Questões pendentes (William) Os arquivos de Von Kasten · Capítulo 8 de 8
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Questões pendentes (William)

Finalmente havia chegado o dia de sair daquele leito. A equipe médica me concedeu alta com todas as recomendações de praxe, e eu atravessei a porta do quarto com um sorriso largo de orelha a orelha. Anna passou quase todo esse tempo plantada ao meu lado, velando meu sono e cuidando da minha recuperação com um zelo raro — algo surpreendentemente carinhoso vindo de uma caçadora tão fechada quanto ela.

Conversamos sobre amenidades, rimos de bobagens cotidianas e até revisitamos alguns assuntos mais delicados do passado, mas a poeira havia assentado. Eu estava, acima de tudo, ansioso para pôr as mãos no diário de Evelyn. O caderno continuava guardado dentro da minha mochila, trancada na picape no estacionamento do posto avançado. Pensei dezenas de vezes em pedir para Anna buscá-lo enquanto eu ainda estava de cama, mas descartei a ideia para não levantar suspeitas no hospital. Afinal, a Ordem não fazia ideia da existência daquele diário. Anna sequer voltou a tocar no assunto do livro; a mente dela esteve focada apenas no meu quadro de saúde.

O que eu não contei para ela foram as sensações esquisitas que começaram a se acumular no fundo do meu crânio nos últimos dias. Eram ecos idênticos àquilo que senti na cozinha da minha loja, no dia em que ela apareceu de surpresa.

Eu conseguia ouvir os pensamentos alheios ressoando como sussurros na minha própria mente. Não eram palavras exatas, mas intenções puras, sentimentos crus. No leito, ao olhar para Anna sentada na cadeira de metal, eu sentia o pavor dela me engolindo: o medo visceral de perder o irmão, a culpa esmagadora por ter me arrastado para a sua cruzada e o desejo quase desesperado de me trancar longe de tudo aquilo.

O que ela não entendia é que essa jornada já havia se tornado um assunto pessoal para mim desde o momento em que me tornei o anfitrião involuntário de uma força que subjuga vontades.

Durante as horas de febre e sedação, tive visões fragmentadas dos receptáculos anteriores da Conquista. Sonhei com Evelyn sendo arrastada perante um imperador de uma dinastia há muito esquecida, com homens gritando em um idioma incompreensível. Sonhei com um tirano que dominou uma nação inteira através do medo e da autoridade mental, obrigando cada súdito a chamá-lo de "Pai". E sonhei com uma mulher simples, vestida em peles rudimentares, usando o arco intangível apenas para abater animais na floresta e alimentar seu povo faminto.

Tive tempo de sobra naquela maca para entender que o poder que se enraizou em mim não passava de uma ferramenta: uma maldição ou uma salvação, dependendo exclusivamente de quem puxa a corda.

Vesti uma camisa limpa, fechei a jaqueta e ajeitei a gola no espelho do vestiário. Precisava estar bem apresentado, conforme a exigência formal de Wilson.

— Vai demorar muito aí dentro? — a voz de Anna veio do corredor, acompanhada de duas batidas firmes na porta de madeira. — O Comandante não gosta de atrasos, e eu preciso resolver os preparativos da viagem.

— Já estou saindo — respondi, passando a mão no cabelo e respirando fundo.

O ar entrava nos meus pulmões sem dor ou chiado, limpo graças ao tratamento da Ordem. Abri a porta e encontrei Anna encostada na parede oposta, com os braços cruzados e a farda impecável.

— Vamos logo — disse ela, dando meia-volta. — O gabinete dele fica no fim da ala administrativa.

Caminhamos lado a lado pelos corredores de concreto cinzento do posto avançado. Caçadores uniformizados passavam em silêncio, prestando continências curtas enquanto nos aproximávamos da porta dupla de carvalho maciço que levava ao comando regional.

Anna parou na soleira e indicou a entrada com a cabeça:

— Ele pediu para falar com você a sós. Eu vou até a garagem checar a picape e pegar as nossas coisas.

— Vê se não quebra o porta-luvas — brinquei, mas o olhar firme que ela me devolveu não tinha espaço para piadas.

Bati duas vezes no carvalho.

— Entre, William — a voz ríspida de Wilson ecoou lá de dentro.

Empurrei a porta e entrei no gabinete. O Comandante estava de pé diante da grande janela com vista para o pátio de treino, segurando uma xícara de café enquanto a fumaça de um charuto fino subia no ar frio da manhã. Ele se virou devagar, seus olhos cinzentos medindo minha postura, a firmeza dos meus passos e a minha respiração.

— Sente-se — apontou para a cadeira de couro diante da pesada mesa de mogno coberta de mapas estratégicos. — Temos muito o que alinhar antes de você voltar para a sua loja.

Puxei a cadeira de couro e me acomodei, cruzando as pernas e sustentando o olhar direto nele, pronto para o que viesse.

— Eu pedi para que estivesse bem apresentado — começou Wilson, dando um trago lento no charuto antes de pousar a xícara na mesa. — Não está usando o conjunto que mandei deixarem no seu leito.

— A farda da Ordem não faz muito o meu estilo — dei de ombros. — Meio cafona, cinza demais.

— Somente caçadores de alta patente têm a prerrogativa de trajar o que bem entendem.

— O detalhe é que eu não faço parte do seu grupinho fechado, Wilson. Não tenho obrigação de desfilar o seu uniforme — soltei um meio-sorriso cínico. — E se você me chamou aqui só para tentar me recrutar de novo, sinto dizer que perdeu o seu tempo e o meu.

Wilson soltou um suspiro pesado, a fumaça azulada do charuto desenhando espirais entre nós. A expressão dele caiu para uma seriedade quase paternal.

— Bem... você acertou em cheio — admitiu ele, ajeitando os papéis sobre a mesa. — Suas habilidades seriam de grande valia para as nossas fileiras. Você já provou em campo que é mais capaz e engenhoso do que a maioria dos novatos que treinam no pátio lá fora. Mas me diga, William: por que essa recusa obstinada? Há quem mataria por uma nomeação oficial.

— Besteira. Não tem nada de exclusivo nessa sua organização dita "secreta" — fiz o sinal de aspas no ar com os dedos. — Você sabe muito bem disso. Qualquer um que puxar o saco do caçador certo ganha uma credencial. O problema real nunca foi entrar... o problema é conseguir sair dessa porcaria com vida.

Wilson franziu o cenho:

— E por que alguém iria querer sair?

— Meu avô tentou se aposentar por anos. Quando finalmente achou que teria paz longe de vocês, a vida dele virou um inferno — inclinei o corpo para a frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Pesquisas sumiam do sótão da noite para o dia, a clientela da loja começou a ser intimidada, criaturas do éter brotavam misteriosamente na porta da nossa ferraria... Mas foi só o velho fechar os olhos de vez que os monstros sumiram como mágica. Conveniente, não acha?

O Comandante abriu a boca para rebater, mas eu não dei espaço para fôlego:

— E tem mais: vocês estão fazendo a Anna andar em círculos feito uma idiota — apontei o indicador diretamente para ele. — Vocês sabem perfeitamente qual é o objetivo dela. Ficam acenando com a cenoura de entregar o assassino da família dela em troca de missões suicidas, mas nunca dão uma resposta concreta. Por que será, hein?

— Essas são acusações levianas e perigosas, William — cortou Wilson, o tom de voz endurecendo enquanto ele apoiava as palmas das mãos na madeira de mogno. — A Ordem é uma instituição íntegra. Nós prezamos pela verdade e pelo equilíbrio do...

— Fica calado... Eu tenho provas disso — interrompi com a voz cortante. — Lembra do passe livre para a biblioteca de registros que você me concedeu no mês passado?

— Lembro-me perfeitamente — respondeu ele, a mandíbula travada pela quebra de protocolo.

— Pois é. Eu não fui pesquisar sobre plantas medicinais. Fui direto no arquivo sobre o massacre dos pais da Anna: Sarah e Gabriel Barbero. No laudo civil, colocaram como suicídio duplo. Só que o processo estava trancado nos cofres da Ordem, e todas as notas do investigador de campo estavam riscadas, rasuradas com tinta nanquim preta — meu semblante fechou por completo. — Se a Ordem só cuida de casos sob a névoa do sobrenatural, por que raios um suposto suicídio comum estaria trancado no seu setor de inteligência? E por que alguém se deu ao trabalho de queimar os nomes das testemunhas?

— Como você teve a audácia de acessar arquivos confidenciais do conselho?! — rosnou o Comandante, a voz ríspida tentando disfarçar o pânico sob a farda. — Quebrar o sigilo de documentos restritos é crime de alta traição à Ordem, William! Eu posso mandar prendê-lo nesta mesma cela de onde acabou de sair e deixá-lo apodrecer antes do pôr do sol!

Wilson tentou recuperar a compostura na marra, batendo a mão espalmada na mesa e me encarando com o cenho franzido, tentando se agarrar à própria patente.

Em vez de recuar, dei um passo à frente e me apoiei na mesa, encarando-o no fundo dos olhos.

— O assassino é um membro graduado da Ordem, não é? — as palavras saíram pesadas.

No mesmo instante, uma queimação súbita percorreu as minhas têmporas. O ar dentro da sala pareceu baixar três graus. Senti a presença do arco pulsar atrás dos meus olhos e, antes que eu pudesse conter o reflexo, as minhas íris brilharam em um amarelo pálido e incandescente.

O eco empático da Conquista invadiu minha mente de uma só vez: a mente de Wilson não emanava raiva ou choque de inocência. Ele estava afogado em pura aflição, o coração batendo no limite enquanto calculava desesperadamente cada palavra para não cometer um deslize fatal. Ele sabia de tudo.

— E é um peixe grande... — completei, deixando a frase pairar no ar com uma lentidão teatral e ameaçadora, aproveitando a autoridade esmagadora que a Conquista projetava da minha garganta. — Alguém intocável dentro desse conselho. Alguém que não quer ser encontrado por mim, pela Anna e por ninguém.

— E por que não me conta tudo logo? — ordenei.

Minha voz saiu duplicada, carregada por um eco ressonante e irresistível que fez o chão de concreto vibrar. O poder da Conquista não apenas pesou sobre o ar: ele cravou garras invisíveis diretamente na vontade de Wilson.

O Comandante congelou no mesmo instante. Os olhos cinzentos dele perderam o brilho, ficando opacos, vítreos e completamente vazios, como poças de água estagnada. O maxilar dele relaxou num tranco involuntário, e os punhos cerrados sobre o mogno se abriram, inertes. Ele estava inteiramente subjugado.

— Fale — exigi, a autoridade escorrendo pelas minhas palavras. — Quem matou Gabriel e Sarah Barbero?

— Eu... eu não sei... — a voz de Wilson saiu arrastada, monótona, como a de um autômato respondendo a um comando mecânico.

— Então o que você está escondendo? — apertei o tom, forçando o poder da Conquista mais fundo na mente dele.

— Os pais de Anna foram mortos em um conflito cruzado entre os Sangue Pálido e o Sanguis Sanctum... — Wilson falava sem pestanejar, o peito mal se movendo, a saliva secando nos lábios inertes. — Se a informação vazasse, a Ordem ruiria em guerra civil interna. O Conselho Superior ordenou o expurgo dos sobreviventes e forjou o laudo de suicídio para abafar o caso. A garota... Anna... foi poupada no último segundo apenas por pena de um dos caçadores... No fim, foi mantida em coleira curta sob a promessa de uma caçada sem fim.

Soltei o ar com força, sentindo a raiva queimar no peito.

— Seis por meia dúzia... Sabe tanto quanto eu, mas pelo menos foi útil — resmunguei, passando a mão na testa suada.

Ele não sabia o nome do carrasco direto, mas a confissão confirmava a podridão da Ordem: usaram a tragédia da minha irmã como massa de manobra e colocaram uma coleira nela para manter as aparências políticas intactas.

Apertei as têmporas, sentindo a queimação do arco pulsar no fundo dos meus olhos. Eu já tinha tirado tudo o que a mente limitada de Wilson guardava. Puxar o pavio dessa bomba agora, dentro da toca do lobo, só nos faria ser executados por traição antes do almoço.

Fixei meu olhar amarelo diretamente nos olhos vidrados do Comandante:

— Você vai esquecer completamente esta conversa. Vai esquecer que tentei arrancar confissões, que mencionei os arquivos confidenciais ou a morte dos Barbero. Para você, nós encerramos a discussão sobre a minha recusa em entrar para a Ordem e você me entregou as ordens de marcha normalmente. Volte a si agora.

Pisquei com força, cortando a emanação mental. O brilho dourado se desfez, devolvendo o castanho comum às minhas íris.

Wilson deu um solavanco repentino na cadeira de couro, puxando o ar com um arquejo rápido e piscando os olhos várias vezes, como alguém que desperta de uma queda brusca de pressão. Ele sacudiu a cabeça de leve para dissipar a névoa mental e me encarou com a mesma expressão severa e protocolar de minutos atrás.

— Bem... como eu dizia, é uma pena que continue recusando a farda — declarou o Comandante, a voz firme e sem qualquer rastro do transe, pigarreando enquanto abria a gaveta trancada da escrivaninha. — Mas não vou insistir mais. Temos uma missão a cumprir.

Ele retirou dois envelopes pardos e pesados, lacrados com o selo de cera vermelha da Ordem, e os empurrou sobre o tampo de mogno na minha direção.

— Como combinamos com a senhorita Von Kasten... os mandados e as rotas detalhadas para o Castelo de São Romão e o Sanatório de Névoa Alta — disse ele, recompondo a postura militar. — Os dois caçadores de apoio se apresentarão na sua oficina em quarenta e oito horas para a partida. Peguem o que precisam e sumam da minha vista.

Recolhi os envelopes, guardei-os no bolso interno da jaqueta e dei um passo para trás. O peso daquela verdade agora ardia sob as minhas costelas, mas eu não abriria a boca até termos uma saída limpa.

— Passar bem, Comandante — respondi, virando as costas e saindo do gabinete.

Cruzei os corredores frios a passos largos até alcançar a saída. Pouco antes da porta principal, um rato cinzento disparou por uma fresta no rodapé, vindo justamente da direção da sala de Wilson, e sumiu pelo piso de concreto. Senti nojo. Aquele posto avançado conseguia ser imundo em todos os sentidos possíveis — dos cantos escuros às cabeças que comandavam a farsa ali dentro.

Assim que empurrei a porta de metal e o ar puro e gelado da manhã bateu no meu rosto, puxei uma respiração funda. Foi um alívio quase físico, como se eu estivesse finalmente limpando o fedor daquela instituição dos meus pulmões recém-recuperados.

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