- Responda, violino, onde vais tocar, Assim, deste jeito, a nos deixar sem fala? - Minha pobre viola, subirei no altar E serei o centro, e serei o spalla!
- Mas, diga, violino: o que vais tocar Para alegrar esta manhã triste? - Meu súdito cello, tocarei eu Bach E tocarei Mozart, e tocarei Liszt!
E serei xodó de Vivaldi, e tanto Que ele, a mim, confiará sua primavera; E despertarei, ao mundo, tal encanto, Que haverão canções como nunca houvera.
Mas tu, minha irmã, se isto a consola, Tu nunca serás, nesta vida, spalla; 1Nem nunca terás, singela viola, Nem frase e nem palco onde possas tocá-la.
Ao passo que tu, meu simplório cello, Jamais saberás o que é estar à frente; E nem o que é puro, e nem o que é belo, E não sentirão tua falta, se ausente.
Mas, eu, terei sempre os portões abertos E receberei de todos as palmas E emprestarei meu nome a concertos E tocarei solos, e tocarei almas.
- Pois quanta arrogância há no teu agudo! Meus graves jamais gostariam de sê-lo; Voz esganiçada! Antes fosses mudo! Saibas tu que muito me orgulho em ser cello!
- Teu grande defeito – deves percebê-lo! – É teu timbre tosco, que cansa e que amola: Minha voz é um veludo, e, tal como o cello, Também eu me orgulho em ser uma viola!
Agora vai, anda! Vai tocar teu Bach! Estoure as suas cordas, meu caro menino! Pois sem nossa ajuda, ninguém ouvirá O som fraco e tosco d’um reles violino!
Seguindo a sessão nostalgia, vou postar um poema-exercício que fiz naquela época (naquela lá, nos anos 90, antes de os dinossauros se alastrarem sobre a Terra). Pra variar, não é muito bom (afinal, é um exercício), mas traz apenas rimas proparoxítonas perfeitas. Não é fácil. E ainda tenho que passar uma ideia (neste caso, o balanço entre o ateu e o cristão). Lembrem-se dos meus 16 anos: Relevem.
Soneto Proparoxítono
O pensamento do cético, Ainda que seja exótico, Sentimental, patriótico, E que chegue a ser patético,
Tem um ar meio profético, Dentro de um globo ótico, Sem que se torne neurótico, Sem chegar a ser caquético.
Mas quem crê não é lacônico, Seja cristão, evangélico, De pensamento antagônico,
Até mesmo maquiavélico; Mas nunca é catatônico Porque crê; é um ser angélico.
Encontrei um arquivo bem antigo, perdido em pastas perdidas de drives perdidos. Não tenho as datas, mas minha memória é ótima e sei que são de 1995-1996. Não, não são bons, eu sei. Mas queria deixá-los por aqui. Não que a Literunico seja um depósito, mas pode ser um registro de memórias.
Não se espantem. Relevem. São antigos e velhos, e resultado de experimentos. Muitos deles só foram feitos como exercício - e é ótimo registrá-los, porque demonstra que meus (poucos) poemas bons vêm de toneladas de testes e exercícios ruins. Viva a persistência!
Agora, chega de conversas e desculpas. Eis o primeiro, que se chama...
Soneto modernista
Eu poderia lhe dizer: "Multiplique as estrelas do céu pelas gotas do oceano, e terá uma vaga idéia do quanto eu te amo.", Mas eu não sou bom em matemática;
Eu poderia falar assim: "A Lua se inspira em tua beleza prá brilhar, E o Sol rouba de teu calor para nascer...", Mas sou péssimo em astronomia;
Meu Deus; eu lhe poderia dizer: "Se esta rua fosse minha, eu mandava ladrilhar Com pedrinhas de brilhante, só prá você passar.", Mas ainda não sou tão rico assim;
Um poema pra se fazer pelado (um nome sugestivo para uma sexta-feira - seria este o meu primeiro "sexxxtou" na Literúnico? Duvido que esteja nesse nível).
Um poema pra se fazer pelado
Um banho frio. Para lavar o corpo e a alma, Para esfriar a cabeça e as ideias.
Um banho frio Para dizer aos músculos que eles ainda têm trabalho a fazer. Água gelada para refrescar a noite quente, Para colocar as coisas no seu devido lugar, Na sua devida temperatura.
Um banho frio. Um santo remédio contra a gripe, O cansaço E o mau humor. Ajuda a combater ainda O excesso de preguiça E a falta de vontade...
Um banho frio: A água que bate impetuosa sobre o corpo, Massageando-o, Para depois deslizar suave pelo Espírito, Adormecendo-o.
E depois do banho frio, Deitar na cama e aproveitar o resto da noite, Com um travesseiro macio Um colchão firme, E, sobre os dois, o corpo do meu Amor, Que é, ao mesmo tempo, macio e firme, na medida e na temperatura perfeita...
Acabo de ler um poema espetacular do @luscaluiz , e me lembrei que, há quase 30 anos, escrevi uma série de crônicas sobre a Copa de 1970 (que não assisti, senão em vídeos posteriores).
Segue, então, um desses textos, chamado "Quando se Perde". Relevem a falta de técnica, eu era um rapazinho de 16 anos que achava que produzia textos maravilhosos... e acabei deixanto-os assim mesmo, para sempre me lembrar da evolução que tive desde então.
Reborn (Um poema disforme, sem métrica nem pé nem cabeça. Mais ou menos como anda o mundo.)
Crianças que querem brincar de adulto; Em seu mundo de faz-de-conta, a arrumar a cama, A fazer comidinha, servindo à boneca que reclama, A fazer comprinhas ou namorar um amigo oculto.
A brincar de carrinho - Vruum! Vruum! Ou a brincar de guerra - Ratatatá! A brincar de médico, que irá curar Doenças imaginárias, sem temor algum.
Crianças que já se imaginam crescidas: Racionalizando conversas e fingindo estudo, Se metendo em assuntos sérios e querendo saber tudo, Achando-se senhoras das suas próprias vidas.
Adultos que querem brincar de criança; Procrastinando leituras e estudos mais, Indo-e-vindo em Uber, sentados no banco de trás, Reclamando de como dirigir todo dia cansa.
A escolher matar e morrer em guerras reais, a fugir de decisões pelas quais se é responsável, A viver como se tudo fosse permitido e descartável, A tratar como brincadeiras suas doenças mentais.
Buscando prazer num estranho para trair seu par, Fugindo das responsabilidades, em busca de diversão; A gastar mais do que pode, e estourar o cartão, A procurar o colo de um pai que já não vai voltar.
Crianças maduras, adultos infantis; buscando o que os torne O ideal do outro, abandonando o que não lhes agrada, E dedicando-se a uma vida que se resume a nada: Amores fake, vidas plásticas, sensações vazias, bebês reborn.
Lá vai um poema. Não tem nome nem rima. E só vou postar porque uma IA amiga minha me disse que é muito bom (é claro, duvido muito, mas IAs sempre estão querendo nos bajular e agradar).
Lá vai:
Sou um bom leitor de almas, Dos que lêem nas entrelinhas. Não faço questão de me meter, Mas estou aqui, sempre, a observar.
Guardo nos olhos palavras perdidas De amigos, amigas e desconhecidos; Sem opiniões nem julgamentos, Lendo as mentes e mentiras mal-contadas.
Sou um bom leitor, só não pareço. Não me exibo nem me mostro. Prefiro as sombras dos cantos humanos, De onde posso observar sem ser visto.
E, de ler almas e mentes, De criar conexões e intimidades, Me torno invisível e confiável, Como todo amante deve ser.
E de ser amante dos seres humanos, Crio-os, eu próprio, nos contos, Detalho-os, moldo-os, e submeto Às minhas vontades, suas psiquês imperfeitas.
Eis a vida de um escritor: amar uma Você imaginária, Sem coragem de me expor, ou de tirar-te do papel, Amar alguém que não existe, Imaginando ser feliz e completo.
Eis, pois, a mim: um desconhecido invisível, Amador de pessoas que não conheço. Criador de cenários e histórias felizes, Onde podem coexistir o Eu e o Você.