Na estrada
A fumaça do escapamento da picape cortava a neblina da manhã enquanto eu mantinha as duas mãos firmes no volante. O cheiro de gasolina queimada e estofado velho impregnava a cabine, mas nem isso conseguia disfarçar o peso do silêncio que se instalou entre nós assim que saímos dos limites da cidade.
Ao meu lado, a Anna olhava fixamente para o livro gótico aberto sobre os joelhos, os dedos traçando as anotações do vovô com aquela postura rígida de caçadora que ela herdou da Ordem.
Engoli em seco, mantendo os olhos fixos nos buracos do asfalto para não ter que encará-la de frente.
— Eu sei que você não gosta muito de falar sobre isso... — comecei, forçando a voz a sair num tom casual, embora minhas mãos apertassem o couro do volante até as articulações dos dedos ficarem brancas. — Mas como está o seu assunto?
A pergunta ficou flutuando no ar, pesada.
— Que assunto, Billy? — devolveu ela, sem tirar os olhos do papel.
Apertei o volante um pouco mais forte, sentindo o solavanco da picape ao passar por uma emenda do asfalto. Mantive o olhar fixo na estrada que se contorcia rumo às serras, mas a tensão dentro da picape ficou tão densa que quase dava para cortar com uma faca.
— Não se faça de idiota, Anna, sabe bem do que estou falando... — disse, baixando um pouco o tom de voz, perdendo aquele cinismo de fachada por um instante. — Da sua vingança... Conseguiu pegar o cara?
Pelo canto do olho, vi o corpo dela enrijecer na hora. O livro gótico continuou aberto sobre as pernas dela, mas os dedos pararam de folhear as páginas. A postura ereta de caçadora virou uma armadura completa de puro gelo.
Ela não respondeu de imediato. O silêncio durou longos e desconfortáveis segundos, preenchido apenas pelo ronco pesado do motor V8 e pelo ruído do vento batendo contra o vidro rachado da janela.
Eu conhecia aquele olhar. Era a mesma cara que ela fazia quando a Ordem entrava na conversa, ou quando o nome do bastardo que desgraçou a sua família vinha à tona. Ela achava que guardava aquilo num cofre trancado a sete chaves, mas a verdade é que aquela obsessão a consumia por dentro há anos — e era a verdadeira razão pela qual ela vestia aquela farda e carregava aquele peso nos ombros.
Na verdade, a Anna não é minha irmã por completo; somos irmãos apenas por parte de pai. Ela foi criada pela mãe e pelo padrasto até os nove anos de idade. A mãe dela era uma vampira do clã Sanguis Sanctum — uma linhagem restrita de vampiros que dependem de sangue puro para se manterem sãos e funcionais no meio dos humanos. Pouquíssima gente no mundo espiritual sabe da existência deles, e dizem que existem vários outros clãs espalhados por aí, mas o Sanguis Sanctum é o único que eu conheço de verdade — e quase tudo o que sei veio das poucas coisas que a própria Anna deixou escapar ao longo dos anos.
Ela nunca teve coragem de me contar a história toda de forma direta, mas sei que a mãe e o padrasto dela foram chacinados por um vampiro de um clã rival, bem na frente dela, em uma disputa política de território. Assim que a notícia do massacre chegou até a nossa família, meus avós não pensaram duas vezes e fizeram questão de acolhê-la.
Até aquele dia, eu nem sabia que tinha uma irmã. Eu tinha apenas sete anos quando ela apareceu na porta de casa, e ter uma irmã mais velha caindo do absoluto nada foi uma mistura bizarra de empolgação e ciúmes — afinal, a partir dali eu teria que dividir tudo. Meus avós sempre nos trataram de forma justa, sem favoritismos (embora o vovô Arthur mimasse a Anna de um jeito especial, talvez por pena do trauma), mas o nosso pai sempre demonstrou uma preferência clara por ela. Ele tinha os motivos dele para isso, mas esse é um assunto que não vem ao caso agora.
No começo, ela era uma rocha. Fechada, séria e vivia me dando bronca por qualquer besteira. Mas, com o tempo, meu jeito irritante acabou amolecendo a carcaça dela. Viramos cúmplices. Dois anos atrás, antes do vovô morrer, nós costumávamos caçar juntos — sem burocracia de Ordem, sem relatórios formais, só nós dois no bom e velho estilo rústico de rastrear e eliminar demônios. No fundo, apesar de todo o caos e do perigo, me dava uma ponta leve de felicidade ver que estávamos de volta à ativa juntos.
— William — a voz dela saiu fria, cortante, interrompendo meus pensamentos e sem um pingo da hesitação de quando estávamos no porão. — Mantenha os seus olhos na estrada e as suas mãos no volante
— Eu só tô perguntando, caramba — retruquei, soltando uma risada seca e sem graça para tentar disfarçar o arrepio que desceu pela minha espinha. — Você sumiu por meses, voltou com essa cara de quem não dorme há três semanas e quase caiu dura no meu porão. Acha mesmo que eu não sei que você tava rastreando o desgraçado?
— Se eu tivesse pegado ele, você saberia — devolveu ela, olhando direto pelo para-brisa, a mandíbula tão travada que o músculo da bochecha saltava. — E se você tocar nesse assunto de novo antes da gente tirar o pai daquela mina, eu juro que assumo a direção e deixo você na beira do asfalto.
Engoli em seco, ajeitando a postura no banco e voltando a focar na pista esburacada que começava a subir morro acima. A Anna podia estar exausta, mas a lâmina continuava afiada.
— Mensagem recebida, caçadora — murmurei, soltando o ar devagar. — Foco na missão.
Eu tentei manter a cara mais neutra do mundo, juro que tentei. Voltei os olhos para o para-brisa, pisquei duas vezes rápido, dei uma pigarreada falsa e inclinei o corpo para ajeitar o espelho retrovisor — qualquer coisa para fingir que aquilo não mexia comigo.
Mas a minha sobrancelha esquerda simplesmente subiu sozinha. O meu queixo deve ter descido uns dois centímetros.
Pelo canto do olho, vi o movimento rápido e preciso dela: puxar um tubo de ensaio de vidro do bolso interno da jaqueta, estalar a tampa de borracha, virar o líquido espesso e vermelho-escuro direto na garganta sem piscar e limpar o canto dos lábios com as costas da mão, como se estivesse tomando um xarope para tosse.
O cheiro ferroso cobriu o odor de gasolina queimada da picape por um segundo terrível.
Apertei o volante tão forte que senti a borracha gasta ranger sob os meus dedos. O carro deu uma leve guinada para a esquerda, comendo a faixa central da pista antes que eu puxasse a direção de volta com um solavanco seco.
— Eu juro por Deus que nunca vou me acostumar com esses seus hábitos vampirescos — soltei de uma vez, a voz um tom mais agudo do que o normal, apontando vagamente com o queixo na direção do tubo recém-esvaziado.
Anna guardou o frasco de vidro no bolso sem nem se dar ao trabalho de me encarar, mantendo os olhos fixos no livro em seu colo.
— Onde diabos você arrumou isso? — perguntei, franzindo a testa e sentindo um arrepio incômodo subir pela nuca. — Não me diga que atacou algum coitado na beira da estrada enquanto eu dormia.
— Peguei por aí — respondeu ela, num tom seco e displicente, sem dar a mínima importância à minha pergunta.
Soltei uma risada curta, carregada de pura ironia, e balancei a cabeça enquanto desviava de mais um buraco no asfalto.
— Ah, "por aí". Maravilha — debochei, ajeitando as mãos no volante. — Muito reconfortante saber disso, Anna. É ótimo saber que a minha irmã passeia por aí pegando sangue como quem compra um refrigerante no posto de conveniência.
— Tem muitos iguais a mim na Ordem... — soltou ela calmamente, ajeitando a postura no banco.
— Vampiros? — dei uma olhada rápida de lado, franzindo o teto.
— Não gosto de me chamar assim... Mas se se enquadra no seu arquétipo, sim.
— Ah, claro! Porque "bebedora de sangue em tubos de ensaio" é um termo técnico muito mais elegante, né? — debochei, soltando uma risada seca e balançando a cabeça enquanto a picape vencia a primeira curva acentuada da serra.
O pneu dianteiro comeu um pedaço do acostamento de terra, levantando uma poeira avermelhada que bateu contra a lataria. Ajeitei as duas mãos no volante, o tom de deboche caindo devagar à medida que a gravidade da fala dela assentava na minha cabeça.
— Quer dizer então que a Ordem — aquela mesma Ordem caturra, cheia de regras arcaicas, que o vovô dizia ser fanaticamente obcecada por "limpeza e controle" — tem uma divisão inteira de... caras como você?
Olhei para ela de soslaio. A Anna continuava com a expressão serena, o frasco de vidro já guardado no bolso interno, a postura perfeita de quem acabou de tomar uma xícara de café preto.
— Eles acham utilidade para todo mundo, William — respondeu ela, sem tirar os olhos das margens do livro gótico. — Desde que você sirva à causa e mantenha a trela curta, a Ordem não se importa com a cor do que corre nas suas veias.
— Que poético — ironizei, torcendo o volante para contornar mais uma fenda no asfalto velho.
O ar dentro da cabine pareceu congelar de novo. Engoli em seco, encarando a subida íngreme da estrada. A mata fechada da serra começava a engolir a pista dos dois lados, cobrindo a picape com uma sombra comprida e fria.
— Bom... — resmunguei, limpando a garganta e ajeitando a postura no banco. — Pelo menos se a gente encontrar alguma coisa feia naquela mina, eu sei quem vai morder primeiro.
— Hunf... Idiota — soltou ela, desviando o rosto para o vidro lateral.
Mas eu vi. Por uma fração de segundo, o canto dos lábios dela cedeu, quebrando aquela máscara gélida de caçadora com um esboço involuntário de sorriso.
— Você riu! — comemorei, apontando o indicador para ela sem tirar a outra mão do volante, soltando uma gargalhada triunfante. — A senhora das sombras deu uma risadinha! HAHA! Não tenta esconder, Anna, eu vi!
— Cala a boca e dirige, William, antes que eu faça você engolir esse volante — resmungou ela, cruzando os braços e afundando no banco do passageiro, embora o tom de raiva tivesse perdido totalmente a força.
Pisei no acelerador com um pouco mais de ânimo, sentindo a picape sacudir ao deixar o asfalto gasto e entrar de vez na estrada de terra batida que cortava a serra. O sol da manhã agora lutava para atravessar a copa densa das árvores, projetando feixes de luz trêmulos sobre o capô do carro.
O clima dentro da cabine tinha finalmente relaxado. Por alguns quilômetros, a tensão sufocante do porão, as suspeitas e o peso da farda da Ordem pareceram dar um passo para trás, deixando espaço apenas para a dinâmica torta, mas familiar, de dois irmãos na estrada.
— Mais vinte minutos e a gente chega ao pé do morro — avisou ela, batendo com o indicador na margem do livro do vovô e voltando ao tom prático de sempre. — A partir dali, a estrada acaba. Vamos ter que subir o resto a pé até achar o duto de ventilação.
— Maravilha — suspirei, ajeitando a postura e soltando um bocejo. — Minhas pernas já estavam mesmo com saudade de fazer exercício bruto na lama.
A terra vermelha e úmida jogava pedregulhos contra o assoalho do carro enquanto o motor V8 urrava nas sobidas mais íngremes. À medida que nos aproximávamos do destino, a vegetação fechava o caminho como uma muralha verde, e a sombra das árvores ia engolindo a pouca luz que restava.