@literunico
há 10 meses
Público
#Dia 329

Desalento

Cai sem ruído,
como o vestido
que escapa do altar.
Desalento não grita,
esmorece.
É o lume que desiste de iluminar.

Nos olhos, a ausência da centelha,
no gesto, o gosto de não seguir.
Desalento não mais aconselha,
apenas deixa de insistir.

Entre a esperança e o abandono,
ocupa a fresta onde tudo hesita.
É silêncio, cão sem dono,
é vontade que já não se agita.

Não há dor explícita, nem revolta,
só um vazio
que escancara o ser.
Desalento não fecha nenhuma porta
mas esquece de aberta a manter.

Eder B. Jr.
Abrir 5 curtidas 0 comentários
@literunico
há 10 meses
Público
#Dia 328

Recalcamento

Não grita.
Mas vive entre ossos.
Recalcamento não sangra,
Se desfaz em silêncio.

Enterra nomes
sem epitáfios,
faz do riso um ritual
de contenção.

Habita a fresta
entre impossível e o desejo,
a pausa antes do toque,
o sim que nunca foi dito.

Recalcamento
veste elegância,
mas guarda espinhos
nas costuras.

Não se cura,
se oculta.

Sente demais,
E se esvazia
em ampulheta.

Eder B. Jr.
Abrir 3 curtidas 0 comentários
@literunico
há 10 meses
Público
#Dia 327
Voracidade

Ela não pede, toma
Sem clemência!
De olhos abertos,
Boca em brasa viva.
Voracidade
Faz-se consistência,
Que arde e suga
A alma mais cativa.

No toque,
Um gozo que não se apazigua,
Na fome,
O desejo de um querer sem freio.
Voracidade,
Ferina e ambígua,
Bebe a ternura
Do cálice alheio.

Não é vontade,
É ânsia desmedida,
Que se desfaz
Em promessas, no calor.
Voracidade
Quebra a guarida,
Devorando
Até o que é amor.
E quando o mundo
Parece escasso,
Ela ruge, insone,
Desmedindo o espaço.

Eder B. Jr.
Abrir 4 curtidas 0 comentários