumbindo dentro do ouvido.
"Carta, carta, carta."
"Porão, porão, porão."
Uma voz sobreposta, fina e arrastada, ecoava em repetição contínua. Era o poder da Conquista me impulsionando, um comando intrusivo que fazia meus músculos responderem antes mesmo que minha razão processasse a ordem.
— Ah, maravilha... — resmunguei, cobrindo as orelhas com as duas mãos numa tentativa inútil de abafar o som que vinha de dentro. — Além de virar receptáculo de entidade, agora virei fantoche de voz do além. Excelente para o currículo.
Com a cabeça explodindo de dor, me arrastei de volta para a borda do alçapão do porão. A contragosto, olhei para a escuridão lá embaixo. Aquele cheiro desgraçado de enxofre e cinzas ainda subia em rajadas.
A Conquista queria que eu descesse. Ela tinha deixado algo para trás antes de passar o fardo e evaporar.
Me apoiei no batente da porta, minhas pernas ainda vacilantes como as de um bezerro recém-nascido, e comecei a descer os degraus de madeira um a um, enquanto a litania mental continuava ritmada na minha cabeça: carta, carta, carta...
Na estante próxima ao círculo ritualístico chamuscado, bem onde eu havia acordado horas atrás, repousava um papel.
Peguei uma cadeira e comecei a ler o que estava escrito.
Caro, William.
Me desculpe por ter te forçado a isso, mas eu não aguentava mais o meu sofrimento.
Meu nome real é Evelyn Monroe. Eu nasci em 14 de dezembro de 1432, e fui a cavaleira da conquista por cerca de 500 anos.
Você não tem ideia do horror que é carregar a ambição e a fome de domínio de toda a humanidade dentro do próprio peito.
Vi impérios nascerem do sangue e ruírem em cinzas. Vi reis e generais se destruírem, guiados por sussurros que não eram deles, mas sim da praga que habitava em mim. Durante cinco séculos, eu não fui uma mulher; fui apenas a sombra de um conceito terrível. Não havia descanso, não havia paz, apenas o ruído ensurdecedor de uma coroação infinita sobre cadáveres.
Quando seu avô me selou naquele isqueiro, achei que o tormento finalmente pararia na escuridão.
Mas o fardo da Conquista não morre com o isolamento; ele apenas definha, roendo a alma por dentro como um veneno lento. Eu estava enlouquecendo. A eternidade em um baú de madeira é um pesadelo que nem os demônios mais antigos desejariam para os seus piores inimigos.
Eu precisava sumir. Precisava que o fogo me consumisse de verdade e que minha alma pudesse, finalmente, conhecer o silêncio.
A única forma de libertar um Cavaleiro do Apocalipse é passar a coroa para outro receptáculo de sangue forte. E você, William... você tinha o sangue do seu avô, a centelha de um caçador e a ingenuidade necessária para me libertar.
Eu vi nos seus olhos a mesma luz que um dia existiu nos meus, e me aproveitei disso sem piedade.
Agora a marca é sua. As vozes que você escuta são os ecos das vontades que você terá que vergar. O arco e a coroa agora pesam sobre os seus ombros, e a partir de hoje a humanidade curva-se ou sangra sob os seus passos, quer você queira ou não.
Eu sinto muito, William. Sinto muito do fundo da minha alma por ter roubado a sua vida e seu futuro pacato para comprar a minha morte.
Me desculpe, verdadeiramente.
— Evelyn Monroe.
Não sabia exatamente o que sentir ao ler a carta, por dentro estava totalmente destruído por deixar um espírito daquele naipe entrar na minha cabeça, eu fui descuidado e isso me dá raiva. A parte em que ela diz que viu uma luz em meus olhos, será mesmo que seria verdade? Afinal, eu fui a primeira pessoa que ela viu em vinte anos, o primeiro idiota a libertar um mal que não conhecia por pura inocência...
Fico me perguntando o por quê o vovô nunca falou nada sobre isso para mim, porque diabos havia uma entidade desse calibre presa no porão, sinceramente preciso de um tempo para pensar nisso melhor, já que agora tenho mais coisas para me preocupar, é melhor encerrar minha escrita por hoje...
Sinopse
Em 1967, sob a sombra paranoica da Guerra Fria, William D. Von Kasten tenta manter de pé seu antiquário decadente — uma fachada conveniente para o trabalho sujo que realmente paga suas contas: a caça a demônios e aberrações nas bordas do mundo civilizado. Tudo muda quando um segredo enterrado no porão de sua loja desperta, atrelando à sua carne uma força proibida e ancestral que desafia a sanidade humana. Ao lado de sua irmã, uma caçadora com seus próprios demônios e laços com uma organização implacável, William é arrastado para uma conspiração de sangue, conspirações militares e poderes arcanos que pretendem remodelar o destino de uma era à beira do colapso.
Ver ficha da edição física
- LITEBN
- LITEBN-734434989745330144128956
Resenhas do livro
Imagine a Guerra Fria, mas com um detalhe nada sutil: o petróleo não vale nada perto do Éter. Essa substância volátil não serve só de combustível — ela é pura anomalia, parindo maldições bizarras e criaturas prontas para estilhaçar qualquer coisa pela frente. O planeta está à beira do colapso místico entre duas superpotências: a União dos Estados Etéreos (UEE) e o bloco soviético de Aethergrado. Enquanto isso, a Europa tenta não explodir: a antiga Alemanha nesse universo caótico é conhecida como Cervejistão, e o Reino Unido agora é a Névoa-Bretanha, uma ilha coberta por fumaça etérea e espionagem de sobretudo. Uma sátira de Guerra Fria com monstros, conspirações e diplomacia regada a gás instável.
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Resenhas do livro
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