O reencontro Os arquivos de Von Kasten · Capítulo 2 de 8
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O reencontro

Mais uma noite mal dormida e mais paranoia para a conta. Ando dormindo quase nada de uns dias para cá, e quando finalmente consigo cair no sono, os pesadelos me forçam a acordar no pulo, com o peito suando frio e aquela sensação horrível de estar sendo sufocado. Se eu quiser sobreviver ao dia, terei que me dar o luxo de cochilar durante o trabalho. Pelo menos a pouca clientela que ainda entra aqui não liga para isso.

Hoje de manhã, algo bem incomum aconteceu. Eu estava caindo de cansaço, e o tédio insuportável deste calabouço mofado não ajudava em nada. Tentei procurar algum sentido no que estava acontecendo comigo vasculhando antigos livros de bestiário do meu avô. Mas cada palavra do sumário parecia embaralhada, me deixando cada vez mais desorientado. Aos poucos, aquele tomo pesado de couro foi se tornando uma alternativa muito mais atraente do que um travesseiro.

Fui me escorando cada vez mais na cadeira de madeira rangeira, apoiei os pés no balcão da loja e desmontei. “Que vergonha a minha”, pensei em um último vislumbre de lucidez, mas a exaustão falou mais alto e acabei apagando por alguns minutos.

Até que, enfim, o tinido agudo do sino da porta da frente cortou o silêncio da loja.

Dei um pulo, tirando os pés do balcão às pressas e me ajeitando na cadeira o mais rápido que meu corpo atordoado permitia. Pigarreei, esfregando os olhos para tentar afastar a neblina do sono.

Um cliente? Uma visita?

Ajeitei a postura atrás do balcão e ergui o olhar para a porta de entrada.

Uma figura encapuzada cruzou o umbral do meu estabelecimento. Ela passou batido por todas as prateleiras, sem ao menos desacelerar para olhar as quinquilharias, indo direto em direção ao balcão. Com o rosto ainda parcialmente oculto pelas sombras do capuz, ela empinou a cabeça, encarou-me e soltou:

— Dormindo em serviço de novo, Billy?

Eu reconheceria aquela voz em qualquer canto deste mundo miserável.

Era minha irmã, Anna.

O alívio foi tão repentino que nem pensei em manter a minha costumeira fachada de indiferença. Levantei da cadeira acolchoada atrás do balcão e fui até ela, relativamente animado. Avancei e a envolvi em um abraço.

Talvez pelo meu estado emocional estar completamente arruinado nas últimas semanas, devo ter dado um abraço longo demais para a ocasião. Acho que, inconscientemente, eu estava mal pra cachorro, embora estivesse mentindo para mim mesmo esse tempo todo. Sinceramente, eu não sei. O normal entre nós sempre foi aquele abraço padrão: nem muito apertado, nem muito solto, a medida exata que a gente consolidou ao longo dos anos para demonstrar afeto sem frescura.

Ela se afastou um pouco, franzindo a testa e me encarando com desconfiança.

— Você está bem? Está mais grudento que o normal… Tipo… muito mais…

— Não… Nada — respondi, pigarreando e tentando disfarçar a voz embargada. — Não posso mais ficar feliz de ver minha irmã?

Ela estreitou os olhos, analisando meu rosto de perto.

— Você tá chorando, Billy?

É... talvez eu tenha esquecido de mencionar que acabei lacrimejando um pouco no meio do abraço. A exaustão, as vozes na cabeça e o peso de ter a vida virada do avesso simplesmente transbordaram pelos meus olhos sem a minha autorização.

— Não, não… Eu acabei de acordar, isso aqui é só sono mesmo — minto descaradamente, limpando o canto dos olhos com a manga do casaco e soltando uma risada seca e sem graça.

Ela cruza os braços e solta aquele suspiro típico de quem me conhece bem demais para cair numa desculpa tão esfarrapada. Anna sempre teve esse dom irritante de enxergar através das minhas mentiras, principalmente quando eu tento bancar o durão.

— Sei... Sono — ironizou ela, tombando a cabeça para o lado e me encarando com uma mistura de preocupação e deboche. — E desde quando "sono" deixa você com essa cara de quem foi atropelado por uma carruagem e ressuscitado no processo, Billy?

Desviei o olhar por um segundo, tentando ao máximo não encarar o espelho pendurado na parede atrás dela. A última coisa que eu precisava era que minha irmã notasse a cor amarelada e bizarra dos meus olhos sob a iluminação fraca da loja.

— É sério, Anna. O trabalho aqui tá puxado, ando dormindo mal e esse mofo do porão ataca minha alergia — soltei a primeira sequência de desculpas esfarrapadas que passou pela minha cabeça. — Mas e você? O que traz minha querida irmãzinha até o meu humilde e mofado reino de quinquilharias numa hora dessas?

— Tenho assuntos a resolver nessa cidade, e também precisava falar com você uma coisa, na verdade duas...

— Vamos lá pra cima então, vou preparar um chá. Pode trancar a porta da loja e girar a plaquinha para "Fechado" para mim?

— Sim, tudo bem.

Ela se virou em direção à entrada, o tecido pesado do capuz se movendo suavemente enquanto ela dava os passos até a porta de madeira. Aproveitei esses poucos segundos em que ela estava de costas para fechar os olhos e soltar um suspiro fundo. Com o estado em que a minha vida se encontrava, qualquer assunto vindo de um membro da família soava como um prenúncio de dor de cabeça.

O som metálico do trincotando e o estalido seco da plaquinha de madeira virando para o lado de fora ressoaram pela loja silenciosa. Subi os degraus de madeira rangentes rumo aos nossos aposentos no andar de cima, tentando desesperadamente reorganizar minhas feições no trajeto. Eu precisava disfarçar as olheiras fundas, piscar rápido para aliviar o peso das pálpebras e, acima de tudo, garantir que meus olhos não chamassem a atenção dela sob uma luz mais forte.

Chegando à pequena cozinha, coloquei a chaleira no fogo e pegueis duas xícaras de cerâmica no armário. O chiado da água começando a esquentar era o único som num ambiente que parecia congelado no tempo.

Anna subiu logo em seguida, tirando o capuz da cabeça e revelando os cabelos levemente desalinhados pelo vento da rua. Ela puxou uma das cadeiras de madeira e se sentou à mesa.

Ajeitei as xícaras no balcão e me encostei na pia, tentando manter a postura mais relaxada possível enquanto a água fervia.

— E então? O que aconteceu? — perguntei, cruzando os braços e tentando soar natural.

— Primeiramente, a notícia mais leve: vou passar uns dias aqui na cidade e queria saber se você se importa de me ter como inquilina. Não estou nem um pouco a fim de pagar hotel.

— Nunca me importei com isso, Anna. Pode ficar o tempo que quiser — respondi, tentando forçar um sorriso leve. — Só arrume a bagunça que fizer e não espante meus poucos clientes, que aí ninguém se machuca.

Ela nem piscou. Soltou um suspiro pesado, colocou as mãos sobre a mesa e me encarou com um olhar afiado como uma lâmina.

— Bagunça, William? Sério? Eu acabei de pisar lá embaixo. Esse lugar está mais empoeirado e imundo que qualquer tumba esquecida.

— Ei, é poeira charmosa! Dá um ar de relíquia autêntica para o estoque... — tentei me defender, levantando uma das mãos.

— Já vi masmorras no meio do nada mais limpas e arejadas que a sua loja — cortou ela, sem me dar trégua. — E você vive reclamando no diário e pelas redes que ninguém aparece para comprar nada. Mas que tipo de pessoa sã viria para um ambiente insalubre desses?

— Não é insalubre, é só um pouco... mofado. E o meu público-alvo gosta desse clima antigo! — retruquei, mesmo sabendo, no fundo, que aquela desculpa era ridícula até para os meus padrões.

— Já é difícil alguém procurar uma loja de antiguidades hoje em dia, Billy — concluiu ela, balançando a cabeça com uma mistura de pena e irritação. — Mas deve ser dez vezes pior vir a uma loja de antiguidades que parece um cativeiro abandonado. Você está horrível, o lugar está caindo aos pedaços e você claramente não está cuidando nem de si mesmo.

— Veio aqui só para me pisar, Anna? Pode economizar o esforço, eu já faço isso comigo mesmo todo dia.

Anna respirou fundo. A postura rígida dela se desfez em um instante, dando lugar a uma expressão cansada e genuinamente preocupada.

— Me desculpa, Billy... Eu me preocupo com você, só isso. É que desde que você foi embora e se trancou nesse lugar, tem ficado cada vez mais fechado. Tá parecendo o nosso pai.

A menção ao nosso pai caiu como uma pedra no meio da cozinha. O som da água finalmente atingindo o ponto de ebulição na chaleira serviu como a desculpa perfeita para eu me virar de costas, fugindo do olhar dela enquanto desligava o fogo e despejava o líquido quente sobre as folhas de chá.

— Eu não sou nada parecido com ele — murmurei, mantendo o tom o mais neutro que consegui, embora por dentro a comparação tivesse me incomodado mais do que eu gostaria de admitir. — Talvez eu só tenha me acostumado com o cheiro do mofo. Mas, em minha defesa, eu limpei o porão semana passada.

Anna soltou uma risada fraca, negando com a cabeça enquanto me observava servir o chá.

— Ah, sim, parabéns! Limpou o lugar onde ninguém entra — ironizou ela, pegando a xícara que eu coloquei na mesa. — Olhe, Billy, eu jurava que não queria parecer a irmã mais velha chata... mas, seriamente, parece que você mora num chiqueiro.

— É, você está sendo muito chata — respondi, puxando a outra cadeira e me sentando à frente dela, dando um gole demorado no meu chá só para ganhar tempo. — Mas tá legal. Eu prometo que dou uma geral na loja assim que for possível.

(O que significava, dentro do meu dicionário pessoal: provavelmente nunca. A menos que a poeira criasse vida e começasse a pagar aluguel).

— Acho bom mesmo — disse ela, soprando o vapor da xícara antes de encarar o líquido escuro. O ar brincalhão na sala durou pouco; a expressão de Anna mudou gradativamente, voltando àquela postura rígida que ela usava quando o assunto era trabalho. — Enfim... lembra que eu disse que tinha duas coisas para falar?

Apoiando as costas na cadeira, cruzei os braços e tentei disfarçar o nervosismo.

— Bem, diga então.

— O pai saiu para caçar há cerca de um mês.

— E... — Disse confuso.

— Ele não voltou até agora... — Respondeu ela com um tom visivel de preocupação.

— Como assim ele não voltou até agora, Anna? — perguntei, baixando a xícara e franzindo o cenho. A confusão inicial começou a dar lugar a uma pontada incômoda de apreensão no meu peito. — Ele sempre deixa avisado quando uma caçada se estende. O velho é metódico demais para simplesmente sumir do mapa sem mandar um pombo, uma carta ou um recado por algum contato.

— Pois é. Mas desta vez ele não mandou nada — respondeu ela, apertando a xícara de cerâmica com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — O último registro dele nos livros de campo da Ordem foi há três semanas, perto da região da serra. Depois disso... nada. Os esconderijos conhecidos estão todos vazios, sem nenhum sinal de rastro, de acampamento recente, nada.

Apoiei os cotovelos na mesa, passando a mão pelo rosto exausto. As vozes na minha cabeça continuavam aquele zumbido abafado e constante, mas por um segundo o choque da notícia conseguiu se sobrepor ao ruído da Conquista.

— E você veio até aqui porque acha que ele estava atrás de alguma coisa grande? — olhei diretamente para ela, tentando ignorar a fisgada no meu cérebro.

— Eu não acho, Billy. Eu tenho certeza — disse Anna, inclinando-se para a frente, a voz baixando para um sussurro tenso. — Antes de partir, ele estava obcecado com um mapa antigo do nosso avô. Um mapa que apontava para as relíquias que o velho guardou. Ele achava que tinha encontrado uma pista sobre o paradeiro do selo da Conquista.

Nesse momento eu engasguei com o chá que estava tomando. Dei um tranco para a frente, tossindo violentamente enquanto cuspi o líquido marrom de volta na xícara e na mesa, espirrando gotas para todos os lados.

— Caralho, Billy! — exclamou Anna, puxando o corpo para trás e limpando o vestido com as mãos, assustada. — Ficou maluco?

Eu estava com a mão no peito, respirando ar de forma atropelada, sentindo a garganta arranhada e o coração batendo na boca. Não era por causa do susto com o chá. Aquele nome — a Conquista — era familiar demais para mim. Era a razão exata de eu não ter dormido direito nos últimos dias e estar com a mente zumbindo.

O meu avô não tinha apenas escondido uma relíquia. Ele tinha trancado a porra de um Cavaleiro do Apocalipse no porão, e o nosso pai tinha saído por aí, sozinho, para caçar a mesma exata desgraça que agora habitava no meu corpo.

— Tá tudo bem? — Anna perguntou de novo, franzindo a testa, estreitando os olhos ao me ver pálido que nem um defunto. — Você ficou branco de repente. Foi o chá? Tem gosto de cinza?

— Não... Não é nada — gaguejei, limpando a boca com as costas da mão, tentando recompor o mínimo de compostura enquanto meu cérebro processava a catástrofe. — Engasguei com a bordinha da xícara. Só isso.

Ela me encarou por alguns segundos, desconfiada, mas acabou aceitando a desculpa esfarrapada.

— Sei... Enfim, o ponto é que a Ordem acha que ele pode ter ido atrás de uma pista deixada por Arthur. E como você é era o neto favorito do vovô, achei que você podia ter alguma anotação, um diário antigo ou qualquer coisa que nos desse uma direção.

— Como assim favorito? O vovô te adorava, ele vivia te mimando.

— É, mas quem herdou essa espelunca cheia de papelada mofada foi você, não eu — devolveu ela com um meio sorriso rápido, antes de voltar à sobriedade. — Ele confiava a você os segredos que não contava para mais ninguém, Billy. Você sabe disso.

Mesmo me contando muita coisa, ele nunca chegou a me falar sobre a Conquista. E, pelo visto, nem mesmo o nosso pai sabia disso, pensei comigo mesmo, encarando o fundo escuro da minha xícara. Por que o vovô nunca falou sobre isso? A pergunta veio mais uma vez para martelar a minha cabeça, pesada e sem resposta.

Se o velho Arthur me achava digno de herdar a loja, as relíquias e os grimórios, por que diabos tinha escondido o maior perigo de todos no porão, trancado a sete chaves num isqueiro de prata? Ele queria me proteger? Ou sabia que, se contasse a verdade, eu teria saído correndo para bem longe deste lugar?

— Billy? Ficou mudo de novo — a voz de Anna me tirou do transe.

— Só... tentando puxar pela memória — disfarcei, pigarreando para limpar a garganta. — O vovô falava muito, mas pelo visto guardava coisas até de mim. Ele nunca me disse nada direto sobre essa tal de "Conquista", Anna. Se ele deixou algo, tá enterrado no meio das anotações dele que eu ainda não tive coragem de mexer.

— Se ele deixou algo, tá enterrado no meio das anotações dele que eu ainda não tive coragem de mexer — concluí, torcendo para que a frase soasse convincente o bastante para encerrar o assunto.

— Escondendo dela, Billyzinho? — A voz ecoou rasteira dentro do meu crânio, fina e afilada como uma lâmina raspando no osso.

Tentei me manter o mais estável possível, fincando os pés no chão e congelando o rosto numa expressão neutra. Fingir que não estava ouvindo aquela desgraça era

uma arte que eu estava sendo obrigado a aprender na marra, segundo a segundo.

Anna apenas suspirou, cansada demais para notar a rigidez repentina nos meus ombros.

— Pois então é melhor a gente começar a escavar esse mofo logo — disse ela, pegando a bolsa e ajeitando a alça no ombro. — Vou deixar minhas coisas no quarto e lavar o rosto da viagem. Se você achar qualquer rabisco do vovô enquanto isso, me chama.

— Pode deixar — respondi, forçando uma voz calma que não combinava em nada com a tempestade que acontecia dentro do meu cérebro.

Assim que ela virou as costas e caminhou pelo corredor, apertei os dedos na borda da mesa de madeira até as pontas ficarem brancas. A porta do quarto de hóspedes se fechou com um clique suave, e a voz voltou, desta vez soltando uma risada abafada que parecia fazer minhas pupilas amareladas vibrarem.

— Que feio... Mentindo para a própria irmã — o sussurro da Conquista passeava pela minha mente, zombeteiro, num tom quase carinhoso de puro deboche. — E se ela descobrir que a caça do papai está bem aqui, tomando chá na cozinha? O que acha que a caçadorazinha vai fazer, Billy?

Engoli em seco, encarando o reflexo distorcido da minha cara pálida no fundo da xícara de chá. O pior de tudo não era a provocação da entidade. O pior era saber que ela tinha toda a razão.

— Então era o que eu pensava, tinha mesmo gente atrás de você... — sussurei o mais baixo possivel — porque não me falou nada? O que querem com você?

— Não é meio obvio? O poder, Billyzinho. O domínio. A soberania — a voz respondeu, deslizando amorfa pela minha mente, transbordando um orgulho antigo e azedo. — Homens passam a vida inteira ajoelhados por um pedaço de chão ou uma coroa de latão. Imagina o que fazem por mim?

Tranquei os dentes, mantendo a cabeça baixa para o caso de Anna abrir a porta do quarto sem avisar. O ar na cozinha parecia subitamente mais pesado, denso de uma poeira invisível. O mal necesário.

— Meu pai tá arriscando a vida lá fora por causa disso... por causa de você — murmurei de dentes colados, a voz mal saindo da garganta. — O que meu avô fez? Por que ele prendeu você no isqueiro?

Uma risada suave ecoou no fundo do meu cérebro, um som que parecia o roçar de folhas secas ao vento.

— Arthur era esperto. Ele sabia que o mundo não estava pronto para mim, e que eu não estava disposta a servir aos caprichos dele. Então me trancou... me deixou no escuro para que a ordem ficasse desorientada, correndo atrás de sombras. Mas o velho morreu e agora você é o meu trono.

Fechei os olhos com força, sentindo uma pontada aguda atrás das sobrancelhas. Me apoiei com os cotovelos me pia e segurando meu cabelo.

— Eu não quero ser trono de porra nenhuma.

— Tarde demais, garoto — o sussurro veio acompanhado de um arrepio que desceu direto pela minha espinha. — A caçada começou. Seu pai quer a Conquista. A Ordem quer a Conquista. E a única coisa entre eles e a glória é você... se conseguir continuar a disfarçar essa cor amarela nos seus olhos antes que sua irmã saia daquele quarto. Que alías está espiando todo esse seu delirio pela frestinha da porta.

— E acha que eu não sei disso!? —Disse em voz alta minha voz soou como a de um espectro como se várias vozes distorcidas estivessem falando ao mesmo tempo, olhando devagarmente e forma ameaçadora para a porta que estava levemente aberta.

Nesse momento Anna sai com tudo do quarto e engatilha o revolver em minha direção.

— QUEM É VOCÊ? O QUE VOCÊ FEZ COM O WILLIAM?

Não tinha sido o som da minha garganta. Tinha soar duro, grave, uma sobreposição assustadora de dezenas de vozes falando ao mesmo tempo, como se um exército inteiro tivesse saído pela minha boca no segundo em que encarei aquela porta.

Ergui as duas mãos devagar, na altura dos ombros, sentindo o suor frio escorrer pelas minhas têmporas. O tiques incômodos da Conquista na minha cabeça viraram uma risadinha abafada e satisfeita.

— Anna... sou eu. Baixa isso, por favor... — tentei falar, mas minha voz falhou, saindo arranhada, quase sem ar.

— CALA A BOCA! — ela deu um passo à frente, ajustando a mira sem hesitação. — Eu vi o seu olho. Eu ouvi essa desgraça saindo da sua boca! O que você fez? O que é isso em você?!

A lâmpada amarelada do teto oscilou por um segundo, lançando sombras compridas sobre as paredes da cozinha. Ela não estava apenas assustada com um invasor; estava encarando o pior pesadelo de qualquer caçador da Ordem — o momento em que a anomalia veste a pele de alguém da própria família.

— Ela não vai hesitar, Billyzinho... — o sussurro zombeteiro vibrou na base da minha nuca, atiçando meus instintos. — Ela foi treinada para matar o que nós somos. Vai deixar que ela atire?

— Fica quieta! — esbravejei, sem conseguir conter a fala.

Anna interpretou a ordem como se fosse para ela. O cano do revólver tremeu um milímetro, a pressão do indicador dela no gatilho aumentando a cada segundo de hesitação.

— Eu tô mandando você responder! — a voz da minha irmã embargou por um segundo, a dor da descoberta rasgando a fachada de durona. — Onde tá o meu irmão?

Ela estava tremendo. Pela primeira vez em toda a minha vida, vi a casca impermeável da Anna rachar por completo. A lágrima que escorria devagar pelo rosto dela não era de fraqueza; era de um desespero puro, sufocante.

Eu conseguia ler as intenções dela com uma clareza assustadora. Não era apenas intuição de irmão: era como se as emoções dela estivessem escancaradas na minha frente, transparentes. Ela não queria puxar aquele gatilho. Estava apavorada com a ideia de que o irmão que ela conhecia já tivesse morrido ali dentro, restando apenas um casulo vazio controlado por uma monstruosidade.

E, no entanto, ela ainda segurava a arma. Faria o que a Ordem ensinou se não tivesse escolha, mas estava esgotando cada segundo, dando todas as chances do mundo para encontrar qualquer vestígio meu naquela aberração de olhos amarelos.

Eu nunca soube que ela se importava tanto. Durante anos, nosso contato parecia quase formal, a distância de dois parentes que calharam de compartilhar o mesmo sangue. Mas ali, com o cano do revólver apontado para o meu peito, a verdade doía mais do que a ameaça de um tiro: eu era a única pessoa no mundo em quem ela confiava cegamente.

— Anna... sou eu — falei, desta vez lutando com todas as minhas forças para dominar o tom, forçando minha própria voz, humana e trêmula, a sair pela garganta. — O Billy. O cara que você acabou de xingar por causa da poeira da loja.

Dei meio passo à frente, devagar, sem baixar as mãos erguidas. O brilho amarelado nos meus olhos deve ter oscilado com o meu desespero. A mão dela que segurava a arma tremeu ainda mais, o cano oscilando levemente entre o meu peito e o chão. A dúvida destruía a mente dela por dentro.

— Ela não vai recuar, Billyzinho... — a voz na minha cabeça zombou, carregada de um prazer macabro. — Você sabe muito bem o que fazer. Assuma o controle.

— Não, eu não quero... Não com ela... — murmurei em voz baixa, quase um pedido de socorro.

Mas o murmúrio foi alto o suficiente para soar como uma ameaça no silêncio tenso. O corpo de Anna reagiu por instinto.

— Me... Me desculpa, Billy... — disse ela, a voz quebrada pelo choro, o indicador contraindo devagar sobre o gatilho de aço.

Não havia mais tempo. O pavor de ver minha irmã virar uma assassina — ou de virar um cadáver no chão da minha própria cozinha — tomou conta de mim.

Ergui a mão direita num impulso desesperado.

Não usei força física. Senti algo denso e invisível brotar direto do centro do meu peito, uma espécie de grilhão frio e pesado que disparou pelo ar e se cravou no fundo da mente de Anna. A sensação foi idêntica a lançar uma corrente de ferro na escuridão e sentir o elo prender com um estalo seco na consciência dela.

No mesmo instante, o olhar surpreso e apavorado da minha irmã congelou. A lágrima que escorria por sua bochecha parou no meio do caminho.

A Conquista atendeu ao meu comando, expandindo a autoridade que agora fluía pelas minhas veias. As vozes do meu cérebro se calaram para dar lugar à minha própria ordem, ressoando imperativa dentro da cabeça dela.

Abaixe a arma.

A mão de Anna cedeu. O revólver desceu lentamente até ficar paralelo à perna dela, sem resistência.

Dê meia-volta. Feche a porta. Esqueça tudo o que aconteceu aqui desde que você pisou no quarto.

Os olhos dela perderam o foco, ficando opacos, como se uma névoa espessa tivesse coberto toda a sua percepção. Sem emitir um único som, Anna deu meia-volta com passos mecânicos e rígidos. Ela caminhou de regresso ao quarto de hóspedes, puxou a porta de madeira e a fechou com um clique suave.

O silêncio absoluto voltou a dominar a cozinha.

Abaixei a mão devagar, sentindo meus joelhos fraquejarem. O suor frio escorria pelo meu pescoço e minha respiração saiu em haustos curtos e descontrolados. Olhei para as minhas próprias palmas, trêmulas, enojado e horrorizado com o que tinha acabado de fazer.

Eu tinha violado a mente da minha irmã. Tinha apagado as memórias dela como quem limpa giz de um quadro negro.

— Viu só? — a voz da Conquista sussurrou de novo, suave, quase afetuosa, arranhando o fundo do meu cérebro. — Não doeu nada. Um verdadeiro soberano sabe como mandar.

— Cala a boca — Murmurei baixinho.

Passei as duas horas seguintes tentando inutilmente esquecer o que tinha acabado de acontecer. Fui para a parte de baixo da loja, me afundando na poeira e no mofo do arquivo do meu avô, devorando diários e pilhas de anotações velhas em busca de qualquer menção à Conquista. Mas, a cada página amarelada que eu virava, a única coisa que realmente ecoava no silêncio da minha cabeça era o som do clique da porta do quarto de hóspedes se fechando.

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