Nível 18 Os arquivos de Von Kasten · Capítulo 6 de 8
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Nível 18

Estacionamos a picape sob uma copa densa de jacarandás no final do trecho trafegável, cobrindo o capô com alguns galhos secos para não chamar atenção de eventuais curiosos.

Desci do carro, puxando a mochila pesada e ajustando a garrucha no cinto. A umidade da serra bateu frio no meu peito, acompanhada pelo silêncio denso e quase antinatural da floresta.

— O duto fica a uns trezentos metros encosta acima — disse Anna, fechando o tomo de couro com firmeza e ajustando as tiras do coldre no peito. Os olhos dela varreram a mata com uma agilidade precisa, o foco de caçadora retornando no mesmo instante. — Fique atrás de mim, fique atento a qualquer variação no ar e, pelo

amor de Deus, não faça barulho.

— Pode deixar, chefe — murmurei, travando o cantil no cinto e seguindo os passos rápidos dela mata afora.

A subida foi árdua, com a lama escorregadia testando o firme das nossas botas a cada passo. Mas, após alguns minutos de caminhada pesada, a vegetação subitamente deu lugar a um paredão de rocha escura e mofada.

— Por que não conta para ela logo? — Disse a voz estridente ecoando na minha cabeça.

— Eu não quero envolvê-la mais fundo no que ela já está. — Sussurrei o mais baixo possivel como se estivesse só pensando em algo aleatório. — Quanto menos ela saber melhor.

— Espero que saiba o que está está fazendo... — Disse a voz

A mina de São Romão era um dos escoderijos de Evelyn Monroe, nem a Ordem, meu pai ou minha irmã sabem dessa informação. Mas como EU sei disso? Simples, eu sonho com esse local com bastante frequência. A própria Evelyn escrevendo coisas em um suposto diário guardado em algum fundo falso em algum lugar da mina, vir até aqui não é apenas o interesse de buscar meu pai, mas também entender o que está acotecendo comigo.

Ali, semiconculta por trepadeiras secas e ferrugem acumulada, sobressaía uma grelha circular de ferro fundido cravada na montanha: a tubulação secundária de ventilação da mina de São Romão.

O mesmo cheiro fétido de enxofre e poeira confinada que tínhamos sentido no porão saía de lá de dentro em um sopro fraco e contínuo.

Anna aproximou-se da grelha, apoiou a mão na estrutura de ferro e me olhou por cima do ombro com uma expressão séria.

A ferrugem da grelha de ventilação cedeu com um estalo seco sob a alavanca de ferro que trouxe da picape. O ar que saiu de lá de dentro veio pesado, quente e carregado de um fedor rasgante. Não era mais apenas o enxofre suave do porão. Era cheiro de ferrugem, excremento seco, óleo queimado e sangue podre.

O cheiro que saía daquela abertura não era apenas o ar confinado de uma caverna. Era uma mistura nauseante de enxofre, óleo queimado, carne estragada e ferro oxidado — o fedor rasgante e abafado de um matadouro ativo.

— Que desgraça de cheiro... — resmunguei, cobrindo o nariz com a gola do casaco enquanto a Anna se aproximava da grelha.

— O selo foi quebrado por dentro — disse ela, a voz caindo para um tom perigosamente calmo enquanto examinava as marcas de raspagem no metal. — Alguém forçou a passagem para entrar... ou para não deixar nada sair.

Puxei a alavanca de ferro da mochila e ajudei a forçar a trava corroída. Com um estalo metálico seco e o ranger de dobradiças emperradas, a grade cedeu, revelando um buraco negro que engolia qualquer vestígio de luz do dia.

— Eu vou na frente — declarou Anna, sacando a lanterna e o revólver num único movimento fluido. Os olhos dela, ajustados à penumbra, brilharam com aquela frieza gélida de vampira antes de ela se esgueirar duto adentro. — Fique colado em mim.

Meti a mão no cabo da minha garrucha no cinto, sentindo o peso do ferro frio contra os dedos, e deslizei para dentro da tubulação atrás dela.

O duto nos levou para uma galeria subterrânea ampla e claustrofóbica. O teto era baixo, sustentado por vigas de madeira podre que rangiam sob o peso da montanha. Pedaços de correntes pesadas pendiam do alto, balançando lentamente em um embalo ritmado, mesmo sem corrente de ar visível.

À medida que avançávamos, um som distante começou a ecoar pelas paredes de pedra. Um baque seco, cadenciado e metálico.

Pancada. Pausa. Pancada.

— O que foi isso? — Disse Anna assustada — Pai?

— Acalme-se Anna — Disse pegando o braço dela evitando que ela corresse até o barulho. — Não sabemos o que tem aqui, temos que ter cuidado.

— Mas e se for ele?

— E se for um monstro? Não vai ser nada legal topar com um de frente... — respondi, apertando o braço dela com mais força para garantir que ela fincasse os pés no chão.

Anna trincou os dentes, o peito subindo e descendo rápido. O instinto vampiresco e a sede de caçadora queriam impulsioná-la direto para a escuridão, mas a minha fala fez o juízo dela prevalecer. Ela soltou um suspiro pesado pelo nariz, abaixou ligeiramente a guarda e assentiu com a cabeça, embora o indicador continuasse colado no gatilho do revólver.

O som metálico ritmado cessou por alguns segundos. O silêncio que se seguiu foi quase pior, quebrado apenas pelo chiar trêmulo da lâmpada do gerador e pelo eco da nossa própria respiração.

— Ela sentiu o cheiro... — a voz na minha cabeça voltou a sussurrar, com uma risadinha ácida que fez meus pelos dos braços se arrepiarem. — Ela sabe que o ar daqui tá podre. Pergunta pra ela se o sangue do pai tem o mesmo gosto do sangue dos tubinhos dela.

Engoli a seco, ignorando o ruído mental e dando um passo à frente, cobrindo o flanco da Anna.

— O som veio daquele corredor à esquerda, atrás do gerador — murmurei, apontando com o cano da minha garrucha. — Se for o pai, ele tá encurralado. Se não for... a gente descobre da pior forma.

Avançamos lado a lado, arrastando as botas devagar sobre o cascalho para não fazer barulho. À medida que contornávamos o maquinário corroído, a luz da lanterna da Anna bateu em algo estendido no chão, bem na entrada da galeria lateral.

Era uma mochila tática gasta, rasgada de cima a baixo, com o símbolo da Ordem gravado no couro. E ao lado dela, poças de sangue fresco manchavam a pedra.

— William... — sussurrou Anna, a voz perdendo a frieza por uma fração de segundo enquanto se ajoelhava ao lado da mochila. — É o equipamento dele.

— Ai, meu Deus... — o murmúrio escapou da garganta da Anna, frágil e assustado como eu nunca tinha ouvido antes.

O baque metálico que tinha cessado voltou. Mas não estava mais distante.

PANCADA. PANCADA. PANCADA.

O som começou a ecoar em uma sequência rápida, ensurdecedora, fazendo o chão de rocha tremer sob nossas botas e a poeira secular despencar das vigas do teto. A lâmpada pendurada no gerador começou a balançar violentamente até estourar em um estalo de faíscas, jogando o salão na penumbra avermelhada das luzes de emergência.

Da escuridão do corredor lateral, uma figura colossal emergiu, arrastando o teto de pedra com os ombros.

— CORRE! — gritei, agarrando o braço da Anna e puxando-a com toda a força antes que um braço de ferro puro descesse como uma marreta onde estávamos, reduzindo a mesa de corte de pedra a mil pedaços.

O ar se encheu de um vapor ácido que queimava as narinas só de respirar. Anna reagiu por instinto, disparando duas vezes contra a cabeça de metal da criatura — as balas ricochetearam com faíscas cegas sem fazer nem um arranhão na carcaça corroída.

— Essa desgraça não sente dor! — gritou ela, a voz ecoando no caos enquanto disparávamos em disparada pela primeira galeria que encontramos.

— A picape não vai adiantar se esse troço fechar a saída! Para baixo! — urrei, dobrando uma esquina cega no escuro.

O Colosso vinha logo atrás, uma força da natureza imparável destruindo as colunas de sustentação da mina e fazendo o túnel desmoronar em um rastro de pedras e poeira. Dobramos à esquerda, depois à direita em um cruzamento triplo, descendo por rampas íngremes e corredores que pareciam se contorcer na penumbra. O som das engrenagens da criatura e o cheiro do veneno nos perseguiam de perto.

— Aqui! Entra! — Anna empurrou uma porta pesada de grelha de ferro.

Entramos tropeçando, e eu me joguei contra a alavanca da tranca, descendo o ferrolho no exato segundo em que o impacto brutal do golem bateu contra o outro lado.

A estrutura de ferro curvou para dentro com um urro metálico horroroso, mas resistiu.

Ouvimos os passos pesados do construto continuarem marchando pelo corredor principal, o som diminuindo gradativamente até ser engolido pelo silêncio da montanha.

Escorreguei pelas costas da porta até sentar no chão de terra, arfando como um condenado, a garrucha trêmula na minha mão. Anna estava de pé ao meu lado, o peito subindo e descendo rápido, os olhos vasculhando as sombras do espaço onde tínhamos nos trancado.

A lanterna dela iluminou o ambiente: um labirinto de galerias antigas, ramificando-se em várias direções sem sinalização alguma. Não havia som de gerador, não havia marcações do vovô, nem o rastro da mochila do pai.

— William... — a voz dela saiu baixa, cortada pelo cansaço, enquanto a luz da lanterna revelava a imensidão das ramificações à nossa frente. — Onde é que a gente tá?

Olhei ao redor, sentindo o ar frio e estagnado do fundo da terra. A corrida cega tinha nos despistado do golem, mas a um preço alto.

Estávamos completamente perdidos no coração do esconderijo.

— O sangue... — Ela fez uma pausa longa longa mas visivelmente segurando o choro — O cheiro era dele Billy... O cheiro...

A frase da Anna congelou o resto de ar que ainda sobrava nos meus pulmões.

O olhar dela, antes tão afiado e implacável, agora estava estilhaçado. A lanterna tremia ligeiramente na mão dela, projetando feixes erráticos de luz nas paredes de pedra do túnel. Ver a caçadora implacável, a vampira durona da Ordem, ser reduzida àquela fragilidade cobrava um preço altíssimo do meu próprio peito.

— Anna... — comecei, mas as palavras engasgaram na minha garganta.

— Era o sangue dele, William — repetiu ela, a voz falhando em um sussurro embargado, o peito sacudindo enquanto ela segurava o choro com todas as forças que lhe restavam. — Eu conheço o cheiro do sangue do nosso pai. Aquela poça ao lado da mochila... ele foi ferido. Ele sangrou muito.

A voz estridente no fundo da minha mente tentou soltar mais uma risada sarcástica, mas engoli a seco e suprimi aquele ruído com pura raiva, focando toda a minha atenção na minha irmã. Desta vez, não deixei o medo ou o cinismo tomarem conta.

Dei um passo à frente e segurei os ombros dela com firmeza, forçando-a a olhar para mim.

— Escuta aqui: ele foi ferido, mas a mochila estava vazia de corpos. Se aquele Colosso tivesse matado o pai, não haveria rastro de fuga, haveria um cadáver. O pai é duro na queda, Anna. Ele sobreviveu a caçadas piores que essa. Ele tá vivo em algum lugar deste buraco.

Ela piscou rápido, engolindo o nó na garganta, e a chama da determinação começou, aos poucos, a acender de novo por trás daquela névoa de dor.

— Nós estamos perdidos — murmurou ela, limpando o rosto com as costas da jaqueta e recuperando o tom prático, embora a voz ainda estivesse levemente rouca. — Mas ele também conhecia este lugar. Se o pai veio até aqui, ele sabia como se mover nos níveis inferiores.

Olhei para a escuridão dos corredores que se ramificavam à nossa frente. O ar aqui embaixo era ainda mais frio e pesado, mas no fundo de um dos túneis à esquerda, uma corrente de ar quase imperceptível soprava, trazendo um cheiro diferente. Era o cheiro de papel velho, cera de vela e mofo.

— Ele não tá morto, Anna — declarei, soltando os ombros dela e ajustando a garrucha na mão. — E eu sei para onde a gente tem que ir.

Anna olhou para mim e assentiu devagar. Logo em seguida, ergueu-se de uma vez, passou as mãos pelo rosto com força para afastar qualquer vestígio de vulnerabilidade e soltou uma bufada pesada, recompondo a postura gélida de caçadora.

— Certo — disse ela, ajustando o coldre no peito e varrendo a penumbra do túnel com o cano do revólver. — Para onde agora?

— Imagino que despistamos o colosso por enquanto... — respondi, soltando o ar devagar para desacelerar o coração. — Ele é maciço. Com aquele peso todo e a névoa ácida vazando, vai ser fácil ouvir se ele se aproximar. Um Construto Elemental?

— É bem provável. Deve ser a guarda da entrada do esconderijo — disse Anna, a voz recuperando a firmeza técnica. — E o fato de as balas terem ricocheteado na carcaça indica uma liga reforçada. O metal é denso demais para munição convencional.

— Mas eu vi engrenagens expostas perto das articulações — pontuei, rememorando o relance do monstro sob a luz de emergência. — Não é ferro maciço por inteiro.

— Acha que dá para encarar se aquela coisa voltar? — perguntou ela, virando o rosto para mim com o olhar semicerrado.

— Talvez... com explosões — inclinei a cabeça, raciocinando rápido. — Se a gente conseguir rachar a blindagem externa e expor o núcleo de éter que alimenta o motor, um único tiro bem dado faz o trabalho.

— De explosivos eu entendo — soltou Anna, ajeitando as tiras da mochila e tentando forçar um tom confiante que falhou miseravelmente, morrendo em um meio-sorriso tenso.

— É, eu sei — dei um riso curto para quebrar o peso do ar. — Só tenta não explodir a gente junto dessa vez.

Inclinei o corpo para a frente e apontei com a garrucha na direção do túnel à esquerda, onde a brisa fria soprava com mais intensidade.

— Por aqui. Se a minha intuição — ou o azar — estiver certa, tem um setor de apoio do antigo escritório logo adiante.

— Como sabe? — perguntou Anna, estreitando os olhos e travando os passos. A lanterna dela subiu na minha direção, a luz forte me fazendo piscar por um segundo. — Você nunca pisou nesta mina na sua vida, William. Como é que sabe o que tem no fim desse túnel?

Engoli em seco, sentindo o suor frio escorrer pela nuca e a voz estridente na minha cabeça dar uma risadinha abafada no fundo da mente.

— A brisa do vento bate diferente desse lado... — soltei rápido, dando um passo à frente para disfarçar o nervosismo e apontando com o cano da garrucha para a abertura da galeria. — Sente só o ar. Não tem cheiro de mofo de poço cego, tem cheiro de poeira seca e papel velho. Se isso aqui foi o esconderijo principal de um alquimista ou de um líder de clã, o escritório não ficaria na rota do abatedouro. Fica na área de ventilação limpa.

Anna me encarou por dois longos segundos, o feixe de luz da lanterna imóvel sobre o meu peito. Eu podia sentir o olhar analítico dela me dessecando, procurando qualquer sinal de mentira ou hesitação. Por mais que a justificativa da corrente de ar fizesse sentido prático, a desconfiança de anos de treino na Ordem não evaporava fácil.

— Se a gente der de cara com outro colosso porque a sua "intuição do vento" errou — disse ela, baixando o foco da lanterna para o chão —, eu vou usar você como engodo.

— Justo — murmurei, soltando o ar que nem sabia que estava prendendo. — Vamos logo antes que o surdo de aço resolva fazer outra ronda.

Avançamos em silêncio pela galeria estreita, seguindo o fluxo contínuo de ar frio até que a passagem de pedra e vigas de madeira desaguou em uma porta dupla de carvalho escuro, reforçada com ferro trabalhado. Uma das folhas estava entreaberta, emperrada por uma pilha de cascalho que havia caído do teto.

Esfreguei o ombro contra a madeira pesada e me espremi para entrar, com Anna logo atrás, a lanterna tática em riste varrendo a escuridão.

Assim que a luz cortou a penumbra, o ambiente revelou-se exatamente como nos meus sonhos doentios: o antigo gabinete de trabalho de Evelyn Monroe.

Diferente da fétida área de abate, este lugar parecia uma cápsula do tempo congelada há décadas. Prateleiras altíssimas de madeira de lei contornavam as paredes de rocha, repletas de tomos encadernados em couro, frascos de vidro fosco com reagentes secos e mapas topográficos amarelados. No centro do recinto repousava uma escrivaninha pesada de jacarandá, coberta por instrumentos de latão, um tinteiro seco e papéis espalhados.

— Que lugar é esse...? — murmurou Anna, os olhos de caçadora absorvendo cada detalhe da sala com espanto e cautela. — Não parece parte da mina. Parece o gabinete de um alquimista da Ordem... ou de algo muito pior.

— É o escritório da Evelyn — soltei sem pensar, aproximando-me da grande mesa central.

— Evelyn? — Anna virou a lanterna direto para o meu rosto, o olhar cerrando instantaneamente. — Como assim "Evelyn Monroe"? William, do que você está falando?

Engoli em seco, percebendo o escorregão.

— Tá no carimbo dos papéis, Anna! — menti rápido, apontando para um documento mofado sobre o tampo de madeira antes que ela pudesse me pressionar mais. — Olhei rápido aqui... "E. Monroe".

Ela manteve a lanterna fixada em mim por mais dois segundos antes de desviar o foco para a mesa, sem parecer totalmente convencida.

O ar ali era carregado de poeira e cera queimada, mas havia algo a mais: um cheiro tênue e recente de pólvora e antisséptico.

— O pai esteve aqui — disse Anna, iluminando o chão ao lado da mesa.

Havia estojos deflagrados de munição de caça no piso de tábua larga, um pedaço de atadura manchada de sangue fresco e um pequeno frasco de vidro quebrado. Ele tinha parado ali para tratar os próprios ferimentos antes de continuar a fuga.

Aproximei-me da lateral esquerda da escrivaninha, puxado por uma memória que não era minha. Meus dedos foram direto para a terceira gaveta, tocando a estrutura interna de madeira até sentir o relevo do fundo falso — o exato mecanismo que eu tinha visto Evelyn operar tantas vezes nas minhas noites de pesadelo.

Com um estalo seco, a trava oculta cedeu, revelando um compartimento secreto.

Dentro dele repousava um diário de capa de couro escuro, gravado com um símbolo alquímico em folha de ouro desbotada, e, ao lado dele, um mapa detalhado do setor mais profundo do complexo: a rota direta para o Nível 18.

— Anna, olha isso aqui! — chamei, a voz saindo um pouco mais alta do que o planejado pelo eco do escritório.

Com um estalo seco, a trava oculta cedeu, e a gaveta revelou o compartimento secreto. Anna deu dois passos rápidos na minha direção, o cano do revólver baixando ligeiramente enquanto o feixe de luz da lanterna focava direto no fundo falso da escrivaninha.

Ela se inclinou sobre a mesa, os olhos fixos no tomo de capa de couro escuro gravado com o símbolo alquímico e nas folhas amareladas ao lado.

— Um compartimento de fundo falso... — murmurou ela, franzindo a testa enquanto passava as pontas dos dedos enluvados pela lombada do diário sem tocá-lo diretamente, checando primeiro se havia algum tipo de selo ou armadilha. — Como foi que você achou essa trava tão rápido?

— Sorte de principiante — menti sem piscar, puxando o mapa dobrado de baixo do diário para mudar de assunto. — O pai devia estar atrás disso aqui. Dá uma olhada.

Anna pegou o mapa das minhas mãos, desdobrando o papel grosso sobre o tampo de madeira. O traçado cobria toda a planta baixa da mina de São Romão, revelando uma rede de túneis muito mais profunda e complexa do que as anotações do vovô indicavam. Linhas em tinta nanquim vermelha cortavam as galerias inferiores, todas convergindo para um ponto circular marcado com um círculo triplo na rocha central.

— Nível 18 — leu ela, o tom de voz caindo para um sussurro grave. — O setor de contenção... Se o pai veio buscar abrigo contra o Colosso ou rastrear quem tomou este lugar, foi para lá que ele desceu.

— E pelo visto ele deixou o caminho desenhado pra gente — completei, ajustando a garrucha na mão. — Tem um elevador de carga no fim do corredor leste e uma rota alternativa pelas escadarias de manutenção.

Ela pegou o diário de Evelyn Monroe do compartimento, folheou as primeiras páginas com rapidez e o guardou no bolso interno da jaqueta.

— Guardamos as leituras para depois que sairmos vivos — disse ela, o foco de caçadora totalmente restabelecido. — A rota leste tá limpa no mapa. Se o pai ainda tá respirando lá embaixo, a gente não pode perder mais tempo.

Anna ainda mantinha a esperança de que o velho estivesse vivo; a urgência no olhar dela deixava isso bem claro. Já eu não tinha dúvida alguma. Conhecendo o pai, ele provavelmente tinha conseguido despistar o perigo ou simplesmente deu no pé assim que arrancou a informação que veio buscar.

Ajoelhei-me e recolhi os estojos e as munições de caça que ele havia deixado para trás no chão do escritório, jogando tudo para dentro da minha mochila. Balas normais não resolveriam o nosso problema contra uma aberração daquelas, mas era infinitamente melhor ter munição sobressalente do que ficar na mão em um momento crucial.

Enquanto eu fechava o zíper, Anna aproximou-se da fresta da porta de carvalho para checar o corredor. Mas, no segundo seguinte, ela deu um pulo para trás com um arquejo sufocado, caindo sentada no piso de madeira. Ela se ergueu numa velocidade sobre-humana, recuando em disparada na minha direção.

Nem deu tempo de perguntar o que houve.

A porta do gabinete foi pulverizada em mil pedaços quando o Colosso atravessou a parede de carvalho. A desgraça do construto tinha se aproximado sem emitir um único ruído de engrenagem, movendo-se com uma furtividade assustadora para uma carcaça daquele tamanho — uma inteligência tática muito acima do padrão para qualquer criação mágica.

Anna não hesitou. Levou as unhas aos próprios pulsos, rasgando a pele em um movimento rápido. O sangue espesso jorrou, mas em vez de escorrer, congelou no ar sob o comando da vontade dela, cristalizando-se em duas estacas rubras, afiadas e rígidas como vidro temperado. Ela se colocou à minha frente em pose de combate.

Eu me joguei contra a mochila, puxando às pressas o tomo de magia Vanir.

Assim que assumimos a guarda, o Colosso simplesmente parou. Os olhos incandescentes de veneno nos fixaram, e a máquina estagnou, esperando pacientemente por qualquer movimento brusco. Era a brecha de que eu precisava. Comecei a desenterrar na memória as palavras do feitiço para convocar as raízes das árvores da serra acima de nós, aproveitando cada segundo de trégua.

O problema de conjurar em nórdico antigo é que a pronúncia não tolera deslizes. Um simples sopro errado em uma vogal e, em vez de prender o alvo, eu poderia desencadear uma explosão nada amigável contra o aço ou transformar o escritório inteiro em uma pira funerária.

Como o Colosso continuava estático, decidi dar o pontapé inicial. Estendi a mão livre na direção dele e proferi as palavras rúnicas:

— Rót... ban? NÃO! NÃO! NÃO!

Anna me olhou de soslaio, confusa, sem entender onde eu tinha errado a entonação.

O Colosso reagiu ao meu grito, projetando o corpo à frente em uma investida brutal. Mas, antes que ele desse o segundo passo, o solo de pedra e terra sob as pernas dele desmoronou como se tivesse virado líquido, engolindo a estrutura do monstro até a cintura e se solidificando de estalo no segundo seguinte.

O arranco do robô parou na hora, preso no chão como uma estátua torta.

— Caramba... isso foi bem efetivo. Qual foi o problema dessa vez, Billy? — perguntou Anna, sem desviar a atenção do monstro.

— Era para as raízes lá de cima descerem e amarrá-lo por inteiro — resmunguei, limpando o suor da testa. — Teria sido bem mais eficiente.

O Colosso começou a socar o solo com violência para quebrar a rocha, soltando um urro grave e ressonante de pura raiva. Anna não perdeu tempo: avançou como um raio, cravou uma das estacas de sangue diretamente no olho esquerdo da criatura e saltou para trás num movimento gracioso.

Ela caminhou de volta até mim com toda a calma do mundo. De costas para a abominação presa e sem nem olhar para trás, abriu um sorriso gélido e murmurou:

— BOOM.

A estaca cristalizada no crânio da máquina detonou em uma onda de choque rubra e ensurdecedora. Fragmentos de metal, fluido tóxico e fumaça densa saltaram para todos os lados, cobrindo o gabinete em um manto espesso de poeira e fuligem.

— Isso deve calar a boca dele — disse ela, limpando uma fuligem da bochecha e dando um meio-sorriso vitorioso.

— Não canta vitória antes da hora, caçadora... — avisei, erguendo a garrucha enquanto a poeira começava a assentar.

Do meio da fumaça, um estalo metálico seco ressoou.

O impacto da explosão tinha arrancado metade da cabeça do Colosso e destruído a placa do peito, mas a explosão não atingiu o motor central. O núcleo de éter brilhou ainda mais forte através das fendas da carcaça retalhada, pulsando em um tom verde-tóxico furioso. A criatura usou os dois braços maciços para alavancar o próprio peso, rachando o solo congelado pela minha magia e se libertando da armadilha de pedra.

Um forte odor começou a penetrar minha narinas, queimava, eu conseguia sentir o gosto do ácido, a criatura começava a urrar numa raiva avassaladora enquanto corre em nossa direção.

Anna prepara outra estaca e parte para cima do colosso, que responde com uma nuvem verde ácida que cobre minha visão com a Anna lá dentrro eu escuto outra explosão e a fumaça aumenta de tamanho, precisava dar suporte para minha irmão e dessa vez eu estava esperto o sucifiente para acertar a palavra.

— Rótaband (Prisão de Raízes em nossa língua)

No mesmo instante, o teto cedeu em um estrondo seco. Raízes milenares, grossas como troncos de carvalho e retorcidas pela umidade da montanha, irromperam da rocha como serpentes de madeira viva. Respondendo à minha vontade, elas despencaram sobre a névoa, envolvendo a silhueta metálica e travando suas engrenagens no meio da poeira.

Aos poucos, o sopro das raízes foi dissipando o gás denso... até que a cena diante de mim fez meu sangue virar gelo.

A névoa tinha cegado e desorientado Anna. O Colosso, mesmo com a carcaça destruída e parcialmente soterrado pelas raízes, tinha conseguido prender os dois pulsos dela em suas garras maciças de aço. Ele a mantinha suspensa no ar, puxando os braços dela em direções opostas com a força bruta de uma prensa hidráulica.

Anna rinchava os dentes, os músculos do pescoço tensos enquanto usava toda a regeneração e a força sobre-humana do seu sangue vampírico para evitar que as suas articulações cedessem, mas a resistência dela estava no limite. O estalo seco dos ossos começando a ceder ecoava pela sala. O feitiço tinha travado o corpo do construto, sim, mas não a força do seu mecanismo. Era questão de segundos até ele desmembrá-la viva.

Entrei em pânico.

— Puxe! Puxe essa desgraça pra trás! — urrei, forçando a intenção mágica até os limites da minha mente.

— Larga ela, seu amontoado de lixo! — berrei, travando o cano da garrucha contra a fenda do peito do robô.

— Deixa ele, William! — a voz da Anna veio rasgada, sufocada pelo esforço sobre-humano de não ter as articulações arrancadas.

— QUE?

— Deixa ele... arrancar meu braço, William... E se afasta... Nghh... Por... favor! — pediu ela, os dentes trincados e as veias do pescoço saltadas enquanto o aço da máquina estalava contra os ossos dela.

— NÃO! VOCÊ TÁ MALUCA? — gritei, o pânico tomando conta. — VOCÊ VAI EXPLODIR SEU BRAÇO INTEIRO? E SE A EXPLOSÃO PEGAR VOCÊ?

— Vampiros não morrem... Nghhh... Sai... Agora! — urrou ela, concentrando todo o resto de sangue que corria em suas veias direto para a carne do próprio braço preso. A pele do membro começou a brilhar em um vermelho pulsante e instável, transformando a própria massa corporal numa bomba de sangue de alta pressão.

— Merda...! — praguejei, me jogando de costas atrás de uma mesa de carvalho tombada no exato milissegundo em que o choque aconteceu.

Anna não esperou a máquina puxar. Ela mesma forçou a tensão do braço para o limite e detonou a carga de sangue represada no membro.

— BOOM!

A explosão foi curta, abafada e de uma violência brutal. Uma onda de choque rubra e líquida pulverizou o braço preso de Anna, destruindo simultaneamente as garras de aço e a carcaça superior do Colosso. O impacto arremessou a criatura para trás, quebrando o feitiço das raízes e fazendo o construto tombar inerte no chão. Metade da sua blindagem havia sido varrida, mas o núcleo de éter, no centro do peito, ainda pulsava com uma luz verde doentia, intacto.

— Seu inseto verde nojento... — rosnei. Saquei minha garrucha, mirei naquele brilho maldito e puxei o gatilho.

CLANG.

O tiro de chumbo bateu em cheio no núcleo, mas ricocheteou como se tivesse atingido diamante. Não fez nem um mísero arranhão. Tomei fôlego, ignorando a queimação no peito, e atirei de novo. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. O tambor girava, o cão batia, mas a esfera de éter permanecia imaculada. Engoli em seco quando o percussor bateu no vazio. Meu revólver estava descarregado.

Foi então que o horror real começou. Pela fresta da blindagem destruída, vi estilhaços de metal caídos no chão começarem a vibrar. Pequenas peças flutuavam de volta para a carcaça adormecida do Colosso, soldando-se sozinhas numa velocidade assustadora. O processo de autorreparação estava se acelerando. Tentei recarregar, minhas mãos tremendo enquanto buscava cartuchos soltos na mochila, mas era tarde demais. O núcleo já estava totalmente coberto por uma nova camada de aço corrompido.

A abominação se levantou, rangendo, e fixou seus olhos ópticos em mim. Eu era o único alvo restante. Olhei para os lados, procurando desesperadamente por ajuda, e vi minha irmã caída perto dos destroços da escrivaninha. Anna estava sem um braço, o flanco esquerdo ligeiramente desfigurado pela própria explosão, imóvel e desacordada no chão de pedra.

— Então é assim que acaba? — murmurei, baixando a cabeça e deixando os cartuchos inúteis caírem da minha mão trêmula. Olhei para o chão, sentindo o peso da derrota. — Me desculpa, Anna. Deveria ter te contado...

— Agora é tarde para se arrepender... — o eco estridente zombou dentro da minha cabeça.

O Colosso urrou e expeliu uma nova nuvem maciça de névoa ácida em minha direção. O gás verde-tóxico cobriu minha visão instantaneamente, preenchendo o corredor inteiro e descendo queimando minhas narinas. Eu não me movi. Fiquei parado, esperando o golpe final. Eu já havia aceitado.

— Aponte a arma para a criatura... — ordenou o eco, sua voz subitamente séria e imperiosa.

— Sem munição, poltergeist — respondi mentalmente.

— Aponte a porra da arma para a criatura... — a voz gritou com mais intensidade.

— Tá! Que seja! Pronto, apontei! E agora...? Cof... cof... — levantei a garrucha vazia na direção geral de onde o robô estava na neblina.

— Imagine um projétil com uma força imparável cruzando a distância até o seu inimigo ao apertar o gatilho... E verá o poder do arco da Conquista...

Eu queria rir. A entidade na minha cabeça queria brincar de BANG-BANG enquanto a gente morria. Tudo bem, eu sempre quis uma morte cômica. Pelo menos no meu túmulo estaria escrito: "Riu na cara do perigo até o fim".

Firmei o pulso na escuridão verde, visualizei o tiro e, com um sorriso irônico nos lábios, puxei o gatilho da arma vazia.

— BANG!

O que aconteceu em seguida me deixou paralisado de pavor.

Um projétil colossal de pura pressão translúcida irrompeu da boca da garrucha, de uma largura tão monumental que varreu tudo à sua frente. A onda de choque furou a neblina ácida e abriu um rombo gigantesco na sala: o Colosso não foi apenas destruído, seu núcleo e torso foram totalmente OBLITERADOS no ar. A força do impacto não parou na máquina — o projétil seguiu direto e cravou uma cratera colossal na parede de rocha maciça do fundo do escritório, reduzindo toneladas de pedra a puro pó.

Apenas as pernas do Colosso ficaram paradas por um segundo, fumegando, antes de caírem pesadamente para a frente.

Eu fiquei totalmente desnorteado, de boca aberta diante do estrigo estúpido cravado na rocha. A surpresa, porém, foi interrompida por uma crise violenta de tosse. Dobrei-me ao meio, limpando o sangue que veio junto do cuspe — efeito direto daquela fumaça ácida desgraçada que eu tinha engolido minutos atrás e que ainda queimava meus pulmões como ácido puro.

— Que demônio... foi isso...? — respondi, rascunhando a voz rasgada e limpando o canto da boca com a manga do casaco.

Guardei a garrucha ainda em choque, sentindo as pernas bambas, e passei pela fumaça que aos poucos assentava para ir direto até o corpo de Anna. Aquelei ao lado dela, checando os batimentos e o pulso. O sangramento do braço mutilado já começava a estancar pela própria regeneração vampiresca, mas ela continuava inconsciente pelo impacto.

Dobrei o corpo para o lado em mais uma crise violenta de tosse. O gás ácido do Colosso que inalei mais cedo já tinha feito o estrago: a falta de ar veio com força, e a sensação era de que meus pulmões estavam sendo derretidos por dentro. Tossir sangue virou uma constância. Eu precisava tirar nós dois dali antes que sufocasse de vez no vapor do golem.

Sacudi os ombros dela. Graças aos céus, Anna começou a reagir lentamente, embora o lado esquerdo do rosto ainda mostrasse marcas da queimadura e a manga da jaqueta estivesse completamente reduzida a trapos chamuscados.

— Você tá horrível... — brinquei, a voz saindo num fiapo fraco.

— Sai daqui... — murmurou ela, piscando rápido para focar a visão. — A névoa vai derreter seus pulmões... Humanos não aguentam isso...

— Cala a boca. Eu não vou sair sem você.

— Me deixa aqui, William... Eu aguento...

— Não mesmo.

Puxei o braço bom dela sobre o meu pescoço e fiz força para levantá-la. O esforço físico foi o gatilho final para o meu corpo ceder: comecei a tossir de forma tão violenta que perdi totalmente a capacidade de puxar o ar por cinco longos segundos. A vista escureceu. Anna percebeu o meu colapso e me deu um empurrão firme com o braço que lhe restava, fazendo nós dois cairmos juntos no chão.

Por sorte, o tombo nos jogou para dentro de uma galeria lateral mais distante, onde uma corrente de ar limpo mantinha a névoa ácida bloqueada do outro lado da porta.

— Seu idiota... — resmungou ela, levantando-se com dificuldade. Ela puxou minha mochila do chão, abriu o zíper rápido e tirou um pequeno frasco de vidro contendo acônito e andorinha em conserva. — Toma. Cheira isso aqui... Vai neutralizar parte do ácido, o suficiente para você voltar a respirar.

Peguei o frasco com as mãos trêmulas e puxei o ar diretamente da boca do vidro. O cheiro forte e amargo rasgou minhas narinas, me fazendo lacrimejar, mas o efeito foi imediato: a queimação sufocante nos pulmões cedeu alguns graus, e o ar finalmente voltou a entrar na minha garganta.

— A gente não aguenta outra luta dessas... — comentei, encostando a cabeça na parede de rocha fria e tentando desacelerar o coração.

— Eu preciso de sangue — disse Anna, a voz caindo para um tom grave, desprovido de qualquer ironia.

— Se precisa tanto, pode pegar um pouco do meu — ofereci, puxando a manga da camisa e expondo o antebraço, tentando soar generoso e prático. — No ritmo em que eu tô tossindo, nem sei quanto tempo mais essa carcaça dura.

Anna me encarou com os olhos arregalados, o rosto retorcendo numa mistura rápida de choque e repulsa pura.

— Nem pensar. Isso seria nojento — soltou ela de prima, virando o rosto pro lado como se eu tivesse oferecido um prato de lixo.

— Nojento? — rebati no mesmo segundo, sentindo uma picada de ofensa no peito. Soltei uma risada curta e carregada de ironia. — Ah, claro! Perdão, vossa alteza das sombras. Esqueci que bebedora de sangue em tubo de ensaio tem etiqueta refinada. O meu sangue é nojento, mas o fluído esquisito do frasco da Ordem é uma iguaria fina, né?

Anna bufou, ajeitando a jaqueta rasgada sobre o ombro machucado enquanto a pele do braço continuava a se recompor devagar. Ela parecia dividida entre me dar uma bronca ou se afundar num buraco de vergonha.

— Não é isso, William... — começou ela, a voz caindo pra um tom baixo, hesitante. — É que... para um vampiro do meu clã, consumir o sangue direto de outra pessoa de forma consciente é equivalente a...

Ela travou no meio da frase. A boca dela continuou levemente aberta por um segundo, os olhos varrendo o chão de pedra como se procurasse uma saída de emergência pra conversa.

— Equivalente ao quê? — insisti, franzindo a testa e cruzando os braços. — Vai, termina a aula de biologia vampírica, fiquei curioso agora.

— Deixa pra lá... — cortou ela rapidamente, dando um passo à frente na galeria e cortando o assunto de vez para conter o papo. — Não vou tomar o seu sangue e ponto final.

Olhei para ela desconfiado, mas o cansaço e a queimação nos meus pulmões não me deixavam com energia suficiente para ficar pressionando.

— Se as coisas piorarem lá embaixo... a gente foge, tudo bem? — completou ela, virando o rosto de soslaio, num tom de voz surpreendentemente suave que quase não parecia vir da caçadora rígida de sempre.

— Vamos torcer para que não tenha mais nada... — falei, apegando-me a uma ponta frágil de esperança. — Pelo menos vamos conseguir explorar mais desta mina agora que aquela coisa saiu do nosso caminho.

— Ainda está com o mapa aí? — perguntou ela, recompondo a postura aos poucos.

— Sim, deixei dentro da mochila antes que as coisas dessem errado de vez — respondi, puxando o zíper e desdobrando o papel amarelado sobre o joelho. Tateei as linhas em nanquim, tentando alinhar a nossa rota. — Segundo a planta, estamos no Nível 4. Se o meu senso de direção não estiver completamente fodido, a gente precisa descer mais dois lances de escada até o Nível 8 e depois cortar direto para o sul, no Nível 14.

Anna arrastou-se até o local onde eu estava sentado e inclinou o corpo para olhar o mapa de relance.

— Olha aqui — apontou ela com o indicador, a unha raspando a folha gasta. — "Gabinete do Guardião". Aparentemente, só havia aquele construto para proteger este trecho.

— Isso se não houver um ninho de ratos e baratas no caminho — ironizei, guardando o papel.

— Ugh... que nojo. Me dá calafrios só de pensar — murmurou ela, franzindo o nariz e encolhendo os ombros num arrepio genuíno.

Dei uma risadinha leve, satisfeito em ver que nem mesmo uma vampira caçadora era imune ao nojo de pragas comuns. Ergui-me devagar, sentindo os pulmões reclamarem do esforço, mas firmando os pés no cascalho. Anna levantou-se logo em seguida, ainda demonstrando certa dificuldade no lado onde o braço se reconstruía, mas, com o passar dos minutos, a fisiologia sobre-humana dela ia deixando-a em um estado visivelmente melhor do que o meu.

Assim, começamos a nossa descida pelas entranhas da mina de São Romão.

Não sabíamos dizer ao certo qual era a função original de cada nível ou o que a arquitetura do lugar representava na escala operacional do complexo. Alguns andares eram breus absolutos, engolidos por uma escuridão tão densa que a luz da lanterna mal conseguia rasgar; outros, de forma perturbadora, eram perfeitamente visíveis, iluminados por lâmpadas de vapor de mercúrio que piscavam fracamente, alimentadas por fios antigos espalhados pelo teto.

Ignoramos todos os andares intermediários pelo caminho. O único foco naquela hora era encontrar o velho e garantir que ele estivesse respirando. Mas, enquanto cruzávamos corredores abandonados e portas pesadas trancadas a correntes, um pensamento fixou-se na minha mente: eu precisava voltar ali. Pretendia explorar cada canto daquela mina sozinho num futuro próximo. O que mais Evelyn Monroe e a Ordem tinham escondido debaixo daquela montanha?

Ao alcançarmos o Nível 14, a arquitetura rústica de mina de carvão deu lugar a paredes de concreto bruto e portas de ferro reforçado. O ar mudou drasticamente: ficou seco, abafado e impregnado com o cheiro inconfundível de ozônio e ferrugem estagnada.

— A escadaria de serviço termina aqui — avisou Anna, parando na beira de um fosso escuro onde os degraus de ferro tinham sido arrancados da rocha. — A partir daqui, só dá para descer pelo poço do elevador de carga... ou encontrar a rampa interna pro Nível 18.

— Olhando pelo mapa, a rampa fica do outro lado dessa galeria — respondi, apontando a lanterna para um corredor amplo ladeado por trilhos de minério entortados.

Demos os primeiros passos no piso de metal rangente, o som dos nossos passos ecoando baixo no silêncio da rocha. Atravessamos o portal da galeria sem encontrar resistências ou sobressaltos, acelerando o passo na medida em que o ar da mina parecia mudar.

A rampa nos levou diretamente para o Nível 18.

O lugar não se parecia em nada com os andares superiores. Não havia vigas de madeira podre, suportes enferrujados ou trilhos esmagados pelo tempo. A rampa desaguava em um corredor amplo de rocha polida, cujas paredes exibiam runas antigas entalhadas na pedra e preenchidas com chumbo. No fim do corredor, uma porta monumental de ferro negro e latão repousava escancarada, com o selo central completamente partido ao meio.

— O selo da entrada foi destruído por magia de alto nível — observou Anna, aproximando-se da soleira e passando os dedos pelo metal queimado da tranca. — Quem esteve aqui não usou força bruta.

— O pai não domina esse tipo de feitiçaria — respondi, passando a mão pelo peito sensível, ainda sentindo a fisgada do gás ácido que engoli mais cedo, enquanto ajustava a alça da mochila. — Isso foi obra de quem tomou o esconderijo da Evelyn... Ou de quem veio caçar quem estava aqui.

Avançamos pela porta monumental, mantendo as armas em riste e o corpo tenso para qualquer surpresa. Mas a grande câmara do Nível 18 estava completamente vazia.

O espaço circular era dominado por uma mesa de altar quebrada ao meio e pilares de pedra tombados. Não havia sinal de combate recente, nem poças de sangue frescas, nem o corpo do velho. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo sopro constante de uma corrente de ar gelado que vinha do fundo do recinto.

— Ele não está aqui... — murmurou Anna, a voz carregada por uma mistura de alívio e frustração enquanto a luz da lanterna varria o chão de rocha polida.

— Mas esteve — apontei para o fundo da câmara.

Caminhei até a lateral do altar destruído, onde o ar frio que vinha do túnel de saída fazia a poeira dançar na penumbra. O pai não tinha apenas passado por ali; ele havia deixado um rastro deliberado, marcas que só alguém que cresceu prestando atenção aos detalhes da família conseguiria reconhecer.

Perto do pé da mesa de pedra, cravado no chão com uma adaga de caça de cabo de osso — uma lâmina antiga da nossa família —, havia um pano de linho manchado de fuligem.

— Anna, olha isso — chamei, abaixando-me para recolher o objeto.

Ela se aproximou rápido, a luz da lanterna focando nas minhas mãos. A adaga pertencia ao velho, mas o que estava preso nela era o verdadeiro achado: um pedaço rasgado de um diário de campo, com a caligrafia rápida e apressada do nosso pai.

"O selo cedeu antes do previsto. O Cavaleiro não está agindo sozinho; encontraram um receptáculo no vilarejo. Se vocês chegaram até aqui, não venham atrás de mim pela linha férrea. É uma armadilha para fechar o cerco. Estou indo para o Castelo de São Romão acabar com isso no ninho."

Subi os olhos e examinei a rocha ao lado do portal de saída. Pregado na parede por um estojo de munição deflagrado, havia um segundo bilhete, escrito no mesmo papel e com a mesma caligrafia truncada.

"O selo do esconderijo foi rompido por dentro. O Cavaleiro não está agindo de forma isolada e o cerco fechou. Estou dividindo a minha rota em duas frentes para evitar que nos encurralem de uma vez só."

Na parte de trás do segundo bilhete, rabiscado a carvão, havia um nome e um alerta:

"Sanatório de Névoa Alta — Onde o segundo selo repousa."

— Isso tá muito estranho — falei, levantando o olhar para a minha irmã.

— Como assim? — perguntou ela, franzindo o cenho enquanto iluminava os dois papéis na minha mão.

— Dois lugares totalmente diferentes? Qual é a intenção disso?

— Talvez ele tenha tentado despistar quem quer que esteja atrás dele — sugeriu Anna, passando a mão boa pelo ombro ferido, que terminava de se recompor.

— Mas quem estaria atrás dele? E por que especificamente dele? — insisti, ajeitando a mochila nas costas.

— Ele tá atrás do receptáculo da Conquista, William. Talvez seja alguém que queira aquilo tanto quanto ele... ou alguém querendo impedir que o velho cometa uma loucura.

— Faz sentido, mas não entendo por que nosso pai quer tanto a Conquista para si... — respirei fundo, limpando o resto do gosto amargo da boca.

— É questão de poder e autoridade, Billy. Subir nos escalões da Ordem, prestígio... um monte de besteira de gente velha e ambiciosa.

— Tá mais pra fardo do que pra poder esse negócio — resmunguei, lembrando da sensação esquisita e daquela voz pesando na minha própria cabeça.

— Concordo — disse Anna, guardando os dois bilhetes no bolso e apontando com o queixo na direção da luz que vinha da saída. — Mas antes de sairmos correndo atrás do velho feito cegos, nós temos uma parada obrigatória.

— O posto de comando da Ordem — deduzi, encarando-a.

— Exato. O Conselho precisa receber os dados do esconderijo da Evelyn, o relatório sobre o Colosso e as anotações sobre o receptáculo. Além disso, se o pai deixou duas pistas propositais, o Líder do Conselho vai saber qual dessas rotas tem atividade recente.

— Não vou entregar o caderno — disse, a voz firme e cortante como ferro frio.

— Mas, Billy, a gente tem que...

— Não, Anna. Desde que o vovô saiu da Ordem, ele teve todo o brilho ofuscado. Todas as pesquisas dele eram engavetadas ou roubadas. Ele passou o resto da vida reclamando e praguejando contra essa gente. Se o vovô não queria que a Ordem soubesse da Conquista, eu vou honrar esse desejo até o fim — olhei no fundo dos olhos dela. — E a Ordem provavelmente vai mandar caçadores até aqui para varrer a mina de qualquer jeito. Então essas pistas não são problema nosso, né? Nosso único objetivo é encontrar o pai em segurança e cair fora.

— Billy... isso tudo que a gente fez é uma missão da Ordem — soltou ela de uma vez, tentando esconder o rosto enquanto tocava o próprio ombro, com a postura desmoronando como se estivesse confessando um crime. — Eu fui enviada para isso. Esses bilhetes... eles provavelmente eram para mim.

A informação bateu no meu peito como um soco.

— Você me usou... — soltei um suspiro que virou uma risada seca, pura ironia amarga. — Então é tudo sobre a Ordem, não é? É tudo sobre a sua vingancinha de merda! Eu devia ter desconfiado no momento em que você apareceu naquele porão...

— CALA A SUA BOCA! — gritou ela, a voz ecoando pelas paredes de pedra com uma violência que fez a poeira balançar no teto. — Você não tem a menor ideia do que eu passei para ficar bostejando pela boca a meu respeito! Eu ainda tenho pesadelos com aquele dia! Eu... eu...

A raiva na voz dela quebrou no meio, dando lugar a um arquejo sufocado. O peito dela subia e descia rápido. A caçadora gélida, desapareceu por um instante. No lugar dela, ficou apenas uma garota traumatizada segurando o choro. Vi o brilho das lágrimas acumulando nos olhos dela, e o nó no meu estômago apertou. Me senti um lixo por ter cutucado aquela ferida exposta.

Soltei um longo suspiro, deixando o cinismo escorrer ralo. Sabia que aquele assunto era o fantasma que ela tentava trancar a sete chaves, mas que sempre voltava para assombrá-la.

— Prometeram te entregar o assassino, não foi? — falei, num tom acolhedor, calmo e sem um pingo do deboche de antes.

— Sim... — disse ela, a voz embargada pelo choro que tentava engolir a todo custo. — Se eu encontrar o receptáculo da Conquista... eles vão me dar a localização exata do desgraçado que matou meus pais... — fez uma pausa dolorosa, limpando o canto dos olhos com as costas da mão boa. — Me desculpa, Billy. Eu sabia que, se contasse o real motivo, você não viria me ajudar...

— E não viria mesmo... — virei o rosto por um segundo, dando de costas, me encostando na beirada da mesa de pedra e soltando o ar devagar. — Mas agora o que me resta é suportar isso.

Olhei para ela de lado, cruzando os braços.

— A gente nunca achou esse diário, ouviu? A gente só viu os bilhetes. Só vamos entregar esse caderno para a Ordem se eu tiver certeza absoluta de que é seguro fazer isso. Nenhuma informação sobre a Conquista vai chegar ao Conselho sem antes passar por mim. Entendeu?

Anna piscou, surpresa pela imposição, e aprumou a coluna.

— Ou o quê?

— Essa é a minha condição para continuar te ajudando na sua vingancinha — apontei o indicador para ela, deixando um leve e brega sorrisinho de canto de boca escapar. — Não aguento mais ver você carregando essa cara de velório. Vamos achar o pai e depois a gente vai matar aquele vampirinho nojento.

O silêncio reinou no Nível 18 por alguns segundos, quebrado apenas pelo vento que soprava do túnel de saída. Anna me encarou, o olhar oscilando entre a exaustão e um alívio genuíno. Ela soltou uma respiração ruidosa pelo nariz e deu um meio-sorriso fraco, ajeitando a jaqueta rasgada.

Antes que eu pudesse fazer mais uma piada sem graça para quebrar o clima, ela deu um passo rápido à frente e me puxou para um abraço apertado. A reação me pegou totalmente de surpresa; os braços dela — um ainda frágil e em recomposição — se fecharam ao redor do meu pescoço com uma força que me tirou o ar por um segundo.

— Obrigada, Billy... — murmurou ela, a voz abafada contra o meu ombro. — Isso... significa muito para mim. De verdade.

Fiquei estático por um instante, com as mãos paradas no ar, antes de dar dois tapinhas leves nas costas dela. Soltei uma risada curta e carregada da minha ironia habitual.

— Olha só quem diria... — debochei, inclinando a cabeça para olhá-la. — E tudo isso só porque eu concordei em te ajudar a cometer um assassinato. É bom saber que o nosso laço de irmãos se fortalece na base da vingança sanguentária.

Anna soltou o abraço e me deu um empurrão fraco no peito, revirando os olhos, mas o meio-sorriso continuou ali, quebrando a máscara fria que ela costumava vestir.

— Você é insuportável, William — disse ela, limpando o resto do cansaço do rosto e ajeitando a postura.

— Eu sei. Agora vamos sair desse buraco antes que meus pulmões resolvam derreter de vez.

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