Eureka e Cervejistão (Anna) Os arquivos de Von Kasten · Capítulo 4 de 8
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Eureka e Cervejistão (Anna)

Eu ainda estava jogada na cama, de olhos abertos, encarando as manchas de umidade no teto e tentando remontar as peças desconexas do que tinha acontecido no dia anterior. A sensação de ter o corpo renovado pela noite de sono contrastava com aquela fisgada incômoda no fundo da mente, como um aviso de que alguma coisa continuava fora do lugar. Mas o escândalo lá embaixo destruiu qualquer tentativa de reflexão.

— Aqui! EUREKA, EUREKA, CARALHO! — o grito do William ecoou pelo vão da escada, seguido por uma rajada de palavrões e uma comemoração alta e desajeitada que fez o assoalho do andar de baixo vibrar.

Soltei um suspiro pesado, joguei as cobertas para o lado e me levantei. Nem me dei ao trabalho de trocar de roupa; desci os degraus de madeira rangentes de pijama mesmo, o cabelo levemente bagunçado, arrastando os pés até a parte de trás da loja para ver qual era o motivo de tanta barulheira logo cedo.

Quando me aproximei do balcão dos fundos, encontrei meu irmão ajoelhado no meio do caos, cercado por papéis poeirentos, com uma cara de alívio e empolgação que eu não via nele há anos.

— Dá para parar de gritar feito um maluco às oito da manhã, William? — perguntei, cruzando os braços e me encostando no batente da porta, estreitando os olhos

sob a luz fraca. — O que é que você achou de tão incrível para acordar o bairro inteiro?

— AQUI! — ele praticamente arremessou o volume pesado sobre a mesa de madeira com toda a força, levantando uma nuvem espessa de poeira e fazendo as xícaras frias do chá de ontem darem um salto. A encadernação de couro escuro estalou com o baque, escancarando a empolgação absurda dele.

— Passei a madrugada toda lendo um monte de coisas até que eu finalmente achei!

Aproximei-me da mesa, afastando a névoa de poeira com a mão e encarando o tomo. O livro trazia um ar arcaico, nitidamente mais velho do que nós dois juntos. A capa gasta exibia letras entalhadas em Cervejistânes e, ao folhear rapidamente as páginas amareladas e ásperas, deparei-me com gravuras góticas impressionantes, detalhadas e sombrias, representando os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.

Mesmo sem dominar o idioma, a iconografia era inconfundível para qualquer um treinado na Ordem. O foco do capítulo aberto caía sobre a figura da Conquista, cercada por símbolos e diagramas complexos que pareciam mapas de selamento e rituais de vinculação.

— Cervejistanês antigo? — perguntei, erguendo uma sobrancelha para o Billy e notando as olheiras profundas e a palidez dele, provas de que ele realmente não tinha pregado o olho a noite toda. — E desde quando você lê isso?

— O vovô... Ele era meio Cervejistanês sabia? Por que acha que nosso nome é Von Kasten? Ele me ensinou um pouco, eu consigo ler se me esforçar um pouquinho.

— O vovô deixou anotações marginais em português do lado das gravuras — explicou ele rápido, apontando com o indicador trêmulo para os rabiscos finos feitos a bico de pena nas margens das páginas. — Olhe aqui, Anna. Não é um mapa geográfico convencional, é um roteiro de pistas da Ordem. O velho deixou anotado o ponto exato onde o pai achou que o selo estava guardado.

Puxei a cadeira e me sentei de pijama mesmo, inclinando o corpo sobre a mesa. A enxaqueca e a névoa de ontem pareciam finalmente dar lugar à adrenalina da caçada. O William parecia genuinamente focado e funcional, transformado pela descoberta.

— Onde? — perguntei, cravando os olhos nas anotações do vovô Arthur. — Para onde o pai foi?

— Suponho que foi para a mina abandonada de São Romão — respondeu William, deslizando o dedo indicador pela margem do papel até parar sobre uma coordenada anotada em tinta sépia. — O vovô escreveu que a entrada principal foi selada com alvenaria nos anos 70, mas tem um acesso de ventilação secundário no cume do morro. É o único lugar da região com estrutura profunda o suficiente para abrigar um selo do Cavaleiro sem atrair atenção.

Encarei o rabisco do vovô Arthur. A caligrafia angular e rígida do velho era inconfundível. Ao lado do nome da mina, havia um pequeno símbolo em forma de triângulo invertido cortado por três linhas paralelas — a marca pessoal que ele usava para identificar locais de alto risco nos relatórios da Ordem.

— São Romão... Isso fica a pelo menos quatro horas de viagem subindo a serra — murmurei, apoiando os cotovelos na mesa e esfregando o queixo. — A estrada para lá é péssima, cheia de trechos desmoronados por causa das chuvas. Se o pai foi sozinho para aquele buraco, ele é mais maluco do que eu pensava.

— Ele não é maluco, Anna, ele estava desesperado — rebateu William, a voz caindo um tom, encarando a gravura gótica do Cavaleiro com uma fixação quase hipnótica. — Ele queria provar para a Ordem que o vovô não era um traidor... queria resolver isso antes de todo mundo.

Observei o perfil do meu irmão sob a luz fraca da manhã. As olheiras profundas e a palidez davam a ele um ar quase doentio, mas o brilho nos olhos dele era de pura determinação. A postura defensiva da noite anterior parecia ter evaporado, substituída pela urgência da descoberta.

— Certo — declarei, levantando-me da cadeira com uma firmeza que há dias eu não sentia. — Vou subir, tomar um café decente e me vestir. Quero o equipamento checado e as mochilas prontas em meia hora.

— Por que EU tenho que arrumar suas coisas? Você tem mãos, sabia? Ainda tenho que arrumar as MINHAS! Nem lembro onde deixei meu armamento.

O rombo na pose de "caçador compenetrado" foi imediato. O tom irritado e mimado me fez soltar um riso curto, o primeiro em dias. Aquele, sim, era o William de verdade: reclamão, desorganizado e incapaz de achar o próprio equipamento mesmo que ele estivesse dando uma morder na cara dele.

— Eu disse para o equipamento estar checado, não para você fazer a minha mala, gênio — respondi, dando um tapa fraco no ombro dele ao passar rumo ao corredor.

— E se você não sabe nem onde largou sua própria arma, devia agradecer à Ordem por eu estar aqui para garantir que você não morra de idiotice na serra.

— Tá no porão! Ou na gaveta do balcão... ou no armário da cozinha do lado das xícaras — resmungou ele, começando a bater as portas dos armários com um estardalhaço desnecessário enquanto eu subia os degraus. — E não abuse da minha boa vontade, tá legal? Já fiz café da manhã ontem e passei a noite em claro lendo em Cervejistanês!

— Ótimo! Aproveita a animação e acha esse revólver antes que a gente precise sair — gritei do topo da escada.

Entrei no quarto de hóspedes e fechei a porta. A sensação de ter um objetivo claro de novo dissipava qualquer resquício de mal-estar da noite anterior. Mudei para as roupas de campo — calça reforçada, botas de couro surradas, a jaqueta pesada — e ajustei o coldre no peito, sentindo o peso familiar da arma contra as costelas.

Chequei o tambor, os pentes extras no cinto e joguei o resto do meu kit essencial para dentro da mochila.

Quinze minutos depois, eu já estava de volta ao andar de baixo, com a mochila no ombro e o cabelo preso num rabo de cavalo firme.

William estava jogado no sofá da sala, com uma cara de derrotado, segurando uma garrucha meio enferrujada e um cantil de metal como se fossem troféus de uma batalha épica.

— Achei — disse ele, erguendo a arma antiquada com um orgulho totalmente infundado. — E antes que você fale qualquer coisa sobre o estado do ferro, ela funciona perfeitamente.

— Se isso disparar sem explodir na sua mão, já vai ser um milagre — comentei, pegando a chave da minha picape de cima do balcão e jogando para ele. — Pega as malas. Você dirige até a saída da cidade; eu quero checar o mapa do vovô de novo no caminho.

Deixei que ele resmungasse sozinho enquanto a picape ganhava a rua principal, deixando a loja de antiguidades e a poeira para trás. O sol da manhã começava a cortar a neblina baixa que cobria a saída da cidade, revelando a silhueta recortada das serras no horizonte.

Passei a ponta dos dedos pelos rabiscos do vovô Arthur na margem do texto em Cervejistanês. A coordenada da mina de São Romão estava acompanhada de uma pequena frase em latim que eu não tinha notado antes, escrita com uma grafia apressada e trêmula: Pestis in silentio manet.

"A praga permanece no silêncio."

Ajustei o coldre no peito por baixo da jaqueta de couro, sentindo a vibração contínua do motor sob os pés. O cansaço e a estranheza do dia anterior tinham finalmente dado lugar à frieza prática do dever. Não importava o que tivesse acontecido com a minha cabeça no porão, nem as excentricidades do Billy; a prioridade agora era arrancar o nosso pai daquela mina antes que o silêncio da serra o engolisse de vez.

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