Maus lençóis (Anna)
A noite já havia engolido a serra quando alcançamos a saída da estrada de terra onde tínhamos deixado a picape. O ar da montanha estava gelado, mas o calor estagnado que vinha do motor desativado ainda trazia um resto de conforto.
Pulei direto para o banco de trás, encolhendo-me contra o estofamento rasgado para me esconder da penumbra. Com a jaqueta em farrapos, o ombro em carne viva e as marcas de sangue cicatrizando devagar na minha pele, eu era uma denúncia ambulante. Qualquer patrulha da Ordem que cruzasse o nosso caminho faria perguntas demais, e a última coisa de que precisávamos agora era dar explicações sobre a minha natureza ou sobre o que realmente tinha acontecido no Nível 18.
— Fica funda aí atrás — murmurou William, batendo a porta do motorista e girando a chave na ignição. O motor da picape rugiu alto, sacudindo a lataria velha antes dele engatar a primeira marcha e acelerar pela estrada de cascalho.
Ajustei a posição no banco, tentando encontrar um ângulo que não pressionasse a carne nova do meu braço esquerdo. Pela fresta entre os bancos dianteiros, eu conseguia ver o perfil do meu irmão contra o painel iluminado. Ele segurava o volante com força, as juntas dos dedos brancas, com a postura tensa de quem lutava contra o próprio corpo, ficamos alguns minutos na estrada, estava cogitando tirar um cochilo enquanto meu irmão dirigia.
Então a crise começou de novo.
Um som rasgado e cavado veio do peito dele, seguido por uma sequência de tosses violentas que fizeram a picape dar um leve solavanco na pista.
— Droga... parece que voltou — resmungou ele entre as golfadas de ar, a voz rouca, quase irreconhecível.
Minha garganta secou. O cheiro de enxofre e ácido que exalava da respiração dele ainda estava impregnado no ar do cabine, mas o aroma do sangue humano fresco começou a sobressair, quente e metálico.
— William, bebe um pouco de água... respira devagar — pedi do banco de trás, inclinando-me para a frente, a preocupação superando o cansaço.
Ele não respondeu. Curvou-se sobre o volante, curvando as costas enquanto uma tosse ainda mais brutal parecia rasgar sua caixa torácica por dentro.
— Ah... merda.
William levou a mão à boca de estalo, sufocando o impacto. Quando ele baixou o pulso e encarou a própria palma sob a luz fraca e amarelada do painel, o tempo pareceu parar dentro daquela picape.
Não era apenas sangue líquido encharcando a pele dele. No meio da mancha escura e viscosa, repousava um pedaço pequeno e disforme de tecido denso — um fragmento expelido do seu próprio pulmão, derretido e corroído pelo gás do Colosso.
Senti um nó cego apertar meu estômago. O meu sangue vampírico podia curar ossos quebrados e regenerar membros destruídos em questão de minutos, mas o corpo do meu irmão era tristemente humano. A fumaça do construto estava destruindo William por dentro, célula por célula, e ele estava correndo contra o tempo sem me dizer uma única palavra sobre a gravidade do estrago.
— SEU IDIOTA! HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ ESTÁ ASSIM? O ACÔNITO NÃO FEZ EFEITO?! — berrei do banco de trás, pulando para o espaço entre os assentos dianteiros. Segurei o ombro dele com a mão boa, o choque e o pânico fazendo minhas garras arranharem o estofamento.
O cheiro de carne humana corroída e sangue quente tomou o espaço fechado da picape, tão forte que fez minhas presas reagirem por um segundo involuntário antes do horror assumir o controle.
William encarava a própria mão encharcada, a luz amarelada do painel destacando o pedaço de tecido pulmonar misturado à golfada escura. Os ombros dele ainda tremiam, tentando puxar um ar que claramente não entrava mais do jeito certo.
— Nenhum efeito... — murmurou ele, a voz saindo como um chiado seco, um sopro arranhado de quem estava com o peito em chamas. Ele deu um sorriso torto, manchado de vermelho nos dentes, e soltou uma risada fraca que terminou em mais um engasgo. — Só... piorou com o tempo... hehe.
— Você tá rindo de quê, seu imbecil?! — minha voz falhou, o desespero rasgando a rigidez que eu custava a manter. — Você tá cuspindo os seus próprios órgãos no painel do carro! Encosta essa picape. Encosta essa merda agora!
— Se eu parar... a gente não chega... no posto da Ordem — ele rosnou entre dentes, limpando o excesso de sangue na coxa da calça com brutalidade e pisando mais fundo no acelerador. O motor da picape rugiu alto, os faróis cortando a escuridão da estrada de terra em alta velocidade. — Eu aguento até lá. O arsenal... os médicos da Ordem devem ter algum neutralizador arcano...
— Você não vai aguentar vinte minutos nesse ritmo, William! — passei o braço direito por trás do encosto do banco dele, tentando segurar seu tronco para que ele não se dobrasse no volante se tivesse outra crise. — A névoa do Colosso era veneno concentrado de éter. O acônito só mascara praga biológica, não limpa corrosão mágica!
Ele não respondeu. Apenas apertou o volante com mais força, a pele do rosto ficando cada vez mais pálida, translúcida, enquanto o suor frio escorria pela testa suja de fuligem.
Eu olhava para o perfil do meu irmão e sentia uma impotência avassaladora.
— Aguenta firme... — sussurrei, ajeitando a postura no banco de trás e mantendo a mão firme no ombro dele, sentindo cada respiração curta e dolorosa que ele forçava. — Só... não fecha os olhos, Billy. Se você apagar no volante, eu juro que te mato antes do veneno.
— Razo... ável... — ele soprou, a voz quase inaudível contra o barulho do vento nas frestas da janela.
Instantes depois, o peito de William travou em um último espasmo violento. Ele tossiu mais uma vez — um som oco e aterrorizante de algo se rompendo por dentro — e o corpo dele simplesmente cedeu. A cabeça pendeu para a frente, batendo pesadamente contra o volante, e os olhos dele se fecharam de vez.
O carro perdeu o controle no mesmo segundo.
Com o peso do corpo inerte de William tombado sobre a buzina, o som agudo e ensurdecedor cortou a noite enquanto a picape começou a derrapar de lado na estrada de cascalho, os faróis varrendo desgovernados as árvores da ribanceira.
— WILLIAM! — gritei, jogando meu corpo por cima do console central.
Passei meu único armamento funcional — o braço direito — pela frente do peito dele, agarrando o volante com força brutal para alinhar as rodas antes que a gente despencasse no barranco. Mas o verdadeiro problema estava embaixo: os pés de William continuavam travados e pressionados com todo o peso contra o acelerador. O motor da picape urrava em rotação máxima, e o veículo continuava a disparar às cegas pela pista de terra, ganhando uma velocidade perigosa.
Se eu tentasse puxá-lo para cima do banco, o solavanco faria a picape capotar.
Estiquei a perna direita do banco de trás como pude, metendo a bota por baixo do painel para tentar prensar e chutar o pé dele para fora do pedal. A lâmina de ar frio da janela aberta chicoteava meu rosto enquanto o cheiro de pneu queimado e sangue quente enchia a cabine.
— Acorda, seu idiota! Destrava essa perna! — urrei, usando toda a força do meu sangue vampiresco para empurrar a coxa pesada dele para o lado enquanto mantinha o volante firme com a outra mão.
Com um estalo seco, o pé dele finalmente escorregou do acelerador. No mesmo milissegundo, cravei a mão esquerda — ainda em carne viva e se reconstruindo a trancos — no freio de mão e pisei no pedal de freio com a minha própria bota.
Os pneus travaram na pedra solta. A picape rabiou violentamente para a esquerda, cantando pneu e derrapando por quase vinte metros até parar atravessada na pista, a milímetros de colidir contra um tronco de pinheiro à beira do abismo.
O silêncio que se seguiu foi avassalador, quebrado apenas pelo estalo do motor fervendo e pelo ganido fraco da buzina que finalmente parou quando puxei William para trás.
Ele estava completamente apagado. A pele do rosto dele tinha atingido um tom cinzento e doentio, os lábios manchados por uma crosta escura de sangue coagulado. Coloquei os dedos no pescoço dele: a pulsação estava rápida, fraca e terrivelmente descompassada.
— Não faz isso comigo, Billy... — murmurei, a voz tremendo pela primeira vez na noite enquanto puxava o corpo dele para o banco do passageiro e assumia o volante. — A gente tá quase lá. Você não vai morrer nessa estrada de merda.
Engatei a primeira marcha com brutalidade e pisei fundo no acelerador, disparando pela escuridão rumo ao Posto Avançado da Ordem.
Foram dez minutos que pareceram dez horas.
O caminho até o posto da Ordem foi um pesadelo absoluto. Pilotar aquela picape caindo aos pedaços pela estrada de terra já seria difícil em condições normais, mas com o braço esquerdo ainda no meio de um processo doloroso de reconstrução — a carne viva estalando e os nervos queimando a cada tremor do volante —, a tarefa virou um suplício.
Eu mal conseguia esticar o braço mutilado para alcançar a alavanca de câmbio. A cada troca de marcha, eu precisava cruzar a mão direita por cima do volante ou usar o cotovelo esquerdo recém-fechado para empurrar o manete, fazendo o motor arranhar num chiado metálico de doer nos ouvidos. O carro dava solavancos violentos, e a cada chacoalhão o corpo de William pedia passagem, tombando sem vida contra o meu ombro, o sangue escuro sujando a minha jaqueta rasgada.
— Fica comigo, Billy... — eu rosnava entre dentes, pisando fundo no acelerador até o pedal encostar no assoalho, o cheiro de pneu queimado e óleo fervendo se misturando ao odor metálico de sangue que tomava a cabine.
Quando os refletores do Posto Avançado da Ordem finalmente surgiram no fim da curva, cortando a escuridão da serra, eu não pensei duas vezes. Não reduzi.
A picape entrou no pátio de triagem cantando pneu, derrapando no cascalho e quase atropelando dois guardas de prontidão antes de parar de soco, a milímetros das barricadas de madeira. O impacto da parada brusca fez a porta do motorista se escancarar.
— MÉDICOS! — berrei com toda a força dos meus pulmões, me jogando para fora do veículo e puxando o corpo inerte do William pelo tórax. — SOCORRO! É ENVENENAMENTO POR ÉTER!
Os caçadores do pátio, que já sacavam suas armas de fogo rúnicas achando que era um ataque, travaram ao reconhecer meu rosto e o estado do meu irmão. Em questão de segundos, quatro paramédicos da Ordem com braçadeiras brancas vieram correndo com uma maca dobrável de metal, acompanhados pelo olhar severo dos guardas que cercavam a picape.
— Ele inalou o vapor ácido do Colosso! — gritei, segurando a gola da farda do primeiro socorrista enquanto eles deitavam William na maca. — Os pulmões dele estão derretendo! O acônito não segurou!
— Levem ele direto pra sala de contenção e expurgo! — ordenou o médico chefe, checando o pulso fraco do meu irmão e vendo a mancha escura de tecido na gola da camisa dele. — Tragam os purificadores de alquimia pesada e soro estabilizador agora!
Acompanhei a maca a passos largos enquanto eles cruzavam os portões de ferro do complexo em disparada. O corpo de William estava gélido, a pele acinzentada, mas ele ainda soltava chiados fracos e dolorosos pelo peito.
Enquanto a equipe médica o empurrava para trás das portas duplas do setor hospitalar, o Comandante Wilson apareceu no corredor, observando a cena com a costumeira frieza tática. Ele olhou para as manchas de sangue no meu rosto, para o meu braço esquerdo em regeneração e depois para a porta por onde William tinha acabado de entrar.
— O rapaz foi atingido pela praga do construto — declarou Wilson, o tom de voz grave ecoando no corredor de concreto. — Se ele sobreviver a essa noite, será um milagre da alquimia. E você, Anna... não está em melhores condições.
— Eu fico bem — cortei, ríspida, limpando o sangue do meu próprio rosto com as costas da mão boa, embora o cansaço começasse a pesar no meu corpo vampiresco. — Mas ele tem que sair dessa. Nós temos uma missão para cumprir.
— A missão pode esperar — respondeu o Comandante, cruzando os braços. — Não quero pressionar seu irmão a entrar na Ordem depois de um incidente desses, vamos dar uns dias para ele se recompor.
— Mas e meu pai?
— Eu focaria no que eu tenho no momento, senhorita Von Kasten. Imagino que seu irmão seja mais importante para você do que seu pai. Sem ofensas, digo isso pois o próprio William disse que ele não era muito presente...
Me sentei numa cadeira que estava mais próxima. Ainda estava sentindo a dor do meu braço, que continuava só pela metade, mas nada daquilo era tão doloroso quanto a culpa de ter arriscado a vida do meu irmão. Aos poucos fui entrando em posição fetal, abraçando as pernas e encostando o queixo nos joelhos, prestes a cair em prantos para tentar aliviar aquele peso sufocante no peito.
— Tome isso — disse o Comandante, estendendo a mão com um frasco de sangue concentrado. — Regenerar membros lentamente é muito doloroso. Beba, vá tomar um banho, troque essas roupas e vá descansar um pouco.
— Não vou deixar meu irmão sozinho... — murmurei, a voz embargada, sem levantar a cabeça.
— Ele está em excelentes mãos e prometo que farão o possível — insistiu Wilson, num tom surpreendentemente mais brando, deixando o frasco na pequena mesa ao lado da cadeira. — Ele não gostaria de vê-la assim, isso eu tenho certeza.
Olhei para o frasco sobre a mesa, o líquido vermelho denso refletindo a luz fria do corredor. O cheiro metálico ativou minha sede quase que de imediato, e o meu braço mutilado deu um fisgada violenta, clamando pelos nutrientes de que precisava para fechar a pele e remontar os ossos.
Peguei o vidro com a mão trêmula, destapei a rolha de cortiça e virei a substância de uma vez. O sangue quente desceu rasgando a minha garganta, e o efeito foi quase instantâneo: uma onda de calor percorreu minha espinha, os vasos do meu ombro estalaram e os tecidos musculares começaram a se tecer visivelmente, cobrindo o cotovelo e avançando até o pulso com uma rapidez impressionante. A dor aguda deu lugar a uma dormência anestésica.
Com um suspiro pesado, apoiei as mãos nas coxas e me ergui da cadeira. Minha jaqueta estava arruinada, encharcada com a fumaça tóxica da mina e o sangue do William.
Caminhei a passos lentos até o alojamento temporário dos caçadores no andar superior do posto avançado. A água quente do chuveiro levou embora a crosta de fuligem, a poeira de pedra e o cheiro corrosivo do gás do Colosso, mas não conseguiu lavar a imagem do meu irmão caindo desacordado sobre o volante, expelindo pedaços dos próprios pulmões por minha causa.
Troquei as roupas destruídas por uma farda limpa de treino da Ordem — calça escura de tecido reforçado e uma camisa preta justa. Meu braço esquerdo já estava inteiramente formado, embora a pele nova ainda estivesse rosada, sensível e marcada por finas cicatrizes que sumiriam em poucas horas.
Não consegui dormir.
Assim que terminei de me vestir, desci novamente os degraus de concreto e voltei para a porta do setor hospitalar. Sentei-me no mesmo banco de metal diante da janela de vidro fosco da UTI alquímica, observando o reflexo das luzes medicinais e o vaivém dos curandeiros dentro da sala.
A noite passou arrastada, marcada apenas pelo bipe constante dos monitores arcanos e pelo som da minha própria respiração. Quando os primeiros raios de sol começaram a cortar a névoa do alvorecer pelas janelas do corredor, a porta dupla se abriu.
O médico chefe saiu, retirando as luvas de couro e o protetor facial manchados de reagentes. Ele me viu ali, de pé no mesmo segundo em que a maçaneta girou.
— Como ele está? — perguntei antes mesmo de ele se aproximar, a voz firme, mas com o coração batendo no compasso da ansiedade.
— O veneno de éter foi neutralizado e conseguimos estabilizar a lesão no tecido pulmonar com banho de soro alquímico — disse o médico, limpando o suor da testa. — O garoto é forte. Se fosse um humano comum sem o tratamento imediato, teria sufocado em menos de duas horas. Ele já está consciente, mas os pulmões ainda estão frágeis.
Não esperei ele terminar de falar. Passei pelo médico e empurrei a porta do quarto.
William estava deitado na maca central, o peito nu coberto por faixas banhadas em unguento medicinal e uma máscara de respiração de latão presa ao rosto, conectada a um pequeno tubo de vapor purificador. A pele dele ainda estava pálida, mas a cor natural começava a voltar aos lábios.
Assim que a porta bateu, ele virou a cabeça devagar e fixou os olhos em mim.
— Olha só... — a voz dele saiu abafada por trás da máscara, extremamente rouca e fraca, mas carregada daquela mesma ironia irritante de sempre. — Eles deixaram a vampira entrar... Achei que já tinha virado almoço de médico...
Parei ao lado da maca, olhando para ele com os braços cruzados, sentindo um nó imenso se desfazer no fundo da minha garganta.
— Cala a boca, Billy — murmurei, dando um leve e cauteloso peteleco na testa dele. — Você quase morreu de verdade dessa vez.
Ossos do ofício... — murmurou ele, a voz chiada abafada pelo metal, levando a mão fraca até a tira de couro da máscara para tentar tirá-la.
— Nem pense nisso! — barrei a mão dele na hora, empurrando o pulso dele de volta para a maca com firmeza, mas sem colocar força. — Você acabou de ter metade dos pulmões reconstituídos por purificação alquímica. Se tirar essa máscara agora, vai voltar a expelir pedaços de órgãos no meu pé.
William soltou um resmungo rouco e revirou os olhos por trás do visor de vidro, mas desistiu de lutar contra a tira de couro, deixando a mão cair pesadamente sobre o lençol.
— Você é muito mandona pra alguém que quase virou um pernil de um braço só ontem à noite — soprou ele, o indicador apontando para o meu ombro esquerdo.
Olhei para o meu próprio braço. A pele nova já tinha recuperado o tom natural, sem cicatriz alguma, perfeitamente funcional graças ao frasco de sangue concentrado que Wilson me dera. A diferença entre a minha biologia monstruosa e a fragilidade humana do meu irmão nunca tinha sido tão escancarada.
— Pelo menos o meu braço cresce de novo — retruquei, puxando um banco de metal para o lado da maca e me sentando. Ajeitei a farda limpa da Ordem e encarei o rosto pálido dele. — O Comandante Wilson disse que nós vamos ter alguns dias para você se recompor. A missão para o Castelo de São Romão e o Sanatório de Névoa Alta foi adiada até você conseguir respirar sem essa máquina.
William piscou devagar, assimilando a informação. Ele virou o rosto para o teto de concreto do quarto hospitalar, o chiado do vapor purificador marcando o ritmo da respiração lenta dele.
— O velho não vai esperar alguns dias, Anna... — a voz dele saiu mais séria por trás do filtro, perdendo a camada de deboche. — Se ele tá em uma dessas duas frentes, cada hora que a gente passa parado aqui é tempo que o receptáculo tem para se fortalecer... ou tempo para a Ordem achar ele primeiro.
— E de que adianta você sair correndo daqui e morrer de parada respiratória na primeira esquina da serra? — rebati, inclinando o corpo para a frente e apoiando os cotovelos nos joelhos. — O diário da Evelyn continua escondido com a gente. A Ordem só sabe o que nós deixamos eles saberem. O pai sabe se cuidar sozinho, Billy... ele sobreviveu a essa montanha por anos. Agora, a prioridade é garantir que você não morra antes de encontrarmos aquele desgraçado.
William ficou em silêncio por um longo segundo, encarando o vapor verde-claro que subia pelo tubo da máscara. Por fim, soltou um longo suspiro que fez a válvula de latão apitar baixo.
— Onde tá a minha mochila? — perguntou ele.
— Guardada no alojamento do posto. Com a garrucha, os bilhetes e o diário intactos — respondi, observando o peito dele subir e descer sob as faixas medicinais. — Ninguém encostou nas nossas coisas.
Ele deu um breve aceno de cabeça, os olhos demonstrando um cansaço profundo enquanto os reagentes do soro purificador começavam a fazer efeito pesado, pesando as pálpebras dele.
— Ótimo... — murmurou ele, a voz afundando no sono. — Me acorda quando o médico disser que meus pulmões não vão explodir...
— Pode deixar, idio... — sussurrei, vendo-o fechar os olhos de vez e adormecer em questão de segundos.
Ajeitei a coberta sobre os ombros dele, encostei as costas no banco de metal e fechei os olhos, finalmente permitindo que o meu próprio corpo descansasse na penumbra do quarto.
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Despertei num sobressalto, a mente ainda turva pelo sono pesado e pela exaustão acumulada da noite. Esfreguei os olhos, piscando rápido para adaptar a visão à penumbra do quarto hospitalar.
Foi quando o sangue do meu corpo pareceu congelar.
William estava sentado na beira da maca, com as pernas penduradas. A máscara de latão repousava jogada no chão, o tubo de vapor arrancado. Ele não encarava o teto nem a janela: estava totalmente virado na minha direção, imóvel. Os olhos do meu irmão não eram mais os mesmos — as íris humanas haviam sido substituídas por um amarelo doentio e incandescente, que brilhava no escuro como o núcleo corrompido do Colosso. O lado esquerdo do seu rosto estava bizarramente paralisado, repuxado para baixo num trejeito torto, rígido e inumano.
Abri a boca para chamar pelo nome dele, minha mão instintivamente buscando moldar uma estaca de sangue.
— Calada... — a voz que saiu da boca de William não era dele. Era um chiado duplo, grave, rasgado por uma ressonância metálica que fez as estruturas do quarto de concreto vibrarem baixo.
Travei na hora, a autoridade esmagadora daquela presença travando a fala na minha garganta.
— Se levante — ordenou o ser usando o corpo do meu irmão, a cabeça inclinando-se num ângulo denso e antinatural.
Com os batimentos cardíacos disparados e o meu instinto vampiresco gritando perigo, ergui-me devagar do banco de metal, sem desviar o olhar daquela aberração.
A coisa que habitava William deu um passo lento à frente. As faixas do peito dele começaram a manchar-se de um fluido esverdeado e viscoso. Ele aproximou o rosto torto do meu ouvido, o hálito exalando o cheiro inconfundível de enxofre e carne morta, e sussurrou:
— Você acha que o trouxe aqui para salvá-lo, pequenina... mas este corpo não passa de um receptáculo que já estava podre por dentro. Toda vez que ele respirar, toda vez que ele piscar, será a minha vontade movendo a carne dele. E quando o momento chegar... eu farei as mãos do seu querido irmão arrancarem o coração do seu peito enquanto ele assiste a tudo, preso e gritando do lado de dentro.
Um estalo seco ecoou pelo quarto.
Minha visão girou violentamente quando a força inumana retorceu meu pescoço num ângulo impossível. A dor foi um clarão cego, seguido pela escuridão absoluta do vazio.
Puxei o ar com um grito rasgado que saiu da minha garganta como um urro, desferindo um soco descontrolado no ar enquanto meu corpo se projetava para a frente no banco de metal.
Meus pulmões ardiam, o coração batia feito um martelo no peito e o sangue do Sanguis Sanctum fervia nas minhas veias, pronto para a guerra. Minha mão direita voou instintivamente para o meu próprio pescoço, tateando a pele, a coluna, os músculos — tudo intacto. Nenhum osso quebrado. Nenhum cheiro de enxofre.
— Anna?! O que foi?! O que aconteceu?! — a voz de William veio abafada e sobressaltada do lado da maca.
Girei a cabeça rápido, o suor frio escorrendo pela minha testa.
William estava deitado, a máscara de latão devidamente presa ao rosto, com o tubo injetando o vapor purificador em ritmo constante. Os olhos dele estavam arregalados de susto, castanhos e perfeitamente humanos, me encarando com uma mistura de pavor e preocupação sincera. O peito dele subia e descia devagar sob as faixas brancas, sem nenhum sintoma daquele fluido verde nojento.
Ele levou a mão fraca até a borda da máscara, tentando ajustá-la para falar melhor.
— Você... você deu um urro do nada — disse ele, a voz rouca por trás do filtro. — Tava tendo um pesadelo?
Fiquei estática por longos segundos, o peito subindo e descendo descontroladamente enquanto absorvia a imagem do meu irmão vivo, seguro e sem vestígio algum daquela entidade amarelada.
Foi um sonho. Um pesadelo desgraçado gerado pelo cansaço, pela culpa e pelo trauma daquela fumaça ácida.
Passei a mão trêmula pelo rosto, limpando o suor frio e tentando engolir o nó de pavor que ainda amarrava a minha garganta. Puxei uma respiração funda, me esforçando para remontar a minha carcaça de caçadora fria antes que ele percebesse o quanto aquilo tinha me abalado.
— Não foi nada, Billy — murmurei, a voz ainda um pouco áspera, enquanto me ajeitava no banco de metal e soltava o ar devagar. — Só um pesadelo estúpido. Volta a dormir.
— Era o que eu tava fazendo antes de você gritar do absoluto nada...
Ajeitei a postura no banco, encarando o teto de concreto enquanto tentava fazer o meu coração desacelerar. O tom ranzinza e abafado da voz dele por trás da máscara de latão foi como uma âncora me puxando de volta para a realidade.
— Reclama menos e dorme mais — resmunguei, desviando o olhar para não deixar transparecer a onda de alívio que quase me fez fraquejar. — Se você não descansar, os médicos vão te segurar nesse leito por uma semana, e eu não tenho paciência para ficar te escoltando de maca pela serra.
William soltou um resmungo fraco, o tipo de som abafado que indicava claramente um revirar de olhos por trás do filtro. Ele ajeitou o corpo contra o travesseiro, soltando um suspiro pesado que fez a válvula do vapor purificador chiar baixinho.
— Você é adorável quando acorda carinhosa, sabia? — ironizou ele, fechando os olhos devagar enquanto os sedativos da Ordem voltavam a puxar sua consciência para baixo.
— Dorme, Billy — murmurei, num tom mais brando dessa vez.
Observei o peito dele subir e descer num ritmo calmo e constante até que a respiração se tornasse profunda. Quando tive certeza de que ele estava totalmente entregue ao sono, apoiei os cotovelos nos joelhos e trancei os dedos diante do rosto.
Minha coluna ainda parecia guardar a memória fantasma daquele estalo no pescoço. O pesadelo fora violento demais para ser puramente fruto do cansaço. Olhei para as minhas próprias mãos — perfeitamente regeneradas, fortes —, sentindo o sangue pulsar sob a pele.
Não importava se fora apenas um aviso da minha mente exausta ou um eco sutil da energia ruim daquela mina: eu não deixaria nada tocar no meu irmão.
Ajeitei as costas contra a parede fria do quarto, mantendo os olhos fixos na porta e no sono de William, pronta para vigiar o resto da noite até o amanhecer.
No dia seguinte, quando os primeiros raios de sol começaram a cortar a névoa fria da serra e a entrar pelas frestas da janela do quarto, a equipe médica finalmente retornou.
O médico chefe examinou as faixas do peito de William, auscultou a respiração dele por longos minutos e conferiu os reagentes purificadores. Para o meu alívio silencioso, ele acenou positivamente com a cabeça. As tiras de couro foram desatadas, e a máscara de latão foi retirada.
William soltou um puxão de ar limpo pela boca, fazendo uma careta imediata e passando a mão pelo rosto marcado pelo metal.
— Finalmente... essa porcaria já estava cheirando a ferro velho — resmungou ele, a voz ainda um pouco arranhada, mas sem qualquer chiado grave nos pulmões.
— Não comemore antes da hora, rapaz — advertiu o médico, guardando o estetoscópio no bolso do jaleco. — Os seus pulmões absorveram uma carga violenta de reagente alquímico. O veneno de éter foi neutralizado, mas o tecido ainda está extremamente sensível. Você vai ficar em observação por mais vinte e quatro horas para garantirmos que não haverá reincidência de sangramento.
William abriu a boca para protestar, provavelmente prestes a soltar alguma ironia sobre odiar hospitais, mas eu me antecipei, cruzando os braços e encarando-o com um olhar de autoridade absoluta.
— Ele vai ficar bem quietinho no leito, doutor. Eu garanto — declarei, num tom cortante que não deixava margem para discussão.
Meu irmão apenas soltou um suspiro derrotado e se encostou de volta no travesseiro, resmungando um "obrigado pela parte que me toca" enquanto o médico saía do quarto.
O dia arrastou-se em um ritmo lento e tenso. Passei a maior parte do tempo sentada na cadeira de metal, mantendo uma vigilância silenciosa. A cada respiração dele, meus olhos varriam as feições do seu rosto, atenta a qualquer sinal de paralisia, a qualquer alteração na cor dos seus olhos ou ao menor cheiro de enxofre no ar. As memórias do pesadelo da noite anterior recusavam-se a ir embora, funcionando como um alarme constante no fundo da minha mente.
William usou o tempo para descansar, comer a ração leve fornecida pela enfermaria e revisar mentalmente as poucas informações que tínhamos. Aos poucos, a cor natural da sua pele foi retornando e a firmeza na sua voz restabeleceu-se por completo.
— Eu é que não quero ver a conta deste hospital... — resmungou William, ajustando o travesseiro nas costas com uma careta.
— Como assim? — perguntei, arqueando uma sobrancelha para ele do meu banco.
— Imagina só o preço que vai sair essa cirurgia e o tempo de estadia aqui... — ele soltou uma risadinha seca, balançando a cabeça. — Vou ter que vender a loja para pagar esse teto de concreto.
— A Ordem irá pagar por todo o tratamento, William — a voz grave de Wilson ressoou no batente da porta no mesmo instante em que ele adentrava o quarto. O Comandante trajava sua habitual farda cinzenta sem uma única dobra, mantendo as mãos cruzadas nas costas. — Afinal, esta é uma área dedicada exclusivamente aos caçadores feridos em combate.
William piscou, um pouco surpreso com a entrada do homem, e soltou o ar devagar, ajeitando-se no leito.
Olhei para o Comandante e depois para o meu irmão. A lembrança do pesadelo — daquele chiado metido na garganta de William, dos pulmões derretendo e das palavras grotescas — voltou a arranhar a minha nuca. A decisão tomou forma na minha mente em um segundo.
— Comandante, preciso falar com o senhor. A sós — declarei, levantando-me da cadeira.
William me encarou franzindo o cenho, surpreso, mas não protestou. Wilson apenas assentiu com a cabeça, deu meia-volta e me deu passagem para sair. Acompanhei-o até o corredor frio de concreto, parando perto da janela pesada que dava para o pátio interno.
— Diga, Anna — começou Wilson, virando-se para mim com a compostura de sempre.
— Eu quero o William fora dessa missão — fui direta ao ponto, cruzando os braços e mantendo a voz firme, num sussurro controlado para que não ecoasse. — Quero que a Ordem o libere. Ele cumpriu a parte dele, quase morreu e não tem estrutura para continuar nessa caçada.
Wilson me encarou por um longo segundo, os olhos cinzentos analíticos como os de um estrategista no tabuleiro.
— É isso que ele quer? — perguntou, com a voz pausada.
Desviei o olhar por uma fração de segundo antes de sustentar a postura.
— Eu não consultei ele. E nem vou. Eu sou a caçadora aqui, eu sei o risco que estamos correndo. Ele é humano, Wilson.
— Senhorita Von Kasten, separar vocês dois e mandar cada um para uma pista ainda é o plano ideal — respondeu o Comandante, sem alterar o tom. — Além de não perdermos tempo precioso, tanto você quanto o seu irmão possuem as informações táticas necessárias do esconderijo da Evelyn para prosseguir. Enviar um grupo novo agora exigiria dias de instrução e reconhecimento. Seria muito mais difícil.
— Eu não me importo com a dificuldade da Ordem! — rebati, dando um passo à frente, a rigidez da minha voz quase vacilando pelo desespero contido. — Eu não quero que o William se machuque de novo. Ele expeliu partes do próprio órgão ontem à noite! Se ele for para o Sanatório de Névoa Alta nesse estado, ele vai morrer.
Wilson continuou impassível, cruzando os braços sobre o peito.
— Essa é uma decisão do próprio William, Anna. Você não pode viver a vida dele por ele. Tentar superprotegê-lo agora e mantê-lo numa bolha só vai piorar a situação do pai de vocês. O tempo está correndo contra a sua família.
Engoli em seco. As palavras dele bateram na minha cara como um soco frio. A imagem do meu pai perdido, de um lado, e do meu irmão quase destruído, do outro, dividia a minha cabeça como uma lâmina. Eu sabia que, se tentasse trancar William numa cela para salvá-lo, ele odiaria cada segundo e arranjaria um jeito de fugir atrás do velho de qualquer forma.
Soltei um suspiro pesado, sentindo os ombros cederem.
— Certo... — murmurei, a contra-gosto. — Eu cedo. Mas se algo acontecer com ele...
— Ele sabe se cuidar melhor do que você imagina — interrompeu Wilson, assentindo secamente. — Manda-me dois caçadores experientes daqui a dois dias para a loja de William. Até lá, vocês têm este tempo para se resolverem, se organizarem e prepararem os equipamentos para a viagem.
Ele fez uma breve pausa, olhando na direção da porta do quarto.
— Deixe-me falar com o seu irmão agora... O assunto é importante — disse Wilson, seu tom de voz voltando àquela compostura clínica e cortante de sempre.
Apenas assenti com a cabeça, incapaz de formular qualquer objeção enquanto a autoridade dele encerrava a nossa conversa no corredor. Acompanhei-o de volta ao quarto a passos lentos, o peito ainda pesado com o gosto amargo da capitulação.
Quando a porta pesada de madeira se abriu, William estava encostado na cabeceira da maca, com as faixas do peito arrumadas e os braços cruzados, observando-nos com uma desconfiança escancarada. Ele claramente sabia que havíamos falado dele, mas não deu o braço a torcer.
Wilson deu dois passos à frente, parando ao pé do leito.
— William — começou o Comandante, a voz ressoando com a firmeza de uma ordem oficial. — Quero que se apresente no meu escritório amanhã de manhã, a sós, assim que receber a sua alta médica. E garanta que esteja bem apresentado. Temos assuntos de extrema importância para alinhar sobre a sua caminhada na Ordem e os desdobramentos desta missão.
William soltou um suspiro nasalado, arqueando a sobrancelha esquerda e fazendo uma clara cara de pouco caso. Ele me olhou de relance, soltou um meio-sorriso cínico e respondeu ao Comandante com o seu desdém habitual:
— Se o senhor insiste... Estarei lá, bem cheiroso e alinhado, Comandante.
Wilson nem se deu ao trabalho de reagir à ironia. Apenas deu um breve aceno de cabeça para nós dois, girou sobre os calcanhares e deixou o quarto, o som das suas botas ecoando pelo corredor de concreto até desaparecer.
Assim que a porta se fechou, olhei para William, tentando adivinhar o que se passava naquela cabeça teimosa. Ele ainda parecia fragilizado pelo tratamento, mas o brilho provocador nos seus olhos castanhos mostrava que o meu irmão de verdade estava ali, inteiro.
— O que ele queria com você lá fora? — perguntou ele, ajeitando-se no colchão.
— Apenas detalhes operacionais — menti, puxando a cadeira de metal de volta para o lado da maca e me sentando. — Nada com que você deva se preocupar agora. Apenas descanse para essa tal reunião de amanhã.
Ele me encarou por alguns segundos, nitidamente percebendo que havia algo a mais, mas resolveu não me pressionar. Deitou a cabeça no travesseiro, soltando um suspiro cansado.
Voltei à minha posição de guarda, cruzando os braços e mantendo os olhos fixos na porta e nas suas reações. Prometi a mim mesma que não fecharia os olhos, que monitoraria cada respiração dele até ter certeza absoluta de que a noite passaria sem novos pesadelos ou visões grotescas. Mas o meu corpo vampiresco, desgastado pela regeneração acelerada do braço, pela perda de sangue e por dias seguidos de puro estresse e adrenalina, cobrou a sua conta.
Aos poucos, o piscar dos meus olhos foi ficando mais lento. A luz fraca do quarto começou a embaçar, o som da respiração ritmada de William virou um ruído de fundo distante e, antes que eu pudesse lutar contra, o cansaço avassalador me puxou para a escuridão de um sono profundo e sem sonhos.