A busca no porão Os arquivos de Von Kasten · Capítulo 3 de 8
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A busca no porão

Começarei a escrever este diário unicamente porque William não para de me azucrinar. Ele insiste que colocar as coisas no papel serve para «extravasar a mente» e que registrar os detalhes de cada caçada pode me salvar caso a memória falhe no meio de uma emboscada. Grande bobagem. Eu sei muito bem que, no fundo, aquele idiota só quer uma desculpa para bisbilhotar meus relatos e tentar entender o que se passa na minha cabeça. Para mim, perder tempo com tinta e papel sempre pareceu uma inutilidade completa — prefiro uma lâmina afiada a uma pena —, mas a insistência dele consegue ser mais irritante do que uma bala cravada no ombro.

Poderia começar desenterrando o passado, as cinzas e o massacre da minha família biológica, mas William me aconselhou a focar no presente enquanto o cheiro de pólvora e de sangue ainda está fresco na memória — Talvez não queira que eu fique martelando o passado...

Pulando apresentações pomposas e cordialidades que não combinam comigo: meu nome é Anna B. Von Kasten. Carrego no sangue a linhagem ancestral do Sanguis Sanctum, um dos clãs de vampiros mais antigos e implacáveis que já caminharam pelas sombras. Acontece que não sou uma criatura pura. Sou uma híbrida — metade humana, metade vampira —, uma aberração aos olhos dos aristocratas da noite, mas uma bênção prática para a sobrevivência.

Para sobreviver e bancar a minha própria caçada, coloco essas habilidades a serviço da Ordem dos Ocultos. Eles adoram encher a boca para se definirem como uma — organização secreta milenar —, mas, sendo bem sincera, estão muito mais para discretos e burocráticos do que qualquer outra coisa. No dia a dia, a gente só chama de a Ordem.

Trabalho para eles não por lealdade ou idealismo cego, mas por conveniência: eles me dão contratos, armas, acesso a relíquias arcanas e rotas de criaturas que nenhum humano comum ousaria enfrentar. E, acima de tudo, me mantêm perto das pistas que venho caçando há anos. Mas a coleira que colocam no meu pescoço é curta, e a cada novo relatório entregue ao Comandante Wilson, fica mais claro que os segredos da Ordem guardam tanta podridão quanto os monstros que somos pagos para caçar.

Cheguei a esta cidade há poucas horas com um único objetivo: encontrar o paradeiro do nosso pai. Como a Ordem perdeu o rastro dele há semanas e a hotelaria local é uma lástima, decidi me hospedar na loja de antiguidades do Billy — que também serve de casa para ele, por mais que o lugar pareça mais uma tumba abandonada do que um lar. Ele é a minha única pista e a única pessoa em quem posso confiar para me ajudar a revirar os guardados do vovô Arthur em busca de alguma rota.

Acho que o cansaço do trajeto cobrou o seu preço mais rápido do que eu esperava. Lembro-me de subir as escadas com ele, deitar um pouco para tirar a poeira do corpo e, quando me dou conta, desperto sobressaltada na cama do quarto de hóspedes.

Minha cabeça latejava com uma pressão incômoda, como se alguém estivesse apertando os meus sésamos com um alicate. Levei alguns segundos para reconhecer o teto empoeirado do quarto do Billy. A última coisa de que me lembro claramente era de subir as escadas depois de trancar a loja lá embaixo, sentar na mesa e conversar com ele sobre a falta de higiene do lugar. Depois disso... nada. Uma névoa espessa e incômoda cobria tudo. Devo ter desmaiado de cansaço ou cochilado sem perceber. O desgaste dos dois dias de viagem na estrada devia estar cobrando o seu preço.

Sentei na cama, massageando as têmporas e tentando espantar a sensação esquisita de que algo estava errado. Uma fisgada no meu ombro direito me fez franzir o teto: a coronha do meu revólver estava levemente fora do cofre do coldre, como se eu tivesse tocado na arma há pouco tempo. Balancei a cabeça, frustrada. A paranoia de caçadora já estava me fazendo checar o equipamento dormindo.

Levantei e caminhei até o espelho de parede. A luz do corredor estava fraca. Ajeitei o casaco e saí do quarto.

A cozinha estava vazia. Duas xícaras de chá frias e esquecidas permaneciam em cima da mesa. O silêncio na casa era denso, quebrado apenas pelo rangido distante do piso no andar inferior.

— Billy? — chamei, com a voz ligeiramente rouca.

Nenhuma resposta.

Desci os degraus rangentes de madeira e fui até o fundo da loja. O cheiro de papel mofado e poeira velha estava ainda mais forte. Encontrei meu irmão no meio do caos, ajoelhado no chão perto das prateleiras dos fundos, cercado por uma montanha de caixas de papelão e diários antigos do vovô Arthur. Ele parecia ter sido engolido pelo arquivo.

Quando me aproximei, Billy deu um tranco involuntário para trás, escondendo rápido um caderneto de couro sob uma pilha de folhas avulsas. Ele parecia pálido, com o peito subindo e descendo rápido, os olhos fixos em mim com uma tensão absurda — quase como se estivesse esperando que eu sacasse uma arma para ele a qualquer momento.

— Que susto, Anna... — disse ele, forçando uma risada curta e sem graça, passando a mão pelos cabelos bagunçados. — Não ouvi você descendo.

— Você está parecendo um fantasma, William — comentei, encostando-me numa estante de madeira e observando a bagunça ao redor dele. A dor de cabeça ainda dava pequenas agulhadas na minha nuca. — Eu devo ter apagado no quarto... Nem vi você descer para mexer nessa papelada toda.

— É... você parecia exausta — respondeu ele, desviando o olhar para o chão e pigarreando. — Fiquei com pena de te acordar. Achei melhor ir adiantando as buscas nos papéis do velho sozinho.

Achei a postura dele defensiva demais, mas não dei importância. Billy sempre foi meio arisco quando o assunto envolvia os guardados do vovô.

— E então? — perguntei, cruzando os braços e apontando com o queixo para a pilha de cadernos. — Achou alguma coisa que preste aí no meio desse entulho, ou o Arthur só guardava receita de bolo e nota fiscal furada?

— Ao que parece sim, só isso mesmo. Eu revisei esses manuscritos tantas vezes que estou ficando louco. Mas não tem nada em relação a tal Conquista... Já chequei os mapas, bestiarios, notas ficais, contratos de cinquenta anos atrás... Não tem nada aqui Anna...

— É mesmo? — perguntei, abaixando me e pegando uma das folhas amareladas que estavam espalhadas pelo chão. A fumaça invisível daquela dor de cabeça ainda incomodava no fundo dos meus olhos. — Engraçado... Eu podia jurar que o pai tinha certeza absoluta de que o caminho estava aqui.

Billy nem piscou. Manteve os olhos cravados no chão, esfregando a nuca com aquele ar de cansaço fingido que ele sempre usa quando quer encerrar uma conversa.

— Se o caminho estava aqui, o vovô levou pro túmulo, Anna — respondeu ele, jogando um bloco de notas mofado de volta na caixa de papelão. — Eu conheço essa loja de cabo a rabo. Se tivesse um mapa secreto do selo da Conquista escondido aqui, você acha que eu estaria passando fome e vendendo candelabro enferrujado pra pagar as contas?

A lógica dele fazia sentido, mas a tensão no ar era quase palpável. Havia algo de muito errado no jeito que ele respirava, na forma arrastada com que ele movia as mãos, como se estivesse carregando um peso insuportável nos ombros.

Examinei o papel na minha mão. Era apenas um rascunho antigo de despesas da loja, datado de 1948. Soltei uma respiração funda e joguei a folha de volta na pilha.

— Certo. Se não tem nada nos diários comerciais do Arthur, a gente precisa olhar o que sobrou dos livros de campo — declarei, limpando a poeira das palmas das mãos na minha calça. — O pai não é maluco. Ele não largaria um contrato da Ordem para embrenhar-se na serra atrás de um fantasma. Se ele foi para lá, é porque viu uma rota válida. E se a rota não tá no papel... pode estar na estrutura do lugar.

Billy ergueu a cabeça devagar, me encarando com uma sombra de inquietação nos olhos.

— O que você quer dizer com "estrutura do lugar"?

— O vovô era um caçador de elite da Ordem antes de mandar tudo às favas e abrir essa loja, William — respondi, dando dois passos e batendo com a ponta da minha bota no assoalho de madeira rangente dos fundos. — Você acha mesmo que um cara que passou a vida guardando relíquias deixaria o arquivo mais importante da família jogado numa caixa de papelão no meio da poeira? Se tem algo sobre a Conquista nesta casa... tá num lugar que nem você sabe que existe.

Billy engoliu em seco, o olhar fixo na parede do fundo como se ela estivesse prestes a desmoronar sobre a cabeça dele.

— Ele odiava a Ordem mais do que tudo neste mundo, Anna... — murmurou ele, a voz ríspida, quase defensiva. — Você sabe disso. Ele nunca deixaria nada rastreável para eles.

— Exatamente — devolvi na hora, encarando-o de frente. — O que só prova o meu ponto. Se ele escondeu algo da Ordem, escondeu direito. E não seria num bloco de notas qualquer que qualquer um podia achar.

Ele passou a mão pelo rosto exausto, tentando ganhar tempo.

— Anna, eu já vasculhei o porão inteiro semana passada...

— Pois então vamos vasculhar de novo — cortei, sacando a lanterna pesada de metal do meu cinto e testando o foco de luz amarelada contra a parede escura dos fundos. — Só que juntos desta vez.

— Então por que eu deixaria alguém da Ordem tocar nas coisas dele assim, hein? — disparou ele, a voz subindo um tom, ríspida, carregada de uma agressividade defensiva que me pegou de surpresa.

Parei por um segundo, o foco da lanterna vacilando na parede. Encarei meu irmão de cima a baixo. Billy estava com o queixo erguido, mas os ombros tensos e os olhos semicandidados entregavam que ele estava acuado, tentando usar o fantasma do nosso avô como escudo para me manter longe daquele porão.

— "Alguém da Ordem"? — repeti, soltando uma risada seca, sem um pingo de graça, enquanto dava um passo na direção dele. — Eu sou sua irmã, William. Não sou um fiscal do conselho vindo confiscar as tralhas do velho. Eu tô tentando achar o nosso pai antes que ele termine morto num buraco qualquer por causa dessa ganância ridícula.

Ele deu meio passo para trás, desviando o olhar na hora, incapaz de sustentar o meu enfrentamento por mais de três segundos. A mandíbula dele estava tão travada que parecia prestes a estalar.

— Se o Arthur odiava a Ordem, o problema era dele — continuei, baixando o tom para um sussurro firme, quase perigoso. — Eu visto essa farda porque foi o que sobrou pra pagar as contas e manter essa família inteira. Mas se você prefere bancar o guardião orgulhoso das memórias do vovô enquanto o pai apodrece na serra, é só falar na minha cara.

A reação dele foi imediata: o ar fugiu do peito dele por um instante, a palidez do rosto ficando ainda mais evidente sob a luz fraca da loja. Ele engoliu a seco, abaixando os braços que mantinha cruzados como se a armadura invisível dele tivesse acabado de rachar.

— Não é isso, Anna... — murmurou ele, a voz arranhada, perdendo toda a pose de antes. — Você sabe que não é isso.

— Então para de criar obstáculo — cortei, girando o corpo na direção da porta pesada de madeira que dava para a escadaria do porão. — Você vem comigo ou vai ficar aí em cima esperando outra desculpa cair do céu?

Ele continuava sentado no chão, cercado pela montanha de papéis mofados, a cabeça baixa, os cabelos caindo sobre a testa e escondendo o rosto nas sombras.

— E se eu simplesmente não quiser encontrar? O que vai fazer? Hein? — perguntou ele, sem nem se dar ao trabalho de erguer o olhar. — Vai me obrigar a procurar?

Aquelas palavras saíram da boca dele com uma calmaria bizarra. Uma voz suave, pausada, baixa demais para o William — aquele tom plano e gélido que você simplesmente não espera ouvir de alguém que estava quase tendo um colapso nervoso dois minutos atrás.

A minha mão direita reagiu por puro reflexo de caçadora, descendo um centímetro na direção do coldre antes que meu cérebro pudesse processar o gesto. A espinha me gelou. Aquela atitude não era o cinismo defensivo do Billy. Era outra coisa. Algo errado, denso e desconfortável pairou no ar da loja, fazendo o cheiro de mofo parecer subitamente metálico, pesado.

Dobrei os joelhos devagar, ficando na altura dele, mas mantendo uma distância de segurança. O foco de luz da minha lanterna tremeu levemente sobre a poeira do chão.

— William... — chamei, forçando a voz a sair firme, embora meu coração tivesse começado a martelar contra as costelas. — Olha pra mim.

Ele não se mexeu. A quietude dele era quase não humana.

— O que tá acontecendo com você? — insisti, baixando o tom, a dor de cabeça dando mais uma agulhada violenta na minha nuca. — Essa história do pai sumido... você sabe de alguma coisa que não tá me contando?

— Nada, só estou te gastando mesmo... — disse ele, dando um suspiro curto e soltando uma risada seca que não chegou nem perto dos olhos.

Em um movimento fluido, William se levantou do chão, limpou a poeira da calça com duas batidas rápidas nas coxas e caminhou em direção à porta do porão. Abriu a folha de madeira pesada e começou a descer os degraus rangentes com toda a naturalidade do mundo, como se não tivesse acabado de fazer o ar da sala congelar.

— É brincadeira, vamos, você vem ou não? — a voz dele veio lá de baixo, ecoando abafada na escuridão da escada.

Pisquei devagar, estática por alguns segundos no mesmo lugar, sentindo o suor frio secar na minha nuca. O contraste grotesco entre o tom gélido de segundos atrás e aquela displicência repentina me deixou com um gosto amargo na boca.

Apertei o cabo da lanterna de metal até as articulações dos dedos estalarem. A dor de cabeça pontudo voltou a fisgar atrás da minha testa, um lembrete incômodo e persistente de que meu corpo estava tentando me avisar de algo que a minha mente simplesmente não conseguia alcançar.

— Já tô indo — respondi, engolindo em seco e forçando minhas pernas a se moverem.

Caminhei até a boca do porão e comece a descer os degraus de madeira um a um. A luz amarelada da minha lanterna cortava a poeira suspensa no ar, projetando a sombra do Billy contra as paredes de pedra áspera lá na frente.

Por fora, ele parecia o meu irmão de sempre, de ombros levemente curvados e mãos nos bolsos do casaco. Mas a cada passo que eu dava rumo àquele subsolo escuro, o instinto de caçadora urrava no fundo do meu peito: tem alguma coisa muito errada com o William.

Onde antes deveria haver um paredão sólido de alvenaria e prateleiras de ferro abarrotadas de quinquilharias, havia um espaço escuro. Uma das estantes mais pesadas tinha sido deslocada cerca de um metro para o lado, revelando uma passagem estreita que eu nunca soubera que existia. A poeira no chão ao redor do vão estava fresca e perturbada, com pegadas recentes que se arrastavam para dentro da escuridão.

O cheiro de enxofre vinha justamente dali.

Aproximei-me devagar, passo a passo, tentando não fazer ruído sobre o piso irregular. Ergui a lanterna e projetei a luz para dentro da abertura. Era um corredor estreito de pedra bruta, com teto baixo, descendente.

— William, para de palhaçada — murmurei, mas a minha própria voz saiu trêmula.

Lá no fundo daquele túnel oculto, o brilho da minha lanterna refletiu em algo. Um brilho amarelo-ouro, vívido e não humano, que piscou uma única vez na penumbra antes de se esconder na curva da parede.

A dor de cabeça que vinha me incomodando desde que acordei deu uma fisgada violenta, rasgando minhas têmporas com tanta força que precisei me apoiar na borda da estante de ferro. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta junto com uma sensação absurda de déjà vu.

Aquele brilho amarelo. Aquela presença gélida. Eu já tinha visto aquilo... mas a minha própria mente parecia se recusar a puxar a memória do fundo do abismo.

— Anna? ANNA! — respondeu meu irmão, ligando a luz do porão e correndo até mim. — Você está bem?

Empurrei ele com força pelo peito, o impacto fazendo-o dar dois passos para trás.

— O que há de errado com você?! — esbravejei, a voz tremendo de raiva e da adrenalina que ainda queimava no meu sangue. — Por que está me assustando tanto assim?!

— Me desculpe! — respondeu ele, levantando as mãos em sinal de rendição. — Eu só queria fazer uma brincadeirinha... Você entrando cheia de marra com uma lanterna na mão, sendo que tem literalmente uma lâmpada aqui do lado da porta.

Soltei o ar com força pelos dentes, tentando desacelerar o coração que martelava nas minhas costelas. Aquilo sempre foi típico dele. O humor babaca, a piada fora de hora para quebrar a tensão, a cara de pau de quem acha graça em ver os outros irritados. Por um instante, aquela atitude quase me convenceu de que aquele era mesmo o meu irmãozinho de sempre, o mesmo garoto inseguro e sarcástico de anos atrás.

Quase.

Porque quando baixei a lanterna e olhei direito para ele sob a luz amarelada e vacilante da lâmpada do teto, a ilusão ruiu.

Aquele olhar.

Havia algo fundamentalmente errado com a forma como ele me encarava. Os olhos do Billy estavam lá, mas a expressão por trás deles era vazia, calculada, como um predador estudando cada micro-reação do meu rosto. Por uma fração de segundo — tão rápido que pensei ser fruto da minha enxaqueca —, tive a impressão bizarra de ver um reflexo dourado, quase metálico, piscar no fundo de suas pupilas.

— Você tá pálida, Anna — disse ele, a voz baixando para um tom suave que não combinava nada com quem acabou de pregar uma peça. — Tem certeza de que não quer subir e descansar mais um pouco? Eu posso procurar os papéis sozinho.

— Não — respondi de pronto, recompondo a postura e ajustando o revólver no coldre, sem tirar os olhos dele. — Eu não vou a lugar nenhum. E se você der mais um susto desse, William... a próxima reação da minha mão não vai ser te empurrar.

Ele deu um sorriso fraco, um aceno rápido de cabeça e se virou de costas para começar a mexer numa pilha de caixas no fundo do porão.

Apertei as têmporas, sentindo a dor de cabeça fisgar novamente. O cheiro de enxofre tinha sumido tão rápido quanto aparecera, mas a sensação de que eu estava dividindo aquele espaço fechado com um estranho continuava cravada na minha espinha como um anzol.

Eu comecei a ver fractais. Geometricamente perfeitos, luzes azuladas e roxas começaram a girar e se multiplicar nas bordas da minha visão, devorando as prateleiras do porão. Aos poucos, parecia que o ambiente estava ficando escuro de novo, como se a lâmpada do teto estivesse sendo sufocada por uma névoa espessa.

Um estalo seco ressoou atrás dos meus olhos. A sensação era a de uma agulha empoeirada e incandescente sendo enfiada fundo, bem no centro do meu cérebro, girando devagar para rasgar o tecido dos meus pensamentos.

Minha pressão sanguínea começou a cair vertiginosamente.

As pernas viraram gelatina. O teto e o chão do porão trocaram de lugar por um segundo vertiginoso. O som do ambiente sumiu, substituído por um zumbido grave e contínuo, como o eco de um sino pesado batendo dentro de uma tumba de pedra.

— Anna? — a voz do Billy veio de muito longe, abafada, como se ele estivesse falando através de uma parede de água.

Tentei apoiar a mão na estante de ferro mais próxima, mas meus dedos desmilinguíram sobre o metal frio, sem força para segurar nada. O joelho cedeu primeiro, batendo seco contra as tábuas do piso. A arma pesou no meu coldre como se fosse feita de chumbo maciço.

Minha visão foi se afunilando num túnel escuro. A última coisa que vislumbrei antes do breu completo tomar conta de mim foi a figura do meu irmão se aproximando. Ele não corria em desespero. Caminhava a passos lentos, firmes, o rosto completamente sereno enquanto a luz da lâmpada acima dele falhava e morria de vez.

— Anna? Tá tudo bem? Anna?

Dei um grunhido de dor, sentindo a minha cabeça mais pesada que uma bigorna. Eu estava jogada no chão frio do porão, com o rosto quase colado no assoalho. Aquele cheiro azedo e denso de enxofre parecia ter impregnado não só o ar, mas a minha própria pele e o tecido do meu casaco.

— Eu avisei... — a voz do Billy veio de cima, seca, sem a menor sombra do pânico que um irmão deveria sentir ao ver a irmã desmaiar do nada.

Apertei os olhos contra a luz fraca, tentando me apoiar nos cotovelos. O mundo ainda rodava devagar ao meu redor. Minhas mãos estavam fracas, e a sensação de ter uma lâmina afiada cravada no centro do meu cérebro começava a aliviar, deixando para trás apenas um rastro de dormência incômoda.

— O que... o que diabos foi isso? — murmurei, a voz saindo rasgada, gesticulando fraco na direção do nada enquanto tentava me sentar. — Minha pressão... despencou do nada.

— Eu disse que você devia ter ficado no quarto descansando — respondeu ele, estendendo a mão para me ajudar a levantar, mas mantendo a postura rígida, a sombra do corpo cobrindo metade do meu campo de visão. — A viagem te moeu, Anna. Você tá forçando a barra tentando achar o pai sem nem conseguir ficar de pé.

Aceitei a mão dele a contragosto, sentindo os dedos do Billy estranhamente frios ao toque. Quando me firmei de pé, desvencilhei-me rápido do seu apoio, encostando as costas numa das estantes de ferro para garantir que não cairia de novo.

Passei a mão pelo rosto suado e me forces a encará-lo.

— Isso não foi só cansaço, William — declarei, ajustando o cinto do revólver com o polegar trêmulo. — Eu nunca tive um apagão desses na minha vida. Nem durante os treinos mais pesados da Ordem.

Ele deu de ombros, virando o rosto para a pilha de caixas com uma indiferença que fez o meu estômago embrulhar de novo.

— Pode ter sido um ataque de pânico ou algo parecido, eu tenho isso direto... — disse ele com uma voz de riso, como se fosse algo engraçado, mas o som era puro desespero maquiado.

A risada curta e sem graça dele ecoou pelo porão antes de morrer contra a poeira e o silêncio do lugar. Ele nem tentou me encarar de frente enquanto falava. Virou-se de costas, fingindo arrumar uma caixa de madeira no canto, mas vi o tremor sutil nos ombros dele.

— Ataque de pânico? — repeti, soltando o ar devagar pela boca e me descolando da estante de ferro, passo a passo. — Eu passo por situações de risco extremo quase toda semana, William. Sei exatamente como meu corpo reage ao estresse. Isso não foi ansiedade. Foi como se a minha mente tivesse sido desligada na marra.

— Todo mundo acha que tá no controle até a conta chegar, Anna — devolveu ele, a voz perdendo o tom de piada e ficando grave, cansada. — Você acha que é invulnerável só porque carrega essa arma no cinto e veste a farda da Ordem. Mas o corpo cobra o seu preço uma hora. Olha pra essa situação: o pai sumido, você na estrada há dias, o vovô morto, essa loja caindo aos pedaços... Você acha mesmo bizarro seu cérebro pedir pânico?

A lógica dele era afiada, quase convincente. Para qualquer pessoa de fora, faria sentido perfeito. Mas quanto mais ele falava, mais eu sentia aquela mesma pulsação incômoda atrás das minhas orelhas, uma dor de cabeça residual que parecia aumentar toda vez que eu tentava me focar nas últimas duas horas.

— Talvez... — murmurei, engolindo o gosto amargo que ainda queimava na minha garganta. — Mas não explica o cheiro de enxofre. Nem a sensação de que a minha cabeça tá sendo vasculhada por dentro.

Billy congelou por um segundo no meio do movimento de empilhar dois livros velhos. A rigidez durou uma fração de segundo, mas foi o suficiente para o meu olhar treinado registrar. Ele pigarreou, tentando disfarçar, e se virou para mim com a expressão mais neutra que conseguiu forçar.

— O cheiro é de mofo concentrado com solvente de tinta velhos que vazaram ali atrás — respondeu, apontando com o queixo para o fundo do porão. — E o resto... bom, o resto é a sua cabeça tentando achar monstro onde só tem poeira e papelada.

Fiquei em silêncio por alguns instantes, cruzando os braços e deixando meu olhar demorar no rosto dele. O brilho estranho nos olhos do Billy não estava mais lá, mas a sensação de alerta no meu peito não diminuía nem um milímetro.

— Se você diz... — respondi, forçando um tom de conformidade que eu não sentia nem de longe. — Vamos acabar com essa busca de uma vez. Se o mapa do pai não tá aqui, a gente precisa subir e traçar uma rota para a serra antes do anoitecer.

— Vamos ficar de boa hoje, tudo bem? Vou preparar o jantar e amanhã, só amanhã a gente pensa nisso... Você não está em condições de ficar enchendo a cabeça com isso... — disse ele, num tom estranhamente calmo, quase acolhedor, enquanto fechava a tampa de uma das caixas com um baque seco.

Encarei o Billy em silêncio por alguns segundos. A luz fraca do porão projetava sombras compridas na cara dele, e por mais que a oferta de uma refeição quente e de uma trégua soasse como um oasis para o meu corpo moído, o meu instinto continuava apitando no fundo da mente.

Eu estava exausta. A cabeça ainda latejava, a pressão baixa tinha deixado minhas pernas pesadas e, de fato, eu duvidava que conseguiria raciocinar com clareza para mapear qualquer rota até a serra hoje à noite.

— Tá — cedi por fim, soltando um suspiro longo e pesado, massageando a nuca. — Você venceu. Uma noite. Mas amanhã, logo cedo, a gente vai revirar até a última tábua deste chão.

Um brilho sutil de alívio — ou de triunfo — passou rápido pelo rosto dele antes que ele me desse as costas e começasse a subir os degraus de madeira rangentes rumo à cozinha.

— Pode deixar, caçadora — a voz dele veio de cima, acompanhada pelo som dos passos. — Hoje a prioridade é só não deixar a comida queimar.

Acompanhei o Billy até o andar de cima, sentindo cada degrau como se estivesse carregando toneladas nas costas. A cozinha continuava fria, e o cheiro do chá antigo ainda pairava no ar. Enquanto ele começava a mexer nos armários para pegar os panelas e os ingredientes do jantar, me encostei no balcão, observando cada movimento dele em silêncio.

Ele parecia o meu irmão. O jeito meio desajeitado de cortar os vegetais, o resmungo baixo sobre a falta de mantimentos, a postura curva. Mas, no fundo da minha mente, a agulhada da enxaqueca continuava cravada, sussurrando que a paz daquela noite era só uma ilusão cuidadosamente construída.

Ele achava que tinha me convencido. Achava que eu tinha engolido a desculpa do ataque de pânico e do cansaço da viagem. Mas assim que ele se virasse para cozinhar, eu ia manter os olhos bem abertos.

O jantar transcorreu em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo barulho dos talheres batendo nos pratos e por poucas trocas de frases banais. William parecia empenhado em manter o ambiente o mais neutro possível, e eu, exausta demais para continuar o interrogatório, apenas comi sem questionar.

Assim que terminamos, não pensei duas vezes. Fui direto para o banheiro no andar de cima.

Tenho que dar o braço a torcer: apesar de a loja do Billy ser um monumento à poeira e ao mofo, o chuveiro dele pelo menos entrega uma água ridiculamente quente. Deixei o fluxo fervente cair direto sobre a minha nuca e as minhas costas, sentindo os músculos gradativamente desatarem os nós de tensão que se acumularam nos últimos dias na estrada. Foi, sem sombra de dúvida, a melhor coisa que me aconteceu em uma semana inteira. Deixei o vapor tomar conta do cômodo até que a dor de cabeça virasse apenas uma lembrança distante e apagada.

Saí do banho, vesti uma roupa limpa e caí na cama do quarto de hóspedes. Não passei nem cinco minutos acordada encarando o teto. O sono me puxou para baixo como uma âncora pesada, profundo e sem pesadelos.

Quando despertei esta manhã, parecia que meu corpo tinha sido finalmente remontado. A tontura sumiu por completo, a visão voltou a ficar afiada e aquela névoa estranha que cobria meus pensamentos dissipou. O descanso fez um bem absurdo

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