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#Desafio 24
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Em ti, me dissolvo.
Meu corpo vago te exige:
não há dúvidas em meu ser.
Faço do toque
o meu sacramento,
em que a carne se desfaz
e a alma me abandona
quando tua boca
encontra meu caos.
Não me beijas,
me consomes
com a fome primitiva de teus dentes.
As marcas que aninho em tua pele,
são brasões do querer
que desmente o tempo
e proclama, sem temor,
a única verdade: nós.
Arrasto-te à cama
não por alívio,
mas pela doce centelha,
fagulha do desespero
que devora o que sou.
Entrego-me a ti
não para amar apenas,
mas para subverter
toda ordem do mundo,
derrotar minhas crenças,
romper a moralidade
entre o que fui e o que me tornarei.
Em ti, me aniquilo.
Teus dedos são aço,
meus seios, oferendas.
Renuncio a mim mesma
em gemidos que se esvaem:
o prazer é morte sublime
que nos faz, por um instante,
existir.
Toda tua,
me deixo levar
ao frenesi de tua posse,
onde tudo se perde
e aprendo que o desejo,
de tanto pulsar,
esqueceu de saber
o que é apenas ser.
Crs Ribeiro
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#Desafio23O recomeço pede espaço,
tudo que nasce precisa de chão.
Um desejo já se plantou:
confie no broto que insiste em nascer.
É ele que sabe o caminho.
Não se apresse.
Integre os pedaços dispersos,
junte os cacos do tempo.
Com equilíbrio e prudência,
os passos tornam-se raiz.
O caminhar lento
é garantia de chegar inteiro.
Há um instante em que o velho se desfaz,
o peso cai,
e o que era ferrugem
vira folha seca no vento.
O novo chega leve:
pássaro despido
ganhando plumas de luz.
Mais simples, mais vasto, mais céu.
Porque evoluir é isso:
despir-se das terras que pesam
e refazer-se em asas.
Crs Ribeiro
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#Desafio 022
Vento varreu
meu peito vazio,
não poupou estacas,
dobrou esquinas,
despencou segredos
das prateleiras do tempo.
Arrancou linhas tortas,
amassou as sombras
das roupas que um dia vesti;
desfez o nó dos dias esquecidos.
E tudo o que era poeira,
tudo o que havia omitido,
voou…
Vento rugiu
no meu peito!
Deixou nu o chão da alma,
onde germina agora
um nome: o teu.
Nome cravado na carne do instante:
não cede, não cala;
é vasto, absurdo,
uma prece de fogo,
uma dança.
Feita de ti.
Feita de nós.
Crs Ribeiro
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#Desafio 021
Chuva na janela,
gota a gota,
melodia de quem não desiste.
No vidro,
no parapeito;
bate, escorre, insiste.
Diz sem dizer:
“Carrego o que pesa,
limpo o que dói;
traduzo o viver
no que há de mais simples”.
Faça o mesmo contigo,
deixe escorrer o pranto.
Permita, das lágrimas,
o estrondo mais forte;
a enxurrada arrastar fragmentos…
Sinta o calor da terra molhada,
o cheiro de renovação no ar.
Só assim,
no vácuo do grito,
brilhando tímido,
mas firme;
o sol volta a nascer.
Crs Ribeiro
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#Desafio 020
270 Dias
270, número inteiro,
narrador silencioso do beijo suspenso.
Em cada estrofe,
um suspiro de vontade.
O azimute, implacável,
aponta o oeste do peito,
onde o sol morre,
e meu sentimento renasce.
E, de tanto querer,
em círculos me perco:
completo três quartos de volta,
eternamente em torno de ti.
Divisível por quinze,
mas quem diz que o amor se reparte?
O teu ocupa-me inteira,
como as palavras que sobram
quando me faltas.
Cada um desses dias
conta o acaso do encontro.
E a saudade?
Ah, a saudade se mede em segundos,
pois o amor,
esse, não conta nada.
Ele se faz infinito
e apenas fica.
Crs Ribeiro
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#Desafio 019
Amor-Sol
Talvez fosse mais
do que via,
qualidades
raras,
escondidas até dela…
Cresceu pequena,
virou medo.
Esqueceu da grandeza
que cabia em si.
Temia a soberba,
não sabia
que confiança é,
também, proteção.
Se fazia menor,
mesmo sabendo
ser grande.
Pedia amor-dó,
recebia amor-nada.
Tornou-se
amor-só,
um querer que se esconde,
relegado ao silêncio,
ao não-amar.
De tanto curvar-se,
foi chão.
Sentiu o apoio
dos braços,
se ergueu.
Não pediu,
não esperou,
fez-se.
Recolheu migalhas,
deu banquete
de si mesma,
tornou-se amor-Sol.
E então,
não brilhou mais.
Explodiu.
Crs Ribeiro
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#Desafio 018
A vida em Ana
nunca foi rima.
Três casamentos,
todas as linhas
quebradas.
Se a pele ficou inteira,
o coração virou caco,
juntado no silêncio
de quem nunca para.
Quatro filhos cresceram,
e ela com eles.
Medo?
É coisa que passa.
Ana, não.
Sorria sempre.
Uma reza rápida,
um bolinho no prato,
flores na mesa,
porque o mundo precisa
de cor onde dói.
Ao contrário da vida,
ela era força.
Não força bruta,
mas a força que cala,
que carrega.
No delicado dos gestos,
Ana era poema.
Crs Ribeiro
*** Para a doce Ana, que me ensina todos os dias o valor dos gestos simples e da força silenciosa.
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#Desafio 016
O relógio avisa,
salto da cama, apressada.
Escovo os dentes,
me visto ofegante:
calça ao contrário?
Tô quase elegante!
Café na mesa,
filha na escola,
bati o ponto
(e, por pouco, a caixola).
O dia não vai devagar,
duas horas a todo toque:
render é o lema!
Almoço? Não, obrigada.
Troquei por consulta
e um sermão do doutor:
“Assim você surta!”
Um pão, um café,
a fome sem respeito.
A dieta? Já era;
virou um conceito.
E o relógio implacável:
“Corre!
Não há outro jeito”.
Segundo turno aberto:
trabalho, academia,
salão, (se der sorte);
pegar a filha na escola
e ainda tem o jantar!
Chave de casa sumiu…
seria azar?
O banho ligeiro,
enfim, um prazer.
A cama é minha paz,
antes de recomeçar.
Constato agora, serena,
quase no adormecer:
são tantos momentos,
que delícia é…
Viver?
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#Desafio 015
Rimas soltas pelo chão da sala:
O peso suave do encantamento!
Sonha e leva-me de mãos dadas.
Abre teu mundo onde a imortalidade
reina, sem hesitar…
Porque amar um poeta é intuir
que a escrita nasce do silêncio,
do que não se diz.
O que não cabe em palavras, ecoa no peito,
transcendendo a linguagem em divina harmonia.
Ser musa, inspirar e elevar
um grandioso ser
no delicado entrelaçar
de amor e arte;
onde o Entremeio se firma e reluz.
É tornar-se, com louvor:
verso, prosa e lar.
Doce lar!
Crs Ribeiro
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